ramos Seis

Maria Jos Dupr 

Coleo Vaga
lume

Coordenao da Srie: Fernando Paixo
I
lustraes: Terezinha Bissoto
Capa: "Lay out" d
e Ary Almeida Normanha

ISBN 85 08 00100 2


1993

Todos os direitos reservados pela Editor
a tica S A.
R. Baro de Iguape, 110 - Tel.: PA
BX278-9322
C. Postal 8656 - End. Telegrfico "B
omhvro - So Paulo

QUEM  A AUTORA
Maria Jos
 Dupr nasceu em 1905, na Fazenda Bela Vista, m
unicpio de Botucatu, prxima da divisa entre S
o Paulo e Paran.
Aprendeu as primeiras letras 
com sua me e seu irmo, e em Botucatu estudou M
sica e Pintura. Transferiu-se para So Paulo, o
nde se formou professora pela Escola
Normal Cae
tano de Campos. Iniciou-se na Literatura depois 
de se casar com o engenheiro Leandro Dupr.
Seu
 primeiro romance  O Romance de Teresa Bernard 
 foi publicado em 1941. Mas o que a tornou famo
sa foi ramos Seis, editado em 1943, traduzido p
ara o espanhol,
francs e sueco e transformado 
em filme pelo cinema argentino.
Entre os divers
os prmios que conquistou, destacam-se: Prmio R
aul Pompia, da Academia Brasileira de Letras e 
o Jabuti, da Cmara Brasileira do Livro.
Falece
u em So Paulo, em maio de 1984.

BRAS DA AUT
ORA:
Romances:
Gina
Os Caminhos
A Casa do d
io
Anglica
Dona Lola
ramos Seis
Luz e Somb
ra
Menina Isabel
O Romance de Teresa Bernard

Os Rodriguez
Vila Soledade
Livros infantis:
A
 Mina de Ouro
O Cachorrinho Samba na Bahia
A I
lha Perdida
Aventuras de Vera Lcia,
Pingo e P
ipoca
O Cachorrinho Samba
A Montanha Encantada

O Cachorrinho Samba na Floresta
O Cachorrinho
 Samba na Rssia
O Cachorrinho Samba entre os 
ndios
O Cachorrinho Samba na Fazenda Maristela



INDA ontem passei por l; a manh estava muit
o clara, radiosa, dessas alegres manhs de vero
, quentes de sol e de vida.
Havia no ar uma lum
inosidade surpreendente e o zumbido dos insetos,
 o canto dos pssaros e o riso das crianas ench
iam o espao; por toda a parte reinava a luz,
a
 alegria, o desejo de viver, de ser feliz, de se
r bom. As rvores pareciam paradas, quase imvei
s; mas observando bem, podia-se perceber um suss
urro de brisa entre
as folhas como a contarem s
egredinhos umas s outras, na transparncia lumi
nosa da manh.
Passando pela Praa Buenos Aires
, vi um grupo de crianas brincando e correndo; 
seus gritos repercutiam em meus ouvidos como eco
s de coisas mortas, remanescentes
de um passado
 h muito tempo desaparecido. Lembrei-me ento d
o meu sonho; durante a noite inteira eu havia so
nhado que ainda morvamos l e meus filhos eram 
pequenos;
no sonho ouvi chamarem vrias vezes: 
Mame! Mame!
Mal a claridade do dia passou atr
avs das tabuinhas das venezianas, eu me vesti e
 sa; tomei o bonde para passar na "nossa casa";
 digo "nossa" por hbito porque
h muitos anos 
j que a deixamos e nem sei quem mora l. Desci 
do bonde umas quadras antes para passar a p dia
nte dela e vagarosamente fui subindo a Avenida A
nglica,
to familiar e amiga, onde residimos d
urante tantos anos!
Esse quarteiro no mudou m
uito; um ou outro prdio novo e por toda a parte
 as mesmas rvores e at, pode-se dizer, os mesm
os pssaros cantando em seus galhos. Vi
uma das
 rvores com um galho retorcido, tal e qual a vi
 sempre. Diante da casa, parei um pouco para ver
 melhor; l estava ela com as duas janelas de fr
ente e o portozinho
de ferro, o jardim de quat
ro metros, como chamvamos, e a trepadeira roxa 
plantada por Jlio h tanto, tanto tempo.
O jar
dim era insignificante e pequeno, mas para ns e
ra encantador com algumas roseiras e um canteiro
 de cravos; havia cravos brancos, vermelhos e ou
tros quase roxos.
Quando um cravo comeava a se
 abrir, as crianas iam espiar a todo o momento 
para adivinhar de que cor seria; e vinham me con
tar:
 Mame,  branco!
 No , mame.  verm
elho!
E s vezes discutiam por causa dos cravos
.
Olhei as janelas e meu olhar passou atravs d
elas e se alongou pelo interior; revi ento noss
a vida, todos os longos anos da nossa mocidade. 
Sorri ao ver os degraus
da entrada; eram de cim
ento, estavam gastos e escuros, mas me lembro t
o bem do tombo que Carlos levou uma vez que entr
ou correndo, caiu e fez um "galo" na testa.
Dur
ante muitos dias Carlos chorou e brigou com os i
rmos porque olhavam para ele e gritavam: c c 
r c, por causa do "galo".
#As duas janelas da
 frente eram do escritrio e vi dentro dele a es
crivaninha grande onde eles estudavam; sobre a e
scrivaninha, eu colocava sempre um mata-borro

verde preso com quatro tachinhas. No durava mui
to tempo porque as crianas iam tirando os pedac
inhos do mata-borro conforme precisavam e logo 
eu tinha que atirar
fora o velho, todo rasgado 
e sujo de tinta e colocar outro novo. Ao lado, n
uma parede, havia uma estante com livros; havia 
tambm duas cadeiras, e um tapetinho feito
de m
eias velhas por minha irm Clotilde.
Passei pel
o pequeno vestbulo, onde havia uma chapeleira e
 entrei na sala de jantar. Era uma sala grande e
 de um lado havia um recanto com um sofj, duas 
poltronas
e uma cadeira de balano, tudo cobert
o com brim pardo, por causa das crianas; nesse 
lugar eu passava o dia, recebia minhas visitas e
 fazia tric para ganhar algum
dinheiro. Havia 
um espelho num dos mveis da sala de jantar e to
das as vezes que minha filha Isabel passava dian
te dele, ela se inclinava um pouco e dava um jei
to
para se olhar e arranjar os cabelos. Eu acha
va-a vaidosa, mas tambm era to bonita quando e
ra mocinha!
Passei pelo corredor, para onde dav
am nossos quartos e entrei na copa; vi ento Isa
bel com trs anos, os cabelos castanhos presos p
or uma fita vermelha, sentada
 volta da mesa p
equena, batendo a colher no prato, sem vontade d
e comer. Eu dizia: Coma, filhinha, olhe como est
 gostoso Eu fingia que comia um pouquinho, mast
igando
ruidosamente. Ela ria mostrando a fileir
a de dentes iguais e batia a colher no prato com
 toda a fora, gritando: Num quelo come! Num que
lo!
Julinho que j tinha cinco anos, comia tudo
 o que estava no prato e s vezes ainda pedia ma
is.
Eu os levava depois para o quarto e vestia-
lhes as camisolas brancas; Isabel s queria cami
sola com rendas na gola e comeava a choramingar
 quando no havia renda
e tinha que vestir outr
a com ponto russo vermelho na frente e nos punho
s. Eu ficava admirada porque ela era muito crian
a e sabia escolher o que era bonito. Eu dizia:


Agora vamos rezar. Eles se ajoelhavam ento aos
 ps da minha cama e pondo as mos, diziam junto
s, olhando para o teto:
 Corao de Jesus, tes
ouro de bondade, de ns, pecadores, tende
pieda
de. Protegei papai, mame, meus irmos, eu e tod
a a nossa famlia.
Nunca me esquecerei de Julin
ho que disse um dia: "Corao de
Jesus, tesouro
 de bondade. Mame, tem teia de aranha naquele c
anto
da janela. Veja. De ns, pecadores, tende 
piedade".
Vendo-os assim piedosos, de camisolas
 brancas, os cabelos soltos de Isabel em ondas b
rilhantes pelos ombros, Julinho com os olhos pre
tos muito grandes, comparava-os
a anjos. Depois
 cada um ia para sua caminha; Julinho dormia sem
pre com o cavalo de borracha que o padrinho tinh
a dado. s vezes, j estava na cama quando lembr
ava
e gritava: Meu cavalinho! E saa correndo 
 procura do brinquedo, a camisola branca entufad
a pelo vento. Uma noite procuramos pela casa tod
a e ele j estava desesperado
quando Durvalina,
 a criada, encontrou o cavalo sob o sof da sala
 de jantar; ento ele correu para a cama e abra
ando o cavalinho, dormiu imediatamente. Era o n
ico 
brinquedo de Julinho.
Antes de deixar o q
uarto, eu me debruava para cobri-los e beij-lo
s e eles passavam os braos  volta do meu pesco
o e me beijavam, s
vezes com os olhinhos amor
tecidos pelo sono; e eu me enternecia tanto quan
do diziam: Boa noite, mamezinha.
Mas eram meus
, verdadeiramente meus naquele tempo e, apesar d
e darem trabalho, pois quatro filhos do muito q
ue pensar para quem tem pouco dinheiro, eu me se
ntia
feliz, muito feliz. E nunca me esqueo do 
que me disse uma senhora que tinha trs filhos m
oos: "que saudades eu tenho do tempo em que ele
s eram pequenos, eram to
meus".
Tudo isso me 
passou pela imaginao num relance enquanto olha
va nossa casa batida de sol; um cheiro de flores
 chegou ao meu nariz; aspirei com satisfao por
que
devia ser das nossas flores; era um cheiro 
de orvalho tambm, orvalho das manhs de vero. 
Fui tomar o bonde para voltar, no podia ficar a
li olhando o dia inteiro.
Enquanto ia andando, 
descendo a Avenida Anglica, comecei a lembrar q
ue os meus tambm foram embora, a vida levou-os 
e se espalharam pelo mundo, menos Carlos que
j
 no existe.
Esse eu visito sempre; est deitad
o no cemitrio So Paulo, dormindo sossegado ent
re quatro roseiras que florescem todos os anos, 
em setembro. So rosas brancas,
bem grandes, da
s que ele mais gostava. Carlos eu sei que est b
em, os outros no sei onde andam.
Esto a, pel
o mundo.
Quanta saudade eu tenho desse tempo da
 Avenida Anglica, quando meus filhos eram crian
as e vivamos todos juntinhos com Jlio, meu ma
rido, como passarinhos em gaiola.
Os dois mais 
velhos tinham sete e nove anos quando nos mudamo
s para l e no me davam muito trabalho. Eram fo
rtes e sadios. Alfredo e Carlos j se vestiam so
zinhos
e estavam estudando na escola particular
 de D. Benedita, prxima  nossa casa. Carlos er
a o mais velho e estava no terceiro ano da escol
a; Alfredo no segundo.
Depois que punha na cama
 os dois menores, eu ficava sentada na poltrona 
da sala de jantar esperando Jlio; ele vinha jan
tar sempre entre seis e meia e sete horas,
mas 
quando passava das sete e ele no aparecia, eu f
icava aflita porque o imaginava numa confeitaria
, bebendo com os amigos. Com certeza voltaria em
briagado para
casa. Nunca me enganei, infelizme
nte.
Quando na porta, ele dizia: Boa noite! e p
unha o chapu na chapeleira, eu j sabia se ele 
estava bom ou no. Era horrvel quando vinha um 
pouco "tocado", passava
pisando duro pela sala 
e ia para o quarto tirar o palet e pr um de pi
jama. Depois lavava as mos e sentava na mesa pa
ra jantar; os dois meninos mais velhos comiam
n
a mesa conosco e tinham medo do pai nesses dias.
 Comevamos a tomar a sopa em silncio; de repe
nte o pai olhava para Carlos, sentado na frente 
dele e falava:
 Onde se viu tomar sopa desse j
eito? No aprende? Parece cachorrinho.
"Pronto,
 comeou". Eu pensava. O menino baixava a cabea
 sobre o prato, evitando olhar o pai. Ningum fa
lava e eu ficava um pouco assustada com o silnc
io. Durvalina
comeava a tirar os pratos de sop
a e para disfarar, eu perguntava:
# Teve um d
ia muito atribulado, Jlio? Ah! Meu Deus! Por qu
e eu falava? Jlio ficava vermelho e respondia:


 Naturalmente. Tenho algum dia que no seja at
ribulado? Eu? Diga!
Batia a mo no peito, olhan
do para mim e repetindo:
 Eu? Eu sou um burro 
de carga para trabalhar. Burro de carga! Trabalh
o doze horas por dia e depois me perguntam se ti
ve um dia muito atribulado. Essa  boa!
Ria alt
o, sem vontade. Sem querer, eu olhava para ele; 
estava com os olhos avermelhados, pareciam injet
ados e a fisionomia carregada.
Eu fazia os prat
os dos meninos que comiam em silncio, as cabea
s baixas sobre a mesa. Jlio punha pimenta todos
 os dias na comida; um dia eu disse:
 No coma
 pimenta hoje, Jlio. Pode fazer mal. Imediatame
nte me arrependi de ter falado; a fisionomia del
e ficou
mais carregada e gritou, impaciente:

 No posso comer o que eu quero? Ser que na min
ha casa, no tenho liberdade? Na minha casa? Por
 que no hei de comer? Pensa que estou bbedo? H
ein?
No respondi e continuei a servir as crian
as; irritado talvez com minha atitude, continuo
u furioso:
 Diga uma coisa, quem  que manda a
qui? Serei eu ou voc? Vamos, diga.
Continuei c
alada; ele gritou mais:
 Diga quem manda nesta
 casa? Quem  que paga tudo? Hein? Por que no f
ala? Chego exausto do servio, sento na mesa par
a jantar e ela vem me dizer que no
devo comer 
isto ou aquilo. Fique sabendo que como o que que
ro e ningum tem nada com isso. Ouviu? Ningum!


E pondo bastante molho de pimenta no feijo, co
meu furiosamente. As crianas olhavam para mim e
 baixavam a cabea outra vez, timidamente, com m
edo do pai. De sbito,
ele tornou a olhar o fil
ho na frente dele e perguntou:
 Que nota tirou
 hoje?
Percebi a palidez do menino; encorajei-o
 com o olhar como se dissesse: "Fale, meu filho.
 Estou aqui".
O menino olhou para o pai, um olh
ar medroso:
 Hoje tirei cinco.
 E por qu? I
sso  nota? Por que no tirou dez? ao menos nove
?
Carlos procurava sorrir, contrafeito:
 Erre
i um problema, papai, e na Histria do Brasil...
 O pai interrompeu, indignado, imitando a voz de
 Carlos:
 "Errei um problema, papai". Ele fala
 como se isso fosse muito natural. E ainda ri co
m esses dentes de cavalo. Eu se fosse voc no r
ia, ouviu? No sei quem
voc puxou, tem dentes 
de cavalo. E repito que quero nota dez todos os 
dias. Entendeu? Ouviu?
Carlos continuava a mast
igar de cabea baixa, humilhado, sem dizer nada.
 Vendo que ningum falava, Jlio serviu-se de ca
rne assada com salada e despejou mais molho
de 
pimenta no prato. De repente olhou
Alfredo que 
tinha acabado de comer e fazia bolinhas com miol
o de po. Perguntou:
 J comeu carne com salad
a?
Alfredo levantou os olhos medrosos para o pa
i e hesitou, respondendo:
 No gosto de salada
 de alface.
Jlio sorriu triunfante como se tiv
esse encontrado uma boa razo para impor sua tir
ania. Olhava  volta da mesa e falava pausadamen
te fixando os filhos:
 Aqui no tem gosta ou n
o gosta. Coma salada de alface. Alfredo olhou r
apidamente para mim como a pedir auxlio. Procur
ei intervir, suavemente:
 Por que forar a cri
ana a comer o que no gosta, Jlio? Pode at fa
zer mal.
 Fazer mal? Mal o qu! Quando eu era 
criana, comia tudo o que vinha  mesa, nunca ti
ve esse luxo de escolher comida; agora esses men
inos so uns "no-me-toques",
gosto disso, no 
gosto daquilo. No senhor. Na minha casa no tem
 nada disso. (Olhava furioso para mim):
 E voc
  culpada, d muitos mimos, muitos carinhos. O
 que vo ser depois de grandes? Uns inteis! Uns
 vagabundos!
E como via que eu no fazia um ges
to para pr alface no prato do menino, gritou, c
olrico, para Durvalina:
 Ponha alface no prat
o de Alfredo, Durvalina.
Olhei Alfredo; seus ol
hos lanavam chispas para o pai quando este no 
estava observando-o; pareciam chispas de dio. C
om os lbios trmulos comeou a mastigar as
fol
has de alface, sem dizer nada.
Durvalina levou 
os pratos para a cozinha e trouxe goiabada; cont
inuamos a comer sem falar. De repente, Carlos be
beu uns goles de gua. O pai falou, irritado:

 No quero que beba muita gua na comida; quanta
s vezes j disse a mesma coisa?
O menino procur
ou uma desculpa:
  o primeiro copo que estou 
bebendo, papai.
 Mas no quero que beba, acabo
u-se.
Carlos depositou o copo na mesa e ficou d
e cabea baixa, carrancudo. O pai tornou a falar
:
 E nada de carrancas comigo, hein? Depois vi
rou-se para mim:
 Recebeu o dinheiro da encome
nda? Fitei-o discretamente:
 Da encomenda? Ah!
 sim. No recebi ainda; mandaram dizer que pagar
o no princpio do ms que vem.
Jlio exultou:


 Eu no disse? Eu no digo sempre que rico no
 gosta de pagar? So sempre os ltimos a pagar a
s contas. Eu disse a voc que no aceitasse a en
comenda da
tia rica. Por que aceitou?
Comeu um
 ltimo pedao de goiabada:
 L na loja tambm
  assim; quando mandamos a conta para os ricos,
 j sabemos que vamos custar a receber. So uns 
miserveis; relutam, adiam o mais que podem
o m
omento de pagar e quando mandamos um empregado r
eceber, ou no tm troco na ocasio, ou no est
o em casa. Nunca tm troco e nunca esto em casa
.
#E batendo a mo na mesa com fora, bradou, i
ndignado:
 Banidos! Procure} acalm-lo:
 Mas
 o fim do ms est prximo, Jlio, e eu no esto
u precisando de dinheiro agora.
Ele riu alto ir
onicamente.
 E voc acredita que eles vo paga
r no princpio do ms que vem, como disseram? Ah
! Ah! Ah! No seja idiota. No pagam nem no outr
o" ms. Eu avisei que
no aceitasse o trabalho;
 so todos uns caloteiros. Precisa mandar recebe
r muitas vezes para um dia resolverem a pagar.

Mudou de tom:
 Afinal onde est esse caf? Vem
 ou no vem?
Durvalina apressava-se a trazer o 
caf; ele comeava a beb-lo em goles grandes, a
pressadamente. Os meninos me olhavam esperando o
 momento de levantarem da mesa.
Falei com calma
:
 Podem ir brincar um pouco na calada.
Era 
sempre assim. Carlos e Alfredo deixavam a sala e
 iam brincar com os filhos da vizinha; eu ajudav
a Durvalina a tirar a mesa, enquanto Jlio senta
va-se na cadeira
de balano e pondo os ps no s
of em frente, pedia o jornal e o cachimbo.
Lan
ando para o ar grandes baforadas de fumaa, ele
 comeava a ler o jornal da noite: eu abria a ga
veta de um mvel da sala, onde guardava o tric 
envolvido num
guardanapo, e sentando-me ao lado
 dele, comeava a trabalhar; era uma encomenda p
ara uma criancinha que ia nascer. Tudo ficava em
 silncio; s se ouvia o barulho
dos pratos na 
cozinha e o barulho dos bondes que subiam a Aven
ida de vez em quando.
Eu pensava com alvio que
 o mau humor de Jlio ia passando e suspirando, 
baixava a cabea sobre meu trabalho.
As dez hor
as fechvamos a casa e amos deitar; eu virava n
a cama, sem sono. Uma vez levei um susto lembran
do da carta recebida dois dias antes. Minhas irm
s haviam
escrito de Itapetininga perguntando s
e poderiam vir passar as frias em nossa casa. D
e que forma eu poderia contar isso a Jlio? Ele 
detestava hspedes.
E eu tinha pena das minhas 
irms que levavam no interior uma vidinha triste
, trabalhando pesadamente; a mais moa, Olga, er
a professora e a outra, a mais velha,
ajudava m
ame a fazer doces para vender. Sorri pensando n
elas; Clotilde estava acabada, passava dos trint
a anos e no pensava em se casar. Trabalhando, t
rabalhando,
mexendo o grande tacho de goiabada,
 um pano amarrado na cabea, as mos calosas e g
rossas. Se no era goiabada, era marmelada, se n
o era marmelada, era sabo. Faziam
tudo em cas
a. Mame gritando do fundo do quintal:
 Clotil
de! Esto batendo!
Clotilde largava o servio. 
Um menino perguntava da porta:
 Tem goiabada p
ra vender?
 Tem.
 Quanto vende o quilo?
 C
inco mil-ris.
 Minha me manda buscar dois qu
ilos bem pesados. Clotilde arrastando as chinela
s plf, plf, plf, ia para o quarto dos doces, 
pegava os dois quilos de goiabada,
embrulhava, 
entregava na porta para o menino. Depois voltava
 ao quintal,  sombra da mangueira e com a grand
e colher de pau, mexia o tacho, o calor no rosto
, a testa
suada. Cinco horas. Olga, a mais moa
, voltando da Escola Isolada do Tanquinho, onde 
lecionava, sentando na salinha, estendendo as pe
rnas. Suspirando:
 Ai que calor! Que canseira!
 Clotilde falando com ironia:
 Canseira? Voc 
no sabe o que  canseira, menina. E no sabe o 
que  calor. Queria ver voc aqui o dia inteiro 
trabalhando no duro, com este calor do forno
na
 cara, o dia inteiro. ..
 ? E pensa que agen
tar quarenta crianas malcriadas  brincadeira? 
A gente fica esgotada, estragada para o resto da
 vida. Isso  que .
Clotilde fazia um gesto de
 pouco caso e no respondia. A tarde caindo lent
amente, uma tarde quente de novembro, sufocante.

 noite, Olga na janela da sala esperando o Ze
ca passar. Zeca era o namorado firme, desde o te
mpo de meninos; trabalhava numa farmcia. Zeca v
inha vindo, subindo
a rua disfaradamente, para
va na esquina. Cumprimentava. Olga respondia com
 o corao aos saltos. Depois ele chegava mais p
erto da janela, perguntava com a voz abafada:

 Quer dar uma voltinha no jardim?
Olga respondi
a hesitando:
 No posso; tenho que ajudar mam
e.
 Amanh ento?
Ela respondia apressada, ou
vindo os passos de mame que vinham l de dentro
:
 V andando, amanh quem sabe.
O Zeca sumia
 na esquina. Uma ou outra pessoa passava. Ruas e
scuras e silenciosas de cidade de interior; um c
achorro latindo na casa vizinha. Um grilinho can
tando
teimosamente escondido numa moita escura.

Mudei de posio para ver se dormia; lembrei-m
e de que nesse dia de manh vira sardas no meu r
osto e eu tinha fama de ter a pele mais bonita d
e Itapetininga! Pelo
menos diziam isso. Tambm 
no devo me esquecer que contava dez anos menos.
 Ouvi Isabel tossir, estendi o brao e puxei a c
oberta dela at o pescoo. O galo de D.
Genu ca
ntou quinze vezes seguidas, pensei que devia ser
 bem tarde e mudei de posio-outra vez. Quando 
fiquei noiva de Jlio em Itapetininga, todos diz
iam arregalando
os olhos: Jlio de Lemos? timo
 casamento!
A primeira valsa que dancei com ele
 foi em casa de D. Sinh; era aniversrio dela e
 a valsa chamava-se Monte Cristo. Comecei a me

lebrar da festinha; eu j era namorada de Jlio 
desde o ano anterior; ele passava as frias l e
m casa de um tio que todos chamavam de tio Inci
o. Tio Incio usava
cavanhaque; chamava farmci
a de botica e violino de rabeca; nunca falou de 
outra maneira. Quando Jlio me viu em casa de D.
 Sinh, comeou logo a conversar e a danar
com
igo; depois fomos  sala de jantar comer uns doc
es; perguntei se ele no queria bom-bocado; ele 
me disse em voz baixa para os outros no ouvirem
 que j tinha
comido e no gostara; achara os b
ons-bocados muito pesados, preferia as mes-
#-
bentas. Fiquei muito vermelha porque todos os do
ces tinham sido feitos por ns mesmas; mame era
 considerada a melhor doceira da cidade. Voltamo
s  sala para danar
uma valsa; a orquestra era
 piano, flauta e violino; lembrei-me outra vez d
a rabeca de tio Incio. Nesse tempo papai era vi
vo e estava na sala conversando. Morreu
logo de
pois do meu casamento; lembrei-me dele deitado n
o caixo, a face serena como se dormisse, as mo
s cruzadas sobre o peito. Ouvi a valsa de Monte 
Cristo at
o fim; depois cansada de recordar, a
dormeci.
No dia seguinte era um sbado, dia de 
compras; enquanto estava tirando o p dos mveis
 e estendendo as camas das crianas, tive uma id
ia brilhante a respeito da
carta das minhas ir
ms. Sa com a cesta no brao como fazia todos o
s sbados e comprei, alm do que precisava, umas
 costeletas de porco muito bonitas. Na volta,
f
ui eu mesmo preparar as costeletas com batatas c
ozidas e molho de manteiga. Quando Jlio chegou 
para o almoo e viu diante dele o prato predilet
o com o molho amarelo
espalhado por cima, olhou
 surpreendido para mim. Sorri o mais terno sorri
so, dizendo:
 No resisti e sa fora do orame
nto, Jlio. Achei estas costeletas to boas e co
mo  seu prato preferido, comprei e preparei par
a voc. So especiais, olhe
que beleza. E voc 
gosta tanto!
Ele sorriu e serviu-se com generos
idade, admirado de ter durante a semana um prato
 bom, pois era s aos domingos que tnhamos qual
quer coisa melhor. Estendi-lhe
o vidro de pimen
ta e enquanto ele se servia, continuei:
 Sabe 
o que encontrei hoje na quitanda? Repolho roxo; 
ento me lembrei de fazer um vidro de picles par
a voc. J comprei todos os preparos: cebolinha,
 couve-flor,
pepino e repolho; o vinagre branco
 est um pouco caro, mas compro assim mesmo. Vou
 pr pimentinha tambm, deve ficar uma delcia. 
Logo ficar pronto.
Ele se serviu outra vez de 
costeletas e continuou a comer animadamente. Pre
parado o caminho, falei distraidamente, um ar di
stante, como quem ia esquecendo de contar:
 Ah
! Recebi hoje uma cartinha de Olga; vai entrar e
m frias agora e est com vontade de vir passar 
uns dias aqui.
Fiz uma pausa e continuei:
 At
 acho bom que ela venha; estou cheia de encomen
das e ela pode me ajudar como me ajudou nas outr
as frias. Ajudou bastante.
Mudei de assunto:

 Estive hoje com D. Tudinha na quitanda; contou
 que a filha teve gmeos desta vez. No esto mu
ito entusiasmados. Imagine!
Jlio me olhou e fa
lou mastigando:
 Escreva para Olga que traga o
vos quando vier; os daqui so caros ou estragado
s. Os de l so bem melhores.
Respirei aliviada
 e senti-me corar at a raiz dos cabelos; lembre
i-me de outra vez que eu dera a notcia e Jlio 
gritara no meu rosto:
 L vm suas irms outra
 vez. Pensa que somos ricos? O dinheiro que ganh
o mal d para vivermos e elas ainda vm ficar do
is meses aqui; s serve para aumentar
as despes
as. Que inferno!
E levantara furioso da mesa, j
ogara o guardanapo amarrotado sobre a cadeira, d
eixando a sala e resmungando. Agora fora at fc
il, ele no fizera cena alguma. Pensei:
"Que fe
licidade!" Continuei:
 Naturalmente trazem. Vo
c no se lembra de que o ano passado elas troux
eram ovos? No ho de esquecer esta vez.
Houve 
uma pausa e Jlio olhou para mim outra vez:
 E
las? Clotilde vem tambm? Voc falou s Olga. Co
rei mais e respondi embaraada:
 No sei bem a
final de contas. No explicam bem na carta, mas 
como o ano passado vieram juntas, provavelmente 
Clotilde vem tambm.
E esperei a reao; mas n
o houve nada e acabamos de almoar. Jlio comeo
u a folhear o jornal sentado na cadeira de balan
o e os dois meninos vieram despedir-se
para ir
  escola. Diante da janela aberta, examinei-lhe
s as unhas, os cabelos, os dentes. Em seguida ac
ompanhei-os at o porto, recomendando cuidado c
om os bondes;
fiquei olhando at sumirem na esq
uina. Fui ver depois os dois menores que brincav
am  sombra da figueira no quintal. Logo mais, o
uvi a voz de Jlio:
 J vou. At logo, Lola.

Enquanto fazia tric bem depressa, sentada na sa
la, depois que Jlio ia embora, pensava em meu n
ome. Eleonora. Mame contava que quando estava m
e esperando, tinha
lido um romance empolgante e
 o nome da mocinha bonita que casava com o homem
 bom era Eleonora; ento quando eu nasci, ela di
sse:
 Quero que esta seja Eleonora.
 Deus me
 livre, disse meu pai. Isso  nome de pera, mui
to comprido. Quero que seja Olga porque  curto 
e bonito.
Brigaram por causa disso e mame proc
urou apaziguar, dizendo:
 A outra filha que eu
 tiver ser Olga.
Meu pai fez uma carranca muit
o feia dizendo que bastavam duas filhas (j havi
a Clotilde) e queria depois um menino.
Dois ano
s depois veio outra menina e o casal se reconcil
iou a respeito de nomes pondo Olga na terceira; 
o menino nunca apareceu.
Sempre achei meu nome 
antiptico e cheio de "os", e apesar de dizerem 
que meu apelido  espanholado, prefiro o apelido
. Achava Lola leve e ftil como uma bolinha
rol
ando numa descida, at que um dia vi na venda do
 Seu Joaquim uma folhinha colorida representando
 uma mulher com vestido decotado, os braos leva
ntados e castanholas
nas mos. A saia com basta
nte roda embaixo, os saltos altssimos, parecia 
um pio rodopiando na cabea uma mantilha branca
 de rendas, um grande pente de tartarugas
enter
rado num monte de cabelos e um cravo vermelho no
 canto da boca, sorrindo, faceira. Disseram que 
"aquilo" era uma -espanhola e como diziam que Lo
la era espanholado,
liguei de tal forma as duas
 imagen-, que quando chamavam: Lo-la! Lo-la! Eu 
no sabia se estavam chamando a mulher da folhin
ha ou eu, ficava na dvida.
Enquanto lembrava -
essas coisas, tricotava sapatinhos e paletozinho
s das minhas encomendas, ouvindo os gritos de Is
abel e Julinho brincando no quintal e Durvalina


cantarolando na cozinha. Trabalhava, trabalhava
.
Nos domingos eu tinha sempre muito trabalho; 
levantava mais cedo do que o costume, fazia um b
olo para o caf da tarde, depois ajudava Durvali
na a limpar a casa e
preparar o almoo, pois Du
rvalina saa s duas horas. Ia  missa com os do
is mais velhos quando havia tempo,
mas sempre c
hegava tarde  igreja e assistia s  metade da 
missa. Jlio levantava tarde e ficava de pijama 
no quintal, lidando com as plantas e tomando con
ta de
Isabel e Julinho. Gostava das plantas; co
m um chapu velho na cabea e uma tesoura nas m
os, podava as roseiras, cortava estacas para ama
rrar os ps dos cravos,
varria a parte cimentad
a do quintal. Almovamos ao meio-dia. Nossa viz
inha D. Genu pedia emprestado as forminhas de em
padas;  hora do almoo mandava seis empadas
de
 presente, pedindo desculpas porque no tinham f
icado boas. Depois do almoo, Jlio ia dormir e 
levava Isabel, os dois mais velhos iam  casa de
 um amigo jogar
bola, Durvalina acabava de arru
mar a cozinha depressa e saa tambm para s vol
tar no dia seguinte, eu ento ficava s. s veze
s Julinho brincava ao meu lado enquanto
eu lia 
o jornal da manh ou algum livro emprestado. O t
empo passava rapidamente nas horas de descanso; 
quando as tardes eram quentes e bonitas, Jlio l
evava a cadeira
de balano para o quintal e fic
ava at a noite cair, tomando cerveja e fumando.
 Eu chegava  janela de vez em quando para ver s
e Carlos e Alfredo j vinham vindo;
as crianas
 da vizinhana corriam na calada, D. Genu apare
cia na janela vizinha e eu agradecia as empadinh
as. Quando nos mudamos para a Avenida Anglica, 
havia
pouqussimas casas naquele quarteiro; co
m o tempo foram construindo outras e o quarteir
o ficou cheio.
D. Genu pedia desculpas porque a
s empadas no tinham ficado boas; eu protestava:

 Ah! No diga isso, D. Genu, estavam delicios
as; Jlio gostou muito.
Ela sorria com modstia
, retrucando:
 No estavam to boas como da ou
tra vez, a senhora no reparou como a massa no 
estava quebradia? Da outra vez a massa ficou mu
ito mais macia.
Eu tornava a dizer que era enga
no; a massa estava to boa que derretia na boca 
e tnhamos gostado muito. Ela tornava a protesta
r com calor dizendo que era bondade 
minha, que
 eu devia saber muito bem porque entendia do ass
unto e que a massa dessa vez no ficara to boa.
 Eu terminava dizendo que estavam esplndidas e 
para no
gastar mais palavras com as empadas, d
izia:
 Sabe que minhas irms vm passar as fr
ias de dezembro conosco? Estou muito satisfeita.

Ela participava da minha alegria e falvamos l
ongamente sobre irmos e parentes; um dia aprove
itei o ensejo para pedir emprestado uma cama, po
is como ela pedia sempre
panelas e formas, ache
i que podia pedir a cama para uma das manas. Ela
 respondeu:
 Pois no, D. Lola. Todas as vezes
 que a senhora quiser, est s ordens.
E conver
svamos at os meninos chegarem da rua s seis h
oras; ento eu me despedia e ia l para dentro p
reparar o lanche para todos.
Carlos e Alfredo t
inham a diferena de um ano e pouco um do ouro, 
andavam sempre juntos, vestiam quase iguais, est
udavam na mesma escola, mas eram muito diferente
s
em tudo. Jlio dizia que Alfredo tinha o cora
o fechado, vivia para dentro; e parecia mesmo,
 era muito retrado, falava pouco e raramente se
 expandia, enquanto
Carlos era alegre, brincalh
o, risonho, e parecia um menino feliz.
Quando 
chegavam de qualquer lugar, Carlos sempre tinha 
o que contar, falava do que havia visto, das pes
soas que encontrara, de suas conversas, enquanto
 Alfredo ficava
quieto, escutando sem dizer nad
a. s vezes, Carlos perguntava:
 Voc no viu,
 Fedo?
Alfredo ficava vermelho de raiva, pois n
o gostava que o chamassem de Fedo e em vez de r
esponder  pergunta de Carlos, gritava:
 No q
uero que me chame assim, j disse que no quero.

E fechava a mo furiosamente para dar um murro
 na cara do irmo; eu precisava intervir muitas 
vezes e quase sempre no chegava a tempo e como 
Alfredo era mais forte,
Carlos acabava apanhand
o. Muitas vezes Carlos falava sem querer, mas go
stava de provocar o irmo. Eu pedi:
 No fale 
assim, meu filho. Voc sabe que ele no gosta, p
or que no diz Alfredo?
Ele prometia no dizer 
Fedo, mas dias depois tornavam a brigar por caus
a do apelido.
Tomvamos caf com bolo e comamo
s o que sobrava do almoo; depois ficvamos na s
ala esperando a hora de dormir e no dia seguinte
, recomevamos a luta novamente.
En princpios
 de dezembro, minhas irms chegaram de Itapetini
nga. Fui  estao com Julinho e voltamos todos 
de bonde porque um carro ficava muito caro e pre
cisvamos
fazer economia. Pusemos as duas malin
has na frente do bonde; logo me arrependi de hav
er levado Julinho porque minhas irms traziam mu
itos embrulhos de ovos e doces
que mame me man
dara e Julinho s serviu para atrapalhar porque 
queria ajudar a levar os embrulhos e deixava-os 
cair a todo instante.
Clotilde e Olga estavam a
nsiosas por conhecer nossa nova casa, pois no an
o anterior, quando elas vieram nas frias, ainda
 residamos no Bom Retiro, numa casa muito
pequ
ena e apertada; elas tiveram que dormir no quart
inho com os meninos mais velhos, onde mal cabiam
 os quatro e assim mesmo Carlos e Alfredo dormia
m num colcho,
no cho.
Quando escrevi contand
o que tnhamos mudado para a Avenida Anglica, n
uma boa casa que estvamos pretendendo comprar, 
exultaram em Itapetininga. Responderam:
"Ento 
agora  s no palacete, hein? Muito bem. Vocs e
sto progredindo; estamos ansiosas por conhecer 
a nova residncia, ainda mais nesse bairro to e
legante".
Na viagem de bonde, perguntaram muita
s vezes:
 Ento, est contente na casa nova?

 Quantos quartos tem?
 J  de vocs?
 Tem 
jardim na frente?
Eu respondia s perguntas, pr
estando mais ateno em Julinho que, disfaradam
ente, estava querendo abrir o pacote, onde ele s
abia que havia um bolo. Pedi notcias
de mame.

Disseram que mame ia bem, mas se queixando de
 reumatismo nas pernas, era de tanto trabalhar; 
tinha sempre muito servio. De vez em quando ela
 se queixava tambm 
de uma dor forte na boca d
o estmago. Ficvamos uns momentos sem falar, pe
nsando na dor de mame, querendo adivinhar o que
 seria.
Quando chegamos em casa, Jlio e as cri
anas estavam no porto, esperando. Houve muitas
 exclamaes e abraos:
* Olhe como a Isabel e
st crescida!
 E Jlio cada vez mais gordo!

 Que casa bonita!
Entraram olhando todos os can
tos da casa, enquanto Jlio levava as malas para
 o quarto delas e Durvalina levava as cestas e p
acotes para a cozinha. Abraaram Durvalina:
 A
t a Durva est mais gorda. Olhe um pouco como o
 clima daqui  bom mesmo.
Visitaram a casa toda
 achando tudo uma beleza; no quarto delas que er
a meu quarto de costura, eu tinha coberto a mqu
ina com uma toalhinha bordada e assim servia
de
 mesa; havia duas camas, uma cadeira e um espelh
inho na parede. Tiravam o chapu, entravam no ba
nheiro, voltavam, passavam o pente nos cabelos, 
sempre conversando:
 Que banheiro bom! Se tiv
ssemos um assim l em casa! Depois:
 Sabe quem
 casou? Voc no  capaz de adivinhar! A Maria d
a Glria!
Abri os olhos, espantada:
 No diga
! A Maria da Glria? Mas com quem?
 Com um via
jante de uma casa importante, dizem que ganha be
m. Eu me sentava na cama, admirada, olhando Clot
ilde que contara a
novidade:
 Mas ela tem uns
 quarenta anos, Clotilde! Mais de quarenta at; 
eu me lembro que era criana de vestido curto e 
ela j ia a bailes! Tem mais de quarenta, uns qu
arenta
e cinco!
Olga intervinha falando malici
osamente:
 Pois . Pra voc ver; feia e velha,
 arranjou marido. Eu j disse pra Clotilde que n
o devemos perder as esperanas. Clotilde ficava
 amuada:
 Ah! Ah! No diga bobagens!
Isabel a
pareceu na porta do quarto comendo um pedao de 
doce; fiquei zangada:
 Meu Deus! Olhe esta men
ina comendo doce quase na hora do jantar. Quem d
eu para voc?
Ela no respondia e antes que tom
asse o pedao que tinha na mo, enfiava-o inteir
inho na boca e olhava para mim com os olhos mid
os pelo esforo da mastigao. As
tias riam, en
cantadas:
 A Isabel  um encanto; est parecid
a com Jlio.
 Mas os olhos so de Lola, veja u
m pouco.
 Os olhos e a boca; a boca  igualzin
ha  de Lola.
 Ento  parecida com Lola.
 N
o. A testa e o nariz so de Jlio. Repare bem.


Isabel se impacientava e fugia; Jlio aparecia 
na porta do quarto, risonho:
 No acabaram de 
contar as novidades? Falta muito ainda? E virava
-se para mim:
 Como  o jantar, Lola? No est
 pronto?
Sa correndo do quarto e mandei Durval
ina pr o jantar na mesa. Depois do jantar, fic
vamos conversando no canto da sala, falando sobr
e os conhecidos e parentes
de Itapetininga. Eu 
perguntava:
 E tia Candoca como vai? Vocs me 
escreveram que ela tinha levado um tombo? Est m
elhor?
 A perna ficou inteirinha roxa, mas ago
ra est quase boa. Voc soube que o Juquinha cai
u do cavalo?
 No. Vocs no me escreveram nad
a. E machucou muito? Como  que vocs no mandar
am contar?
 No quebrou nenhum osso, mas esfol
ou muito a testa e o nariz; ficou inchado uns di
as, depois sarou. No mandamos contar porque est
vamos para vir.
De repente Olga se lembrava de
 um caso e falava com entusiasmo:
 Sabe que a 
Doca fez as pazes com o Gumercindo? Vo se casar
 no ms que vem.
 No diga! Pois quando brigar
am, ela disse que preferia morrer a casar com el
e!
 Pra ver. Fala sem pensar; esto agora muit
o entusiasmados com o casrio.
 Quem, havia de
 dizer!
As crianas, sonolentas, ficavam  noss
a volta ouvindo prosa, sem quererem ir dormir; l
evava-os depois apressadamente para o quarto e p
unha-os na cama. Voltava para
a sala para ouvir
 mais novidades; Jlio com o cachimbo esquecido 
no canto da boca, o jornal no colo, trocava uma 
ou outra frase com minhas irms, perguntando pel
os
conhecidos. Eu guardava os doces que mame t
inha mandado; seis latinhas pequenas de goiabada
 em calda, seis pacotinhos de figos cristalizado
s, seis quadrados de
pessegada e um bolo mrmor
e; calculava mentalmente quantos dias podia dura
r essa sobremesa. Havia uma pausa na conversa, u
m descanso, Jlio reiniciava a prosa:
 E o Soa
res como vai? Sempre metido a conquistador?
Clo
tilde e Olga olhavam-se embaraadas, como quem p
ergunta: contamos ou no? E Clotilde resolvia:

 Ele agora anda atrs da Maroquinhas.
Jlio ti
rava o cachimbo da boca, um ar admirado, os olho
s muito abertos; eu ficava com a lata de doce na
 mo, parada, sem saber o que fazer com ela. Olg
a acrescentava:
 Pois . Pra que deu agora o s
em-vergonha. No presta mesmo. Jlio afinal cons
eguia falar:
 A Maroquinhas do Chico? Uma mulh
er casada!  o cmulo!
  isso mesmo. A Maroqu
inhas do Chico. No  uma vergonha? Ficvamos to
dos parados, mudos, sentindo a tragdia que se e
spalhava
no ar como fumaa; reatvamos outra ve
z a conversao, mas o caso principal da noite v
oltava ao assunto, imperiosamente. Eu dizia em v
oz baixa, como se tivesse medo
de falar alto: -

# Este mundo est perdido. Nem acredito, pare
ce incrvel. E a Maroquinhas?
 A Maroquinhas e
st correspondendo. Dizem. Olga falava revoltada
:
 Mulher  idiota mesmo, acredita em homem; s
empre desconfiei da Maroquinhas, sempre foi assa
nhada com os homens.
Durante meia hora comentv
amos o caso, com medo da reao do Chico.
Afina
l Jlio se levantava e se espreguiava levantand
o os braos para cima:
 Bom. Vamos dormir? Qua
se dez horas! , Dispersvamos todos e antes de d
ormir, eu ia perguntar confidencial-
mente  Ol
ga:
 E o Zeca como vai?
Olga fazia uma careta
 e virando o rosto para um lado, respondia:
 N
o sei. Brigamos.
 Brigaram? Mas por qu? No 
acredito! Clotilde entrava no assunto:
 Brigui
nha de namorado, Lola. Qualquer dia fazem as paz
es.
 Mas qual o motivo da briga? Vocs estavam
 to firmes! Olga explicava com ar contrariado:


 No queria que eu viesse para So Paulo. Quer
ia que passasse as frias l mesmo. Imagine! Tei
mei em vir e ele ficou zangado. Passou dois dias
 sem aparecer e eu
vim assim mesmo. Por que no
 pede? Se fssemos noivos, eu no vinha.
Eu sor
ria:
 Essas briguinhas no so nada, qualquer 
dia esto noivos.
E dizendo boa noite, retirava
-me para o quarto, onde Jlio j estava dormindo
; eu me deitava e, no escuro, lembrava as novida
des que tinha sabido e via passar na
imaginao
 todos os amigos e conhecidos de Itapetininga. V
ia a Maroquinhas namorando o sem-vergonha do Soa
res; a Doca casando com o Gumercindo; mame mexe
ndo o tacho
de goiabada ou ento espiando se os
 biscoitos de polvilho estavam assados, no grand
e forno de barro do quintal, afogueada, suando, 
um pano amarrado na cabea, a
tampa do forno na
 mo e com a pazinha de madeira na outra, virand
o os biscoitos um por um, franzindo a testa, os 
olhos meio fechados por causa do calor. Tia Cand
oca
com a perna roxa espichada numa cadeira, da
ndo um gemido de vez em quando: Ai, meu Deus! To
dos passavam na minha imaginao e tornavam a pa
ssar teimosamente, at
que o sono vinha chegand
o aos pouquinhos e fechava meus olhos pesadament
e.
Na primeira semana depois da chegada das min
has irms, trabalhamos muito em chapus e vestid
os para que elas pudessem sair. Os chapus eram 
do ano anterior e estavam
feios e desbotados; f
izemos ento umas armaes de arame e talagara 
e cobrimos com cetim como era moda naquele tempo
. O de Clotilde com cetim cor de cinza e uma
fi
ta cereja; o de Olga com cetim azul e umas flori
nhas azuis em toda aba. Depois que os vestidos t
ambm ficaram prontos, fomos visitar tia Emlia,
 a "tia rica"
como Jlio dizia. Era a irm mais
 velha de papai e tinha se casado com
um homem 
muito rico e importante; estava viva h alguns 
anos j. Morava na Rua Guaianases e uma das prin
cipais perguntas de nossa me quando escrevia er
a: "J
visitaram tia Emlia?" de modo que era u
m dever imprescindvel visitar tia Emlia porque
 mame lhe devia muitos favores. Um belo dia log
o depois do almoo, fomos
para a Rua Guaianases
. No caminho, recomendei a Olga que no risse, n
em olhasse para mim se aparecesse refresco de or
chata ou se tia Emlia falasse na origem das
fa
mlias paulistas. Era engraada essa mania dela;
 sabia de cor a origem de todas as principais fa
mlias e tinha uma memria prodigiosa para guard
ar nomes e datas.
Tinha cadernos com as histri
as dos fundadores de So Paulo e quando via pess
oas interessadas no assunto, no parava mais de 
falar. Olga prometeu.
O palcio da Rua Guaianas
es impunha respeito e medo; quando chegamos e to
camos a campainha, calculei mentalmente quantas 
vezes nossa casa cabia dentro daqueles jardins,


a casa que ainda no era nossa e nem sabamos q
uando terminaramos de pagar os vinte contos res
tantes. Tia Emlia era riqussima e para ns seu
 palcio era um sonho
das mil e uma noites com 
uma legio de criados, governantes tesas e compe
netradas, grossos tapetes onde os ps se afundav
am, cortinas pesadas como chumbo, mesas
enverni
zadas com as pernas cheias de bolas e caras de g
ente. E os cavalos? Tinha uma carruagem puxada p
or dois cavalos castanhos e um cocheiro empertig
ado com uma
grande cartola reluzente inclinada 
para um lado da cabea. Dizia que havia de ter c
arruagem enquanto pudesse, detestava automvel. 
E quando ela me visitava uma vez
por ano e o ca
rro parava em frente  nossa casa, as janelas da
s casas vizinhas enchiam-se de cabeas curiosas 
que ficavam olhando os majestosos cavalos batere
m com
fora as patas do cho. O espetculo era 
soberbo!
As crianas ficavam excitadas e comea
vam a entrar e sair a todo o momento, o que me d
eixava nervosa; Carlos e Alfredo ficavam com as 
mos nos bolsos das calas,
um ar imponente, an
dando de um lado para outro perto da carruagem, 
desafiando todos que passavam com olhares orgulh
osos como se dissessem: "No somos qualquer um,


vejam as visitas que nossa me recebe". E olhav
am com admirao o cocheiro que parecia um rei s
entado no trono. Felizmente as visitas eram curt
as e eu ficava envergonhada
de s oferecer caf
, que nem sempre ela aceitava.
No palacete, um 
criado levou  sala particular, onde tia Emlia 
recebia os ntimos e as pessoas da famlia. Sent
amos com muita cerimnia na ponta das cadeiras d
e
veludo e quando nossa tia entrou com ar majes
toso, levantamos para cumpriment-la respeitosam
ente. Ela j estava com uns setenta anos; era al
ta e tinha um ar imponente
que colocava todos 
 distncia; parecia estar sempre recomendando: "
No precisa aproximar-se, fale da mesmo". Pergu
ntou pela nossa me, pelo meu marido e pelas
cr
ianas com certa polidez; depois perguntamos tam
bm pelos filhos dela. Contou histrias sobre os
 filhos mais velhos e os netos e disse que os do
is filhos solteiros
estavam viajando, na Argent
ina; se no fosse a guerra, estariam na Europa. 
Em seguida, tocou a campainha e quando o criado 
apareceu, mandou chamar as meninas; logo
depois
 vieram as duas filhas que moravam com ela. "As 
meninas" tinham mais de cinqenta anos, uma era 
viva e outra solteirona, muito quietas e concen
tradas. Tia
Emlia mandou depois uma das menina
s tocar a campainha e virando-se para ns, pergu
ntou suavemente:
- Gostam de orchata? Vou manda
r vir.
Olhei as figuras do tapete e com os lbi
os cerrados, fiz um esforo tremendo para no ri
r; de repente percebi a cadeira de Olga estremec
er e Olga comeou a tossir;
tossiu tanto que to
das recomendaram xaropes; uma dizia que o de euc
aliptus era melhor, outra ensinava outra coisa e
 finalmente a tosse cessou. Tomamos o refresco

de orchata e tia Emlia quis me pagar o dinheiro
 dos sapatinhos. Protestei:
 No vim aqui para
 isso, tia Emlia. No tenho pressa de receber. 
Mas ela pagou e fez outra encomenda para novos n
etos que estavam
para chegar. Depois nos avisou
 que o casamento da ltima neta seria no fifh do
 ms, na casa dela, onde dariam uma recepo. Ho
uve uma pausa e de sbito ela comeou:
 Eu sei
 a histria da famlia Lemos desde 1724; so de 
S. Joo de Atibaia e tiveram fazenda em Parnaba
. Houve um dom Francisco de Lemos nascido em Cas
tela e
casou-se com Isabel no ano de 1640. Isab
el morreu e dom Francisco casou-se com Catarina 
de Mendona e tiveram dois filhos Baltasar e ler
nimo...
Uma das meninas interrompeu:
 No fo
i um desses que casou com uma filha de Bartolome
u Bueno de Camargo?
 Pois  esse mesmo, o Balt
asar. Tiveram sete filhos. . .
Olga me olhou co
m olhar suplicante como quem pergunta: "Ser que
 vai nomear os sete?" Fiz que sim com a cabea e
 Olga deu um suspiro fundo.
Tia Emlia continuo
u:
 Uma das filhas desse casal foi Leonor que 
casou trs vezes; a primeira vez casou com um vi
vo Machado e teve trs filhos. A segunda vez ca
sou-se com Baltasar da
Borba Gato (fez uma paus
a para apreciar o efeito do nome): com o Borba G
ato teve quatro filhos.
Uma das meninas que con
tava com os dedos o nmero de filhos da Leonor, 
levantou as mos e mostrou sete dedos. Tia Emli
a continuou imperturbvel:
 Um dos filhos do s
egundo matrimnio chamava-se Baltasar tambm e c
asou-se em 1710 na vila de Santo Amaro com Franc
isca de Sousa. Tiveram trs filhos; creio que
o
 Lemos do marido de Lola vem da, descende desse
 Baltasar de Lemos. Um dos filhos casou na Vila 
de Itu que nesse tempo chamavam Outu.
Clotilde 
no pde deixar de exclamar:
 Que memria, tia
 Emlia! Como consegue guardar tudo to bem? Nom
es e datas?
Tia Emlia riu, satisfeita.
 Ah! 
 porque gosto dessas coisas.  uma das minhas m
anias. H gente que gosta de colecionar selos, o
u leques, ou moedas; eu coleciono a origem dos p
aulistas.
Gosto disso e tenho tudo escrito em c
adernos. Desde solteira, eu me interessava por 
rvores genealgicas; seu pai no contava?
 Pap
ai contava, mas nunca pensei que sua memria fos
se assim prodigiosa. Esse Borba Gato  o mesmo d
a Histria do Brasil?
Tia Emlia se animou, vir
ando-se mais para Clotilde:
 Pois  o mesmo. O
 Baltasar teve uma filha Isabel, outra Mariana; 
esta foi casada com um Alcoforado, depois Maria 
que foi casada com um
Baio. Teve um filho cham
ado Baltasar tambm, que se casou com Isabel Mon
teiro e...
Nesse momento entraram umas senhoras
 na sala e tia Emlia se levantou para receb-la
s. Apresentou-nos dizendo que eram da famlia Ba
rros, de Itu, continuou explicando
para as visi
tas:
 Estava contando s minhas sobrinhas a or
igem da famlia da me delas que  a mesma do ma
rido da segunda, esta aqui, (e me mostrou. Estav
a justamente falando sobre
os Lemos; tenho tudo
 escrito em cadernos. Os Barros tambm so meus 
conhecidos; h os Pais de Barros, os Aguiar Barr
os...
Umas das senhoras replicou:
  extraord
inria sua memria e admiro ainda mais como pode
 saber tudo com mincias, com datas, sem esquece
r nada. A senhora devia escrever um livro sobre 
as famlias
paulistas, seria interessantssimo.

Todas concordaram e tia Emlia sorriu dizendo 
que j pensara nisso; a outra senhora disse:
 
A nossa famlia descende dos Barros de Itu. Tia 
Emlia se entusiasmou:
 Justamente. O Cap. Fer
no Pais de Barros casou-se em 1731 com ngela L
eite Ribeiro e tiveram vrios filhos; o stimo f
oi o Cap. Francisco Xavier Pais de Barros,
de I
tu; tinha o apelido de Capito Chico de Sorocaba
 ...
Uma das senhoras interrompeu com um sorris
o:
 Pois era o nosso av. Como a senhora sabe!
 Tia Emlia continuou cada vez mais animada:
 
Ele foi casado trs vezes; a primeira vez com Ro
sa Cndida de Aguiar Barros, a segunda vez com s
ua ex-cunhada Maria de Aguiar Barros e a terceir
a vez com Andreza
Lopes de Oliveira.
Clotilde 
fez um elogio:
  admirvel, tia Emlia! Outra
 senhora perguntou:
 No foi um desses que tev
e uma mina de ouro e conseguiu tirar uma arroba 
de ouro dessa mina?
 Pois foi; com essa arroba
 de ouro, ele comprou terras em Itu e voltou a S
o Paulo, onde se casou com Maria Paula Machado,
 filha do...
Uma das filhas interrompeu:
 O p
rimeiro desses Barros veio ao Brasil h sculos 
atrs, no foi, mame?
 Foi. O primeiro chamav
a-se Pedro Vaz de Barros. Veio em 1601 e foi ver
eador na Cmara de So Paulo. Imaginem, naquele 
tempo j era vereador, vejam como a famlia
 a
ntiga.
Todas ficamos admiradas e tia Emlia con
tinuou:
 Casou-se aqui na famlia Leme, descen
dente de uma famlia flamenga e o quinto filho d
esse casal foi Ferno Pais de Barros. Esse defen
deu brilhantemente a praa
de Santos do ataque 
dos holandeses; e recebia cartas do prprio punh
o do prncipe D. Pedro...
 Sua memria  prodi
giosa e sua modstia tambm, disse uma das senho
ras com veemncia.
Outra retrucou:
  um verd
adeiro tesouro ter na cabea as rvores genealg
icas dos paulistas!
Todas sorrimos e o criado e
ntrou anunciando mais visitas. Minhas irms e eu
 nos levantamos e samos; durante toda a tarde c
omentamos a visita, a memria de tia Emlia,
a 
festa do casamento da neta e tudo o que havia se
 passado.
Uns dez dias depois, um criado veio t
razer um convite para o casamento; a casa ficou 
em alvoroo. Fui dizendo logo:
 No vou; preci
so de tanta coisa que no posso ir. No tenho ve
stido bom, nem chapu; pra falar verdade, s ten
ho um par de sapatos novos. Mas nem meias tenho.

Houve protestos veementes:
 Que absurdo perd
er essa festa magnfica! Nem pense isso; daremos
 um jeito, mas voc e Jlio tero que ir.
Quand
o Jlio chegou essa tarde, falamos sobre a festa
 e mostramos o convite para a recepo. Jlio co
ou a cabea, desanimado:
 Parente rico s ser
ve para fazer a gente gastar. Imagine como no v
ai sair cara a brincadeira s para ir l e ficar
 meia hora: roupa, sapatos, automvel...
Olga r
eplicou:
 "Noblesse oblige", acho que vocs de
vem ir. Tenha pacincia, Jlio, imagine como vai
 ser bonita a festa e as coisas gostosas que voc
s vo comer e beber!
Eu disse:
 No,  melho
r desistirmos. Nem quero fazer o clculo das coi
sas que preciso comprar; com esse dinheiro compr
o roupinhas e sapatos para as crianas.
Minhas 
irms protestaram de novo:
 No, vocs tm que
 ir. Onde se viu isso? Tia Emlia ficar ofendid
a.
Jlio acabou concordando:
 Vamos pr o cor
ao  larga e vamos, Lola. Clotilde olhou para 
mim, dizendo:
 Eu tenho as meias novas, empres
to a voc. Nem usei ainda. Olga disse que me emp
restava a bolsinha de miangas que tinha ganho

de uma amiga h muito tempo e Jlio me deu cinq
enta mil-ris para arranjar o vestido.
H trs 
anos j, eu tinha um vestido de renda marrom, fe
ito para o casamento de uma filha de tia Candoca
; ento levei o vestido na costureira para ver o
 que ela
podia fazer. Ela tirou o enfeite velho
 que eram umas rendinhas e enfeitou o vestido co
m fitas de veludo canrio; estavam usando muito 
essa cor. Com o resto do dinheiro,
comprei umas
 flores novas para meu chapu de seda preta, com
prei luvas para mim e, como Jlio estava se quei
xando que a gravata estava feia para um casament
o, dei-lhe
uma gravata nova. Comprou botinas no
vas tambm.
No dia do casamento, logo de manh,
 chamei a cabeleireira para me pentear e ao meio
-dia eu estava com a cabea pronta: ela levou um
a hora" enrolando e prendendo
os cachinhos  vo
lta da cabea; meus cabelos eram compridos at 
 cintura e a mulher teve um trabalho para prend
er tudo aquilo e dar um ar artstico.
Depois de
 pronto o penteado, fiquei desgostosa, achando m
inha cara enorme, parecia vespeira; mas no diss
e nada porque minhas irms estavam elogiando e d
izendo que
tinha ficado uma beleza. Aquilo me p
esou o dia
inteiro porque o casamento era s se
is horas e tive que agentar. Clotilde e Olga es
tavam nervosas, procurando lembrar todos os deta
lhes e comentando com gritinhos
e exclamaes. 
Tomaram conta das crianas para no me incomodar
em, esfregaram pedra-pomes nas minhas mos para 
amaciar a pele, passaram creme no meu rosto e no
 pescoo,
me fizeram tomar um banho morno prolo
ngado para ficar com as feies descansadas e s
 quatro horas, foram me ajudar a vestir. Primeir
amente o colete; tanto me apertaram
que as barb
atanas entraram na carne, pois eu tinha engordad
o muito ultimamente; para vestir o vestido foi u
ma luta porque tnhamos medo que desmanchasse o 
penteado.
As crianas espiavam e perguntavam a 
todo o momento se podiam ver "mame pronta" e eu
 j estava impaciente. Era fim de dezembro e o d
ia estava quentssimo; antes
de' estar completa
mente preparada, suava por todos os poros e o cr
eme que Clotilde havia passado no meu rosto, esc
orreu todo, dando uma aparncia deplorvel. Jli
o
chegou nesse instante e comeou a se vestir; 
disse que tinha tratado um automvel para as cin
co e meia e as crianas correram para esperar o 
carro no porto.
Olga tirou o creme do meu rost
o com um pedao de trapo e depois passou novamen
te outra camada; sentei ento numa cadeira da sa
la para descansar e deixar de suar;
tive vontad
e de mandar tudo s favas nessa hora, tirar a ro
upa, desmanchar o penteado, sentar no cho s de
 roupo em cima da camisa e tomar caf com po e
 manteiga.
Afinal chegou o momento de colocar o
 chapu; Olga de um lado e Clotilde do outro, pu
seram o enorme chapu de veludo preto e enfiaram
 os grampos emprestados por D.
Genu; um era mui
to bonito, de marfim formando uma cabea de cava
lo. Deixaram para abotoar a gola do vestido  l
tima hora; havia cinco barbatanas que deixavam m
eu
pescoo bem esticado. Em seguida calcei as l
uvas e peguei a bolsa de miangas com um lencinh
o de renda dentro. Quando olhei no espelho, mal 
me conheci; estava to
diferente de mim mesma, 
com tanto enfeite e tanta bugiganga. Clotilde e 
Olga no se cansavam de me admirar e chamaram D.
 Genu para me ver. Vieram D. Genu, as filhas
mo
as e as crianas; todos ficaram  minha volta, 
falando e comentando; D. Genu disse que era uma 
pena eu no ter uma jia, mas Olga respondeu que
 Maria Borralheira
tambm no tinha jia e foi 
a mais bonita do baile, e que em casa de tia Em
lia, todos perguntariam aos donos da casa:
 Qu
em  aquela senhora de vestido marrom e fita can
rio? Com um chapu de veludo preto?
Tal o suce
sso que iria fazer. Jlio apareceu na sala manca
ndo um pouco e se queixando que o casamento ia s
er uma cacetada porque no conhecia ningum e al
m disso
as botinas novas estavam apertadas; ge
nte rica s servia para isso: fazer os pobres ga
starem. Prometeu que l no mancaria. Todos elog
iaram a roupa escura e a gravata
nova; percebi 
que as botinas rinchavam e fiquei horrorizada. N
em por sombra parecia o Prncipe Encantado da Ma
ria Borralheira.  ltima hora, apareceu uma peq
uena
dificuldade; minhas irms eram de opinio 
que o automvel esperasse no porto do palacete 
at a festa se acabar. Jlio achava que isso era
 luxo e ficaria carssimo.
Olga ponderou:
 Ma
s quando acabar a festa, vocs saem de l Cansad
os e no encontram automvel para voltar. Fica a
t feio andar assim pelas ruas... "Noblesse obli
ge", acho que
deve ser assim.
Jlio coou a ca
bea com cuidado para no tirar o cabelo do luga
r;
Mas quanto o homem ir cobrar? Vai ser um di
nheiro, j tive tantas despesas.
Clotilde diss
e:
 Deixe que eu vou falar com o chofer, esper
e a.
Logo depois voltou dizendo que tinha pech
inchado um pouco e o homem deixara por 12$000; a
o princpio estava firme nos 15, mas acabara ced
endo.
Jlio tirou todo o dinheiro que havia nos
 bolsos e somou: no dava. Fui ento na minha ga
veta de economias onde rodavam sempre alguns nq
ueis e juntando tudo, conseguimos
reunir o dinh
eiro justo. Entramos no carro que esperava na po
rta, acompanhados de toda a vizinhana que foi v
er a nossa sada sorrindo e dizendo adeusinho co
m a
mo, ao mesmo tempo invejando nossa sorte p
or comparecermos a uma festa da alta sociedade. 
Eu nem me mexia durante o trajeto com medo de de
smanchar o cabelo ou entortar
o chapu.
Na Rua
 Guaianases, uma fila interminvel de automveis
 passava majestosamente, deixando os convidados 
na porta do palacete. Descemos um pouco nervosos
 e entramos
com passos midos e solenes, atrave
ssamos uma parte do jardim e fomos ao salo prin
cipal, onde j estavam muitos convidados. Vi de 
longe tia Emlia e uma das meninas
que sorriram
 para ns.
Olhamos  nossa volta e como no con
hecssemos ningum, ficamos quietos num canto, e
sperando os noivos e o resto. De repente, ouvimo
s uma msica muito suave e abriu-se
uma porta d
e vidro que dava para o salo; vimos ento a noi
va dando o brao ao pai e caminhando lentamente 
para o altar que estava armado no fundo do salo
. Achei
tudo to bonito, a noiva com um lindo v
estido, a msica, as flores, os perfumes, os con
vidados atentos e silenciosos, at tive vontade 
de chorar. Meus olhos encheram-se
de lgrimas e
 disfaradamente tirei o lencinho de renda e enx
uguei-os fingindo que estava enxugando a testa.


Fez-se um longo silncio e comeou a cerimnia;
 ns no ouvamos nada porque estvamos longe, a
penas um sussurro perto do altar e um movimento 
de cabeas. Depois
ouvimos a voz do padre fazen
do o sermo; ouvamos uma ou outra palavra: "Sac
ramento", "Sagrado", "Amai-vos" e "Filhos". A m
e da noiva chorou durante todo o sermo,
via-lh
e apenas o queixo e a papada tremerem, depois en
xugou o nariz ruidosamente.
Jlio de vez em qua
ndo, cochichava ao meu lado:
 Que estopada! Me
us calos esto horrveis, as botinas me apertam 
como o diabo.
 Quem mandou comprar botina aper
tada? Agora agente.
Logo depois comearam os a
braos e toda aquela multido movimentou-se e fa
lou; outras portas foram abertas e nos dirigimos
 para o salo de jantar, os noivos na frente.
N
esse salo, havia uma mesa enorme carregada de d
oces belssimos. No centro, uma pirmide de fios
 de ovos de um metro de altura; uma beleza. Fiqu
ei assombrada com
tanto luxo e no quis perder 
um detalhe. Com dificuldade chegamos ao lado dos
 noivos que se colocaram no centro da mesa e ape
rtamos-lhes as mos, desejando
muitas felicidad
es; eles no nos conheciam, mas agradeceram sorr
indo muito cortesmente. Tambm estavam ali para 
isso: agradecer e sorrir.
Comearam a circular 
entre os convidados uns criados de uniforme com 
bandejas cheias de taas de champanha; os olhos 
de Jlio brilhavam na direo das taas. "Agora


sim, ele" esquece os calos", pensei. Falamos de
pois com tia Emlia, prima Adelaide, prima Justi
na que nos apresentaram os pais da noiva; tia Em
lia perguntou por
que minhas irms no tinham 
ido, eu disse que estavam com enxaqueca e ela so
rriu  no podia dizer que no tinham roupa. Tod
os eram amveis e perguntavam a todo
instante s
e tnhamos comido peru e bebido champanha. s se
te horas, todas as luzes se acenderam e tive a i
mpresso de que estava num castelo encantado; os
 noivos
voltaram ento para o salo e danaram 
uma valsa lenta; depois todos danaram mazurcas 
e polcas.
Vi Jlio mancar um pouco quando atrav
essou o salo, fiz-lhe um sinal imperceptvel pa
ra que no mancasse. Ele no entendeu e pergunto
u de longe: "O que h?" Fiquei
muito vermelha e
 sorri para ele, dizendo que no era nada; depoi
s me aproximei disfaradamente e falei-lhe ao ou
vido: "Voc est mancando, e voc me prometeu n
o
mancar". Ele se virou para mim e respondeu: "
O que voc quer que eu faa, meu calo est danad
o". Tornei a falar: "Mas voc prometeu, Jlio, f
ica feio". Ele disse:
"Ento no mancarei mais"
.
E sorrimos um para outro, cordialmente. Fui f
icar ao lado de umas senhoras que estavam vestid
as com menos luxo e comentamos a beleza da festa
; enquanto isso, eu
reparava nos vestidos que p
assavam ao nosso lado: eram belssimos! Uns com 
pastilhas de ouro, outros com pastilhas de prata
, outros ainda com diamantes no cinto
e na blus
a; a maioria com caudas farfalhantes de tafet e
 cetim que estalavam quando passavam perto. O me
u pobre vestido com fitas cor de canrio que min
has irms
tinham achado encantador, fazia um tr
iste papel naquela brilhante reunio.
A metade 
dos convidados estava na sala de jantar, comendo
 e bebendo; ns tambm comeamos a comer e exper
imentei todos os doces da mesa, um por um. Algun
s eu nunca
vira antes. Experimentei uma bebida 
que chamavam de ponche e eu nunca tinha bebido; 
serviam em copos pequenos, com asas, e um criado
 a tirava majestosamente de uma
espcie de sope
ira grande com uma concha de prata. No fundo do 
copo sobravam uns pedacinhos de frutas e fiquei 
imaginando de que modo podia tirar aquelas fruti
nhas.
Olhei  volta para ver se havia colherinh
as prprias e como no havia, tive um desejo lou
co de enfiar o dedo no copo e comer com a mo os
 pedacinhos de ma e uvas;
ento pedi ao criad
o que servia, mais um pouco da tal bebida e sacu
dindo disfaradamente a canequinha de vidro, vir
ei-a depressa na boca para ver se as frutinhas

vinham; assim mesmo ficaram algumas que no cons
egui tirar do fundo.
Com o calor e tanta bebida
 e comida, comecei a sentir um abafamento e o co
lete me apertava tanto que parecia que eu ia arr
ebentar; disse ento  prima Adelaide que
queri
a subir um pouquinho para consertar a ala da co
mbinao que tinha escapado e ela mandou imediat
amente uma criada me levar ao banheiro, em cima.
 Quando me vi
no espelho, fiquei horrorizada; m
eu rosto era uma pasta de creme, p de arroz e c
armim, tudo meio escorrido. Passei uma toalha de
 leve pelo rosto e tirei toda a
pasta suada, de
pois passei um pouco de talco que achei no banhe
iro e assim fiquei com melhor fisionomia. Desape
rtei um cordo do colete e fiquei to
aliviada 
que tive vontade de danar; desci novamente e vi
 Jlio com um copo na mo, conversando animadame
nte com um senhor gordo e calvo, olhando as dan
as. Pensei
assustada: "E se Jlio ficar bbedo?
"
Voltei para a sala de jantar e fui novamente 
comer e beber; ento sem ningum perceber, escor
reguei seis balinhas na minha mo, e apertei-as 
no leno de renda para
minhas crianas.
s nov
e horas, os noivos j haviam desaparecido e muit
os convidados
comearam a sair; despedimo-nos t
ambm e samos. Jlio mancava horrivelmente e as
 botinas rinchavam, mas ele nem se importava; eu
 empurrei o chapu para trs para
aliviar a tes
ta molhada de suor. Encontramos nosso chofer um 
pouco nervoso e falando com os outros animadamen
te. Jlio perguntou o que havia e ele respondeu 
com
grandes gestos:
 Non abbiamo curpa ma il 
preo e molto diferente. Sono andato portare il 
capelano e sono voltato qui. Sono mas cinqui mil
aris.
Jlio olhou-o com olhos arregalados:
 
O qu? Foi levar o capelano? Mas que tenho eu co
m isso? Pago o que tratei e acabou-se.
 Ma qui
 me paga allora? Non posso avere prejudizio; non
 vado via senza mio denaro.
Jlio foi se exalta
ndo:
 Ora, ora, ora! Voc est com besteiras. 
Pago o que tratei e nem um tosto mais. Vamos, L
ola.
Perguntei:
 O que ele disse de capelano?

  o padre. Padre capelo. Disse que foi leva
r o padre e quer mais cinco mil-ris pelo servi
o.
O chofer juntou os cinco dedos da mo direit
a perto do rosto de Jlio e respondeu, zangado:


 Mi hanno mandato portare il padre. Voglio mio
 denaro. Pigarreou alto e puxou as calas para c
ima num gesto brusco com
as duas mos. Segurei 
o brao de Jlio:
 Vamos deixar de discutir e 
vamos embora. No adianta.
Mas Jlio estava cad
a vez mais exaltado e voltou-se para o italiano:

 Olhe aqui, eu tambm no tenho culpa se ocup
aram seu automvel, mas no tenho nada com isso.
 Pago o que tratei. Vamos embora.
 Non vado vi
a senza mio denaro. Qui me paga allora? Per Ia M
adona!
Comeou a juntar gente  nossa volta; ou
tros choferes, pessoas que iam passando e convid
ados que deixavam a festa. Tornei a puxar Jlio 
por um brao; falei baixo:
 Por favor, Jlio, 
vamos embora e deixe de discutir. No faa escn
dalo.
Jlio gritou mais:
 Quem paga voc? Sei
 l quem vai pagar voc, italiano. Eu pago o que
 devo. D a manivela nessa geringona e me leve 
para casa.
O homem olhou zangado e deu uma cusp
arada para o lado:
 Per Ia Madona! Non vado vi
a senza mio cinqui milaris. Io sono andato port
are il capelano. Mi hanno mandato.
 E eu tenho
 a culpa? Nem conheo o capelano. Toca pra casa.
 As pessoas  nossa volta comearam a comentar o
 caso em voz alta;
uns eram contra Jlio e outr
os a favor. O chofer estava firme e de
vez em q
uando dava uma sacudidela violenta na cala para
 p-la no lugar outra vez. Pigarreava, levantava
 os braos, juntava os dedos e quase encostava a
 mo em ns,
dizendo: "M qu! M qu!"
Eu cad
a vez mais nervosa, agarrava o brao de Jlio co
nvidando-o para ir embora; Jlio me disse, aborr
ecido:
 Mas ir embora de que jeito? Esse desgr
aado quer mais dinheiro e no tenho um tosto m
ais no bolso!
Eu suava cada vez mais; alguns co
nvidados que deixavam o palacete, olhavam admira
dos para o nosso grupo. O chofer estava cada vez
 mais valente e Jlio cada vez mais 
exaltado. 
Dizia:
 Deixe de contar prosa, italiano e vamo
s embora.
 Voglio mio denaro. Sono andato port
are il padre.
 Mas no tenho seu dinheiro.
 
Non son venuto qui por avere prejudizio.
 Mas 
no mandei voc levar o padre. No tenho nada co
m isso. Outra cusparada para o lado, essa mais l
onge ainda. Grandes gestos,
vozes alteando mais
 e mais, eu agarrada no brao de Jlio:
 Por f
avor, Jlio, vamos embora. No brigue.
O grupo 
 nossa volta ficava cada vez maior; todos discu
tiam alto. O chofer endireitava as calas e olha
va desafiadoramente para o nosso lado. Resmungav
a:
 Per Ia Madona! Non son venuto qui por aver
e prejudizio. Io ho fatto ei lavoro. Mio denaro.

 Eu dou o que devo, no dou mais.
 Mas io h
o fatto il lavoro. Sono andato portare il padre.

 Mas no tenho nada com isso.
 Voglio mio d
enaro. Per Ia Madona!
 Mas...
Nesse instante,
 apareceu um criado do palacete de tia Emlia e 
veio saber o que havia; dei graas a Deus. Acons
elhou o chofer que no discutisse e receberia o 
dinheiro
imediatamente. Voltou correndo e troux
e logo a quantia certa. Entramos ento no autom
vel e fomos finalmente para casa. Minhas irms e
 os dois meninos mais velhos
esperavam na sala 
de jantar para ouvir as novidades. Quando chegam
os, Jlio pagou o que tinha tratado e quis discu
tir de novo. Comeou:
 Olhe aqui, chofer...
M
as eu dei um aperto no brao dele:
 Jlio!
E
 ele desistiu. Desci com o chapu na mo, j ali
viada e ele entrou em casa de meias, carregando 
as botinas e ainda sacudiu uma delas para o auto
mvel que se afastava,
dizendo:
 Per Ia Madon
a!
Quando sentamos nas nossas cadeiras e Jlio 
estendeu os ps doloridos na cadeira da frente, 
demos um fundo suspiro de satisfao.
Logo depo
is fui para o quarto e desmanchei a vespeira, co
ando a cabea com as duas mos num frenesi; em 
seguida enfiei os ps numas chinelas velhas, tir
ei o vestido
e o colete e vestindo um roupo de
 chita, voltei  sala para contar a Clotilde e O
lga, o sucesso do casamento.
Olga perguntou log
o:
 E ento? Seu vestido fez furor? Foi muito 
apreciado?
Tive pena de dizer que ningum repar
ou em mim, nem no vestido, ento falei toda riso
nha:
# No fez propriamente furor, mas reparar
am nele e vrias senhoras perguntaram onde eu ti
nha feito.
Clotilde riu-se dizendo:
 Logo vi;
 estava mesmo uma beleza. E voc bancou a Maria 
Borralheira?
Hesitei um pouquinho e achei que e
ra mentir muito, ento respondi:
 Ah! Isso no
, Clotilde. Isso  demais. L havia lindos vesti
dos , vindos da Europa, uns prateados, outros do
urados, outros cobertos de
brilhantes...
Impre
ssionadas, minhas duas irms abriram muito os ol
hos diante da minha narrativa e enquanto Jlio e
 os meninos foram se deitar, fiquei no canto da 
sala, falando,
falando sem parar, at onze e me
ia da noite.
No dia seguinte, o jornal trouxe u
ma longa lista de presentes recebidos pelos noiv
os; era mais ou menos assim: "Um colar de prola
s da me da noiva", "um lindo aparelho
de janta
r de porcelana finssima do pai do noivo", "um c
heque do Dr. Fulano de Tal, irmo da noiva", "um
 bracelete de brilhantes e rubis do noivo  noiv
a", "uma
carteira de nix cravejada de prolas 
da noiva ao noivo", "um rico aparelho de jantar 
de porcelana da China da av da noiva",, e no fi
m da lista, havia uma frase
que gostei muito e 
minhas irms bateram palmas quando leram: "Uma b
andeja de prata com copos de cristal do Sr. Jli
o Ablio de Lemos e Senhora".
O jornal dizia qu
e a bandeja era de prata e os copos de cristal, 
o que me encheu de satisfao pois, na loja onde
 comprei, foi o que achei de mais barato em mat
ria
de presentes. Comprei com o dinheiro das mi
nhas economias s escondidas de Jlio e quando e
le leu, sorriu sem dizer nada, sacudindo os ombr
os, como quem diz: O dinheiro
 seu, faa o que
 quiser.
 tarde, as vizinhas vieram saber porm
enores da festa e eu contei tudo o que tinha vis
to e inventei tambm alguma coisa, pois queriam 
saber detalhes que eu no tinha
reparado; Olga 
e Clotilde dobraram o jornal religiosamente para
 levar para mame ler e mostrar a todos em Itape
tininga.
Dois dias depois, Jlio me fez uma gra
nde preleo sobre economia, dizendo que no pod
amos esperdiar dinheiro porque tnhamos o grav
e compromisso da casa e que
o presente que eu h
avia comprado para a neta da tia Emlia, fora um
 desperdcio; seria muito melhor que, com esse d
inheiro, comprasse roupinhas para os meninos;
q
ue os ricos desprezam os pobres e que o presente
 que eu tinha comprado com sacrifcio, seria ati
rado numa prateleira da despensa, ou serviria pa
ra o chofer beber
gua. Olhei Jlio sem replica
r, admirada de tanto egosmo, pois todos os sba
dos ele dizia que tinha balano na loja para min
has irms no desconfiarem e voltava
sempre de 
madrugada completamente embriagado. Eu mesma tir
ava-lhe as roupas para que as crianas no o vis
sem no dia seguinte dormindo vestido e mais de u
ma vez,
encontrei nos seus bolsos, notas de cer
veja, bifes com batatas e ceias entre amigos. Po
dia ter respondido que a ltima nota que encontr
ei, dezessete mil e oitocentos
s de cerveja, d
ava tambm para comprar roupinhas para os filhos
, mas nada respondi com medo do seu gnio impuls
ivo.
Em princpios de janeiro, Olga e Clotilde 
se prepararam para voltar
a Itapetininga; parti
ram levando Carlos e Alfredo para passarem o fim
 das
frias com mame; era a primeira vez que m
e separava dos meus filhos e fiquei to desnorte
ada no primeiro dia que fiquei girando pela casa
 de quarto em quarto sem
saber o que fazer e ac
abei chorando na cadeira de balano, com Isabel 
no colo.
Comecei ento a trabalhar ativamente p
ara ajudar Jlio a pagar a casa; tnhamos pago a
penas cinco contos que foi o que Jlio recebeu p
ela morte do pai; estvamos
devendo ainda vinte
 contos que seriam pagos anualmente durante dez 
anos. Precisvamos pagar dois contos e quinhento
s por ano e isso nos fazia perder o sono muitas


noites, porque, se no fim do ano no tivssemos
 dinheiro para pagar, perderamos a casa e eu di
sse a Jlio que preferiria morrer a perder aquel
a casa e trabalharia
quanto fosse preciso, mas 
a casa seria nossa. Equivalia a um aluguel de 20
8$300 por ms e, como at quela data, tnhamos 
residido em casas de 120$000, essa idia
nos an
iquilava; percorremos todos esses anos com uma 
nica idia no pensamento: "Trabalhar para pagar 
a casa." s vezes eu pensava em quanto seramos 
felizes no
dia em que a casa fosse nossa e no 
tivssemos mais esse pesadelo; seria um grande d
ia.
No fim das frias, os meninos voltaram, mai
s fortes e corados; vieram contando proezas, pri
ncipalmente Carlos que falava muito; Alfredo s 
fazia sim ou no com a
cabea.
Assim foram pas
sando os meses. Eu trabalhava muito, s vezes at
 tarde da noite para entregar uma encomenda no 
dia seguinte e amanhecia sempre com dor de lado 
ou
dor de cabea. Mame escrevia que fosse v-l
a e descansar um pouco, pois ela sabia que eu tr
abalhava muito. Prometi ir nas frias seguintes 
com as crianas: ento
em julho recebi uma cart
inha de Olga contando que estava noiva do Zeca e
 se casariam no fim do ano. Fiquei muito content
e com essa notcia; comprei uma pea de morim
n
a loja onde o Jlio trabalhava e preparei uma su
rpresa para Olga; fiz camisas debruadas com rend
inhas, calas, combinaes e por fim comecei a b
ordar um par de
fronhas para o dia. Tudo isso d
eu muitssimo trabalho porque eu no recusava en
comendas de sapatinhos e paletozinhos pois preci
sava ganhar algum dinheiro.
Um dia o jornal tro
uxe a notcia da morte de uma das filhas de tia 
Emlia; era uma das "meninas", a prima Justina. 
Eu disse a Jlio que precisvamos ir, mas ele
n
o quis, que aquilo era uma xaropada e que iria 
no enterro no dia seguinte. Fui sozinha. Vesti u
m vestido preto e fui depois do jantar para a Ru
a Guaianases; tia
Emlia estava inconsolvel, o
 rosto vermelho e inchado de tanto chorar. Mal f
alei com ela e fiquei sentada num canto, muito q
uietinha. Entravam a todo o momento
pessoas que
 eu no conhecia, atravessavam o salo na ponta 
dos ps e iam falar com tia Emlia que estava no
 centro, ao lado do caixo, rodeada dos filhos e
 parentes.
Fiquei ali uma hora e tanto, depois 
me levantei e fui para outra sala; o ar estava a
bafado e um cheiro forte de flores predominava. 
Nessa sala, a prosa era animada;
conversavam e 
riam; ento me convidaram para ir tomar um caf 
na sala de jantar; havia gente em todos os canto
s da casa e uns conversavam a meia voz, outros e
m tom
alto. Muitas senhoras se encontravam depo
is de no se verem h muito tempo: faziam exclam
aes de alegria e trocavam beijos:  Como vai?


 Vou bem. H quanto tempo no nos vamos?
 N
em sei. Creio que h mais de um ano, desde o cas
amento de Laura. Foi mesmo. Estivemos juntas a 
ltima vez no casamento de Laura.
 Ser possve
l? E como vai Laura?
 Vai bem; com um filho e 
meio. Espera o outro para o fim do ano. Riam-se 
alegremente, depois lembravam-se da morta, e seu
s rostos
tornavam-se consternados, baixavam a v
oz. Mas a prosa continuava:
 E seu irmo como 
vai? Era lcera mesmo que ele tinha?
 Era. Fez
 regime durante muito tempo e est bom. Pelo men
os se livrou de operao. Sabe que quando arrebe
ntou a guerra, ele estava na Europa?
 Que horr
or! Como foi? Como conseguiu fugir?
 Estava na
 Blgica quando ela foi invadida. Em Bruxelas. A
ssistiu todo aquele movimento; esteve a noite in
teira diante do palcio do Rei esperando o Rei d
ar a resposta
aos alemes. O povo todo excitad
ssimo; foi um horror, no podia receber dinheiro
 para embarcar; levou dias esperando; o pas tod
o em expectativa. Era de madrugada
quando o pov
o todo estava em frente ao Palcio e o Rei deu a
 resposta aos alemes: No passaro. Foi um del
rio em toda a cidade, ningum dormiu, todo o mun
do aclamando
delirantemente, o Pedroca assistiu
 tudo.
 No sabia. Depois conseguiu vir?
 Re
cebeu dinheiro e embarcou depois de muitas perip
cias; s vendo o que ele conta. Soube que o Qui
ncas morreu?
 Quem? O Quincas Santos? Sabia qu
e estava doente, mas no que tinha morrido.
 M
orreu na Europa. Lembrei-me dele porque falamos 
na Europa. Morreu tuberculoso, na Sua.
 No 
sabia. Coitado. Mas foi de repente?
 J estava
 doente h muito tempo, h mais de um ano; ningu
m falava nada, guardaram segredo na famlia.

 Tolice guardar segredo dessas coisas. O que adi
antou?
 Pois . Agora a famlia est a e dize
m que eles no esto muito bem de finanas. Pare
ce que os negcios ficaram atrapalhados.
 Eram
 to ricos.
 , mas com dinheiro no se brinca
.
Entravam outras pessoas e tomavam caf que os
 criados serviam. Havia um silncio, depois novo
 sussurro de vozes e exclamaes abafadas. Pergu
ntavam:
 Afinal, de que ela morreu?
E apontav
am disfaradamente o salo. Um dizia:
 No sei
. Dizem que foi do corao.
 Foi sim. Corao.
 H muito tempo estava com uma leso bem adianta
da. Teve vrias sncopes e no voltou da ltima.

 Coitada. Ningum escapa, no?
 Ningum.  
o fim de todos ns.
  verdade.
De repente ou
vi uma voz conhecida atrs de mim:
  Lola? Co
mo vai, Lola? H quanto tempo no via voc.
Era
 tia Elvira, outra irm de meu pai. Era pobre ta
mbm e morava em Santos. Fiquei satisfeita de en
contrar algum com quem falar:
 Oh! Tia Elvira
! Como vai a senhora? E os seus?
 Graas a Deu
s todos bons. E sua me como vai? Continua traba
lhando muito?
Comeamos a falar alegremente sob
re as pessoas da famlia quando ouvimos vozes ch
orosas vindas do salo; baixamos ento a voz e d
epois ficamos quietas. Mas tia Elvira
era incan
svel em saber novidades; queria saber se meu ma
rido estava bem, se ganhava bastante, se a casa 
j era nossa, que idade tinham meus filhos, em q
ue colgio
estavam, qual a qualidade de doces q
ue mame gostava mais de fazer e se tinha encome
ndas todos os dias. De repente, ela parava um po
uco de falar, fazia um rosto
srio, suspirava e
 dizia:
 Coitada da Justina. Sofreu bem.
Seu 
peito subia e baixava com os suspiros que dava; 
era um peito cheio e imponente. Majestoso. Quand
o via um conhecido, cumprimentava sorridente e f
icava sria outra
vez, o rosto tristonho; suspi
rava:
 Coitada da Justina.
Mais tarde, uma da
s netas de tia Emlia nos levou para a copa e to
mamos um prato de canja. Era meia-noite. Ficamos
 l muito tempo, bebendo vinho do Porto e tomand
o
caf. Tia Elvira formou uma rodinha de parent
es e conversou com animao durante mais de uma 
hora; de vez em quando se lembrava de prima Just
ina, e seu peito subia
e descia, arfava em susp
iros tristes.
 uma e meia, quase todos tinham 
se retirado e ficou s uma meia dzia de pessoas
  volta do caixo. As velas nos castiais de pr
ata tremiam de vez em quando como
se um vento i
nvisvel soprasse sobre elas; a cera escorria tr
istemente e formava montes sobre os castiais. 
Ouvia-se o crepitar suave das chamas que ardiam.
 Eu
olhava o rosto da defunta; era um rosto ine
xpressivo como fora em vida; morena, feia, cabel
os brancos, tristonha. Em toda sua vida s tiver
a dinheiro, mas o dinheiro
no compensara a fal
ta de outros bens como a beleza e o amor. No cas
amento no fora feliz, nem infeliz; fora igual a
 tantas outras mulheres. Enviuvara cedo e voltar
a
a residir com a me; no tivera filhos para s
uavizar sua rida e seca velhice. Toda a sua vid
a havia sido plcida como um lago escuro, sem on
das, perdido numa plancie
deserta; e agora ali
 estava deitada entre velas que ardiam mansament
e, as mos cruzadas sobre o peito. A fortuna no
 a defendera da molstia, da infelicidade e da

morte.
O cheiro das flores era to violento s 
vezes que sufocava; algum abriu uma janela atr
s de mim e o ar frio da madrugada comeou a inva
dir o salo e a refrescar
o ambiente, levando p
ara longe o cheiro persistente de flores murchas
.
Convidaram novamente para comer alguma coisa;
 na copa havia um prato de sanduches, bolo e ca
f. Enquanto comia sozinha, lembrei-me de que un
s meses antes ali estivera
festejando um casame
nto; houvera tambm flores, bolos e movimento. E
stava agora diante da morte, mas uma afinidade q
ualquer unia as duas cerimnias, era um ponto
d
e contacto quase impalpvel, mas existente. Em v
ez de parabns, a gente dava psames; em vez de 
rosto alegre, fazia um rosto triste; mas todos p
rocuravam os donos
da casa e diziam umas palavr
inhas, tanto no casamento como na morte. Todos a
pertavam-se as mos, abraavam-se, as mulheres t
rocavam beijos; e sempre flores, muitas
flores.

#Quando o dia chegou e os primeiros bondes com
earam a circular, sa sem falar com ningum e f
ui para casa, descansar. Dormi um pouco; e depoi
s do almoo, Jlio
saiu para ir ao enterro; foi
 de roupa escura, gravata preta, queixando-se de
 que aquilo era uma grande estopada, mas foi.
i
n
E
ASSIM chegou o fim do ano. Preparei-me par
a seguir para Itapetininga; em fins de novembro 
estava tudo pronto e eu tratei da minha viagem. 
Fedi  Durvalina que tomasse
conta da casa na m
inha ausncia, pois Jlio comeria fora, preparei
 minhas crianas, fiz roupas novas para todos, e
 com malas, trouxas, pacotes, e filhos, tomei o


trem para Itapetininga no dia primeiro de dezem
bro de 1915.
A temporada l foi muito alegre po
r causa dos preparativos do casamento que estava
 marcado para o dia 31; tnhamos sempre muitas v
isitas que iam me ver e perguntavam
tanto sobre
 nossa casa da Avenida Anglica como se ela foss
e um palcio. As crianas aproveitavam muito e c
orriam no quintal o dia inteiro, aos gritos; um 
dia Alfredo
caiu de uma ameixeira e torceu o p
. Ficamos muito aflitos e pensamos que tivesse q
uebrado algum osso; eu j estava imaginando de q
ue modo escreveria a notcia a
Jlio, quando o 
Zeca examinou melhor o p e disse que no estava
 quebrado; era uma torcedura. Alfredo teve de fi
car quase uma semana com a perna estendida; resm
ungava
e chorava, furioso por estar preso, mas 
n fim da semana ficou bom e corria como os outr
os.
O vestido de casamento de Olga foi feito nu
ma boa costureira e ficou bem bonito; era de gor
goro, enfeitado de rendinhas. A roupa branca pa
ra o dia foi feita por
ns mesmas e deu trabalh
o porque era toda enfeitada com preguinhas estre
itssimas, muito delicadas. O casamento foi real
izado de manh para os noivos embarcarem
cedo p
ara So Paulo; assim tambm ficou mais econmico
 porque, em vez de mesa de doces, oferecemos um 
chocolate acompanhado de bolos, sequilhos e bisc
oitos de polvilho.
Jlio chegou na sexta-feira 
 noite e a cerimnia foi no sbado pela manh, 
em casa de mame. Nessa noite ningum dormiu qua
se, a no ser as crianas; eu e Jlio
ficamos a
rranjando o altar at depois da meia-noite; puse
mos uma toalha branca bordada sobre uma mesinha,
 depois uns vasos com camlias e jasmins de cada
 lado da
mesinha e no centro um crucifixo de pr
ata, emprestado por tia Candoca, a irm de mame
. Colocamos na parede, at uma certa altura, uma
 toalha branca pregada com
tachinhas e isso dem
orou porque as tachinhas no seguravam a toalha 
e Jlio foi ficando impaciente; ento pregou pre
gos em vez de tachinhas e mame reclamou dizendo

que os pregos rasgariam a toalha e de fato ras
garam um pouco, o que me contrariou bastante.
P
ara tapar os ps da mesa, pusemos outra toalha q
ue ia at embaixo,
com uma renda larga  volta 
toda e no cho colocamos um tapetinho,
empresta
do por uma amiga nossa vizinha. Depois disso, fu
i engomar o
vestido de Isabel e passar a camisa
 de Jlio, pois durante o dia no tivera tempo p
or causa do casamento civil e outras coisas. Enf
im fui me deitar s duas horas
da manh e acord
ei de madrugada com o barulho de mame fazendo b
iscoitos de polvilho no forno de barro; queria q
ue fossem quentinhos para a mesa. s seis e meia
,
todos j estavam de p e eu fui vestir as cri
anas; comecei por Carlos, depois Alfredo, Julin
ho e Isabel. Cada um que eu aprontava, punha sen
tado no sof da sala
e dizia: "Fique quieto a 
e no se mexa".
Ficaram mais ou menos quietos; 
Isabel parecia um repolhinho porque era gorda e 
com o vestido branco bem engomado e armado, pare
cia um repolho ou uma flor. Depois
Clotilde e e
u fomos vestir e pentear a noiva; de vez em quan
do, eu ouvia uma vozinha na sala:
 Mame, Juli
nho saiu do lugar e est passeando na sala. Eu g
ritava do quarto:
 Julinho, assim voc no ass
iste  festa. Depois a voz de Julinho:
 Mame,
 Alfredo quer dar em Carlos; esto querendo brig
ar porque Carlos chamou Alfredo de Fedo.
Eu apa
recia na porta da sala:
 Fiquem quietos, seno
 acabam apanhando.
Depois ouvi o choro de Isabe
l; furiosa porque Carlos disse que ela parecia u
ma couve-flor. Os outros comearam a gritar:
 
A banda est tocando! Olhe a banda: Ta-ra-ta-chi
m-chim-chim! Todas as vezes que Isabel chorava, 
diziam que a banda estava tocando
e imitavam o 
choro dela. Pedi a Jlio:
 Pelo amor de Deus; 
tome conta das crianas.
Jlio estava pronto e 
sentou na sala, esperando os convidados; as cria
nas estavam assanhadas e levantavam a todo mome
nto para espiar na porta da rua e ver quem
cheg
aria primeiro. De repente gritaram:
 Olhe o Ze
ca! O Zeca vem vindo! Olhe o noivo!
O Zeca entr
ou um pouco nervoso, enfiado numa roupa preta, o
s cabelos lustrosos, botinas novas, gravata nova
.
No quarto, Olga estava quase pronta; quando c
olocamos o vu, ficou muito bonita, mas um pouco
 plida; passamos ento carmim nas faces e ficou
 muito melhor, com um
aspecto alegre e saudvel
.
A cerimnia realizou-se s nove horas, entre 
pessoas ntimas e parentes; compareceram os pais
 e irmos do Zeca, nossa tia Candoca e os filhos
, o tio de Jlio e umas
quatro amigas de Olga. 
Correu tudo muito bem mas o padre fez um sermo 
um pouco longo; quando terminou, todos estavam c
ansados e suando por causa do calor e das
velas
 do altar. Mame enxugava as lgrimas que teimav
am em correr dos seus olhos, misturados com suor
; todos estavam com um ar solene e comovido. Fom
os depois 
salinha de jantar e servimos um vin
ho do Porto para beber  sade dos noivos; depoi
s oferecemos caf e chocolate com bolos. Quando 
os convidados comearam a se retirar,
Olga troc
ou o vestido de noiva por um vestidinho de viage
m azul-marinho com gola branca, enquanto o Zeca 
tambm foi trocar de roupa. s onze e pouco, emb
arcaram
para So Paulo, alegres e cheios de esp
eranas.

Embarcamos no dia seguinte e depois 
de uma viagem fatigante, quente e poeirenta, che
gamos a So Paulo; as crianas perguntavam de ci
nco a cinco minutos: "Ser que
ainda no chegam
os? Falta muito ainda?"
Nossa casa deu-nos a im
presso de um osis num deserto rido cheio de a
reia e calor; estava fresca, limpa e agradvel. 
Os meninos comearam a correr de um lado
a outr
o numa grande satisfao. Durvalina estava senta
da nos degraus da escada, esperando. Fomos para 
a cozinha preparar um jantar rpido e como eu ha
via trazido
alguma coisa de Itapetininga, em me
ia hora estava tudo pronto. Tomamos banho de chu
veiro e sentamos para o jantar; enquanto comamo
s, comentvamos o casamento
de tia Olga e a via
gem.
Dias depois, Olga e Zeca passaram por So 
Paulo, de volta da lua-de-mel em Santos. Jantara
m conosco e estavam to contentes e fazendo tant
os planos risonhos
para o futuro que pareciam d
uas crianas, apesar de no serem j to jovens.

Depois desse acontecimento, continuamos a mesm
a rotina de sempre; Jlio na loja de fazendas e 
eu com meus trics. Nesse princpio de ano, elev
aram Jlio a gerente
da loja e isso foi maravil
hoso para ns. As crianas compreenderam que o p
ai tinha escalado um lugar mais importante na lo
ja e ficaram orgulhosas, principalmente
os dois
 mais velhos; eu me lembro que esse inverno foi 
muito longo e rigoroso. Ns nos reunamos todas 
as noites na sala de jantar e ficvamos conversa
ndo; Jlio
proibiu os meninos de brincarem na c
alada nessas noites geladas de inverno, quando 
a garoa cinzenta caa como um vu sobre toda a c
idade, envolvendo as casas, as
rvores e os lam
pies de gs em silenciosa melancolia.
Eu ajuda
va Carlos e Alfredo a fazerem as lies para o d
ia seguinte, enquanto Isabel dormia no colo do p
ai, toda enrolada como um novelo de l, e Julinh
o cochilava
no meu colo, dizendo que no queria
 dormir porque a cama estava fia.
Assim passava
m as horas; Jlio ia deitar-se mais cedo com os 
dois menores e eu ficava ainda mais um pouco, co
nversando com Carlos e Alfredo. Ficava admirada 
de ver
Carlos conversar e achava que ele tinha 
uma inteligncia viva e compreendia tudo rapidam
ente. Dizia que ia ser mdico, enquanto Alfredo 
no dizia nada, ou ento
hesitava um pouco e ac
abava dizendo que queria ser mecnico e saber li
dar com automveis; adorava os automveis, achav
a-os impressionantes. Dizia s vezes:
 Imagine
, mame! Um carro que anda sozinho!
Eu sorria o
uvindo os planos dos dois; uma noite Carlos perg
untou:
 Mame, papai  rico?
Respondi que no
 ramos ricos, mas estvamos bem e no futuro pod
amos ficar ricos. Alfredo fez um risinho malici
oso e falou:
 Ento se papai fosse rico, ns 
amos a p para a escola, bobo? Carlos ficou verm
elho e disse que muitos pais podem ser ricos e n
o
mandar os filhos de automvel para a escola 
e que pobres tambm no ramos, porque tnhamos 
uma bela casa, a mais bela casa daquele pedao d
a Avenida. Alfredo retrucou 
imediatamente:
 
A casa no  nossa; estamos pagando, mas ainda n
o  nossa. No , mame?
Respondi que sim e fi
quei admirada de Alfredo estar a par dos nossos 
negcios, pois pensei que ele nada soubesse. Car
los no desanimou e continuou:
 Papai no  ri
co hoje, mas pode ter uma oportunidade e ficar r
ico. Levantei os olhos do meu trabalho e encarei
 Carlos; fiquei orgulhosa
nesse momento vendo-o
 empregar to bem a palavra oportunidade; pensei
 que poucos meninos daquela idade saberiam to b
em a significao.
Quando nos deitvamos, eu fi
cava pensando na conversa de meus filhos e custa
va a conciliar o sono, querendo imaginar o que o
 destino tinha reservado para cada um
deles; im
aginava Carlos um grande mdico, atendendo solc
ito a numerosa clientela, enquanto nas conversas
 e nos chs, as senhoras elegantes comentavam di
scretamente:
 Um mdico que est com uma grand
e fama  o Dr. Carlos de Lemos; parece que  Car
los Ablio de Lemos. J ouviram falar?
Outra se
nhora respondia:
 J sim, pois ele curou meu i
rmo e nenhum outro mdico tinha acertado ainda 
com a doena dele.  formidvel.
Eu ouvia inter
essada, depois uma sussurrava qualquer frase e t
odas olhavam para mim; uma perguntava:
 Ah! A 
senhora  me de Dr. Carlos? No sabia, pois dou
-lhe os parabns, seu filho  um grande mdico.


Eu sorria como que me desculpando de ser me de
 uma celebridade e no queria ficar orgulhosa, m
as ficava; sentia ento o rubor se estender no m
eu rosto, apesar da
conversa ser apenas na imag
inao.
Depois meu pensamento ficava cheio de s
ombras quando pulava de Carlos para o futuro de 
Alfredo. O que seria, quando fosse grande? Era u
m menino esquisito, to indiferente,
parecia de
siludido. E o pior  que no queria estudar, no
 queria nada. Queria ficar o tempo todo na rua, 
brincando e correndo com moleques. No gostava d
e livros,
nem de ficar sossegado no quintal com
 os irmos; vivia correndo com os outros meninos
 na rua e seus amigos eram sempre os piores do b
airro. Eu ficava pesarosa quando
via Alfredo en
tre esses meninos; eram todos moleques sujos, de
scalos, fumando tocos de cigarro encontrados no
 cho, dizendo nomes feios, cuspindo entredentes
 e
apostando para ver quem cuspia mais longe, d
e lado e sibilando. Uns chamavam os outros por m
eio de assobios estridentes e agudos e todos tin
ham apelidos: Vira-mundo,
Raio negro, Silencios
o. Alfredo era o Silencioso.
Tinham fisionomias
 cansadas e cnicas, pareciam velhos. Por mais q
ue eu pedisse e aconselhasse, Alfredo estava sem
pre com eles.
De vez em quando Carlos vinha me 
contar em segredo que Alfredo tinha quebrado um 
vidro na casa da esquina, ou tinha dado uma surr
a to grande num outro menino que
o menino fica
ra machucado. E Alfredo era forte e grande; com 
oito anos apenas, parecia ter doze.
Eu ficava c
heia de apreenses e procurava esconder essas pe
raltagens do pai, o mais que podia. Minhas censu
ras e meus ralhos de nada valiam e ele crescia c
ada vez
mais desobediente e mais sabido.
Muita
s noites eu ficava acordada uma hora inteira, ap
esar de cansada, pensando no futuro de meus filh
os, sem poder dormir. Achava que Julinho daria u
m rapaz sossegado
e estudioso, pois era um gran
de amigo dos livros. Apesar de no saber ler, fi
cava no quintal horas inteiras, sentado no caix
o de querosene, com o livro sobre os
joelhos, q
uerendo adivinhar o que estava escrito. E tinha 
o esprito do negcio; tudo o que podia vender, 
ele vendia: pregos velhos, jornais, garrafas, la
tinhas
vazias. Gostava de guardar dinheiro; Jl
io chamava-o de banqueiro.
E Isabel? Com quem s
e casaria? Imaginava um bom marido para Isabel e
 por mais que pensasse e pensasse, nunca estava 
satisfeita, pois nenhum marido me satisfazia.
A
ssim passaram mais uns anos e chegamos ao fim de
 1918.
Todas as crianas ficaram doentes, foi u
m tempo horrvel para ns. Tiveram gripe forte e
 eu tinha que passar horas e horas com Julinho n
o colo, com medo que ele
se afogasse no acesso 
de tosse. Tossia muito, parecia que o peito ia a
rrebentar; chorava de aflio e engasgava com a 
tosse. Um dia que as outras crianas tambm
est
avam doentes, com febre alta e eu ficara sozinha
 em casa, pois Durvalina fora para a casa da me
, Julinho perdeu o flego e virando a cabea par
a trs, ficou
vermelho e sem respirar. Olhei  
minha volta num desespero, sem saber o que fazer
; sacudi o menino com fora e dei-lhe uns tapas 
nas costas. Nada. Estava cada vez
mais roxo e n
o respirava. Tive de repente uma inspirao; vi
 a vassoura imunda num canto da sala, arranquei 
depressa uma vareta da vassoura e sem pensar, en
fiei
na boca do menino, fazendo ccegas na garg
anta. Com isso, ele vomitou violentamente, passo
u a aflio e recomeou a respirar outra vez. Re
parei depois que a vassoura
estava preta de suj
eira, mas no momento no lembrei de nada. Dei gr
aas a Deus de ter sido apenas um susto.
Jlio 
tambm caiu com gripe forte; eu andava de quarto
 em quarto, dando remdios, tomando a temperatur
a e fazendo chs que vomitavam depois; ningum q
ueria comer
e eles ficavam numa prostrao hora
s e horas. No sei como atravessei esse tempo te
rrvel sem ter nada; e foi uma felicidade, pois 
pude tratar de todos; havia dias
que eu no and
ava, me arrastava de chinelas pela casa, indo de
 quarto em quarto, tal a fraqueza e o desnimo q
ue sentia. Morreu muita gente de gripe esse ano;
 e
uma netinha de D. Genu, uma criana de dois 
anos, morreu tambm em poucas horas. Durante tod
a noite, eu ouvia o choro lamentoso da me na ca
sa vizinha; s vezes
parecia que no era gente,
 eram uivos de cachorro. Jlio gemia:
 Pelo am
or de Deus, Lola.  horrvel isso. Por que ela c
hora assim? A gente fica mais doente ouvindo iss
o.
Eu respondia:
 Meu Deus, o que voc quer q
ue eu faa? Como posso proibir a me de chorar a
 filha morta? Quer que eu v l e diga: "No cho
re assim porque incomoda os vizinhos.
Jlio est
 aborrecido". Que absurdo!
Jlio resmungava, v
irava a cabea para o lado com mau humor e tapav
a os ouvidos com as mos para no ouvir o choro 
desesperado da vizinha.
No fim da temporada m,
 quando pensamos que tudo estivesse acabado, Isa
bel caiu com pneumonia. Nem gosto de lembrar do 
que sofri; passava as noites ao lado dela,
toma
ndo a temperatura de meia em meia hora; levei-a 
para outro quarto para deixar Jlio sossegado, p
ois ele se queixava de que precisava trabalhar e
 no podia perder
as noites. O mdico vinha tod
os os dias e no gostava do estado da menina; s
 depois de passada a primeira crise, ela comeou
 a melhorar e a temperatura baixou.
O peitinho 
no sibilava mais quando respirava e comeou a d
ormir mais calmamente, sem se queixar de dodi n
as costas. O primeiro dia que a vi sentada numa 
cadeirinha
no quintal, plida e magra, mas salv
a da
molstia, fiz uma promessa de ir a p  Pe
nha e levar uma vela para Nossa Senhora.
Esse a
no foi duro para ns; tivemos que pagar a conta 
do mdico, farmcia e, como atrasei com meus tri
cs, quase no pudemos pagar a prestao da casa
. Jlio ficou
de um mau humor terrvel e passav
a semanas sem falar comigo como se eu tivesse a 
culpa de tanta infelicidade. Penso que ele fez a
lguma dvida porque perdia o sono
muitas noites
 e eu o via sempre to preocupado e aborrecido q
ue tive pena. Na mesa, brigava com as crianas p
or qualquer motivo e fazia-as chorar.
No fim do
 ano, recebemos um carto de Olga e Zeca partici
pando o nascimento da primeira filha; e uma cart
a de mame convidando-nos para ir com as criana
s passar
as frias em Itapetininga. Apesar da v
ontade que tive de ir, no falei nada aos menino
s, nem mostrei a carta a Jlio porque sabia que 
ele ficaria indignado se eu
falasse em viagem d
epois de tantas despesas. Assim passamos as fri
as em So Paulo, numa grande economia. Trabalhei
 muito e no sa de casa durante meses para no


gastar dinheiro em bondes e outras coisas. O Na
tal foi bem triste esse ano; as crianas ganhara
m brinquedos de papel e fiz apenas um bolo para 
festej-lo.
Outro inverno chegou e passou; e ch
egaram outras frias de dezembro. Mais uma vez n
os apertamos para pagar a prestao da casa; pag
amos. E outro ano comeou. Esse
passou rapidame
nte, depois outro e mais outro, todos iguais. Ou
tras casas comearam a aparecer no nosso quartei
ro, como dizamos, e a nossa j no estava isol
ada
como antes. Cada vez mais bonita por causa 
do jardim. O canteiro de cravos ficou florido e 
a trepadeira roxa se encheu de flores. At a ros
eira choro que Jlio
plantou um dia com carinh
o, deu rosas esse ano e as crianas espiavam tod
os os dias pela janela, bem cedo, e vinham me co
ntar:
Mame, hoje tem mais um cacho de rosas do
 lado do escritrio. Venha ver.
Cada um queria 
ser o primeiro a dar a notcia. Foi ento que Ca
rlos, o mais velho, fez doze anos. Eu ficava olh
ando Carlos e achando quase inacreditvel j ter
 um
filho de doze anos. Ele era forte, tinha bo
a altura, apenas magro. Tirava boas notas na esc
ola e nunca nos dava aborrecimentos.
Alfredo n
o passou de ano e o professor escreveu uma carta
 com queixas contra ele; dizia at que dava maus
 exemplos na classe. Quis esconder a carta de J
lio, mas
no consegui e quando ele a leu, viu q
ue Alfredo fora reprovado e ainda havia srias r
eclamaes contra ele. Pegou o menino, levou-o p
ara o quintal e deu-lhe uma
grande sova com a p
rpria cinta. Cada grito de Alfredo, era uma pon
tada em meu peito, como a ponta de uma faca; eu 
torcia as mos sem saber se devia intervir ou
n
o. Depois que tudo passou, fui procurar Alfredo
 que estava chorando, sentado na cama da Durvali
na; reparei que no era um choro sentido, era de
 raiva e falava
em vingana. Percebi que ele es
tava fervendo de dio contra o pai. Passei minha
 mo nos seus cabelos, abracei-o aconselhando e 
dizendo que tudo era para o bem dele,
mas o men
ino estava revoltado e no queria
me ouvir. Ped
i que prometesse ser bom e ajuizado, estudar mai
s e no andar com os moleques, mas ele nada prom
eteu. Com os dentes cerrados, chorava de raiva e
 tremia.
Deixei-o mais tarde e fui tratar do me
u servio;  hora do jantar, ningum sabia onde 
estava Alfredo. Havia desaparecido. Os irmos pr
ocuraram-no por toda a vizinhana
e ningum o t
inha visto nesse dia. Sentamos para jantar muito
 apreensivos, e olhei Jlio que comia com a cabe
a baixa, preocupado. Depois fui ficando cada ve
z mais
aflita; deixando Isabel com o pai sa co
m Carlos e Julinho para procurar Alfredo em toda
s as casas que ele costumava ir. Andamos pelo ba
irro todo, at bem longe
e ningum vira Alfredo
. Pensei que ele j devia estar em casa nesse mo
mento; voltamos apressadamente e em casa tambm 
ele no estava. Comecei a chorar, sentada num
c
anto da sala, pensando que a essa hora meu filho
 devia estar morto; e meus soluos eram cada vez
 mais fortes. Jlio andava de um lado para outro
, sem saber o que
fazer. De repente, ps o chap
u na cabea e disse que ia  Polcia saber se h
avia notcias do menino. Acompanhei-o ao porto,
 explicando:
 Diga na Polcia que ele est com
 cala azul-marinho e blusa branca. No esquea 
de dizer que no tem doze anos ainda, mas parece
 que tem.  bom dizer tambm
que tem umas quatr
o sardas bem na ponta do nariz.  claro, at alo
irado; forte e bonito. No esquea Jlio. E v d
e txi para ir mais depressa.
Jlio saiu sem na
da responder e eu fiquei com os outros filhos na
 janela, vendo meu marido sumir na esquina. Eram
 nove horas j.
As crianas ficaram ao meu lado
, excitadas pelo acontecimento, sem querer dormi
r, comentando o desaparecimento do irmo. s onz
e horas, Julinho e Isabel dormiram
nas cadeiras
 da sala; levei-os para o quarto. Ficamos Carlos
 e eu esperando ansiosamente. s onze e vinte mi
nutos, Jlio voltou dizendo que na Polcia no h
avia
aparecido menino algum dessa idade e que a
t aquela hora nada se sabia a respeito de Alfre
do. Sentei desanimada numa cadeira e, com a cabe
a apoiada nos braos,
fiquei durante muito tem
po imaginando tudo o que havia de pior e que pod
ia ter acontecido a Alfredo. Via seu corpo esmag
ado sob um bonde; de repente, via-o morto
no Ri
o Tiet, o rosto inchado e irreconhecvel, desli
zando entre as guas do rio, no meio de galhos e
 folhas secas; depois o chamado na Polcia para 
a identificao.
Homens desconhecidos  nossa v
olta e o delegado perguntando, penalizado:
  
este o menino?
Reagia procurando afastar esses 
pensamentos, mas eles voltavam de novo, imperios
amente. Jlio com as mos nos bolsos, passeava n
a sala de um lado a outro; de vez
em quando che
gava  janela do escritrio e ficava olhando a A
venida durante longo tempo. Assim passaram as ho
ras; Carlos adormeceu sobre o sof da sala e qua
ndo
eu quis lev-lo para a cama, acordou dizend
o que queria esperar o irmo, mas levei-o assim 
mesmo e obriguei-o a se deitar. s duas da manh
, sentei-me num dos degraus
da escada que dava 
para o jardim e fiquei imvel, esperando, no meu
 desespero pedia a Deus que trouxesse meu filho 
de novo; rezava misturando as palavras sem compr
eender
o que estava dizendo e na minha reza vi 
sempre seu corpo estendido numa calada, o crni
o esmagado.
s trs da manh, Jlio comeou a s
e desesperar, dizendo que eu era culpada; que se
 fosse mais enrgica, ele no fugiria, e que eu 
estragava a educao dos filhos
com os mimos qu
e dava; que no se pode fazer
a vontade das cri
anas como eu fazia e o resultado era esse. Eu e
nterrava a cabea entre os braos com vontade de
 gritar, mas no respondia. Ele ento ps o chap
u
na cabea e saiu a p pela Avenida afora, po
is no havia bondes a essa hora. Fiquei no port
o vendo seu vulto desaparecer entre as rvores l
 embaixo; e cada vez
que via uma criatura huma
na se aproximar de mim, pensava que era Alfredo 
e meu corao batia furiosamente, mas nunca era 
ele. s cinco horas, vi Jlio chegar devagar,
c
ompletamente desorientado, o chapu inclinado pa
ra trs da cabea, as mos nos bolsos, um cigarr
o apagado no canto da boca. Estava lvido, grand
es olheiras sob
os olhos; perguntei com o cora
o apertado:
 Nada, Jlio?
Olhou-me duramente
, a fisionomia cansada e infeliz, e sentando-se 
no sof, respondeu entredentes:
 Nada.
Fui en
to me arrastando para a cozinha, sem saber o qu
e pensar da nossa vida, completamente aniquilada
 pela aflio; encontrei Durvalina j de p, tam
bm aflita
por notcias, assoprando o fogo para
 a gua do caf. Comeou a falar:
 No desanim
e, D. Lola. Isso  coisa de menino; ele  muito 
levado mesmo, mas ele volta. A senhora vai ver. 
E tudo por causa da sova, foi muito forte.
Debr
uada sobre o fogo, assoprava o fogo muitas vez
es, as bochechas negras muito luzidias, enquanto
 uma leve chamazinha azul comeava a crescer e o
 cheiro da lenha
queimada enchia a cozinha. Fiq
uei esperando o caf, sem coragem de mover um de
do, encostada na porta da cozinha, olhando sem v
er e sem coragem de enfrentar o olhar
de Jlio,
 duro e colrico sobre mim.
Depois do caf, vol
tei novamente para a sala e vi Jlio cochilando 
no sof, plido e desfigurado, os ps sobre outr
a cadeira; passei sem fazer rudo e cheguei ao

porto. Vrias carrocinhas de padeiros e leiteir
os subiam e desciam a Avenida; pessoas saam de 
suas casas e iam esperar o bonde na esquina. J 
eram seis e pouco
quando meu corao deu um sal
to no peito; vi meu filho Alfredo que se aproxim
ava segurando a mo do padrinho, um amigo nosso,
 em casa de quem iam jogar bola aos
domingos. M
eus olhos ficaram nublados de lgrimas e mal dis
tingui os vultos que se aproximavam cada vez mai
s. Nem sei como gritei para dentro:
 Jlio, Al
fredo vem vindo.
Quando chegaram ao meu lado, v
i que Alfredo estava trmulo, muito plido e seu
s lbios tremiam. O padrinho comeou a falar, ma
s eu nada ouvi; abracei meu filho com
toda a fo
ra e chorei:
 Ah! Meu filho! Meu filhinho!
J
lio desceu compassadamente a escadinha de cimen
to, como a pensar em cada degrau, que atitude to
maria; Alfredo ento se afastou de mim, e ficou 
esperando o pai,
a cabea baixa, um ar medroso,
 sem uma lgrima nos olhos, os lbios apertados.
 O padrinho falava e explicava, mas eu nem ouvi 
o que ele dizia, tal a satisfao em
ter Alfred
o ao meu lado, com perfeita sade. A nica coisa
 que entendi  que o padrinho pediu para no bat
ermos no menino; que ele tinha aparecido s cinc
o e meia
em casa dele, cansado de andar a noite
 inteira pela cidade, sem rumo e arrependido de 
ter fugido. Alfredo tinha um ar amedrontado e tr
istonho.
#Jlio olhava-o severamente, sem nada 
dizer, mas no ntimo, percebi que estava content
e e aliviado por ver o filho novamente em casa. 
Entramos todos e eu sempre
segurando o brao de
 Alfredo como se tivesse medo que ele fugisse ou
tra vez. Os irmos apareceram desconfiados, sem 
saber se falavam ou no com ele; vi Carlos rindo

para o irmo e Durvalina trazendo o caf na ba
ndeja com um alegre sorriso na boca sem dentes. 
Depois do padrinho ter a promessa de Jlio que n
o bateria no menino,
despediu-se e saiu. Jlio
 voltou do porto, um ar grave e indignado. Perg
untou ao filho:
 Por que fez isso? Agora voc 
vai dizer por qu.
Alfredo com a cabea baixa, 
nada dizia: imvel como uma pedra. Falei:
 Dig
a, Alfredo. Por que fugiu? No pensou que nos de
ixava desesperados? Fale, meu filho.
Ele no fa
lava, cada vez mais silencioso e imvel; percebi
 que o pai ia perder a pacincia e fiquei aflita
. Pedi:
 Responda alguma coisa, Alfredo. Onde 
voc foi?
Nada. Seu mutismo era desesperador. E
nto Jlio perdeu a pacincia; puxando-o por uma
 orelha, arrastou-o pela sala, dizendo:
 Antes
 no tivesse voltado. Voc  um filho que s d 
desgosto e aborrecimento. Ouviu? Desobediente e 
malcriado.
Corri atrs de Jlio, gritando:
 V
oc prometeu no bater nele; voc prometeu, Jli
o.
Procurei tirar o menino das mos de Jlio, m
as Jlio segurava-o fortemente; Alfredo comeou 
a gritar e procurou morder a mo do pai. Carlos 
olhava a cena com olhos
esbugalhados, enquanto 
os dois menores comearam a chorar. Segurei ent
o violentamente o brao de Jlio e gritei:
 N
o faa isso. Voc est louco? Ou  um homem sem 
palavra? Que exemplo d a seus filhos?
Ele larg
ou Alfredo, mas antes de largar deu um safano n
o menino com tanta fora que Alfredo foi parar n
o outro lado da sala, caindo de joelhos. Quase b
ateu a cabea
na ponta da mesa. Corri para acud
ir o menino e ver se ele no estava ferido, enqu
anto Jlio saa da sala, ainda furioso e vermelh
o de raiva.
Alfredo passou vrios dias num muti
smo absoluto, muito desapontado, sem falar e sem
 brincar com os irmos, sumido no quintal ou fec
hado no quarto.
Como prmio s boas notas de Ca
rlos e pelo fato de ter passado de ano brilhante
mente, mandamo-lo passar as frias em Itapetinin
ga, com mame. Foi sozinho, convencido
de que e
ra um homem, com uma maleta na mo, cheio de imp
ortncia. Levei-o at  estao e enchi-o de rec
omendaes e conselhos at o momento do trem com
ear a rodar.
Alfredo tinha me pedido uns dias 
antes que o deixasse ir tambm para Itapetininga
, mas eu disse que no; o pai no deixaria porqu
e estava desgostoso com as notas
dele, e nem pe
disse que seria intil. Tive pena de meu filho, 
mas nada falei a Jlio. E Alfredo passou umas f
rias muito tristes, sempre na rua brincando com 
os
moleques sujos e dizendo nomes feios aos pr
prios irmos. Os pequenos me contavam;
 Mame,
 Alfredo me xingou de galinha morta.
Galinha mo
rta era o nome carinhoso que Alfredo dizia quand
o brincava com os irmos, porque geralmente os n
omes eram verdadeiramente imprprios. Isabel e J
ulinho
choravam s vezes e vinham se queixar:

 Mame, Alfredo me deu um tapa e me xingou.
Po
r mais que eu ralhasse, Alfredo no se importava
; parece que queria vingar-se por no ter sado 
nas frias e tornava-se cada dia mais insuportv
el. Entrava em
casa nas horas das refeies e p
ara dormir; mas quando sabia que o pai no vinha
 almoar ou jantar, ele tambm no aparecia. Com
o era diferente de Carlos, o mais
velho; Carlos
 mandava cartinhas que me enterneciam; comeavam
 sempre por: "Minha querida mame", e meu cora
o parecia derreter de amor, como cera mole na pr
oximidade
do fogo. Contava tudo o que fazia e d
izia que ajudava a vov e tia Clotilde a mexerem
 o tacho de doce sob as mangueiras. E que a filh
a de tia Olga era uma belezinha;
j queria fica
r de p e falava: D, d, com os bracinhos esten
didos para ele.
Passaram dezembro e janeiro; em
 fevereiro, Carlos voltou forte, disposto e at 
me pareceu um pouco mais gordo. Mame veio com e
le para consultar o mdico, o que
me deixou mui
to triste, pois ela estava bem magra, tinha uma 
cor esverdeada e uma dor insuportvel nas costas
. Levei-a a um mdico conhecido nosso e ele diss
e que
s com operao ela ficaria curada; mame
 tinha horror a operao e comeou a chorar dian
te dele. Fomos ento a outro mdico que conheca
mos apenas de nome, mas
tinha muita fama. Este 
disse que ela no precisava fazer operao, bast
ava repouso e tratamento para ficar boa. Ela sai
u de l mais animada, porm preocupada com
a pa
lavra  repouso. Disse-me:
 Como posso fazer r
epouso, Lola? Deu uma risadinha e continuou:
 
Se eu no trabalhar, como viver? Imagine se eu f
icar deitada o dia inteiro, sem fazer nada; voc
 pensa que Clotilde d conta? No tem perigo. N
s duas juntas
trabalhando sempre, muitas vezes 
ficamos apertadas no princpio do ms, faa idi
a se eu ficar parada dias e dias; no que dar?

Suspirou profundamente, e arrematou:
 Como  t
riste a vida de pobre!
Fiquei tambm triste por
 no poder auxili-la e resolvemos consultar um 
terceiro mdico; mame no queria, dizendo que o
 gasto j era excessivo, mas Jlio lhe fez
pres
ente do dinheiro da consulta, generosamente. Ess
e terceiro mdico pronunciou um  talvez  que n
o adiantou muito. Disse que talvez no precisas
se operar, se
ela fizesse muito repouso e um tr
atamento rigoroso. Ela gostou da palavra tratame
nto e, comprando os remdios indicados, voltou u
ma semana depois para Itapetininga,
dizendo que
 preferia morrer a fazer operao.
Logo depois 
recebi uma carta de Clotilde dizendo que mame n
o ia nada bem; continuava a sentir dores e no 
fazia quase repouso, por mais que Olga e Clotild
e pedissem.
Emagrecia dia a dia e estava sempre
 se queixando. Fiz meus clculos para ir visit-
la nas outras frias com as crianas; e assim co
rreu mais um ano da nossa vida.
De vez em quand
o eu ia visitar tia Emlia na Rua Guaianases e e
la tambm me visitava uma vez por ano. H tempos
 j que no tinha carruagem; comprara um grande 
automvel
preto que fazia sucesso por onde
pas
sava. Brilhante e imponente; mas quando comeava
 a rodar, soltava uma fumaa escura e fedorenta.
 Alfredo ficava o tempo todo examinando o autom
vel detalhadamente,
quando a limusine parava em
 frente  nossa casa; era uma alegria para ele c
onversar sobre maquinismos, principalmente de au
tomveis. Nessa poca, Isabel que se aproximava


dos oito anos, tambm entrou na escola; eu me l
embro to bem do primeiro dia que ela foi, to e
ntusiasmada e to contente, com uma saia preguea
da azul-marinho e
blusinha branca de fusto, na
 cabea, um grande lao de fita vermelha. Com a 
idade, j no era to gorda, mas era bonita; as 
faces rosadas e os cabelos castanhos
muito bril
hantes. Levou na pasta po com goiabada, uma can
eca, lpis e caderno. Voltou tagarelando muito, 
contando maravilhas da professora e das outras m
eninas.
Quando eu perguntei, curiosa:
 Ento 
o que fez na escola?
Ela me respondeu, entusias
mada, os olhos cintilantes de contentamento:
 
Comi o lanche que voc me deu.
Achei graa e ab
racei-a rindo muito. Apesar de me sentir sozinha
 algumas horas do dia, tambm me sentia orgulhos
a por v-los interessados nos estudos e discutin
do
muitas vezes problemas ou lies de Histria
 e Geografia. Um perguntava para o outro:
 Sab
e quando o Brasil foi descoberto?
 Sei. Quem n
o sabe? Em 1500.
 E a descoberta da Amrica q
uando foi?
 Em mil quatrocentos e... espere um
 pouco...
 Ah! Sabe, hein?
 Sei sim. Espere 
um pouco.
 Quando a gente sabe, no precisa es
perar. Ento diga o que  uma ilha?
 Uma por
o de terra cercada de gua por todos os lados.

 E um cabo?
 Um cabo?
O outro hesitava, coa
ndo a cabea; bastava isso para tomar vaia dos i
rmos:
 No sabe! No sabe! Mame, ele no sab
e nem o que  um cabo!
Alfredo ficava sempre de
 lado, sempre indiferente, com um ar enigmtico.

Nesse tempo, como eles j estavam crescidos e 
no me davam muito trabalho, eu saa algumas noi
tes com Jlio para ir ao cinema; geralmente aos 
domingos, quando Durvalina
ficava em casa. Uma 
segunda-feira, Jlio e eu comentamos  noite a f
ita assistida na vspera; tnhamos acabado de ja
ntar e eu estava auxiliando Durvalina a tirar
a
 mesa quando Jlio disse que achara a fita imora
l. Respondi:
 No deixa de ser mesmo imoral, m
as  uma boa fita.
 E l estava cheio de crian
as e mocinhas; deviam avisar que a fita era imo
ral, assim s os grandes iam, disse Jlio.
Os m
eninos escutavam, interessados em nossa conversa
; Julinho perguntou:
 Mame, o que  imoral?

No respondi e peguei a toalha da mesa para sacu
dir na janela, enquanto dizia a Jlio:
 H gen
te que no se importa de levar as crianas e as 
filhas pra verem fitas imorais. Conheo muita ge
nte assim.
Julinho tornou a perguntar, curioso,
 puxando-me pelo brao:
 O que  imoral, hein,
 mame?
Isabel, que ouvia tambm com interesse,
 olhou Julinho e disse, impaciente :
  doena
, Julinho.
Jlio e eu rimos muito com a respost
a de Isabel e tempos depois, Jlio ainda pergunt
ava com ar brincalho:
 Isabel, o que  imoral
?
Ela ficava vermelha e no respondia.
Chegou 
o fim do ano com graves preocupaes para mim. E
screviam de Itapetininga que mame ia cada vez p
ior; eu tinha medo que faltasse dinheiro para a 
prestao
da casa e que Alfredo no passasse de
 ano na escola. Ele dizia que estudava, mas eu p
ercebia que no pegava num livro e quando lhe pe
dia com voz pesarosa:
 Estude um pouco, Alfred
o. Por favor, v estudar. Ele respondia com m-c
riao:
 J estudei, j estudei.
Ia embora, b
atendo com os ps no cho e fechava a porta com 
fora para no ouvir minhas censuras.
Para aume
ntar minhas apreenses, houve uma epidemia de ca
xumba em setembro desse ano e minhas crianas fo
ram as primeiras a ficar doentes. Os rostos inch
aram e elas
no dormiam de dor; eu passava hora
s e horas no quarto e no dia seguinte estava exa
usta e no podia dar conta das minhas encomendas
, o que me deixava triste e com
dor de cabea. 
Felizmente chegou dezembro e com grande esforo 
pagamos a casa; Alfredo passou arranhando para o
 terceiro ano e Carlos tirou o diploma do Grupo 
Escolar
com brilhantes notas.
Preparei uma mes
a de doces e bolos e mandei Carlos convidar os a
migos para festejar o acontecimento. Na vspera,
 enquanto estava batendo os bolos, ouvi tapas no

quarto e uma forte discusso. Isabel apareceu 
muito assustadinha dizendo que Carlos e Alfredo 
estavam se socando; corri para acudir e consegui
 separ-los, dando
uns tapas em cada um. Carlos
 dizia vermelho e suando:
 No admito, ouviu? 
No admito esse desaforo. Alfredo respondia, ind
ignado:
 Deixe de ser besta. Voc  a maior be
sta que eu j vi.
Carlos ento olhou para mim e
 explicou, ainda ofegante e furioso:
 Mame, e
le quer trazer os amigos dele para comer os doce
s; so todos moleques da rua, no sabem nem come
r na mesa. Eu toco eles daqui.
Alfredo tentou a
vanar outra vez, gritando:
  mentira, mame.
  mentira desse estpido. So to bons quanto v
oc; so melhores ainda.
Consegui acalm-los, p
ondo Carlos fora do quarto e ralhei com Alfredo 
dizendo que a festa era s para Carlos e os amig
os; ele no devia intervir; mandei que ficasse

no escritrio de castigo at o pai chegar.
Perc
ebi que logo depois Alfredo estava brincando na 
calada com os moleques; fingi que no vi porque
 no adiantava e ele no me obedecia mesmo.  ho
ra do jantar,
ele entrou com um arzinho cnico,
 evitando olhar para meu lado e jantou muito bem
.
# noite, enquanto o sono no chegava, comece
i a recordar os conselhos que papai me dera quan
do me casei:
 Eduque os filhos com critrio, L
ola. Quando voc disser para uma criana: tem qu
e ficar hoje meia hora de castigo,  preciso que
 essa criana fique meia hora de
castigo; no s
e esquea disso que  importantssimo. Assim, qu
ando voc prometer um passeio ou um doce, precis
a cumprir, seno se desmoraliza diante do filho,
 ele
no obedece mais porque no cr em voc e 
l se vai por gua abaixo a fora moral que  a 
maior fora que temos. E nunca prometa demais; n
em castigos muito fortes
de que possa se arrepe
nder depois, nem passeios ou promessas que voc 
sabe que no pode cumprir. No se esquea disso 
so fatores principais na educao de um filho.


Meditando nessas palavras da experincia ouvida
s h tantos anos atrs, pensei com certa tristez
a que Alfredo com onze anos apenas no me obedec
ia, fugia aos castigos
e no dava ateno s mi
nhas palavras. Eu sabia que papai tinha razo, p
ois fora professor numa escola rural durante mui
tos anos e depois diretor. Em trinta e tantos
a
nos de sua vida, s vira crianas diante de si e
 s convivera com crianas; crianas de vrias r
aas, de vrias origens, de vrias cores e de v
rias religies.
Fora um mestre-escola eficiente
 e honesto, sempre elogiado pelos pais dos menin
os e elevado no conceito dos inspetores que visi
tavam a escola. Diziam dele:  um
verdadeiro pe
dagogo.
dias depois fui com as crianas a Itape
tininga para passar um ms de frias. Uma verdad
eira festa a nossa viagem; uma semana antes as m
alas e pacotes j estavam
prontos e colocados n
o sof da sala de jantar. De vez em quando, um s
e lembrava que se esquecera de colocar qualquer 
coisa, corria e desmanchava malas e pacotes
par
a pr o objeto esquecido; assim Isabel colocou a
 boneca de pano com protestos veementes de Julin
ho que havia acabado de arrumar tudo de novo por
 causa de uns
sapatos velhos. Carlos queria que
 eu levasse presentes para a av e as tias; dizi
a toda hora: "Mame, no se esquea dos presente
s".
Chegou o dia da viagem; Jlio nos acompanho
u  estao, prometendo que iria nos buscar, se 
pudesse. Durante todo o percurso, as crianas es
tavam excitadas, falavam
e riam o tempo todo, p
ois agora eram maiores e apreciavam mais as viag
ens; e depois, h mais de dois anos no deixvam
os So Paulo.
A chegada a Itapetininga foi outr
a festa; estavam todos esperando com ansiedade; 
achei mame muito magra e abatida, mas jurando q
ue se sentia melhor. A crianada
comeou logo a
 correr pelo quintal e a subir nas rvores fazen
do uma gritaria insuportvel. Mame olhava tudo 
com um riso paciente e um olhar bondoso, enlevad
a pelas
peraltagens dos
netos
Confidencialmen
te, Clotilde me contou que achava que mame no 
ia viver muito; apesar dos remdios e do tratame
nto, definhava dia a dia, e no queria falar em 
fazer
operao. Olhei pra minha irm meio desan
imada e ela me olhou tambm; ficamos apreensivas
 com a perspectiva de perder mame; no disse na
da, mas pensei o que seria
de Clotilde se mame
 morresse. No falamos mais no assunto e ficamos
 um tempo quietas, cada uma com seus pensamentos
. Depois resolvemos ir ao quintal onde estavam

as crianas; antes de ir, abri a mala e tirei as
 roupas dos meninos. Ouvi no quarto vizinho, Clo
tilde dizer a Isabel que vinha correndo l de fo
ra:
  melhor voc pr outro vestido, Isabel. 
Esse pode rasgar-se com as brincadeiras.
 No 
rasga, tia Clotilde. Eu tenho cuidado.
 Mas n
o custa nada vestir outro; at deixa voc mais a
 vontade para subir nas rvores e brincar de peg
ador.
No. No precisa; e depois eu quero que r
asgue este vestido, no gosto dele. Pode rasgar.

 No diga isso! Sua me no pode dar tantos v
estidos para voc.  preciso economizar; vista a
quele mais velhinho.
 No visto; eu quero acab
ar com este aqui. Clotilde se irritou:
 No se
ja teimosa e vista este, Isabel.
Houve um siln
cio, depois a voz de Clotilde outra vez:  Vamos
, voc precisa obedecer sua tia; vista este. A v
oz de Isabel respondeu, furiosa: >
 A senhora 
no manda em mim.
 Como no? No sou sua tia?


 Mas a senhora no manda, v mandar nos seus f
ilhos.
Apareci na porta do quarto e encarei Isa
bel; estava vermelha, um ar carrancudo e com os 
braos cruzados, no queria pegar o vestido que 
Clotilde estava dando. Falei
com voz autoritri
a:
 Vista o vestido, Isabel.
Como ela no fiz
esse um movimento, dei-lhe um tapa no brao:
 
J disse que vista o vestido.
Ela continuou im
vel; os olhos enormes fuzilavam de raiva; ento 
Clotilde e eu tiramos o vestido dela  fora e v
estimos o outro. Falei:
 Agora fique a de cas
tigo meia hora.
Ela foi para o canto do quarto 
e continuou imvel, sem chorar; de repente repar
ei que levantava os ombros em sinal de pouco cas
o e dizia uma palavra. Clotilde sorriu
e abaixo
u a cabea, disfarando; eu me aproximei de Isab
el para ouvir o que ela resmungava, mas Clotilde
 disse:
 Deixe essa menina tola e malcriada, v
enha descrever o resto da viagem. Ento encontro
u o Benevides e a mulher?
Sentei na beira da ca
ma e comecei a falar do casal Benevides; Isabel 
continuou a levantar os ombros e a murmurar. Con
tei que tinha achado a mulher do Benevides bem

bonitinha, e parece que com novidade; Clotilde c
onfirmou com a cabea e sorriu, dizendo: quarent
a e cinco. Perguntei admirada:
 Quarenta e cin
co o qu? A idade dela? Impossvel; nem dele. Cl
otilde me fez um leve sinal com uma expresso ri
sonha no rosto.
Continuei a conversar; terminad
o o assunto "Benevides". percebi que
Isabel con
tinuava do mesmo jeito. No me importei e comece
i a falar de outras pessoas conhecidas, at que 
se passou um bom quarto de hora e mandei Isabel 
brincar
no quintal. Clotilde ento deu uma gran
de risada, ficou at com os olhos midos; pergun
tei:
 O que foi?
 Sabe quantas vezes Isabel 
disse burra? Cem vezes, Lola! Tive a pacincia d
e contar. Ela levantava o ombro e dizia  burra.
.. burra. E eu fui contando: falou
cem burras e
 cem levantamentos de ombro.
Fiquei horrorizada
:
 Ser possvel? Afinal no  para admirar; 
 o gnio do pai, Clotilde. Igualzinho. Nunca vi 
uma pessoa teimosa como Jlio. Sabe que pimenta 
faz mal,
come pimenta todos os dias.  desses q
ue morrem teimando. Mas o que Isabel fez  desaf
oro; vou bater nela.
Levantei-me para sair, mas
 Clotilde me segurou pelo brao:
 No v. Ela 
modifica com a idade. Deixe.
 Mas no posso de
ixar;  de pequenino que se torce o pepino. E de
pois tem a fora do sangue que no ajuda.
Cloti
lde riu, procurando apaziguar:
 As crianas s
o assim mesmo; com o tempo vo criando juzo. Ma
s foi estupendo ouvir os cem burras.
Assim conv
ersando, fomos ao quintal. Mame estava sentada 
numa cadeira baixa  sombra das mangueiras; e as
 crianas corriam  volta. A tarde ia escurecend
o lentamente
e o sol se infiltrava ainda atrav
s da folhagem, mas era um sol moribundo, dispers
ando a ltima claridade do dia. Tinha sido um di
a quente de dezembro e toda a natureza
parecia 
sentir tambm o calor e acompanhar a trajetria 
do sol, respirando agora com delcia a frescura 
da noite que chegava de manso, como se viesse na
 pontinha
dos ps, sorrateira e desconfiada, en
tre sussurros e suspiros. Fazia lembrar uma conv
ersa ntima entre mulheres bonitas e perfumadas,
 trocando confidncias de amor
a meia voz e mur
murando segredinhos entre sorrisos velados e olh
ares misteriosos cheios de langor.
Ficamos ali 
uns instantes conversando enquanto as crianas c
ontavam, todas ao mesmo tempo, as novidades enco
ntradas no quintal; eram as mangueiras carregada
s de
mangas, uma rvore nova que no conheciam,
 a parreira de uvas brancas com os dois primeiro
s cachos maduros e as galinhas-d'angola que dizi
am o dia inteiro: To fraca,
to fraca. Queriam s
aber por que as galinhas falavam assim e custei 
a convencer Julinho da minha ignorncia.
Entram
os todos vagarosamente e fomos jantar na cozinha
 como fazamos sempre, para que a sala ficasse a
rrumada.  noite, Olga e o marido foram nos visi
tar; eu no
via Olga desde o casamento; achei-a
 mais gorda e bonita. Para auxiliar o marido, co
ntinuava a lecionar no Grupo Escolar; contou que
 a filhinha j tinha um ano, estava
forte e eng
raadinha, j falava e andava regularmente. Depo
is contou que estava esperando outro filho para 
o ms de maio.
No dia seguinte fui ver a filhin
ha de Olga, achei-a viva e esperta. Tive vontade
 de ter uma criancinha nova outra vez nos meus b
raos; mole e gordinha, cheirando 
talco e com 
uma touquinha de renda na cabea, olhando para m
im curiosamente e sorrindo com a boca vermelha e
 desdentada.
Assim entre visitas, prosas longas
 sob as mangueiras, auxiliando Clotilde a fazer 
doces para vender, entre os gritos e as brincade
iras das crianas e uns goles de
caf com bisco
itos de polvilho no intervalo das conversas, pas
sou rapidamente o ms de dezembro.
 noite, qua
ndo havia s os de casa, eu fazia o meu tric e 
assim adiantei bem minhas encomendas. Tive vonta
de de ficar ainda o ms de janeiro mas recebi ca
rta de
Jlio dizendo para voltarmos; estava ach
ando falta nas crianas e Durvalina quase no pa
rava em casa porque a me estava doente e ela ia
 e vinha, deixando a casa
abandonada horas inte
iras. Alarmada com a carta, resolvi voltar imedi
atamente; quando mame soube da minha resoluo,
 no me animou a ficar, disse que eu devia mesmo

ir; e mais tarde fui encontr-la chorando no e
scuro, sentada na cama, a cabea branca entre as
 mos trmulas. Fiquei muito triste e chorei tam
bm; ela ento me disse
que a doena a deixara 
assim, chorando  toa, mas no era nada.
Dois d
ias depois, abracei-a e parti com as crianas; e
la ficou no porto de casa sacudindo a mo para 
mim, o rosto triste e o olhar profundamente saud
oso. Embarquei
com o corao magoado e apesar d
a algazarra das crianas durante a viagem, no p
ude esquecer o olhar de mame sobre ns, no mome
nto da despedida.
Em So Paulo, Jlio nos esper
ava na estao e quando viu Isabel descer do tre
m com muito desembarao, trazendo sob o brao um
a cestinha com goiabas que tia Clotilde
lhe der
a, abraou-a com carinho e no largou mais a mo
zinha dela, pois por mais que ele negasse, Isabe
l era sempre a predileta.
Suspirei com satisfa
o quando entramos novamente em nossa casa e no 
dia seguinte, reiniciamos a vida de sempre.
Log
o no dia seguinte, estava abrindo as malas e col
ocando as roupas nas gavetas quando ouvi discuss
o e rudo de luta no quarto de Alfredo. Corri p
ara l e vi Carlos
e Alfredo aos tapas e socos;
 separei-os com dois empurres perguntando se n
o tinham vergonha de brigar assim, sendo to cre
scidos. Ento Carlos contou, ofegante,
que Alfr
edo tinha trazido ovos de passarinhos do quintal
 de mame, alm de ter matado muitos outros com 
estilingue que levara; e que um menino que desma
ncha os ninhos
dos pssaros  um menino mau, se
m corao e ele no admitia um irmo assim. Alfr
edo sorria e fechava as mos para dar outro soco
 em Carlos.,; Carlos abriu sobre'
a cama o paco
te de ovos; havia grandes e pequenos, pintadinho
s de vrias cores, todos ocos e furados, sem nad
a dentro, prontos para serem colecionados; estav
a furioso,
com lgrimas na voz:
 Veja, mame.
 Isso  malvadeza. Olhe estes de sanhao e estes
 de tico-tico. Que estpido! Eu vi ele matando p
assarinho e fiquei quieto para no brigar, mas

no sabia que tinha desmanchado tanto ninho.
Re
criminei Alfredo asperamente; mas ele sorria ind
iferente e virando-se para Carlos, perguntava, s
apateando no quarto, nervoso como um galo de bri
ga:
  seu o passarinho, seu besta? O que voc
 tem com isso? Olhe mame, diga para esse idiota
 que no se intrometa na minha vida.
E avanou 
novamente para Carlos. Peguei Carlos por um bra
o e arrastei-o para fora do quarto. Voltei para 
ralhar com Alfredo e disse que fizesse desaparec
er os ovos
e censurei-o com severidade. Ele sac
udiu os ombros sem responder; logo depois ouvi a
 batida do porto da rua; era Alfredo com o paco
te de ovos. Pensei: "Com certeza
vai vender os 
ovos aos moleques".
E creio que foi mesmo porqu
e no os vi mais.  noite, depois do jantar, Car
los contou ao pai a matana que Alfredo fizera e
m Itapetininga; Jlio mal escutou, censurou
um 
pouco Alfredo e continuou a ler o jornal.
Carlo
s desapontou: Alfredo comeou a fazer caretas pa
ra ele dizendo baixinho: "Bem feito, bem feito".

Jlio era assim: algumas vezes quando o caso n
o requeria grandes penas, perdia a cabea e rep
reendia duramente; outras vezes quando devia pas
sar um bom sermo ou
dar um castigo aos meninos
, dizia duas ou trs palavras e encerrava o inci
dente. Outras vezes ainda, por causa de um lpis
 quebrado, falava uma hora inteira. Por
isso eu
 me sentia s na educao dos filhos; e no tinh
a fora bastante para conter os mpetos dos quat
ro. A paixo de Jlio era Isabel; para Isabel er
a tudo: doces,
balas, dinheiro, carinhos. Eu pr
ecisava chamar a ateno dele, dizendo: "Jlio, 
d aos outros tambm". Ento ele dava, mas nunca
 com boa vontade.
Um novo ano comeou e as aula
s foram reiniciadas; tratamos de colocar Carlos 
no Ginsio do Estado. Jlio tinha um amigo que c
onhecia um dos lentes do Ginsio e por
intermd
io desse amigo conseguimos que Carlos entrasse. 
No primeiro dia ele veio trazendo o programa e a
 lista dos livros, envaideci-me ao v-lo to con
centrado
e to seriamente dedicado aos estudos.
 Estudava s tardes quando voltava e muitas veze
s s noites tambm. Prometia ser timo aluno e J
lio e eu nos sentamos felizes
com esse filho.
 Em abril, recebemos uma carta da me de Jlio d
izendo que ela e a filha solteira viriam passar 
uma temporada conosco. Residiam em Belo Horizont
e
e vinham de vez em quando a So Paulo; corres
pondamo-nos raramente. Chegaram em maio; instal
ei-as no quarto dos neninos e transferi os menin
os para o quarto de 
costura
que no recebia o
 sol no inverno.
Maria, a irm mais moa de Jl
io j andava pelos trinta anos; no era bonita, 
mas atraente e simptica. Gostava muito de passe
ar'e queria que eu sasse com ela todos
os dias
; queria ver tambm todas as fitas novas dos cin
emas. Fui atrasando as encomendas de tric mas n
o me importei muito pensando recuperar o tempo 
perdido depois
que elas partissem. Passou-se ma
is de um ms e no falavam em partir. Eu no tin
ha tempo de prestar ateno nos estudos dos meni
nos e percebi que Alfredo no estava
freqentan
do a escola. Quando eu ralhava, ele sacudia os o
mbros e saa assobiando com a mo no bolso, o qu
e me deixava furiosa. No segundo ms, aconteceu 
o inevitvel:
Durvalina ficou doente durante ma
is de uma semana e eu tive de fazer todo o servi
o. Fiquei cansadssima; alm da limpeza da casa
, tive que cozinhar; experimentei
pedir comida 
numa penso, mas vi logo que minha sogra no com
ia, achando defeitos
no arroz, dizendo que a ca
rne era de segunda e assim comeou a passar a ca
f com po. Jlio me chamou a ateno:
 Lola, 
voc viu que mame no come nada?  preciso faze
r alguma coisa em casa. Ela est acostumada a pa
ssar bem e creio que nunca comeu de penso; em n
ossa
casa, no h luxo, mas tudo  muito bem fe
ito porque  mame quem faz; e mame  uma admir
vel dona de casa.
Fui ento para a cozinha: lo
go no primeiro dia ningum me auxiliou a lavar o
s pratos e panelas; fiquei arrumando sozinha at
 tarde, enquanto minha sogra se fechou
no quart
o e Maria ficou na janela, vendo os bondes passa
rem. Apenas tiraram a toalha da mesa, sacudiram 
na janela e levaram a loua para a cozinha. No s
egundo e
terceiro dias, a mesma coisa. Maria vi
via ocupando as crianas com coisas insignifican
tes:
 Isabel, me traga um copo d'gua, sim? Ou
 ento:
 Isabel, meu bem, voc quer ajudar tit
ia a estender as camas? s vezes era Julinho:

 Benzinho, v ver quem est batendo, sim? Eu no
 posso ir agora. Os dois mais velhos escapuliam 
como podiam; Alfredo vivia na rua
vagabundeando
 e Carlos dizia que precisava estudar e ficava h
oras inteiras sem sair do quarto. No fim da sema
na, no agentei mais e disse a Jlio, depois do
 almoo:
 No posso mais, ningum me auxilia e
 estou cansadssima. Sua irm vive na janela e s
ua me, ou est no quarto descansando, ou conver
sando com D. Genu no porto.
Assim tambm  dem
ais! No sei se agentarei.
Jlio riu, um riso 
irnico, mordaz:
 Logo vi que voc ia dar o ba
sta; voc e sua gente so fracas mesmo. Eu queri
a que voc visse quando mame era moa, da sua i
dade; cozinhava para todos ns, limpava
a casa 
que era uma beleza, mas ficava mesmo uma beleza.
 O soalho brilhava que se podia ver, no  como 
este aqui que at d vergonha. Ainda costurava t
oda a roupa
da casa, pergunte a Maria. Isso sim
  dona de casa!
Senti o sangue subir ao meu ro
sto e fiquei furiosa, disposta a discutir. Repli
quei:
 Ento voc no teve sorte em se casar c
omigo; voc  um infeliz, um pobre infeliz. Eu s
ei que no valho nada, s sua gente  que presta
.
 E presta mesmo. Presta muito mais que a sua
; suas irms vm aqui s para passear  bater pe
rna na rua o dia inteiro. Que fazem? Voc diz qu
e elas ajudam
no tric, mas nunca vi elas pegar
em numa agulha; e nunca vi pegarem numa vassoura
 e varrerem a casa para suavizar o servio da Du
rva. E no se esquea que minha
me vem poucas 
vezes aqui e quero que ela seja muito bem tratad
a, no quero que faa nada. Ouviu? Nada. Ela vei
o para descansar e no quero que lave um copo.

Falou dirigindo-se para a porta, ento gritei:

 Est bem. Mas no sou sua escrava, nem de sua 
gente. Se a Durva continuar doente, vou arranjar
 outra empregada, nem que seja para pagar cem mi
l-ris.
E no admito que fale das minhas irms 
Entendeu?
#Ele ainda respondeu com ironia:
 
? S isso? Falo quando quiser falar; e se arranj
ar outra empregada, no se esquea que eu no pa
go. Pague voc.
Bateu a porta com fora e foi e
mbora. Fiquei me contendo no quarto, depois fui 
 cozinha acabar de lavar os pratos do almoo. E
stava ainda nesse servio quando Isabel
entrou 
na cozinha; no fora ao Grupo esse dia porque es
tava com dor de barriga, tinha comido mexerica v
erde. Falou com um arzinho assustado:
 Mame, 
eu vi um automvel parar aqui, acho que  tia Em
lia da Rua Guaianases.  um automvel grande, p
reto, com...
Interrompi-a com um grito, o cora
o aos pulos:
 Tia Emlia? Meu Deus, o que eu 
fao?
Lembrei que a sala estava em desordem por
que eu no tinha tido tempo de arrumar, olhei de
sesperada para minhas mos sujas, cheirando a ce
bola e para meu vestido
velho todo manchado de 
gordura; nisso ouvi umas batidas fortes no port
ozinho de ferro. Isabel, radiante com a novidade
, saiu aos pinotes pelo corredor afora, fazendo


um barulho. Chamei-a:
 Isabel! Isabel!
E co
rri atrs dela; mas ela no me atendeu. Fui pedi
r  minha sogra que fosse receber tia Emlia; ba
ti na porta do quarto, mas ningum respondeu. El
a no estava;
gritei por minha cunhada, mas no
 ouvi resposta. Nesse momento, bateram mais fort
emente no porto e meu corao deu uma reviravol
ta no peito. Corri para meu quarto
para ver o q
ue podia fazer; lembrei que minhas mos estavam 
cheirando cebola, corri para o banheiro e lavei-
as; voltei correndo para o quarto e nisso ouvi v
ozes
na sala e percebi que tia Emlia j havia 
entrado. Tirei o vestido velho e vesti outro que
 estava dependurado atrs da porta; na pressa de
 enfi-lo pela cabea,
um colchete enroscou no 
meu cabelo e s consegui tir-lo  custa de muit
o cabelo arrancado. Abotoei o vestido rapidament
e, mas no podia ter escolhido pior, pois
era c
heio de botes de presso, daqueles bem miudinho
s; resolvi abotoar um sim, outro no, e depois d
e ter passado um pente nos cabelos e espalhado p
-de-arroz no
rosto, fui afobadamente para a sa
la, ainda abotoando os colchetes do punho. Encon
trei tia Emlia e prima Adelaide conversando cal
mamente com minha sogra, enquanto
Isabel encost
ada na cadeira da av, olhava com olhos espantad
os as visitas importantes. Desculpei-me pela dem
ora, mas tia Emlia disse que encontrara minha s
ogra
no porto da vizinha e haviam se apresenta
do. Disse que Isabel era muito educadinha e a re
cebera muito bem. Fiquei aliviada e comeamos a 
conversar; tia Emlia queria
saber quantos filh
os minha sogra tinha, onde moravam e o que fazia
m. Depois falou sobre os Lemos; conhecia a nomen
clatura de todos os Lemos, desde 1700 e tudo o

que j me contara vrias vezes, repetiu  minha 
sogra. Comeava sempre assim:
 H os Lemos de 
Melo, os Lemos de Almeida, os Lemos de Brito... 
Conheci uns Lemos de Brito numa viagem que fiz p
ela Europa. No lembra, Adelaide? Ficamos at
m
uito amigos.
Prima Adelaide confirmava com a ca
bea e tia Emlia continuava.
 H tambm outro
s Lemos; deixa ver se me lembro... J sei, so o
s Lemos de Arruda. O seu Lemos deve ser Faria Le
mos, no .
- Conheci um Faria Lemos h muitos 
anos, famlia de Minas
Quando acertava, ficava 
radiante e continuava a enumerar todos os Lemos 
que conhecia, e custava mudar de assunto. Levant
ei-me mais tarde dizendo que ia fazer um
cafezi
nho, mas tia Emlia estendeu o brao, num gesto 
arrogante; estava proibida de tomar caf. Pergun
tei ento se queria tomar um licor de leite muit
o fraco feito
em casa. Aceitou distraidamente, 
enquanto prima Adelaide comeou a falar sobre li
cores feitos em casa; disse que sabia fazer um d
e cacau, to saboroso como os estrangeiros;
min
ha sogra foi apressadamente buscar um lpis e pa
pel para tomar nota da receita. Tomamos licor de
 leite e falamos depois sobre pessoas conhecidas
. Uma hora depois,
levantaram para sair; Isabel
 correu na frente, imaginei logo que foi avisar 
a vizinhana. Enquanto tia Emlia e a filha entr
avam, no automvel, vi as filhas de D.
Genu na 
janela, a cortininha branca da casa de D. laia s
e mexer, era ela que estava espiando; e uma outr
a vizinha de lado tambm chegou  janela. O auto
mvel partiu
entre adeuses, lanando uma fumaa
 escura e roncando muito, entre a admirao da v
izinhana alvoroada.
 noite, quando Jlio che
gou, Isabel correu para contar a novidade da vis
ita; dizia com olhos arregalados: "Um automvel 
batuta, grande, preto, brilhante..." Eu
estava 
na cozinha fazendo o jantar quando Jlio chegou 
com uma lngua defumada e me deu, disfaradament
e, como quem no quer; depois mandou os meninos 
todos me auxiliarem
na limpeza da cozinha; a ir
m vendo isso, foi me ajudar tambm e s oito ho
ras, tudo estava pronto; fomos ento assistir a 
uma fita no Royal. Por sinal que foi uma
boa fi
ta e fiquei contente comigo mesma.
Dois dias de
pois, Durvalina veio trabalhar e tudo se normali
zou de novo. Em fins de julho, minha sogra e min
ha cunhada voltaram para Belo Horizonte e ficamo
s ss
outra vez; antes de partirem, fomos fazer
 um passeio a Santos. Foi num sbado e dias ante
s as crianas s falavam nisso, pois nunca tinha
m visto o mar. Fiz
uns cales para eles tomare
m banho e levamos uma cesta com coisas para come
r; foi um verdadeiro piquenique na praia. Nunca 
poderei esquecer a reao que cada
un deles sen
tiu quando viu diante de si a imensido azul do 
mar. Quando o bonde ia chegando na praia pela Av
enida Ana Costa, Isabel foi a primeira a se mani
festar;
ficou de p, os olhos cintilantes, os c
abelos soltos sacudidos pelo vento da praia, col
ocou as duas mozinhas no peito num gesto de adm
irao incontida e gritou,
comovida:
 Mame!


Foi um grito espontneo, sincero, natural; asso
mbrada com o que via, no achou outras palavras 
para expressar melhor o sentimento de alegria, a
dmirao e assombro
diante do inverossmil, do 
inacreditvel.
Descemos do bonde no Gonzaga; os
 meninos continuavam calados num mutismo teimoso
 de quem tem medo de falar qualquer coisa errada
. Jlio ento alugou uma cabine e
as crianas v
estiram os cales; correram para o mar, dando g
ritinhos de alegria. De repente, Alfredo abriu o
s braos diante do mar ficou assim um minuto par
ado,
de calo azul, as pernas fortes um pouco 
abertas, os ps fincados na areia, recebendo em 
pleno corpo a brisa morna e salgada, e gritou en
to com toda a fora:
 O ma.
A admirao foi 
demasiada, esqueceu o r; parecia querer abraar 
o mundo todo; o cu, o mar. as ondas, as montanh
as verde-azuladas  djreita e os navios perdidos

ao longe, na linha do horizonte... Depois saiu
 correndo e entrou nas primeiras espumas, jogand
o gua por todos os lados, com os braos e as pe
rnas. Rimos todos.
Julinho no disse nada e qua
ndo Jlio perguntou:
 Ento que tal o mar? Ele
 respondeu com evasivas:
  bem grande, papai.
 E onde esto os navios que o senhor disse. Carl
os quis mostrar superioridade e disse com um ar 
displicente.
 O mar? Ora! Eu j vi tanto em ci
nema!
Fiquei pensando em como  misteriosa a na
tureza humana; quando pensamos que conhecemos a 
alma dos nossos filhos, suas vontades, seus gost
os, suas reaes, suas debilidades,
vemos que e
stamos longe da verdade; no conhecemos nada, es
tamos diante do inexplicvel. Mesmo sondando com
 tato e cautela, deparamos sempre o desconhecido
 e ficamos
surpreendidos diante do inesperado.


Passamos a tarde na praia; depois do almoo, as
 crianas brincaram de amarelinha, jogaram bola,
 fizeram castelos na areia, sem vontade de deixa
r aquele paraso;
quando um vento frio comeou 
a soprar e a tarde foi escurecendo, tratamos de 
voltar. As ondas eram mansas e vagarosas, como s
e tivessem preguia; desfaziam-se lentamente,
u
ma em perseguio  outra numa continuidade semp
re igual; os meninos procuravam conchinhas numa 
sofreguido para ver quem encontrava maiores e m
ais bonitas. Tomamos
o bonde para a estao; qu
ando o trem comeou a subir a serra, Isabel reco
stou a cabea no ombro do pai e dormiu; j era n
oite escura e uma neblina cerrada encobria
tudo
. Os meninos vinham sonolentos e pesarosos por t
er terminado o passeio e ao chegar em casa, toma
ram caf com leite com restos do bolo que sobrou
 do almoo e
foram dormir canadssimos, mas com
 os coraes alegres.
No dia seguinte, Carlos e
 Alfredo tiveram uma gripe muito forte; Jlio di
sse que foi o passeio a Santos, mas como dias an
tes eles estavam espirrando muito, creio
que fo
i porque dormiram durante todo o inverno no quar
to de costura. A gripe foi violenta e pensei que
 tivesse pneumonia em casa outra vez, mas felizm
ente tudo passou;
fiquei muito cansada e as des
pesas cresceram com o mdico e os remdios.
Olg
a escreveu anunciando o nascimento de um filho e
 contando que mame no estava passando bem, viv
ia quase sempre deitada, sem poder trabalhar e C
lotilde trabalhava
duplamente, o que dava pena.
 Fiquei apreensiva e penmei em ir a Itapetininga
 logo que pudesse.
Assim chegou o fim do ano; e
m dezembro tivemos a satisfao de ver Carlos pa
ssar para o segundo ano ginasial com as melhores
 notas; Julinho e Isabel tambm passaram
de ano
 no Grupo; s Alfredo tomou bomba. No gosto de 
lembrar o que sofremos Jlio e eu, ao v-lo to 
vadio, desobediente e malcriado. Jlio quis bate
r com a cinta
outra vez, dizendo que s uma boa
 sova podia endireitar Alfredo; eu dizia que no
, era ainda pior. Chegamos a discutir muitas vez
es e no nos conformvamos com ter
um filho ass
im, to pouco amigo dos estudos e dos deveres fi
liais. Eu procurava consolar meu marido.
 Ele 
fica bom.  muito criana ainda e no sabe o que
 faz. Ele ainda endireita; e depois no tem por 
quem puxar na ruindade, tem que ficar bom.
Jli
o no dizia nada e passava as mos na cabea, de
sconsoladamente. s vezes suspirava:
 Qual! J
 perdi as esperanas.
Eu o encorajava, mas no 
ntimo, achava Alfredo to esquisito, com um ar c
nico e indiferente, e no tinha tambm muita es
perana no futuro dele. Tive que p-lo num
quar
to sozinho, pois brigava tanto com os irmos que
 no era possvel continuarem juntos. Como no h
avia outro quarto na casa, voltou para o quarto 
de costura; ficou
radiante de ter um quarto s 
para ele; pregou uma poro de figurinhas na par
ede e colocou sobre a mesinha da cabeceira, uma 
coleo de conchas e outras bugigangas.
Proibiu
 os irmos de entrarem no quarto sem licena esp
ecial e s para Isabel fazia uma exceo de vez 
em quando. Estvamos em fins de dezembro. Dois d
ias depois
do Natal, recebi um triste telegrama
: "Venha. Mame muito mal".
SENTI o corao esp
remido e uma leve falta de ar; fiquei desnortead
a ao princpio, sem saber bem o que fazer porque
 estava sozinha em casa, s com a Durva. Corri

para o meu quarto e coloquei alguma roupa na mal
eta escura, pensando: "ela morreu... ela morreu.
.. ela mor..." Lembrei de pr um vestido preto t
ambm, mas a mala
era to pequena que no cabia
, ento fiz depressa um embrulho separado, grita
ndo ao mesmo tempo:
 Durva! Durva!
Durvalina 
veio correndo do quintal, onde estava lavando ro
upa, um ar assustado; mostrei o telegrama dizend
o que ia partir no trem das quatro e pedi que ol
hasse as
crianas e explicasse tudo a Jlio. El
a queria que eu tomasse um caf forte antes de s
air, mas eu disse que no dava tempo e tomaria n
a estao; ela foi para a cozinha
fazer o caf 
e disse que os da estao nunca so to bons com
o os de casa. Quando eu j estava pronta, aparec
eu com uma xcara de caf forte e fumegante que-
 tomei
afobadamente, no momento de sair. Queime
i a lngua na pressa de beber e despedi-me dela,
 saindo correndo para tomar o bonde que j ia de
scendo a Avenida. No fim
da Avenida, tomei um t
xi porque vi que no dava tempo de alcanar o t
rem e apenas tive tempo de comprar a passagem e 
correr para entrar no trem; parece que ele
esta
va esperando, pois comeou a rodar com estrpito
, soltando um insuportvel cheiro de carvo que 
me entrou pelo nariz. Durante toda a viagem fui 
pensando: ela
morreu.. ela morreu... ela morreu
...
Em Sorocaba, entrou no meu vago uma pessoa
 conhecida que veio falar comigo; conversamos li
geiramente e contei o motivo da minha viagem. Em
 Boituva, entraram outros
conhecidos e me cumpr
imentaram;
#eu no estava com vontade de conver
sar, ento abri a bolsa e recostando a cabea pa
ra trs, fiquei segurando o leno de encontro ao
 nariz, os olhos fechados como
se estivesse sen
tindo enjo. Quando vi, estvamos em Itapetining
a; estranhei no encontrar ningum na estao, d
epois me lembrei que no podiam adivinhar a hora

da minha chegada. Quando desci do automvel em
 frente da nossa velha casa e estava tirando o d
inheiro para pagar o chofer, uma vizinha chegou 
 janela e me cumprimentou.
Pelo cumprimento qu
e me fez, percebi que no havia mais esperana. 
Sempre que essa vizinha me via chegar, dizia, mu
ito alegre:
 Olhe a Lola! Como foi de viagem? 
Que crianada bonita! E como ela tambm est bon
itona, ora vejam s!
E sabia tudo o que se pass
ava na casa de mame, pois costurava perto da ja
nela o dia inteiro e espiava toda a vizinhana; 
quando se queria alguma informao sobre
qualqu
er assunto, era s perguntar  D. Carola-
 D. 
Carola, o homem da mandioca j passou?
 No. H
oje no  dia; ele passa trs vezes por semana t
eras, quintas e sbados. Hoje  quarta-feira.

 Ah! Muito obrigada. Ou ento:
 D. Carola, n
o sabe se os Brito j se mudaram?
 No ainda; 
eles iam se mudar ontem, mas amanheceu chovendo 
e deixaram para hoje. Hoje as crianas ficaram r
esfriadas, com febre, ento deixaram para depois

de amanh.
 Ah!
Era o jornal vivo da cidade
; nesse dia quando desci do carro, ela enfiou a 
cabea na janela, olhou para mim em silncio e d
isse com ar compungido:
 Boa noite, Lola.
Sen
ti as pernas bambas e entrei cambaleando; encont
rei dotilde e Olga chorando debruadas sobre o c
aixo. Abraaram-me convulsivamente, chorando ma
is alto; comecei
a olhar tristemente o rosto es
curo de mame e quando levantei a cabea, toda a
 vizinhana estava pelos cantos da sala. D. Caro
la tambm tinha vindo assistir ao encontro.
A c
asa foi se enchendo; D. Carola como vizinha e am
iga da casa, tomou conta da cozinha; logo depois
 da minha chegada, veio com uma bandeja de caf:

 Tome, Lola, est bem quentinho.
Tomei caf,
 enquanto muitas pessoas falavam comigo; reparei
 que no havia mais cadeiras disponveis; havia 
grupos espalhados na cozinha, nos quartos e at 
no quintal.
Muitos ficavam encostados nos baten
tes das portas, conversando; falavam em voz baix
a e contavam casos de morte e doenas dos parent
es. Fiquei todo o tempo na sala
e quando vieram
 me buscar para tomar qualquer coisa, disse que 
no queria nada, mas insistiram tanto que resolv
i tomar outra xcara de caf, bem forte e quente
.
Passaram-se horas;  meia-noite, todos comea
ram a se retirar e ficamos s as trs filhas e o
 Zeca, mas s duas horas, o Zeca tambm foi se r
ecostar um pouco e ficamos
as trs recordando a
 doena de mame e todas as palavras e os atos d
ela nos ltimos tempos. Clotilde disse:
 Ela v
ivia rezando pra ver voc antes de morrer. Pergu
ntava: Ser que ela no vem? Ser que Lola no v
em?
 Vocs deviam ter me avisado que ela estav
a para morrer, eu viria
de qualquer jeito
Olga
 interrompeu:
 A questo  que havia dias que 
ela passava melhor, at bem, no  Clotilde? Com
o  que a gente ia adivinhar? E voc  to ocupa
da!
Clotilde falou, chorando:
 Pois ela at q
ueria me ajudar nos doces; quantas vezes foi mex
er o tacho pra mim. Eu dizia: deixa isso, mame,
 faz mal pra senhora. Qual o qu! Ficava horas

at no poder mais. Ficava s vezes to plida c
omo a cal, o beio branco, ento largava tudo e 
ia deitar. Coitada de mame!
Clotilde chorou ma
is alto e Olga e eu tambm choramos; depois Clot
ilde levantou-se e endireitou o pavio de uma das
 velas que tinha entortado e o esparmacete ia se

amontoando de um lado s. A vela deu uns estal
os e ficou firme; entrava um vento quente pela j
anela. Fazia muito calor. Olga perguntou:
 No
 quer comer alguma coisa, Lola? Voc no jantou.
 Levantei-me dizendo que ia tomar um pouco de g
ua; Clotilde interveio :
 Tome leite; tem leit
e no guarda-comida. Tem biscoito tambm.
Tomei 
um copo de leite na cozinha e comi uns biscoitos
; depois procurei mais coisas para comer porque 
estava com fome; encontrei ento po e goiabada.
 Comi de tudo
e voltei  sala, onde minhas irm
s estavam sentadas de cabea baixa, ao claro da
s quatro velas. Dirigi-me a Olga:
 Como vo su
as crianas? Nem perguntei ainda. Olga levantou 
a cabea sorrindo:
 Vo muito bem, felizmente.
 Sabe que a mais velha fala tudo?
 ?
 E o m
enino est pesando quase cinco quilos; est um c
olosso. Clotilde disse que nunca tinha visto uma
 criana forte e bonita assim. Ficamos quietas u
m tempo,
depois falei:
 Achei tia Candoca to
 acabrunhada, est to diferente da ltima vez q
ue a vi. Por que ser?
Clotilde perguntou:
 U
! Pois voc no sabe que ela est com a cunhada
 louca em casa? Isso  brincadeira? Agentar uma
 pessoa nessas condies?
 Nossa Senhora! Por 
que no a mandam para um hospcio?
 Hospcio c
usta dinheiro e tia Candoca no tem muito; mas 
 uma loucura mansa, no faz mal a ningum.
 Ma
s  louca mesmo? Eu acho que tem umas manias, ma
s no se pode chamar de louca.
 Antigamente er
a esquisita; agora  louca de uma vez.
 Ento 
piorou?
 Nem, se fala; no conhece quase ningu
m, s vezes nem tia Candoca nem os sobrinhos. C
onfunde todos e faz uma embrulhada. Passa dias n
o quarto sem falar com
pessoa alguma.
 No di
ga!... E no sai de casa?
 Nunca. Vive no quar
to ou na sala; s vezes veste o melhor vestido d
os bons tempos, pega o leque e comea a se abana
r, sentada na cadeira de balano, conversando
s
ozinha.
- - Que horror!
Olga baixou a cabea e
 comeou a rir disfaradamente; Clotilde continu
ou.
# Tem umas manias esquisitas que voc nem 
imagina; lembra da Benedita, aquela preta velha?

 Lembro.
 Pois todo o dia de manh, a mulhe
r abre a porta do quarto quando se levanta e gri
ta, meio cantando:
 Benedita! Be-ne-di-ti-nha!
 Venha tirar o ourinol que est sujo e no est 
limpo!
Olga baixou mais a cabea e pondo a mo 
na boca, riu-se mais; eu ri tambm, falando:
 
Que horror, Clotilde. E eles agentam isso? Man
aca desse jeito?
 Pois . Imagine! E fala isso
 cantarolando;  por causa disso que tia Candoca
 est acabada; mas ouvi dizer que esto vendo se
 arranjam um lugar pra doente,
em So Paulo.

 Precisa mesmo. Impossvel ficar assim a vida to
da.
 E quando passa pelos corredores da casa, 
vai arranhando as paredes como as crianas; e se
mpre cantando baixinho.
Tornamos a rir e Clotil
de para disfarar, tornou a se levantar e arranj
ou o pavio da outra vela com as pontas dos dedos
; puxu-os apressadamente para no queim-los.

Ento olhamos para mame e suspiramos. Houve um 
longo silncio; de repente Olga encarou Clotilde
 e perguntou com voz um pouco estridente, a voz 
que ela fazia todas
as vezes que queria consegu
ir qualquer coisa:
 Onde esto os brinquinhos 
de brilhantes de mame?
 Na gaveta do lavatri
o, dentro de uma caixinha de p-de-arroz. Por qu
?
  toa. Clotilde acrescentou:
 Os brinqui
nhos so meus; h muito tempo mame me deu. Olga
 insistiu:
 O que vai fazer com eles? No tem 
filhas para deixar.
 U! Eu no posso us-los?
 Ser que estou to velha assim que no posso ma
is usar brincos? Ora esta!
Cortei a discusso:


 Coitada de mame. H quanto tempo ela no usa
va os brincos; e eram to bonitinhos; a ltima v
ez que a vi com eles foi em So Paulo quando foi
 consultar o mdico.
..
Olga me interrompeu:

 Quando papai comprou esses brincos, nas bodas 
de prata, parece que tinham pouco valor; mas hoj
e esto valorizados. Valem pelo menos um conto d
e ris. No
, Clotilde?
 Avaliaram em 500$00
0 cada brilhante. Tambm era a nica jia que a 
coitada tinha; isto , tinha tambm o broche de 
camafei.
 Camafeu, Clotilde.
 Camafeu.
Olga
 se mexeu na cadeira:
 O broche de camafeu  m
eu; mame me deu quando eu estava grvida a segu
nda vez. Ela me disse um dia sentada aqui neste 
sof e eu naquela cadeira: "Olhe, Olga,
este br
oche de camafeu  para voc. No vale grande coi
sa, mas  uma lembrana minha". E eu respondi: "
Basta ser dado pela senhora, que para mim vale m
uito".
Ficamos quietas outra vez e Clotilde me 
olhou piscando levemente um olho; Olga tinha a m
ania de querer sempre o melhor para ela, desde p
equena. Lembrei do nosso
pai que dizia ter estu
dado o carter de cada uma de ns e definia assi
m: "Clotilde, a mansa. Eleonora, (a humilde; Olg
a, a arrogante." Perguntei:
 E o bandolim de m
osaicos? Aquele brochinho que tia Emlia trouxe 
da Itlia para mame? Eu achava uma belezinha, t
em a palavra Roma.
 Est junto com as outras c
oisas na caixinha de p-de-arroz; mas est quebr
ado.
Continuei:
 Ento esse fica para mim com
o lembrana de mame. Clotilde afirmou: *
 Nat
uralmente; esse fica pra voc.
Olga no disse n
ada e se mexeu na cadeira outra vez. Depois falo
u:
 Eu me lembro que era ainda pequena e achav
a o broche muito bonito; um dia mame disse que 
quando eu tivesse uma filha, seria meu.
Repliqu
ei imediatamente:
 Ento voc devia ter reclam
ado quando cresceu e no esperar ela morrer para
 dizer isso. E se eu no ficar com o bandolim, o
 que fica para mim?
Clotilde tornou a falar:

 Lola tem razo, Olga. O bandolim fica para ela;
 voc j tem o camafei.
 Camafeu, corrigi.
 
Camafeu.
 Mas eu no estou querendo, disse Olg
a. S contei o que mame disse quando era pequen
a, mas Lola faz muito bem em ficar com ele.
Olh
amos outra vez para mame. Olga sussurrou:
 Qu
e horas so?
 Trs e meia. V deitar-se um pou
co, Olga. Voc tem criana pequena, disse Clotil
de.
Olga levantou-se dizendo que no; depois, a
proximou-se de mame e olhou-a longo tempo. Susp
irou:
 Coitada!
Comeou a passar a mo lentam
ente pelo rosto impassvel de mame; e principio
u a chorar, um choro baixinho e triste, entremea
do de palavras:
 Coitada!... Tanto que ela tra
balhou para nos sustentar, para nos educar... Di
zia: o pouco que seu pai deixou no d para nada
, se eu no der duro aqui no
forno, no podemos
 viver. .. E trabalhava da manh  noite.
Cloti
lde falou do canto da sala:
 Pode-se dizer que
 trabalhou at o dia da morte, pois estava doent
e, fraca, sem foras pra nada e ainda mexia o ta
cho pra mim. Coitada. E sabe que deixou seis tij
olos
de goiabada para vocs? Todo o ano ela mes
ma fazia questo de preparar os seis pedaos de 
doce e dizia: Estes no vendo, so de Lola. Eles
 so seis. Que
gosto tinha em mandar todo o ano
 os seis tijolos do doce pra vocs. Agora acabou
-se.
Olga tornou a falar, chorando:
 Sempre d
izia que no ia ver meus filhos crescidos. E ace
rtou.
Chorou mais alto e saiu da sala, encaminh
ando-se para o quarto de Clotilde, onde o Zeca e
stava dormindo. Deitou-se tambm. Clotilde disse
:
 Voc tambm deve estar cansada por causa da
 viagem. Por que no se recosta um pouco no sof
?
 No. Estou agentando bem.
 E que tal um 
caf agora?
 Acho bom.
Clotilde se levantou e
 antes de deixar a sala, curvou-se para mame e 
beijando as mos, unidas, balbuciou:
 Coitada 
de mame.
Aproximei-me da janela e vi uns tons 
avermelhados de um lado do cu; era um novo dia 
que surgia, longe ainda. Olhando as rvores to 
conhecidas do pomar, comecei
a me lembrar da no
ssa infncia e de mame batendo ovos a vida inte
ira para fazer os doces que vendia. Lembrava bem
 da voz dela:
 Lola, venha me ajudar a bater e
ste po-de-l para a casa do Juiz que faz anos h
oje.
Eu s vezes respondia, sem vontade de trab
alhar:
 Agora no posso, mame. Tenho lies p
ara fazer. Ela se irritava:
 Deixe as lies p
ara a noite e venha me ajudar. Anda.
Eu ia deva
gar, preguiosamente, e comeava a bater o po-d
e-l. Mame falava com voz mandona:
 Depressa,
 menina. Deixe de preguia.
Eu batia ento com 
fora e parecia que o prato ia se quebrar com as
 batidas da colher. Batia com raiva. Mame corri
a apressada de um lado a outro; um pano amarrado

na cabea. Espiava o forno uma poro de vezes
 para ver se estava no ponto; punha um papel bra
nco dentro dele para experimentar a temperatura.
 O papel saa marrom.
Pronto; estava no ponto; 
despejava o po-de-l na forma. Falava depressa:

 Este  para o Juiz; as rosquinhas tambm. De
pois de amanh tenho de fazer uma poro de doce
s para a senhora do delegado novo; nem sei bem d
ireito o nome dela.
 aniversrio. E na quinta-
feira que vem  dia de anos do vigrio; encomend
aram fios de ovos.
Espiava outra vez o forno, c
orada, a testa cheia de suor. Vinha um bafo quen
te l de dentro. Dizia, afobada:
 Traga as ama
relinhas. Anda. No esto prontas?
Com os olhos
 midos, voltei-me para Clotilde que vinha com a
 bandeja do caf:
 Tome, Lola. Est bem quenti
nho.
Tomamos juntas o caf quando a porta da fr
ente se abriu e entrou D. Carola, ainda com cara
 de sono:
 Bom dia! Bom dia!
Depois olhou par
a meu lado e comeou a explicar:
 Olhe, Lola, 
eu j falei porque no passei a noite aqui com v
ocs; tenho andado com uma dor nos rins ultimame
nte, que no h o que cure. Passo mal e o mdico
 quer
que eu faa repouso; no  mesmo, Clotild
e?
E aproximando-se de mame, comeou a chorar 
fungando e a limpar as lgrimas com a manga da b
lusa; logo acalmou e tomou caf conosco.
O dia 
chegou rapidamente; a casa comeou a se encher d
e novo e as pessoas que entravam, sentavam na sa
la, compenetradas e tristonhas; um terrvel cans
ao se apoderou
de mim e os olhos arderam de so
no; Jlio chegou de So Paulo no primeiro trem. 
Ficamos todos ali at o momento do enterro sair;
 minha cabea pesava como chumbo; 
no
entendi
a bem o que estava se passando. Depois de tudo t
erminado, ficamos Combinando o que seria de Clot
ilde; no poderia continuar vivendo sozinha na v
elha casa.
Ela disse que acabaria com tudo, ven
deria o que pudesse e iria morar com Olga e Zeca
 na farmcia. Depois passaria um tempo conosco, 
em So Paulo.
Jlio e Zeca pagaram as despesas 
do enterro;  noite, embarcamos para So Paulo.


Despedi-me das irms com o corao magoado e ch
eguei muito cansada em nossa casa; desanimada ta
mbm, pensando: Para que tanto trabalho, tanto e
sforo, tanta luta
neste mundo, se o fim de tod
os  o mesmoficar deitado entre quatro tbuas, n
o escuro e com uma poro de terra por cima?


Captulo VI

Mais um inverno chegou e passou; 
a Avenida ficou com as rvores peladas, os galho
s sem folhas voltados para o cu cinzento, enqua
nto um ventinho gelado penetrava
nas casas, sac
udindo as roupas nos varais e assobiando atravs
 das tabuinhas das venezianas, um assobio fininh
o e irritante. E mais um ano acabou para ns; ch
egamos
ento a 1922.
Muitas casas novas aparec
eram perto da nossa e nas travessas da Avenida A
nglica; a cidade fez um progresso assustador. R
uas que antigamente eram lama e p, foram
cala
das, e, nos terrenos baldios, surgiram palacetes
 e mais palacetes; as telhas vermelhas e novas b
rilhavam ao sol; nos gramados verdes, entre os c
anteiros floridos,
ces de raa passeavam com d
isplicncia. E automveis apareceram de todos os
 lados; todo o mundo comeou a passear de autom
vel e a fazer corso aos domingos na Avenida
Pau
lista; eu ia s vezes a p com as crianas e fic
ava na esquina, olhando o corso. No se via mais
 carro de espcie alguma; os automveis passavam
 vagarosamente
um ao lado do outro, cheios de p
essoas muito bem vestidas que quando se conhecia
m cumprimentavam-se sorrindo, as senhoras dando 
adeusinho com as mos, alegremente.
Alfredo diz
ia que, quando fosse grande, teria um automvel.
 Carlos e Julinho discutiam o valor das marcas.


 noite,  volta da mesa da sala de jantar, con
versvamos sobre o futuro das crianas. Carlos d
izia que ia ser mdico, Alfredo queria ser mecn
ico, Julinho queria
estudar Engenharia e Isabel
 dizia que ia ser professora. Jlio falava grave
mente, fazendo planos para aumentar dois quartos
 depois que tivesse pago tudo. Um dia
falei aos
 quatro:
59
#60
 Vou comprar um bilhete de l
oteria este ano, no Natal; no compro bilhete in
teiro porque fica caro, compro s a tera parte.
 Decerto vou ganhar porque nunca
comprei. Cada 
um de vocs tem direito a escolher o que quiser.
 Vamos ver.
As faces das crianas cintilaram, o
s olhos radiantes fixos no meu rosto. Isabel foi
 a primeira:
 O que eu quiser? Ah! Eu quero pa
ssar as frias na praia, mame. Nunca mais fomos
 a Santos; eu quero que a senhora alugue uma cas
inha na praia ou perto
da praia e vamos todos p
ara l.
 Est bem. Ter as frias na praia. E 
voc, Julinho, o que quer?
 Eu quero livros, m
ame. Quero toda a coleo Amarela e os livros p
oliciais que vi outro dia numa livraria.
 pai 
sorria, concordando:
 Est bem. Vai ganhar os 
livros, mas no precisa gritar desse jeito. Juli
nho baixava a voz e continuava, achando pouco o 
que tinha pedido:
 E quero a temporada em Sant
os tambm. E se pudesse queria comprar um cachor
rinho que vi um homem vendendo outro dia.
 Nos
sa Senhora! Quanta coisa! E voc, Alfredo? Alfre
do respondeu logo, contentssimo por ter chegado
 a sua vez:
 O que eu quero a senhora no pode
 dar. Olhamos todos para ele que continuou, sorr
idente:
 Quero um automvel, nem que seja velh
o e feio. Jlio e eu comeamos a rir; Jlio falo
u:
 Sua me no pode dar isso para voc, Alfre
do. Automvel  muito caro; o dinheiro no d pa
ra tanto. E o que dar ento aos outros irmos?


Carlos interrompeu, olhando Alfredo de lado:

 Eu j sabia que ele ia pedir isso; eu j sabia.
 Alfredo levantou a voz:
 Sabia o qu? Como  
que sabia? Sabia coisa nenhuma. Jlio falou, con
ciliadoramente:
 E voc, Carlos, o que quer?

 Uma bicicleta.
Julinho e Isabel gritaram ao m
esmo tempo:
 Eu tambm quero uma bicicleta.

 Mame, eu tambm quero uma. O pai tornou a fala
r:
 Mas vocs dois j escolheram o que queriam
 e est muito bem escolhido; de vez em quando Ca
rlos empresta a bicicleta para vocs darem umas 
voltinhas.
Carlos protestou, resmungando:
 Is
so no, papai. Eles me estragam a bicicleta. Vir
ei-me para Alfredo:
 Voc tem que escolher out
ra coisa; automvel no posso dar Isabel exaltou
-se:
 Pea bicicleta, Fedo. Bicicleta. Alfredo
 olhou furioso para ela:
 Agora eu no peo. P
ronto. Eu ia pedir, agora no peo E entredentes
 chamou a irm de besta.
Censurei Isabel:
 Po
r que chama seu irmo pelo apelido' O nome dele 
 Alfredo diga Alfredo
O pai insistiu:
 Escol
ha, Alfredo. O que voc prefere? Uma bicicleta t
ambm?
 No. Quero uma bola de futebol.
Houve
 um silncio de expectativa, depois foi a vez de
 Julinho provocar o irmo:
 Eu sei para que el
e quer bola. Eu sei. Como ningum respondeu, con
tinuou, triunfante:
 Para jogar com os moleque
s da rua. Alfredo olhou bravo para Julinho:
 S
abe nada, bobo. Bobo. Isabel perguntou:
 Ent
o para que ?
 Pensa que eu quero bola para gu
ardar, ? Quero bola para jogar. E ps as mos n
os bolsos, olhando arrogantemente os irmos.
Ca
rlos protestou:
 Mas bicicleta a gente anda so
zinho. Bola precisa companheiros. Alfredo respon
deu:
  isso mesmo; e voc tem alguma coisa co
m isso? O que voc tem com os companheiros que e
u arranjar? Julinho interrompia:
 Seus companh
eiros so os moleques da rua, todo o mundo sabe.
 Alfredo gritou:
 No se intrometa. Eu intervi
nha:
 Alfredo tem direito de escolher outra co
isa alm da bola para no ficar inferior aos irm
os. Que ser?
Ficaram mudos, insisti:
 Livro
s, Alfredo?
Ele dizia no com a cabea. Depois 
pensou um pouco e respondeu.
 Quero um jogo me
cnico que vi numa vitrine outro dia; e se puder
, um canivete tambm.
Os irmos comearam a gri
tar:
 Olhe o mecnico! Ol, mecnico! De repen
te Isabel falou, maciamente:
 Carlos, voc me 
deixa andar de bicicleta duas vezes por semana?


 No. Voc me estraga a bicicleta.
 Ah! Carl
os, por favor. Ao menos uma vez. Deixa, Carlos?


 J disse que no. Por que no pediram tambm 
bicicleta?
 Mas papai disse que voc deve empr
estar a bicicleta para darmos umas voltinhas. N
o foi, papai? Julinho fez voz de choro:
 Ah! C
alucho! Deixa s de vez em quando. Mame, diga p
r Carlos emprestar a bicicleta.
 J disse que
 vocs estragam a minha bicicleta. No quero.

 Ns no estragamos, Calucho. Juro que tenho cui
dado.
 Estragam sim. Qualquer dia o breque no
 funciona mais. Eu sei. Comearam a discutir em 
voz alta, quando Jlio interrompeu:
  por iss
o que Papai Noel no d o bilhete premiado; voc
s esto brigando desde j. Imagine depois.
E ac
rescentou, bocejando:
 No discutam mais e vam
os tratar de dormir; peam ao Papai Noel o bilhe
te premiado.
Isabel perguntou em voz baixa para
 mim:
 A senhora me d tambm um tapetinho par
a minha cama?
 Dou sim, vamos dormir.
Fomos t
odos dormir. Percebi Julinho e Isabel atrs de C
arlos, pedindo a bicicleta; ralhei com eles. Qua
ndo apaguei as luzes e a casa ficou em silncio,
 ouvi um sussurro
na porta do quarto de Carlos;
 era ainda Julinho pedindo para andar de bicicle
ta; ouvi a voz zangada de Carlos:
 Est bom. D
eixo; mas voc tem que prometer no me estragar 
a bicicleta.
Calaram-se de novo; eu estava quas
e dormindo, ouvi outra vez a voz de Julinho me c
hamando mansamente atrs da porta:
 Mame, a s
enhora me d tambm os livros de Jlio Verne? Eu
 esqueci de pedir naquela hora.
 Dou sim, v d
ormir, respondi com as plpebras pesadas de sono
.
O fim do ano foi chegando com muita animao 
por parte das crianas que estudavam muito, meno
s Alfredo. Apesar de eu ter comprado uma parte d
o bilhete de Natal,
Papai Noel no se lembrou d
e ns. Felizmente eu tinha poupado algum dinheir
o do meu trabalho e consegui comprar brinquedos 
e livros para os meninos; e tambm o tapetinho

para a cama de Isabel. A temporada em Santos fic
ou adiada, mas compramos uma bicicleta para Carl
os a prestaes, como prmio por ter passado par
a o terceiro ano
com notas timas, mas com a co
ndio de deixar os irmos andarem uma vez por s
emana. Demos uma bola para Alfredo e livros para
 Julinho. Isabel ganhou uma boneca
que fechava 
os olhos e dizia "mam" com voz esganiada; tinh
a um monte de cabelos cor de milho no alto da ca
bea e uma touca de cetim azul sobre o monte de 
milho.
Isabel tirou logo a touca e amarrou uma 
fita vermelha nos cabelos da boneca; chamava-a d
e filhinha querida e meu corao. Vivia o dia to
do com ela nos braos e beijava-a
muitas vezes 
s escondidas; foi a primeira grande boneca que 
ela teve; e a nica.
Passaram-se os primeiros m
eses com muita chuva e muito calor; as crianas 
estavam em frias e como no podiam brincar no q
uintal porque chovia muito, brincavam dentro
de
 casa fazendo grande algazarra; brigavam muito t
ambm.
Jlio chegava da loja mal-humorado e abo
rrecido porque no fazia bons negcios; no sabi
a se era por causa dos maus tempos que atravess
vamos ou por causa da concorrncia,
pois em cad
a esquina abriam uma loja nova, s vezes at dua
s no mesmo quarteiro e isso o aborrecia muito. 
Ralhava com as crianas por um motivo qualquer e
, uma
ou mais vezes por semana, voltava tarde e
 embriagado. Queixava-se tambm de dor no estma
go, depois das refeies, principalmente. Eu diz
ia que era por causa da
pimenta; ele dizia que 
no, e comia pimenta todos os dias; s vezes ia 
para o banheiro e vomitava tudo o que tinha comi
do, mas no fazia dieta e no dia seguinte
comia
 pimenta outra vez e tornava a sentir a dor. Pro
pus um dia lev-lo ao mdico para saber a causa 
da dor, ele no quis:
 Deus me livre; no me f
ale em mdicos.
E assim foi passando o tempo; u
ma tarde eu estava sentada no meu canto fazendo 
tric quando Isabel entrou muito excitada, falan
do alto, os olhos enormes:
 Mame, a senhora n
o sabe o que Julinho fez; abriu a porta da carr
ocinha dos cachorros e soltou toda a cachorrada 
na rua.
Levei um susto e pondo de lado o meu tr
abalho, perguntei:
 O que, Isabel? Conte direi
to porque eu no sei o que voc est falando.

 Ns amos pela Rua Sergipe, mame, levar a enco
menda que a senhora mandou; entregamos o pacote 
l e amos voltando. Quase na esquina da Avenida
, estava parada
uma carrocinha cheia de cachorr
os; ento Julinho disse: "se eu pudesse, soltava
 esses coitados". Eu disse: "Nem pense isso, vam
os embora". E comeamos a subir
a Avenida, mas 
Julinho olhava para trs de dois em dois minutos
; de repente ele gritou: "V andando, Isabel, qu
e eu j vou". Voltou correndo e ficou perto da c
arrocinha,
olhando. Eu parei para ver. Enquanto
 os homens estavam caando um cachorrinho sem ra
bo, Julinho foi por trs, abriu a portinhola e s
aiu correndo. Todos os
cachorros pularam na mes
ma hora e comearam a correr pela rua; os homens
, quando viram, gritaram: Pega! Pega! mas eles g
ritavam pega para Julinho e no para os cachorro
s.
Julinho corria feito louco, depois virou uma
 esquina e no vi mais. Todo o mundo saiu nas ja
nelas e foi um barulho na rua. No fim, os homen
s perderam ele de
vista e perguntavam: "No viu
 o menino que soltou os cachorros? Se ns pegarm
os ele de jeito, vai ver".
 E onde est Julinh
o agora?
 No sei, decerto entrou em alguma ca
sa porque no vi mais. Fiquei aflita e fui  jan
ela esper-lo; logo mais Carlos chegou do ginsi
o e disse que j sabia da arte
de Julinho. E da
va grandes risadas:
 Que danado, hein, mame?


Quando j estava escurecendo, Julinho entrou, c
onvencido da sua grande faanha, as mos nos bol
sos, assobiando alegremente. Recebi-o com uma ca
rranca:
 Muito bonito o que voc andou fazendo
, hein? E se fosse preso? E se os homens batesse
m em voc na rua diante de todo o mundo? E tinha
m direito de fazer isso.
Podia at ir parar na 
cadeia. Bonito, hein?
Julinho empinou o peito, 
esticou o beicinho e olhando para mim de lado, f
alou com convico:
 Ora, mame, ento sou alg
um trouxa para eles me pegarem? No v! Mas foi 
estupendo, hein, Isabel?
Interrompi-o:
 E ond
e esteve esse tempo todo? Por que no veio mais 
cedo para casa?
 A  que est o truque; podia
 ser que os homens estivessem me esperando na es
quina. Ento fiquei o tempo todo em casa de um a
migo.
 Que amigo?
 Um amigo que mora perto d
a Rua Cear; ele assistiu tudo de longe porque i
a passando de bonde nessa hora; diz que a cachor
rada correu que no foi vida. Tinha um
luluzinh
o branco que corria mais que todos; ia com o rab
o em p feito pluma. Assim. Outro era preto, pes
ado; de repente ele ficou distrado perto de um
 poste;
quando viu que era para correr, desando
u pela Avenida abaixo num carreiro. Parecia uma
 pista de corrida para cachorro. Foi gozado, no
, Isabel?
Carlos perguntou, rindo:
 E no peg
aram nenhum?
 Qual o qu. Nem sombra. E esses 
os homens da carrocinha no seguram mais; esto 
sabidos.
Insisti, ainda um pouco zangada:
 Ma
s no faa mais isso, Julinho. Um dia voc se sa
i mal e ainda vai dar dor de cabea para seu pai
;  capaz de parar na polcia.
Julinho sorriu c
om superioridade, o rosto vermelho e suado:
 N
o tem perigo! Mas queria que a senhora visse a 
cachorrada correndo, mame. Foi um sucesso! Tinh
a um manquitola, voc viu esse, Isabel? Quando c
omeou a correr,
esqueceu que era manco. Qu! Q
u! Qu!
Todos comearam a rir e a falar; Alfre
do entrou tambm da rua, orgulhoso da proeza do 
irmo; repetia rindo:
 O manquitola esqueceu q
ue era manco! Esse  que corria mais! Qu! Qu! 
Qu!
Julinho animava-se mais:
 Foi um sucesso
; saa gente nas janelas, nos portes, todos gri
tando: "Olhe a cachorrada solta"! E todos torcia
m para que os homens no pegassem mais os bichos
.
Gritavam para o Lulu: "Corre, luluzinho. Corr
e mais! Corre, preto!" Foi uma beleza, mame! S
umiram todos l para baixo da Avenida!
 Est b
em, disse. Agora v tomar banho e se vestir, est
 parecendo um moleque.
Quando ele ia saindo da
 sala, todo ufano, lembrei de perguntar:
 E o 
dinheiro da encomenda, Julinho? A Rua Sergipe pa
gou?
 Ah! Pagou. Ia me esquecendo.
E enfiando
 a mo no bolso, Julinho comeou a procurar o di
nheiro; procurou no outro bolso e noutro e no a
chou; virou os bolsos todos pelo avesso e o dinh
eiro no
apareceu. Comeou a perder o entusiasm
o e eu fiquei branca:
 Mas entregaram o dinhei
ro a voc?
 Entregaram; espere a. Em que bols
o eu pus o dinheiro, Isabel? No foi neste?
 F
oi, disse Isabel, muito assustada tambm.
Depoi
s de terem procurado outra vez, viram que o dinh
eiro estava perdido. Fiquei desesperada com a pe
rda daqueles trinta mil-ris que iam me fazer fa
lta porque j
contava com eles. Quase dei uns t
apas em Julinho, mas no tive coragem, porque se
u rosto estava desolado. Sorrateiramente, saiu d
a sala e na hora do jantar, veio
muito humilde 
me propor um negcio: tirar da mesada dele os tr
inta mil-ris, assim eu receberia o dinheiro, po
uco a pouco. Com a fisionomia muito triste, eu d
isse
que aceitava o negcio, mas me lembrei de 
que ele levaria seis meses para pagar a dvida e
 tive vontade de rir.
Nesse dia, Jlio no veio
 jantar; no dia seguinte, quando soube da proeza
 do filho, riu-se muito em vez de zangar com ele
. E quando eu disse na hora do almoo que
um di
a Julinho seria preso por causa dessas brincadei
ras, replicou:
 No tem perigo, ele  muito es
perto. E piscou para Julinho:
 Boas pernas, he
in, Julinho?
#Todos riram e comentaram a faanh
a durante dias. Julinho sentia-se orgulhoso, qua
se um heri; e assim perdi a pouca autoridade qu
e tinha e ainda meus trinta mil-ris.
convidei 
Clotilde para passar uma temporada conosco; cheg
ou num dia abafado de novembro, com cestas e emb
rulhos de doces. Fiz do escritrio um bom quarto
 para ela;
ficou bem instalada, com a janela pa
ra o jardim e de vez em quando ela me dava de ma
nh, na hora do caf, uma grata notcia:
 Apar
eceu hoje um lindo cravo vermelho; to escuro qu
e parece roxo.
Outro dia, anunciava:
 Lembra 
aquela roseira que veio de Itapetininga e ns n
o sabamos a qualidade?  uma rosa cor-de-rosa m
uito bonita, acho que  Bela Helena.
 Tem rosa
s?
 Apareceu hoje a primeira.
As crianas cor
riam para ver a roseira e Jlio tambm; ficvamo
s rodeando a planta e fazendo exclamaes sobre 
a cor, o tamanho e a qualidade.
Clotilde no fi
cava inativa; costurava roupas novas para as cri
anas, consertava roupas velhas e ajudava na lim
peza da casa. Falava sempre em fazer doces para 
vender;
dizia que isso dava dinheiro e estava t
o prtica que no se cansava muito. Achei boa a
 idia, mas como o forno no era bom, tratamos d
e ajuntar dinheiro para comprar
outro fogo com
 forno grande, mas era muito caro.
No fim do an
o, Carlos vestiu calas compridas pela primeira 
vez e foi uma surpresa para mim. J tinha feito 
quinze anos, mas no era muito alto e Alfredo qu
e era
mais moo, era altssimo. Dias antes, eu 
dissera a Jlio:
 Precisa mandar fazer uma rou
pa de homem para Carlos.
Jlio no disse nada e
 mandou fazer s escondidas; uma vez surpreendi 
os dois cochichando e, nas vsperas de Natal, Ca
rlos apareceu em casa com calas compridas,
gra
vata de homem e a voz grossa, pois tinha mudado 
tanto ultimamente que os irmos at o imitavam q
uando ele falava. Foi uma festa quando ele entro
u em casa e Isabel
bateu palmas, gritando:
 M
ame! Ele parece um homem! Julinho protestou, ex
altado:
 Mas ele  homem mesmo, boba! Alfredo 
gritou com entusiasmo:
 A, bicho. Est batut
a! Ralhei com eles:
 Fiquem quietos, deixa ver
.
E olhei Carlos com orgulho; senti-me orgulhos
a de ter um filho
homem. E que homem! Bom, estu
dioso, simptico, ajuizado, e acima de
tudo, me
u amigo! Amigo! S mais tarde compreendi a grand
eza e a profundidade dessa palavra, quando, deco
rridos os anos, me vi quase s com ele naquela s
ala vazia,
ouvindo o relgio bater as horas com
passadamente, pingando os minutos que me separav
am do passado. Parecia que o relgio fazia de pr
opsito; todas as vezes que eu
estava lembrando
, ele comeava a bater: dom! dom! dom! devagar e
 tristemente, como se dissesse: Lembra! Lembra! 
Lembra! Esse mesmo som, eu ouvi a vida inteira, 
nos
dias alegres e nos dias de sofrimento; em t
odas as ocasies principais da nossa vida, esse 
badalar tocou meu corao; no sei por que eu s
 reparava nele quando
estava emocionada. E ele 
batia sempre com tanta indiferena pelo que se p
assava em nossa casa; queria que ele vibrasse ta
mbm conosco. Na solido, sofri mais; e
Carlos 
nunca me abandonou um dia sequer; costumava dize
r:
 Mame, lembre-se de que estou aqui. Corage
m, mame! Nunca deixarei a senhora; lembre-se de
 que estou aqui!
Foi o melhor filho e o melhor 
amigo; comparei-o a uma rvore verde num deserto
, coberto de sol e de areia e eu perdida na soli
do procurando um lugar para descansar
e refres
car a cabea ardente.
No pude deixar de agrade
cer ao cu o ter-me dado um filho assim e no nt
imo, achava que no merecia tanto; e o cu me de
u razo, porque um dia mo tirou. Senti-me
ento
 s no deserto, to desesperadamente s que acre
ditei morrer de dor; em vo procurei a rvore qu
e me protegera e me amparara anos antes; j no 
existia. No
resistira ao sol ardente da vida, 
estava morta. Eu levantava os braos para o cu,
 numa implorao:
 Ah! Meu filho!
Lembrava de
 uma cano que ele cantava sempre: Quero ver-lh
e uma vez mais. Eu ento cantava baixinho: quero
 ver-te uma vez mais, meu filho. S uma vez. Com
o se assim
passasse a minha dor. Mas nunca mais
 ele voltou e minha dor ficou.
* * *
Nessa fes
tiva vspera de Natal, quando Carlos apareceu de
 calas compridas, risonho e feliz, entre as bri
ncadeiras e exclamaes dos irmos, beijei-o e a
bracei-o
comovida, pedindo a Deus todas as bn
os para meu filho mais velho. Fiz um jantar mel
hor para festejar o acontecimento e tambm porqu
e era vspera de Natal e ficamos
at tarde da n
oite quebrando nozes  volta da mesa e fazendo p
lanos para o futuro. Carlos dizia:
 Quando eu 
for mdico...
E meu corao inchava de orgulho.

No sbado seguinte, Jlio veio mais cedo para 
casa e fiquei muito admirada, pois aos sbados, 
geralmente, ele voltava de madrugada. Chamou-me 
no quarto com ares
misteriosos e disse:
 Lola
, tenho uma boa notcia a dar, mas no sei como 
vamos arranjar o negcio. Tive ento uma idia. 
Sente a.
Eu me sentei na beira da cama e ele f
icou de p  minha frente; deu depois uns passos
 pelo quarto, enquanto eu esperava, rgida, a no
tcia. Parando outra vez na
minha frente e me e
ncarando, falou com voz nervosa:
 Lola, aparec
eu uma oportunidade nica em nossa vida; nica. 
Imagine que o chefe me convidou para scio.
E p
arou esperando a resposta; quando abri a boca pa
ra falar, ele no me deu tempo e continuou:
- O
 Barbosa vai abrir uma filial no Brs; h muito 
tempo que eles tm essa idia e hoje me chamaram
 no escritrio depois do almoo e o tico-tico me
 props entrar
para scio da casa. (Entre ns c
hamvamos o Barbosa, o patro de meu marido, de 
"tico-tico"). Quando ele fez a proposta, at fiq
uei sem fala; minhas pernas
bambearam e nem sab
ia o que responder. Afinal ele me disse que pens
asse bem antes de resolver qualquer coisa. Mas o
 pior  o dinheiro, Lola; o tico-tico disse
que
 eu tenho de entrar com um capital, perguntei de
 quanto; ele parou um pouco, coou a cabea e di
sse: no mnimo cinqenta contos. Fiquei frio. On
de vou arranjar?
Decerto ele me convidou porque
 sabe que temos esta casa, seno, no me convida
ria. Eu disse uma vez que a casa j  nossa; ele
 no sabe que ainda faltam quatro anos
para aca
barmos de pagar. E vender a casa para obter o di
nheiro, no quero.
Protestei com energia:
- De
us me livre, Jlio! Isso nunca! Nem pense em ven
der a casa. Casa  casa.
- Ento, o que faremos
? Voc no tem uma idia?
Olhamo-nos sem nada d
izer, mas notei um sorriso disfarado nos lbios
 de Jlio. Ele continuou a passear pelo quarto c
om as mos atrs das costas e eu baixei a cabea
,
cismando.
- O negcio  bom mesmo, Jlio, ma
s se os 50 contos rodarem, como h de ser?
- J
 vem voc com idias pessimistas; o principal n
o  os 50 contos rodarem, o principal  encontra
r esses 50 contos. E tive uma idia.
Olheio-o s
em responder; o sorriso se acentuou no rosto de 
Jlio:
- Que tal se voc fosse pedir  tia Eml
ia? Tive um sobressalto:
- Mas, Jlio...
- Eu 
pensei primeiro em irmos ns dois pedir, depois 
achei melhor voc ir sozinha.  melhor. Que diab
o! Eu dou a casa como garantia; quanto no vale 
esta casa?
Passei a mo pela testa, angustiada:

- Mas a casa ainda no  nossa, no pode ser g
arantia; e depois nunca pedi nada a tia Emlia, 
fico sem jeito...
- Justamente por nunca ter pe
dido nada, talvez ela nos atenda. Eu pago os jur
os direitinho,  apenas um emprstimo. Enfim se 
ela no der, um outro h de dar por
causa desta
 casa.  uma garantia. Que tal?
- Vou pensar, J
lio. Para quando ?
- O mais depressa possvel
; v segunda-feira. Senti as mos frias e midas
.
- To depressa assim?
- Naturalmente; o tico
-tico no pode esperar, precisa resolver logo.

- Ento vou segunda-feira.
Passei a noite preoc
upada e o domingo todo tambm. Como seria recebi
do meu pedido? De que forma falaria? E seria ate
ndida?
Amanheci com dor de cabea na segunda-fe
ira; tomei uma aspirina e nem almocei; depois sa
 com Jlio e disse a Clotilde que ia fazer umas
 compras. Separei-me de Jlio
na cidade e, com 
o corao aos saltos, fui para a Rua Guaianases.
 Tia Emlia me recebeu numa sala pequena onde pa
ssava os dias quando no recebia visitas; estava

s. A filha que morava
com ela, tinha sado. 
Cumprimentei-a e sentando-me ao lado, peiguntei


por toda a famlia, desde os filhos mais velhos
, at o ltimo bisneto. Depois falei sobre o fri
o, o calor e as chuvas. O tempo ia passando e de
 repente podia chegar
alguma visita; ento crie
i coragem e comecei a falar sem rodeios:
- Tia 
Emlia, vim fazer-lhe um pedido; gente pobre s 
faz pedidos desagradveis. A pobreza  horrvel;
 j ouvi uma senhora rica dizer uma vez: "Quando
 meus
parentes pobres telefonam ou me visitam, 
tenho sempre contrariedades, nunca tenho alegria
s". E  assim mesmo. Infelizmente. A senhora des
culpe minha ousadia
e se no puder atender meu 
pedido, no faz mal.
Fiz uma pausa; tia Emlia 
mexeu-se na cadeira, mas seu rosto ficou impass
vel; s suas mos moviam-se nervosamente. Contin
uei:
- Queria ver se a senhora podia nos fazer 
um emprstimo; meu marido teve uma proposta para
 entrar como scio da casa e precisa muito do di
nheiro. Ele pagar os
juros que a senhora pedir
 e damos nossa casa como garantia. Precisamos de
 cinqenta contos.
Primeiro os olhos dela me fi
xaram terrivelmente; depois falou devagar, a voz
 breve e seca, procurando sorrir:
- Ah! No ten
ho esse dinheiro para dar agora; tenho tido muit
os compromissos ultimamente e no posso dar. Sin
to muito, mas no posso.
Respirei fundo como um
a pessoa que est debaixo d'gua e consegue pr 
a cabea para fora; e falei:
- Est bem, tia Em
lia. E se Jlio arranjar esse dinheiro com outr
a pessoa, a senhora pode ser nossa fiadora?
- C
omo? Fiadora?
Sua voz mudara de tom, era mais a
lta. Houve um curto silncio. Tive uma pequena e
sperana e continuei com animao:
- Damos noss
a casa como garantia, tia Emlia;  verdade que 
ela no vale cinqenta contos, mas quem sabe a s
enhora sendo nossa fiadora, poderemos fazer o ne
gcio
mais facilmente; e temos esperana de pag
ar logo porque a loja vai bem; tem progredido mu
ito ultimamente.
Desta vez suas mos moveram-se
 mais e as rugas se afundaram  volta da boca e 
na testa:
- No posso fazer isso, Lola. Sinto m
uito, mas no posso, no costumo me responsabili
zar por dvidas de ningum, nem de meus filhos. 
Nunca fiz isso.
Sua voz tinha se tornado mais d
ura e mais seca; parecia uma lixa a me ferir os 
ouvidos. Mordi os lbios, sem saber o que dizer;
 comecei a escarafunchar uma idia
na cabea pa
ra falar qualquer coisa e quebrar o silncio, qu
ando uma porta se abriu e prima Adelaide entrou.
 Sentou-se ao lado e conversamos assuntos difere
ntes.
Falou-se outra vez das chuvas da ltima s
emana, da temperatura agradvel e dos preos dos
 gneros que estavam subindo cada vez mais. Abri
u-se a porta outra vez e
uma criada entrou traz
endo uma grande bandeja pesada de bules de prata
 e xcaras; levantei-me para me despedir, mas ti
a Emlia disse que eu devia tomar uma xcara
de
 ch. Fiquei. Tomei ch e comi um pedao de bolo
, conversando despreocupadamente; levantei-me ou
tra vez para sair e notei no rosto de tia Emlia
 um claro de alvio
e contentamento por se ver
 livre de mim to facilmente. A voz tornou-se en
to macia como se fosse de veludo:
- Foi pena e
u no atender voc; mas no foi possvel. Recome
ndaes.
Sa com a cabea tonta, completamente 
atarantada; em casa, disse a Clotilde que estava
 muito cansada e com dor de cabea; refugiando-m
e no quarto, chorei livremente,
enquanto espera
va Jlio. Ele chegou mais cedo, aflito por saber
 o resultado do pedido e quando me viu, percebeu
 o fracasso; seu rosto que estava animado quando
 entrou,
fechou-se entre rugas e sombras:
- En
to?
- Nada, Jlio. Diz que no tem dinheiro.

- No tem dinheiro? A voz de Jlio era forte e 
spera. E fiadora?
- Tambm diz que no; no faz
 isso nem para os filhos, no  hbito.
Ficamos
 um momento calados; de repente, Jlio explodiu:

- Os ricos so uns bandidos! So desgraados e
 miserveis, no se salva nenhum. So todos igua
is, no se pode contar com nenhum. Nenhum. Nunca
 estendem o
brao para auxiliar um parente, um 
amigo, o prximo enfim. S eles, s eles, s ele
s.
Jlio andava nervosamente de um lado a outro
 do quarto; procurei acalm-lo:
- Voc arranja 
com algum amigo, Jlio. No desanime.
- Amigos?
 So todos mais pobres que eu; e, se tivessem di
nheiro, no emprestariam ou no seriam amigos. D
ariam uma desculpa, como essa velha deu. Miserv
el. Nessa
hora  que se conhecem os amigos; mas
 no h amigos, todos fogem.
No fiz observao
 alguma, s olhava para o cho; mas Jlio me int
erpelou:
- Como  mesmo que a Escritura fala do
s ricos? Negcio de elefante no fundo de uma agu
lha?
- Camelo.
- Como  mesmo?
-  mais fcil
 um camelo passar pelo fundo de uma agulha do qu
e um rico entrar no reino dos Cus.
- Isso mesm
o;  verdade. Muito mais fcil. Repare como eles
 no do nada, Lola. O que eles tm,  pouco par
a gastar com eles mesmos. So muito piores que o
s pobres
para pagar as contas; eu no digo semp
re para voc? Na loja ns sabemos quais so os r
icos porque as contas deles dormem na gaveta. Mi
serveis. Essa velha h
de pagar; os netos dela
 ho de ser mais pobres do que ns.
- No diga 
isso, Jlio. Que coisa horrvel! Voc est como 
D. Genu que  invejosa e rogadeira de pragas.
-
 No estou rogando pragas; estou falando uma coi
sa que  quase lei do mundo: Os avs so riquss
imos, os pais so ricos, os netos pobres ou quas
e pobres. Se no
so os netos,  a outra gera
o. No se v isso em muitas famlias? Quase toda
s. Repare um pouco. Como so ricos, ningum trab
alha, ningum produz e o dinheiro vai
saindo se
mpre, no fim tem que escassear. Tudo acaba. Desg
raados. O que custava ela me emprestar esse din
heiro?Que so para ela 50 contos? Uma migalha!

Pois at essa migalha a diaba negou. No faz mal
, ela paga de
outra forma.
Deixei o quarto par
a no ouvir Jlio falar e disse que ia tratar do
 jantar. No se comentou mais nada. Jlio ficou 
de mau humor, no jantou quase e se retirou cedo

para o quarto. Mais tarde, na hora de dormir, 
combinamos juntos o que ele devia fazer nos dias
 seguintes a respeito do emprstimo e dormimos t
arde, alquebrados e
sem esperanas.
No outro d
ia de manh, contei a Clotilde a visita da vspe
ra e nosso desespero. Ela estava costurando; lev
antou a cabea, ps os culos no meio da testa, 
olhou-me
e escutou at o fim; quando parei, dis
se indignada:
- Para o diabo toda essa gente ri
ca; que vo quela parte  o que desejo, seja pa
rente ou no. Vocs ho de arranjar sem eles, h
o de arranjar. Se Deus quiser.
E baixando a cab
ea, continuou a alinhavar a cala de brim de Ju
linho com a mxima ateno, passando a unha do p
olegar com toda fora sobre a costura.

Captu
lo VIII

Por toda a semana, Jlio no fez outr
a coisa seno procurar algum que emprestasse o 
dinheiro; pediu a amigos e aos que no eram amig
os, mas no conseguiu.
Quando entrava em casa c
om o chapu cado na nuca, as duas mos nos bols
os, andando devagar e o rosto fechado em carranc
a, eu j sabia por qu; nem precisava perguntar.

Ele me dizia a ss, no quarto:
- Parece incr
vel que eu no encontre quem me d a mo;  a me
sma coisa como se eu estivesse cado, quisesse m
e levantar e ningum me desse a mo para me ajud
ar
a ficar de p. Nunca pensei que fosse assim,
 Lola.
E passava os dedos pelos cabelos, num gr
ande mal-estar. Eu procurava anim-lo, aparentan
do despreocupao:
- Em primeiro lugar voc no
 est cado, Jlio. Nem deve dizer isso. Voc es
t de p e no pode se queixar, pois vai muito b
em na loja. Pense um pouco: se por acaso
arranj
a o dinheiro e a loja vai mal, tudo vai para tr
s e a gente tem que vender esta casa para pagar 
a dvida? Deus me livre, prefiro tudo a perder a
 casa, voc
sabe. Casa  casa. Diga ao tico-tic
o que agora voc no pode ser scio; mas, daqui 
a alguns anos, voc ser. Ento esta casa j ser
 nossa e teremos um grande
sossego. Faltam s 
quatro anos, lembre-se bem! E quatro anos passam
 to depressa!
Com essas palavras, ele se acalm
ava e dormia, mas no dia seguinte, ia novamente 
 procura de outras pessoas que pudessem emprest
ar o dinheiro. Quinze dias se passaram
e no en
controu ningum; ento explicou ao tico-tico- qu
e infelizmente nesse ano no podia entrar para s
cio da casa porque tinha outros compromissos, m
as ficaria
para o prximo ano.
Assim pusemos u
ma pedra em cima do assunto, mas uma vez ou outr
a quando o sono no vinha logo, eu percebia Jli
o, virando na cama sem dormir. Uma noite me cham
ou;
- Lola, est dormindo?
- No.
- Que bom s
e fosse scio, hein? Agora no fim do ano teria m
eu lucro, e dava para tanta coisa. At para faze
r mais um quarto aqui na casa. Que pena!
No re
spondi; ele percebeu que eu no queria falar do 
negcio, dormiu logo depois. Eu tambm dormi e s
onhei com os bules de prata da tia Emlia; eles 
tinham ps
e corriam na minha frente; de vez em
 quando olhavam para trs e riam-se do esforo q
ue eu fazia para alcan-los"; assim corramos d
urante horas inteiras.
Depois comeamos a pensa
r em outras coisas e fomos esquecendo essa oport
unidade perdida. Olga escreveu que tinha mais um
 filho, o terceiro, e nos convidou para padrinho
s;
dizia que era um menino gordo, cheio de cov
inhas. Ficamos de ir fazer o batizado em dezembr
o.
Nessa poca, Jlio comeou a ter dor de est
mago duas ou trs vezes por semana, ento resolv
emos consultar um mdico; era impossvel viver c
om essa dor. O mdico
examinou-o muito bem e di
sse que era uma feridinha que havia na boca do e
stmago, to pequena como a cabea de um alfinet
e e era por isso que doa quando acabava
de com
er porque os alimentos iam na feridinha; s muit
o mais tarde  que fiquei sabendo que era lcera
. Ele comeou a fazer dieta e repouso, comia ali
mentos amassados,
mas no tinha muita pacincia
 e de vez em quando dizia, empurrando o prato:

- A feridinha que leve o diabo!
E comia de tudo
; horas depois gemia de dor, deitado na cama, co
m a mo na boca do estmago.
- Ai! Isto me mata
!
Eu fazia o que podia; pedir a ele que s come
sse o que o mdico mandara, era pedir  chuva qu
e no chovesse ou ao sol que no brilhasse.
As 
crianas ficavam assustadas com a doena do pai 
e quando entravam em casa, perguntavam logo, em 
voz baixa:
- Ele est sentindo dor? Como vai el
e?
O Natal desse ano foi triste; um dos piores 
dias para Jlio. Passou o dia todo deitado, um l
ivro na mo e Isabel ao lado dele, lendo tambm.

Quanto mais velha eu ia ficando, mais forte me
 sentia contra as vicissitudes e as tormentas  
minha volta; com o tempo, vamos aprendendo melho
r os conflitos da vida;
a prpria vida vai nos 
ensinando a viver melhor, a compreender melhor e
 a sentir melhor.  a sabedoria da idade.
Dizem
 que o sofrimento enobrece o carter e purifica 
o esprito; mas no creio. S os felizes podem s
er bons e piedosos; os que sofrem so vingativos
, perversos
e sentem regozijo em acompanhar a i
nfelicidade do prximo. S aqueles que vivem no 
pedestal da riqueza, do bem-estar e da segurana
, os privilegiados do destino
 que sentem pied
ade sincera pelos que sofrem; olham consternados
 para o cu e dizem com ar compungido:
- Coitad
o! Que pena eu tenho! Fiquei to triste quando s
oube! Mas se de repente um vento forte os empurr
asse desse pedestal e eles
se vissem no meio do
 caminho, sem ter onde se refugiar entre o frago
r da tempestade, palavras bem diversas sairiam d
os seus lbios diante da dor alheia. No seriam


mais palavras de comiserao ou piedade, soment
e sarcasmo, revolta e dio! A desgraa e o sofri
mento contnuo  que modelam os maus e revoltado
s; s compreendi isso
mais tarde.
Essa impress
o me ficou depois de anos de convivncia com D.
 Genu, nossa vizinha; ela era boa a seu modo, um
a bondade diferente, revoltada, uma bondade mald
osa,
se se pudesse falar assim. S era boa mesm
o para os que morriam. Quando sabia que algum h
avia morrido na vizinhana, mesmo que no conhec
esse muito bem, ela corria
e apresentava seus s
ervios; parecia sentir prazer em lidar com o de
funto. E vai ver que sentia mesmo. Gostava de la
v-lo e vesti-lo solicitamente, no esquecendo

detalhe algum; depois que o defunto estava no ca
ixo, vinha com montes de flores e colocava uma
 por uma, carinhosamente, artisticamente, sobre 
o cadver. Depois
de tudo pronto, sentava-se ao
 lado, puxava um rosrio da bolsa e ficava rezan
do para a alma que se fora. Toda a famlia do mo
rto ficava admirando D. Genu e durante
o resto 
da vida, dizia, referindo-se a ela:
- Como  bo
a!  uma santa! Veio vestir mame depois de mort
a, tomou conta de tudo e ainda passou a noite in
teira aqui conosco!
Ningum sabia que ela fazia
 isso porque gostava e sentia verdadeiro prazer,
 fosse quem fosse o morto; no era para prestar 
servio aos vivos, nem para auxiliar a
famlia 
num dia de aflio. No. Era por amor ao defunto
, conhecido ou desconhecido; creio que tinha uma
 espcie de divergncia para atos mrbidos, um v
cio, um
desvio, nunca pude interpretar.
Fora 
dessa tarefa que ela achava agradvel executar, 
e fazia com gosto, a fisionomia iluminada pelo d
evotamento, era uma mulher spera, dura para com
 todos, quase
agressiva, um ar petulante.
Exte
riormente era calma e aparentava bondade; mas ba
stava um pequeno detalhe; um automvel brilhante
 que passasse, uma vizinha do palacete da esquin
a lendo um livro
despreocupadamente no terrao,
 cintilaes de brilhantes na mo de uma mulher 
bonita, ela se revoltava logo; levantava o brao
 direito para cima num gesto mudo de
condenao
. Era como uma gua parada com a superfcie lisa
 e enganadora, onde na profundidade rugisse semp
re a tormenta.
Perdera o marido e o filho nico
 no espao de um ano e ficara pobre, lutando par
a criar e educar quatro filhas. Quando essas fil
has ficaram moas e comearam a trabalhar,
ent
o ela pde descansar um pouco, ou antes, no tra
balhar tanto. Mas desses anos cruis de lutas se
m trguas e cheios de desenganos, ficara o resse
ibo amargo da
revolta, do dio para com os feli
zes, os que no precisavam lutar como ela lutara
. Era um misto de inveja e anseio de vingana, d
esejando a todos os conhecidos e
amigos as dore
s que ela havia sofrido, o pranto que ela havia 
derramado.
Quando meus filhos cresceram e conhe
ceram melhor D. Genu, diziam:
- Mame, ela  me
io comunista. Est sempre reclamando que no mund
o uns tm muito e outros no tm nada. Isso  de
saforo! Ningum tem culpa disso, no  mame?
P
arece que est sempre com raiva.
Eu procurava d
esculpar D. Genu:
- Coitada! Ela tem sofrido mu
ito;  por isso que  assim. s vezes ela conver
sava comigo no porto:
- J viu a mocinha da es
quina passeando com o namorado? Vivem de mos da
das, andando no escuro, mas como  filha de gent
e rica ningum diz nada. At acham bonito;
mas 
se fosse minha filha... Credo! Estava na boca do
 mundo.
Outras vezes falava asperamente;
- A s
enhora e eu trabalhando o dia inteiro no fogo e
 na mquina de costura e as outras passeando de 
automvel e tomando ch com bolos. Eh! Mundo err
ado!
Eu procurava apaziguar:
- Elas no tm cu
lpa da nossa pobreza, D. Genu, assim como no s
o culpadas de terem nascido ricas ou bonitas. Ni
ngum sabe por que  feia ou bonita, aleijada
o
u perfeita. So os desgnios de Deus, que ns de
vemos aceitar.
- Ou do diabo. Mas d raiva, D. 
Lola. Me d um dio ver tanta diferena nos dest
inos das pessoas. Esses que so to ricos, devia
m ostentar menos e repartir mais
com os pobres.
 No est direito.
- No diga isso, D. Genu. Me
smo que eles dessem ou repartissem tudo, ainda f
icava muita misria no mundo; ningum pode dar j
eito, s Deus.
- Mas me d raiva. Tenho dio.

- Pois eu no tenho; sou resignada.
- Ento a s
enhora tem sangue de barata. Eu no sou assim. E
u sorria e no respondia. Dias depois, Jlio avi
sava:
- D. Genu anda alerta; animada e contente
. Pensei: algum deve estar para morrer. Hoje um
a das filhas me contou que a irm da cunhada do 
marido est muito mal.
Logo vi!
E era verdade;
 toda vez que encontrava um de ns dizia com ar 
entendido:
- Ela no sara mais. Coitada! Tambm
 com essa molstia; est por dias, talvez por ho
ras.
Dias depois, vinha dar a notcia por cima 
do muro:
- No disse? A moa morreu de madrugad
a. Vou j para l.
E logo mais tomava o bonde, 
contente e disposta a passar o dia e a noite, li
dando com a defunta.
Meus filhos perceberam ess
a qualidade da rossa vizinha e muitas vezes quan
do eram moos, ouvi um dizer para o outro:
- No
ssa vizinha anda assanhada esses dias; deve have
r defunto em perspectiva.
Um dia Alfredo chegou
 a me dizer:
- Olhe, mame, quando eu morrer, n
o deixe D. Genu mexer comigo. Todos riram e eu 
prometi no deixar.
D. Genu tinha uma irm rica
 que residia na Avenida Paulista: chamava "a irm
 da Avenida". Quando voltava dessas visitas  c
asa da irm, parecia mais revoltada; apesar
de 
a irm e o cunhado a auxiliarem muito, ela achav
a sempre pouco e se queixava. Eu sabia quando el
a vinha da casa da irm: ficava mais aborrecida 
e nervosa, gritando
com as filhas, sem pacinci
a para nada. Gostava de me contar o que se passa
va em casa da irm; pintava a riqueza do cunhado
 com cores maravilhosas para 'me impressionar,

exagerava, descrevia com calor. Um dia contou, m
ais excitada do que de costume:
- Hoje encontre
i l uma novidade; uma esttua de mrmore que me
u cunhado mandou vir da Europa. Nua! Imagine com
prar uma esttua nua; est inclinada assim em ci
ma
de uma coluna de mrmore verde e o traseiro 
virado para a porta.
- Para a porta?
- Pois pu
seram ela no hall da entrada, sabe? Um hall muit
o rico, como j contei  senhora, todo de mrmor
e preto e branco. Uma beleza; puseram a mulher a
li bem
no meio. Se pusessem ela de frente para 
a entrada, ficava o traseiro virado para as visi
tas, ento puseram ao contrrio. A gente entra, 
j d com a mulher nua;
eu no, porque entro pe
los fundos. O pobre entra sempre pelo lado feio 
da casa. Dizem que a esttua custou doze contos;
 eu no gostei, no gosto dessas imoralidades.

Tem tanta coisa mais bonita pra comprar, pra que
 comprar mulher pelada? Com esses doze contos eu
 fazia tanta coisa! Nem gosto de pensar. Imagine
, comprar uma coisa
daquelas pra enfeitar o hal
l no acho que enfeite nada. Enfim... so gostos
. Eles tm dinheiro para jogar fora. E minhas fi
lhas trabalhando como trabalham, nem sempre
tm
 capote pr frio.
- Mas o ano passado, eles der
am casacos para o frio; e bem bonitos. No foi?


- Mas nem por isso eram muito quentes; fazenda 
ordinria. J esto feios, no servem mais. Do 
coisas ordinrias, isso  que . Coisas que eles
 no so capazes
de usar.
Durante vrios dias 
rimos com a esttua nua de D. Genu; os filhos pe
rguntavam:
- Como  que ela est, mame? Assim 
ou assim?
E faziam as posies mais grotescas p
ossveis, dando gargalhadas. Precisei ralhar com
 eles para pararem com a brincadeira.
Mas para 
mim a vizinha foi sempre boa; nos momentos mais 
difceis, esteve sempre ao meu lado e tenho-lhe 
que ser sempre reconhecida apesar do seu gnio r
evoltoso
e despeitado.
Durante toda a molstia
 de Jlio, ela foi muito solcita; fazia pratinh
os especiais para ele, perguntava todos os dias 
se tinha passado melhor, aconselhava, contava
c
asos de pessoas com lcera que haviam ficado com
pletamente boas, ensinava como devia fazer para 
no sofrer tanto e tudo isso foi cimentando de t
al forma nossa amizade
que nossas vidas ficaram
 unidas. Anos mais tarde, na noite mais terrvel
 da minha longa vida, encontrei o brao forte de
 D. Genu me amparando e levantei as mos
para o
 cu nesse dia por t-la como amiga.

Captulo
 IX

Em 1924, Jlio deixou de ser gerente da l
oja e foi trabalhar no escritrio; o tico-tico v
iu que ele sofria muito por ficar de p o dia to
do e ofereceu um lugar no
escritrio
com o mes
mo ordenado. Ficou mais aliviado e comeou a pas
sar melhor do estmago.
Nossa tia Candoca, nic
a irm de mame que morava em Itapetininga, tinh
a vindo um ano antes de mudana para So Paulo e
 alugara uma casa na Luz, Rua Bandeirantes.
Tod
a a semana, Clotilde e eu amos passar umas hora
s com tia Candoca; levvamos nosso trabalho e tr
abalhvamos contando fatos e lembrando pessoas d
e Itapetininga.
Em maio, tia Candoca ficou s c
om uma netinha e a cozinheira porque a filha for
a com o marido para Rio Preto, onde passariam un
s dois anos. Ento tia Candoca convidou
Clotild
e a passar uns tempos com ela. Clotilde j estav
a l h dois meses quando, um dia, Jlio voltou 
muito nervoso para casa dizendo que havia revolu
o na cidade.
Perguntei, assustada:
- Revolu
o? Por que revoluo?
- No sei, disse Jlio. 
Esto dizendo por a. Onde esto as crianas?
-
 No vieram ainda. E agora? Haver perigo?
- Cr
eio que no; parece que o barulho  l para o la
do dos quartis, na Avenida Tiradentes.
Levei u
m susto:
- E tia Candoca? E Clotilde? Coitadas!

- No sei bem ainda, quem sabe no h de ser n
ada, disse Jlio encaminhando-se para o porto.


Nesse momento, ouvimos um barulho surdo como um
 tiro de canho, mas muito longe; Isabel chegou 
logo depois dizendo que tinha ouvido um tiro de 
canho e todas as
escolas estavam se fechando. 
Carlos e Julinho tambm vieram contando novidade
s e dizendo que o Isidoro era um bicho.
Pergunt
ei:
- Que Isidoro  esse?
- O General Isidoro,
 mame. Pois  ele que est fazendo a revoluo.
 Fiquei na mesma e sa ao porto para ver se Alf
redo vinha vindo;
esse chegou por ltimo, entus
iasmado com o que vira; soldados correndo de um 
lado para o outro no largo do Palcio, outros fa
zendo trincheiras na rua, caminhes
passando a 
toda velocidade conduzindo soldados com carabina
s embaladas, casas comerciais fechando suas port
as de ferro com estrpito, na cidade.
- Mas par
a que tudo isso? perguntei.
- No sei, ningum 
sabe. Dizem que  para depor o presidente. Ficam
os at tarde  escuta para ouvir outros tiros de
 canho, mas
nada mais ouvimos e fomos deitar, 
muito apreensivos.
No dia seguinte cedo, mandei
 Carlos e Alfredo  casa de tia Candoca para sab
er como estavam; mas os meninos voltaram do meio
 do caminho dizendo que no havia mais
bondes e
 eles tinham ido a p at a estao da Luz; l d
isseram que no fossem adiante porque estavam co
mbatendo na Avenida Tiradentes. Jlio voltou ced
o da loja
e disse que todo o comrcio resolvera
 fechar enquanto houvesse revoluo; comecei a f
icar seriamente apreensiva com a sorte de Clotil
de e tia Candoca e sem meios
de comunicao par
a saber alguma coisa. Quase todos os nossos vizi
nhos foram embora deixando as casas fechadas; sa
am apressadamente altas horas da noite, a p ou

de automvel, levando pacotes, trouxas de roup
a, bichos, canarinhos em gaiolas; iam quase em s
ilncio para rumos desconhecidos. S ficou a fam
lia de D. Genu naquele
quarteiro. E ns. Ouvi
a-se o canho troar o dia todo e parte da noite 
l para os lados da Cantareira; os meninos vivia
m agitados, dizendo a todo o momento:
- Olhe o 
canho! Comeou a dana! Jlio observava:
- S 
assim vou descansar; que boa revoluo!
E ficav
a deitado o dia todo, lendo jornais e mandando A
lfredo sair para saber mais novidades.
Vieram c
ontar que as estradas para o interior estavam ch
eias de automveis com retirantes; era um atrs 
do outro levando crianas, malas, cachorros, gal
inhas; um
nunca acabar de famlias que deixavam
 So Paulo. Trs dias se passaram e eu mandei ou
tra vez os dois meninos at a Rua Bandeirantes p
ara saber notcias de Clotilde.
Eles voltaram t
arde dessa vez e eu j estava aflitssima espera
ndo no porto; disseram que conseguiram chegar a
t o Jardim da Luz; l viram uma poro de solda
dos
entrincheirados atrs de um monte de sacos,
 atirando para um grupo escondido atrs das rvo
res. Ento um tenente passou correndo e gritou, 
nervoso, a cara manchada
de preto:
- O que est
o fazendo aqui, meninos? Sumam-se! Voltem para 
casa!
Nesse momento uma saraivada de balas caiu
 perto deles e o tenente e os outros soldados qu
e estavam perto tiveram que deitar no cho e fic
ar quietinhos; Carlos e
Alfredo tambm. O tenen
te dava ordens e os soldados se aprontaram para 
atirar; era na esquina da Rua S. Caetano.
Jlio
 perguntou:
- E esse tenente de que lado era?

- Isidorista, respondeu Carlos.
Eu tremia s de
 pensar no perigo a que meus filhos se haviam ex
posto e Jlio me olhou com ar de censura:
- Por
 que mandou os meninos para aqueles lados? Podia
m at morrer!
Os meninos continuaram:
- Um neg
ro saiu do grupo do tenente e ficou atrs de um
a rvore, atirando. Ele punha a carabina na cara
, atirava e dizia: "Toma, bandido, pensa que ten
ho medo de
governista?" E a rvore j estava la
scada de tanta bala que vinha pr lado dele; tod
as as vezes ele gritava: "Toma, cachorro!", e a 
bala zunia zizzzzz e batia
nos sacos da trinche
ira; o negro dava risada, metia outra vez a car
abina na cara para a pontaria: "Essa  proc, ba
ndido!", e l ia outra zizzzz... pf! entrava
n
o saco. O negro era valente mesmo. Formidvel!


- E depois? Como  que vocs voltaram?
- A ap
areceu um lenol branco na ponta de um pau
- Um
a vassoura, interrompeu Alfredo.
- Na ponta de 
uma vassoura na janela de uma casa da Avenida; e
ra uma famlia que queria ir embora. Ento o ten
ente mandou parar o tiroteio, o pessoal do quart
el
tambm parou e a famlia saiu  rua e foi pa
ra o lado da estao da Luz para embarcar. Levav
am dois cachorros, uma poro de malas e um caix
ote de galinhas; ns
fomos andando com eles. O 
tenente dizia: "Raspem-se daqui, meninos. Vo em
bora; ainda tiveram sorte".
- Ento cessaram as
 hostilidades?
- Qual o qu, papai! Quando amo
s atravessando a estao, ouvimos os tiros de no
vo. Todas as portas da estao estavam fechadas;
 s um guarda abria a metade de
uma portinha pa
ra quem queria sair. Estavam dizendo que esta no
ite a coisa vai ser feia. E o tenente disse para
 ns no sairmos mais de casa.
Fiquei muito ass
ustada e no dormi mais pensando em Clotilde; un
s> dias depois levei um choque tremendo quando v
i entrando em casa tia Candoca, Clotilde, a neti
nha
de oito anos, a cozinheira Benedita e Mulat
a,
o papagaio. Traziam uma enorme trouxa de rou
pa, uma cesta com alguns comestveis e uma valis
e; chegaram exaustas, foram entrando e sentando 
nos degraus da escada;
ns ficamos  volta dela
s, excitados, e D. Genu que as viu chegar, veio 
tambm saber o que havia.
Elas ento contaram o
 susto do primeiro dia e o medo que sentiram, so
zinhas, sem poder sair de casa e sem poder se co
municar com ningum. No primeiro dia estavam
al
moando sem saber de nada; de repente um tiro de
 canho passou por cima da cabea delas, to for
te que a casa inteira tremeu e caiu cisco na com
ida. A Benedita
veio da cozinha com a mo na ca
bea, tremendo de medo: "Cruz credo! Que ser is
so?" O Pirata comeou a latir feito um danado e 
elas correram  janela para ver o
que havia; mu
ita gente estava correndo nas ruas de um lado a 
outro e um grupo de soldados passou em disparada
 subindo a Avenida. Esperaram mais um pouco e qu
ando
foram ao armazm da esquina para telefonar
, os telefones no funcionavam mais; Clotilde n
o tinha medo, dizia que isso passava logo, mas t
ia Candoca nem dormiu mais
de pavor.
Tia Cando
ca que era gorda, arquejava de cansao e como an
dara a p, pois no havia conduo de espcie al
guma foi tirando logo os sapatos e as meias, que
ixando-se
de dores nos ps e mostrando duas bol
has enormes; uma num dedo e outra no calcanhar.
 Comeou a esfregar os ps devagarinho e a gemer
:
- Ai! Que estopada!
Os meninos perguntaram l
ogo pelo cachorro e pela cabrinha; contaram que 
haviam deixado bastante comida e gua perto dele
s e que isso daria para uns trs ou quatro
dias
.
Alojei-as como pude e assim passaram mais uns
 dias; D. Genu perguntava por cima do muro, trep
ada num caixo de gasolina:
- Souberam hoje mai
s alguma novidade? Ou ento:
- Ouviram o canho
 esta noite? Cantou que no foi vida!
Um dia co
ntaram que haviam assestado um canho no Morro d
os Ingleses; ia atirar de l para o quartel de V
ila Mariana; pensamos logo que se Vila Mariana r
espondesse
seria um estrago no nosso bairro. Fi
camos aterrados; mas Jlio, que estava gostando 
do repouso, dizia que no havia perigo e fssemo
s ficando. Cinco dias depois
da chegada de Tia 
Candoca, como a revolta no acabava, comeamos a
 pensar seriamente no cachorro e na cabrinha. Ti
tia suspirava o dia inteiro:
- Ser que ainda v
ivem? Eu que criei aquele cachorro com mamadeira
!
E ficava com os olhos cheios d'gua. Os menin
os se ofereceram para ir buscar os animais, mas 
ela no aceitou. Ento, um dia de manh, Clotild
e e Benedita resolveram
ir at l; saram bem c
edo levando almoo numa cesta, carne para o Pira
ta, milho para a cabrinha; foi como se se dirigi
ssem para uma longa e perigosa excurso; os
men
inos tiveram licena de acompanh-las uns trs q
uarteires adiante; tia Candoca reprovava:
- Me
u Deus! Que loucura de Clotilde. O que podero f
azer? Passou-se o dia todo e elas no voltaram; 
ficamos todos muito
apreensivos e no dormimos 
a noite toda esperando v-las aparecer de uma ho
ra para outra. D. Genu gritava do muro:
- Nada 
ainda D. Lola?
- Nada.
- Credo! O que ter aco
ntecido?
Ao meio-dia do dia seguinte, no tnha
mos almoado ainda e os meninos foram at a esqu
ina ver se elas vinham voltando, quando Isabel e
ntrou correndo e gritando:
- Vm vindo! Elas v
m vindo!
Respirei aliviada e fomos todos ao por
to v-las chegar; traziam Pirata numa corda e p
uxavam Esmeralda, a cabrinha, numa outra; Benedi
ta trazia tambm uns frangos
dentro da cesta. C
hegaram abatidas e cansadssimas. Ficamos todos 
curiosos por saber o que acontecera; ento Cloti
lde contou que chegaram l e encontraram tudo
e
m ordem; deram comida para os bichos, almoaram 
e quando tratavam de sair, um soldado falou da e
squina:
- No saia agora, moa. Est perigoso.


Esperaram mais e anoiteceu muito depressa; come
aram a ouvir as balas pipocarem ali perto. Reso
lveram ento voltar no dia seguinte de manh; at
 esse momento, no
tiveram medo. Mas assim que
 anoiteceu, um canho comeou a mandar balas par
a o quartel da Avenida e parecia que o canho es
tava muito perto; devia estar no campo
de Marte
. Resolveram descer e ficar no poro; levaram o 
cachorro e a cabrinha e ficaram os quatro quieti
nhos, imveis, s com uma vela acesa. O Pirata e
stava inquieto,
mas a cabrinha deitou num canto
 e dormiu. A coisa foi piorando tanto que Clotil
de e Benedita pensaram que no amanheciam, pois 
a todo instante parecia que as balas
iam cair n
a casa. Resolveram ento rezar juntas; ajoelhara
m e Clotilde disse:
- Olhe Benedita; desta vez 
no sei se escaparemos. O negcio est preto, va
mos rezar juntas.
E comearam a rezar alto:
- 
Ave-Maria, cheia de graa, o Senhor ... (Benedi
ta gritava: l vem ela! Percebiam quando a bala 
saa de dentro do canho e vinha
zunindo zuim B
um! Caa com estrondo logo adiante. Clotilde
su
spirava: desta vez ainda no foi aqui. Vamos...)
 O Senhor  convosco, bendita sois vs entre as 
mulheres, bendito o fruto do vosso ventre, Jesus
.
Santa Maria...
Rezavam Santa Maria at o fim
 porque estavam pondo outra bala no canho. Quan
do comeavam outra vez:
- Ave-Maria, cheia de g
raa, o Senhor  convosco... (J vem outra- zuim
... Agora  aqui! - baixavam a cabea e ficavam 
encolhidas esperando a morte - Bum! A
casa toda
 estremecia. Desta vez ainda escapamos), Bendita
 sois vs entre as mulheres, bendito o fruto do 
vosso ventre, Jesus.
Assim rezaram uma poro d
e ave-marias entremeadas com balas de canho; de
 vez em quando a vela ia sumindo e acendiam outr
a; a certa hora Clotilde resolveu escrever
um b
ilhete despedindo-se de toda a famlia porque ac
hou que no atravessaria a noite viva. Tirou um 
lpis da bolsa, umas folhas do caderninho e fez 
uma espcie de
testamento; despediu-se de todos
 com palavras comovidas. Ps o papel bem dobrado
 dentro da bolsa e escreveu em cima: "Se eu morr
er". Ajoelhou-se outra vez para rezar;
Benedita
 sentou no cho com a cabea entre as mos e com
eou a chorar de medo; Pirata de vez em quando r
osnava baixinho; s Esmeralda mascava num canto,
 mudava de
posio e tornava a dormir. Clotilde
 disse
- No adianta chorar, Benedita. Vamos re
zar mais que  melhor; olhe, vamos, agora uma sa
lve-rainha bem alto: Salve-rainha, me de miseri
crdia, vida doura... (a
Benedita cobriu a cab
ea com o chalinho gritando: Nossa Senhora da Bo
a Morte, esta vem por cima de nis) vida doura.
.. zuim esperana nossa... zuim Bum! Salve!
As 
duas caram deitadas no cho, tal o fragor da bo
mba ao cair ali perto; a cabra levantou-se assus
tada e comeou a balir baixinho, e o cachorro ve
io para perto
delas gemendo e se encostando, co
m um pavor louco. Resolveram ento no rezar alt
o; Benedita chorava e dizia que a pior bomba for
a no Salve; apagaram a vela e ficaram
os quatro
 juntinhos, esperando o dia amanhecer, sem muita
 esperana de verem o sol.
Aos primeiros clare
s da madrugada, a artilharia cessou, ento elas 
se levantaram trpegas e tremendo de frio, foram
 espiar as runas da vizinhana; no havia runa
s
por perto, tinha sido mais impresso que peri
go. Trataram de sair enquanto havia trguas; ama
rraram cordas nos pescoos dos animais, puseram 
os frangos dentro da
cesta e saram devagar, es
piando a rua com cuidado. Estava tudo parado dep
ois dessa noite de pavor; s havia um homem deit
ado na esquina da Avenida, parecia morto.
Subir
am a Rua Afonso Pena e vieram vindo; Esmeralda p
arou umas duas vezes no caminho sem querer andar
; precisava uma puxar com fora e a outra empurr
ar: "Vamos,
Esmeralda, vamos, meu bem". Afinal 
chegaram abatidas e cansadas, horrorizadas s em
 lembrar a noite que haviam passado.
Desse dia 
em diante, Jlio no aproveitou mais as frias i
mprovisadas; Pirata perseguia Caarola, o gato d
e Isabel. Isabel encontrara o gato na rua, morre
ndo de
fome e pusera o nome de Caarola porque 
tinha apenas um toco de rabo; o resto ningum sa
be onde foi parar e o que tinha parecia mesmo ca
bo de caarola. Caarola
subia na goiabeira e f
icava horas sem poder descer, o plo eriado, os
 dentes arreganhados. Isabel chamava carinhosame
nte:
- Vem, Caarola. Pirata no te faz mal, eu
 no deixo.
Qual o qu; o gato cada vez mais as
sustado, olhava para baixo com os olhos amarelad
os, enormes de pavor. Se se prendia o cachorro, 
latia o dia inteiro de uma maneira
lamentvel; 
e Caarola, quando se via livre, ficava olhando 
a Mulata no poleiro, mas com uns olhos to compr
idos que se pegasse a Mulata de jeito, estraalh
ava a
coitada. Passava a lngua fora da boca be
m devagar como se estivesse na eminncia de sabo
rear um bom quitute.
Os meninos no podiam sair
 e ficavam presos em casa o dia todo; ficavam ir
ritados e nervosos; a netinha de tia Candoca era
 chorona; por qualquer coisa, chorava horas
int
eiras. Jlio coava a cabea:
- Ser que esta r
evoluo no acaba mais?
As despesas aumentaram
, o canho troava desde a madrugada, s vezes du
rante a noite e D. Genu punha a cabea vinte vez
es por cima do muro:
- Souberam mais alguma nov
idade?
Afinal, depois de vinte e tantos dias, s
oubemos que as tropas do Isidoro haviam abandona
do a cidade e tudo serenou; foi um alvio para

todos e em poucos dias a vida se normalizou. Tia
 Candoca voltou para a casa da Rua Bandeirantes 
com o bando todo; nossa casa ficou sossegada out
ra vez e durante
todo esse fim de 1924, s se f
alou na Revolta do Isidoro e suas conseqncias.

Em dezembro, Carlos tirou diploma no ginsio e
 foi uma grande satisfao para ns; em compensa
o Alfredo teve que repetir o primeiro ano gina
sial e Jlio ficou
to desesperado que pensei q
ue piorasse.
Nem pudemos festejar a formatura d
e Carlos porque Jlio passou mal do estmago e o
 nosso Natal foi bem tristonho esse ano. Jlio p
asseava na sala de um lado para
outro, impacien
te e nervoso; depois chamou Alfredo, que aparece
u com ar tmido diante do pai, a cabea baixa, p
arecia abatido. Estvamos s ns trs na sala; J
lio
comeou:
- Sente a.
Alfredo sentou-se d
iante dele, como um ru na hora de ser julgado; 
fiz um sinal para Jlio ficar mais calmo e ele t
ornou a falar:
- Ento no quer estudar? Quer s
er vagabundo?
Alfredo no respondeu e abaixou m
ais a cabea, roendo as unhas; ento comeou o s
ermo, o sermo mais longo que Jlio falou em to
da sua vida:
- Eu sei que voc no  mau filho;
  at um filho amoroso e dedicado, principalmen
te para sua me. Quando quer, sabe ser bom para 
os irmos e delicado para sua
irm; mas tem um 
defeito grande que supera todas suas boas qualid
ades. Sabe qual ? No quer levar a vida a srio
. Voc sabe que idade tem? Tem 16 anos. Est bem
.
Sabe que nessa idade eu trabalhava no armazm
 de meu pai das 6 s 6, sem saber o que era um b
rinquedo, um divertimento, nem dinheiro? E sabe 
por que eu trabalhava
tanto? Porque era pauprr
imo e via a luta de meus pais para nos educar e 
nos criar. Pois bem;  noite eu estudava, fazia 
um curso noturno at dez horas da noite;
assim 
me formei no ginsio. Mesmo no trabalho, eu vivi
a com um livro na mo para estudar nas horas vag
as. E tudo isso para qu? Diga: Para qu? Para s
er algum,
para ser um homem correto, para honr
ar o nome de meu pai. Eu podia ser um vagabundo,
 no fazer nada, viver de expedientes, de recado
s, s para ter um dinheiro para
os divertimento
s. Nunca fiz isso. Trabalhei quanto pude e se n
o estudei num curso superior foi porque meus pai
s eram pobres e mal pude cursar o ginsio. E voc
?
Voc tem tudo: um lar slido, uma me que se
 desvela para dar todo o conforto aos filhos, vi
ve trabalhando, fazendo encomendas para fora; s
 vezes at tarde da
noite para receber um dinhe
irinho no dia seguinte. E para quem  esse dinhe
iro? Para os filhos, para voc. De mim nem se fa
la porque voc est vendo a vida que
levo; no 
fao outra coisa seno trabalhar, doente ou so,
 para vocs se educarem e serem algum. Est com
preendendo? (Jlio fez uma pausa, tinha no rosto
 uma
expresso grave). Dir voc: Para que tudo
 isso? Para que estudar, trabalhar, sacrificar, 
levar a vida a srio?  to bom flanar, divertir
 com os amigos
nas ruas, ir ao cinema, no faze
r nada. Est bem. E depois? No sabe que h um d
epois? A vida no  hoje, nem amanh; a vida  u
ma vida inteira, so anos e anos
que ter diant
e de si, e, se no estiver preparado para enfren
tar esses longos anos com estudo, prtica do tra
balho, boa vontade, no ser nada, ser um homem
 vagabundo
como h muitos por a, dormindo nos 
bancos dos jardins, desonrando os nomes dos ante
passados. E quando tiver a idade de um homem, ve
r seus irmos
elevarem-se na sociedade, serem 
bem recebidos, terem um nome limpo e honrado, ve
rdadeiros homens de bem e voc o que ser? Nada.
 Um vagabundo. No roa as unhas e
preste
aten
o, Alfredo, nas minhas palavras: nem o convvio
 de seus irmos voc ter, porque eles subiro e
 voc descer de nvel cada vez mais; e a distn
cia ir aumentando
sempre. Voc se achar um di
a sozinho como um nufrago num rochedo isolado; 
chamar, mas ningum atender ao seu apelo porqu
e voc criou a prpria situao. S h
um meio 
de voc se tornar um homem de bem e honrar nosso
 nome,  cumprir seu dever. (Jlio fez outra pau
sa). E outra coisa: no quer estudar, seguir cur
so superior,
no estude; apesar de sentirmos de
sgosto com isso, mas o ginsio voc precisa faze
r, do contrrio nem bom emprego voc arranja por
que no ter aptides. Carlos est
na Escola de
 Medicina, Julinho vai estudar Engenharia, Isabe
l vai para a Escola Normal. E voc? Ao menos no 
ginsio voc precisa se formar, depois vai traba
lhar.
Mas filho vadio eu no quero; para isso e
u e sua me nos sacrificamos,  para vocs serem
 alguma coisa na vida. Se no seguir meus consel
hos, cava seu prprio abismo,
um abismo entre v
oc e a sociedade, entre voc e seus irmos. A d
istncia ser cada vez maior e mais tarde voc t
er arrependimento, mas ser tarde. Creia nas mi
nhas
palavras: o maior sentimento que tenho na 
vida  no ter podido estudar mais,  ter sido o
brigado a ganhar a vida desde os quinze anos. La
rgue essa mania de roer
as unhas. O estudo dign
ifica, eleva o nvel da pessoa, melhora a situa
o. No se esquea disso. Pode ir.
Alfredo leva
ntou-se, olhou para ns furtivamente e saiu da s
ala devagar, arrastando os ps, um ar acabrunhad
o.
Jlio sentou-se numa cadeira, dizendo, enqua
nto acendia um cigarro:
- Esse menino  um pesa
delo, no sei a quem saiu. Preveni-o:
- O mdic
o disse para voc no fumar. Por que fuma?
- Pa
ra me distrair; eu no trago a fumaa.
- Mas o 
mdico proibiu. Ele coou o queixo:
- Eu sei. E
stou pensando em Alfredo; no sei a quem puxou. 
Durante uns trs meses, Alfredo estudou seriamen
te, no brincou na
rua, estava sempre com um li
vro na mo, concentrado e estudioso. Cada dia pa
recia mais alto e estava ficando um rapago; tin
ha cabelos aloirados e dentes muito brancos;
qu
ando sorria, tornava-se atraente e muito simpti
co. Era o mais bonito dos meus filhos.
Ele e Is
abel formavam um lindo par; com treze anos, Isab
el era esbelta, com um jeitinho elegante e j es
tava da minha altura. Seus cabelos eram de um li
ndo castanho-escuro,
tinha olhos muito grandes 
e uma boca bem feita, com dentes iguaizinhos e a
lvos. Parecia um boto de rosa que, ao se ver, s
e diz: "Que linda rosa vai sair deste boto".
U
m dia chamei' a ateno do pai:
- Viu como Isab
el est ficando bonitinha?
- Bonita demais. Fil
ha de pobre no pode ser muito bonita.
- Ora, q
ue tolice! Quanto mais bonita, melhor. Assim ela
 arranjar um bom casamento.
Jlio sacudiu a ca
bea e no respondeu.
Nesse ano, Isabel tirou d
iploma no grupo escolar e comeou a se preparar 
para a Escola Normal. Por ocasio da sua formatu
ra no grupo, foi encarregada do discurso
de des
pedida; uma das professoras substitutas escreveu
 o discurso para Isabel falar. Ela estudava alto
 para decor-lo e o repetiu tantas vezes que ns
 todos decoramos
tambm; passeava de um lado a 
outro no quintal ou ento parava, segurando o pa
pel na mo esquerda e levantando o brao direito
, dirigia-se  goiabeira ou ao gato:
"Minha que
rida professora: Desejaria ser um Ccero ou um H
omero para, com palavras brilhantes, agradecer o
s sbios ensinamentos que de vs recebi". Assim 
por diante.
E na mesa, quando Isabel choraminga
va reclamando qualquer coisa como fazia sempre, 
Julinho fazia pose, levantava o brao direito nu
m gesto exagerado, fazia uma carranca
e comeav
a: "Desejaria ser um Ccero ou um Homero..." Isa
bel ficava furiosa: levantava-se e ia dar socos 
no irmo que se defendia como podia, entre as ri
sadas dos
outros. Ela gritava: "Mame, olhe Jul
inho me amolando". Eu ralhava: "Julinho, no fa
a assim". Ele respondia: "No  nada, mame. Cc
ero e Homero  que esto discutindo".
Geralment
e isso sucedia quando Jlio no vinha comer em c
asa. s vezes era Alfredo que provocava, s veze
s Carlos. A brincadeira durou muito tempo. Anos 
mais tarde,
quando um deles queria provocar Isa
bel, bastava levantar um brao e comear com voz
 cantada: "De-se-j..." Nem terminava. Isabel vi
rava uma ferazinha.
Carlos comeou a cursar o p
rimeiro ano de Medicina e um dia disse que podia
 trabalhar nas horas vagas. Havia tempo de sobra
 e assim no nos ficava to pesado. Ento
arran
jou com um mdico conhecido nosso para ser entre
gador de amostras. Trabalhava e estudava, tinha 
todas as horas tomadas e comeou a receber um or
denado regular,
o que nos aliviou muito. As vez
es, vinha almoar s duas horas da tarde e eu fi
cava apreensiva porque ele no parecia muito for
te; era plido e magro.
Isabel entrou para a Es
cola Normal e ficamos muito animados;  noite, e
la, Carlos e Julinho discutiam em casa  volta d
a mesa as matrias que estudavam; falavam
em pe
dagogia, lgebra, mecnica, psicologia e outras 
coisas que eu no entendia. Falavam tambm sobre
 lies de ingls e francs e um citava frases q
ue outro traduzia
com auxlio do dicionrio. J
lio e eu ficvamos contentes com o progresso dos
 nossos filhos. Alfredo, quando estava em casa, 
tomava parte tambm, mas sempre um pouco
descon
fiado, devido  sua ignorncia; saa quase todas
 as noites e muitas vezes voltava tarde. Nessa o
casio, Carlos me contou muito em segredo:
- Ma
me, j sei onde Alfredo passa as noites; vive f
reqentando reunies polticas.
- Reunies pol
ticas? Meu Deus! O que ser isso, Carlos?
- No
 sei bem; no reparou nos livros que ele andou l
endo a semana passada? Parece que s tratavam de
 comunismo...
- Comunismo! Alfredo com idias c
omunistas? Que absurdo! Carlos deu uma risadinha
:
- Lembra que ns chamvamos D. Genu de comuni
sta, mame? Agora  Alfredo.
- No fale nada a 
seu pai, Carlos; ele ficar furioso se souber. 


No tocamos mais no assunto e esqueci essa conv
ersa; em princpios de 1926, Jlio me disse:
- 
Lola, sabe que este  o ltimo ano das prestae
s?
- Como no hei de saber? Venho contando os d
ias e  um sonho imaginar que esta casa ser nos
sa este ano. Absolutamente nossa.  uma felicida
de. E voc reparou
quantos palacetes tm aparec
ido na Avenida? Mesmo aqui na vizinhana h trs
 casas novas, verdadeiros palacetes; quer dizer 
que daqui a alguns anos esta casa vai
valer o d
obro.
- Penso que j vale o dobro, disse Jlio.
 E quando eu puder fazer mais um quarto para Isa
bel e dar uma reforma boa com pintura e tudo, qu
anto no ficar valendo?
- E voc reparou como 
o jardim enfeita a casa?  pequenino, mas to ch
eio de flores sempre que pra gente na rua s pa
ra olhar e os que passam de bonde, voltam a
cab
ea para trs.
- Tambm a trepadeira do porto 
est uma beleza, chama a ateno. Trocamos essas
 palavras uns dias antes de Jlio adoecer. Uma n
oite
acordei com os gemidos dele; acendi a luz 
e me levantei perguntando se ele queria uma bols
a de gua quente. Fui para a cozinha aquecer a 
gua e fiz tambm um ch;
ele tomou o ch, ps a
 bolsa no estmago e no melhorou. O dia nos enc
ontrou sentados na cama e Jlio com expresso ab
atidssima no rosto, gemendo muito. Os meninos

levantaram-se para sair e mandei um deles telefo
nar do armazm da esquina chamando o mdico que 
j tinha tratado dele.
O mdico apareceu s dez
 horas e quando examinou Jlio, mostrou-se aborr
ecido dizendo que no estava gostando muito e ia
 chamar um colega. Depois do almoo, vieram
os 
dois mdicos, examinaram muito bem e foram conve
rsar na sala de jantar; depois me chamaram dizen
do que Jlio precisava ir para um hospital nesse
 dia mesmo e era
necessrio fazer uma operao.

- Operao?
Levei um susto e meu corao bate
u fortemente; eu nunca imaginara que meu marido 
precisasse ser operado.
Tudo ento se precipito
u de maneira tumultuosa; veio uma ambulncia bus
c-lo s quatro horas. S depois que a ambulnci
a chegou, me lembrei que Jlio dizia muitas
vez
es que nunca haveria de andar naquela "gaiola". 
Quando foi carregado na maca, protestou fracamen
te dizendo que preferia ir de automvel, mas os 
enfermeiros disseram
que ele no podia ir senta
do e ele se resignou depois de novos protestos. 
Mandei chamar Clotilde que estava em casa de tia
 Candoca; chegou afobada, assustadssima,
no mo
mento em que a ambulncia estava na porta, esper
ando. Disse a ela que tomasse conta dos meninos 
e da casa e entrei na ambulncia tambm; toda a 
vizinhana
estava nas janelas e nos portes ass
istindo nossa partida. Levei alguma roupa mais n
ecessria e fomos para o hospital Santa Catarina
.
Ento marcaram a operao para o dia seguinte
, s oito horas.  noite, os filhos vieram v-lo
, muito preocupados, mas encontraram o pai calmo
 e confiante. Recomendei
que no se assustassem
, que no havia de ser nada, mas percebi que Car
los estava muito nervoso quando me chamou de lad
o e disse que o caso era gravssimo. Os mdicos


tinham contado
que era uma lcera bem grande e
 havia outras complicaes. Carlos no tirava os
 olhos de mim. S lhe disse isto:
- Seja o que 
Deus quiser, meu filho.
Passei uma noite horrv
el, sem dormir um minuto; Carlos ficou comigo.

No dia seguinte levaram Jlio para a sala de ope
raes; tia Candoca, Clotilde e meus filhos esta
vam  minha volta; a operao durou mais de uma 
hora. Carlos passeava
no corredor, branco como 
papel. Alfredo sentou numa cadeira de vime que h
avia perto da sala e roeu todas as unhas; eu dei
xei. Isabel tinha os olhos midos e fazia
esfor
os para no chorar; Julinho passou o brao no m
eu e ficamos juntos esperando o resultado. Quand
o um dos mdicos saiu da sala, Carlos se precipi
tou; vi o mdico
sorrir e, pelo modo como respo
ndia a Carlos, fiquei aliviada; no havia razo 
para desesperar. Carlos veio explicar que tudo c
orrera bem e j iam lev-lo para o
quarto. Resp
iramos cheios de espeiana e demos graas a Deus
 por tudo ter acabado bem.
Nessa noite, Jlio t
eve febre alta e variou a noite toda, falando co
isas sem nexo, muito agitado. S dois dias depoi
s, comeou a melhorar e entramos nos eixos outra

vez. Uma noite eu ficava com ele, outra noite 
ficava Carlos ou Clotilde e no fim da semana, um
 dos mdicos assistentes me disse:
- A senhora 
ficou bem assustada nos dois primeiros dias, no
? Pensamos mesmo que ele no resistisse. Mas ago
ra est cada dia melhor.
Mas eu no achava Jli
o muito bem; parecia sempre inconsciente, no se
 importava com o que estava se passando e s qua
ndo Isabel chegava perto da cama, ele se animava

para perguntar:
- Ento como vai a minha filh
inha?
Os olhos brilhavam no rosto abatido e esb
oava um fraco sorriso. No dcimo dia depois da 
operao, veio a catstrofe; ele no tinha passa
do bem a noite, sempre muito
agitado e quando o
 mdico veio examin-lo,
sobreveio a sncope. T
odos correram; vieram enfermeiros, mdicos e emp
regados. Resolveram fazer imediatamente uma tran
sfuso de sangue; fizeram, mas parece que o
org
anismo no reagia, parecia to cansado. Era o co
rao que no resistia;  noite, outra transfus
o, mas no adiantou nada. Disseram que era mesmo
 o corao que
enfraquecia cada vez mais; passo
u a noite toda muito mal, respirando  custa de 
bales de oxignio; no falou mais, nem conheceu
 ningum. No dia seguinte cedo, morreu.
Quando 
os filhos vieram visit-lo, vi o rosto bonito e 
alegre de Isabel no vam da porta; estava com uma
 blusinha vermelha. Julinho que entrara um pouco
 antes, voltou-se
rapidamente e disse quando el
a estava ainda na porta:
- Papai est morrendo!

Vi o rosto dela empalidecer at os lbios; olh
ou para mim como se no me visse e um soluo dol
oroso saiu da sua garganta; corri a abraar minh
a filhinha e assim
unidas, ficamos at o fim. E
le acabou de fechar os olhos e ns cinco, meus q
uatro filhos e eu nos abraamos desesperadamente
, pois parecia que estavam arrancando
um pedao
 de ns mesmos. Foi horrvel e dilacerante.
Tud
o passou rapidamente; levamos Jlio para casa e 
marcou-se o enterro para o dia seguinte s nove 
horas. O dono da loja veio logo falar comigo e d
izer que a loja
faria o enterro porque ele era 
um empregado antigo e considerado: era mesmo o m
ais antigo. Concordei e dei graas a Deus pois n
o tinha em casa dinheiro algum e
estava devend
o as despesas de hospital e operao. Nem queria
 pensar como iramos viver.
Nessa noite nossa c
asa ficou cheia at altas horas; vieram todos os
 colegas da casa onde Jlio trabalhava e todos o
s amigos. Eu estava um pouco idiota e dizia obri
gada
para todas as pessoas que vinham apertar m
inha mo; mas no entendia o que elas diziam e 
s vezes nem as conhecia. Depois me lembrava que 
conhecia muito bem e sentia
no ter sido mais a
mvel para com elas. Clotilde de vez em quando v
inha me buscar para ir l dentro tomar um cafezi
nho, mas no tinha vontade e no sa da sala um


minuto sequer. D. Genu fez presente de um frang
o e ela mesma preparou uma canja que s provei n
o dia seguinte, apesar dos pedidos de tia Candoc
a, de Clotilde e de
meus filhos. Da meia-noite 
em diante, ficamos quase ss porque todos foram 
saindo; D. Genu ficou firme at o dia seguinte. 
Ora arrumava as flores, ora espetava as
velas, 
providenciava tudo, animada e quase alegre como 
ficava nessas ocasies.
No dia seguinte, comea
ram a chegar muitas coroas; reparei que a mais b
onita era a dos donos da loja, depois a dos cole
gas e outra de tia Emlia, da Rua Guaianases.
C
lotilde tambm mandou fazer uma em nosso nome; e
ra de crisandlias gradas, cor de carne. Prefer
ia que fosse de crisandlia cor-de-rosa, mas ela
 disse que no havia
mais. Depois que o enterro
 saiu, fui l para dentro, com Tia Candoca de um
 lado e D. Genu do outro e sentando numa cadeira
 da copa, chorei livremente. Os dois filhos
mai
s velhos foram acompanhar o pai; s Julinho e Is
abel ficaram comigo. Uma meia hora depois, quand
o fiquei mais calma, procurei Isabel e no a enc
ontrei; ento
fui ver se ela estava no quarto. 
Estava deitada na cama e abraada ao Caarola, c
horava, chorava; um chorinho triste e abafado, d
e cortar o corao. Todo seu corpo
tremia e os 
soluos eram doloridos e vinham do fundo do peit
o. O gato um pouco assustado, olhava de banda me
io desconfiado, as orelhas baixadas, como que ab
orrecido.
Abracei-a passando a mo pelos seus o
mbros:
- Filhinha, precisa ter coragem; perdemo
s nosso maior amigo, mas precisamos ter coragem.

Ela comeou a chorar mais alto:
- O que havem
os de fazer, mame? Como vamos viver agora sem e
le?
- Tudo-se h de arranjar, Isabel. Deus  gr
ande e no nos abandonar.
A vozinha dela conti
nuou, abafada, o rosto contra o travesseiro:
- 
Eu gostava tanto dele, mame. Era to bom, to b
om. To meu amigo; ainda antes de ficar doente, 
prometeu me levar um dia ao Rio de
Janeiro. E e
le levava, mame, se no tivesse morrido.
- Nat
uralmente levava, Isabel. Quando ele prometia, c
umpria, mesmo com sacrifcio. Coitado!
- Coitad
o do meu paizinho! Com este frio e esta chuva, s
ozinho debaixo da terra! Como vai ser?
E Isabel
 soluou mais segurando com fora o Caarola; ma
s o gato revoltou-se e pulou para o cho, miando
. Comecei a passar as mos nos cabelos dela:
- 
No fale assim filhinha. Fico mais triste e mais
 desesperada ouvindo voc falar desse jeito. Ele
 no est debaixo da terra, est no cu!
Julinh
o enfiou a cabea no vo da porta e entrou de ma
nso; no disse nada, sentou-se numa cadeira pert
o da cama e deitando a cabea sobre os braos, c
aiu em prantos
tambm. Isabel continuava.
- Pa
pai! Meu papaizinho!
Meu corao quase arrebent
ava ouvindo os soluos de meus filhos; depois vi
eram Clotilde, tia Candoca e Durvalina e comear
am a falar para nos consolar. Quando os
meninos
 voltaram do cemitrio, contaram que o enterro t
inha sido grande com muitos automveis e coroas.
 Julinho parou de chorar dizendo que quando o en
terro saiu,
ele contara trs quarteires cheios
 de automveis, o que Durva contestou, afirmando
 que eram quatro quarteires e no trs; podia p
erguntar para a cozinheira da
vizinha que tinha
 contado tambm. Tia Candoca disse que perdera a
 conta do nmero de coroas, mas chegara a contar
 quatorze. D. Genu entrou nesse momento trazendo

um prato de pastis quentinhos, ouviu a conver
sa e garantiu que contara at vinte e duas coroa
s; e tinham chegado mais depois.
Os meninos fic
aram admirados; e quando Carlos disse que j tin
ha providenciado e que no dia seguinte ns amos
 ler a notcia em dois jornais, Isabel ficou mai
s animada:
- Vai sair em dois jornais?
Deixamo
s o quarto e fomos para a copa comer alguma cois
a; logo depois nos deitamos porque estvamos mui
to cansados. Levei Isabel para minha cama e como
 Clotilde
tambm queria dormir no nosso quarto,
 trouxemos a cama dela e dormimos as trs juntas
.
Dormi o primeiro sono muito pesado porque est
ava exausta; acordei com um pensamento que me ve
io durante o sono; mesmo dormindo, pensei:
- Co
mo vamos viver? Com que recursos? Como irei paga
r as dvidas do mdico e do hospital? Como iremo
s comer?
E de repente, levei um susto maior:
-
 E a prestao da casa? Meu Deus! Com que iria p
agar a prestao? E os estudos dos meninos? Noss
a Senhora, e os estudos?
Ento me sentei na cam
a, desesperada e toda desgrenhada, sentindo uma 
angstia se apoderar de mim e, apesar da fadiga 
dos ltimos dias, no dormi mais. Clotilde
acor
dou tambm e perguntou se eu estava doente e eu 
disse que no, estava bem. Fingi que dormi meio 
sentada, mas esperei a madrugada chegar com negr
os pensamentos
vagando em meu crebro. Para des
viar meu pensamento, procurei ouvir o vento; era
 um vento forte que sacudia as janelas e as plan
tas do jardim; comecei a prestar
ateno para v
er se o vento vinha do norte ou do sul e ouvi a 
roseira plantada por Jlio bater na parede do qu
arto; batia, voltava e tornava a bater conforme 
a fora
do vento. Pensei nas rosas desfolhadas,
 descobri que o vento mudava de direo como se 
quisesse me enganar, vi uma tnue claridade dese
nhar-se na veneziana do quarto
e senti a ventan
ia ulular mais forte-
mente, mas o mesmo pensam
ento me fazia doer a cabea: "Como iremos comer?
 O que iremos fazer?" Acho que nessa noite envel
heci todos os anos que tinha que envelhecer
o r
esto da vida.
Amanheceu chovendo; uma cor cinze
nto-escura sobre todas as coisas e a chuva a pin
gar fininha das rvores e dos telhados com um ba
rulho montono. E fazia frio.
Passei o dia todo
 muito atarefada com as visitas e no tive tempo
 de pensar em ns; logo depois do almoo vieram 
tia Emlia e a "menina". Eu estava to abalada q
ue
quase no falava, s ouvia a conversa dos ou
tros; Isabel no se separava de mim, segurando m
inha mo ou meu brao. Ou ento ficava horas int
eiras com Caarola no
colo, sem falar nada, os 
olhos muito grandes fixos num ponto qualquer, se
m ver. Os meninos passeavam pela casa de um lado
 para outro, sem saber o que fazer, nem
onde ir
. Iam da sala para a cozinha, da cozinha para o 
quarto, voltavam  sala outra vez, sentavam um p
ouco e se levantavam logo depois, tornando a sai
r. Davam a
impresso de criaturas que tivessem 
perdido o rumo e no o encontrassem mais; inutil
mente procuravam, inutilmente.
Passamos assim o
s primeiros dias, sem direo, sem saber para on
de ir, por onde recomear a viver.
Carlos foi t
ratar da missa, Clotilde tratou do luto; s quan
do me pediram dinheiro para as despesas, pensei 
de novo desesperadamente no futuro.
Reunimos en
to todos na terceira ou quarta noite e discutim
os para ver o que havamos de fazer. Clotilde er
a corajosa; props comprarmos um fogo com bom f
orno e
fazermos doces para vender. Carlos disse
 que deixaria a escola e ia procurar emprego; qu
ando pudesse recomearia os estudos. Protestei c
om energia dizendo que nesse
caso preferia vend
er a casa, mas quando disse isso, todos gritaram
 que no, isso nunca! A nossa nica salvao era
 a casa, se a vendssemos, e acabasse o dinheiro
,
que faramos? Clotilde dizia convencida, bate
ndo a mo na mesa:
- Ao menos temos o teto, Lol
a. Isso  o principal, o resto se arranja. Come-
se po com banana se for preciso, mas a casa  n
ossa. Ningum tira.
- Mas Carlos deixar a escol
a? Depois de tanto sacrifcio?  o futuro dele q
ue est em jogo.  o futuro, a vida inteira! No
.
Protestaram de novo:
- Mas em qualquer poca
 ele pode estudar! Nunca  tarde para isso. O pr
incipal agora  garantir a casa, o teto. Quem sa
be o ano que vem, as coisas melhoram e ele
pode
 continuar a estudar.
Olhei tristemente para Ca
rlos que confirmou:
-  isso mesmo, mame. Tia 
Clotilde tem razo; se eu arranjar um bom empreg
o, a situao melhora muito; estudarei mais tard
e, quando puder.
Julinho e Alfredo disseram que
 tambm iam trabalhar; ficou assentado que s Is
abel continuaria a estudar. Julinho deu uma idi
a instantes depois:
- Tem um jeito melhor; alug
amos esta casa e vamos para uma casa menor e mai
s barata. Assim o aluguel desta sobrando um pouc
o, j ajuda.
Os outros no quiseram:
- Menor q
ue esta? No. Daqui no samos, no , mame? Cl
otilde interveio:
- Por enquanto no. Nada de p
recipitao. Mais tarde, se precisarmos, ento v
amos ver.
Fiquei muito acabrunhada em pensar qu
e os meninos deixariam os estudos, mas no tive 
outra soluo, seno aceitar. Juntando minhas ec
onomias com as de Carlos, paguei
as primeiras d
espesas. Uns dias depois, um automvel muito bon
ito parou na porta da nossa casa e um rapaz me p
rocurou em nome de tia Emlia. Era o filho mais 
moo
que queria falar comigo; muito polidamente
, ele me deu um cheque dobrado em dois dizendo q
ue era uma lembrana de tia Emlia. Apertei o ch
eque na palma da minha
mo, curiosa para ver qu
anto era e perguntei se ele no queria entrar e 
tomar um caf. Agradeceu e foi embora. Quando o 
automvel partiu, abri vagarosamente o papelzinh
o
e espiei: dois contos! Li outra vez com calma
: dois contos de ris!
Todos me rodearam:
- De
ixa ver, mame, deixa ver!
- Puxa! Quanto dinhe
iro!
- Assim mesmo a tia da Guaianases  boa! C
lotilde veio alvoroada:
- Oh! Lola, que felici
dade! D para sair do buraco!
Encarei com mais 
coragem a situao. Mandei Carlos saber as despe
sas do hospital e do mdico; depois de tudo pago
, fiquei com 800$000 que guardei como o maior te
souro
do mundo e tocamos a vida para a frente.


Em primeiro lugar, fui procurar emprego para os
 meninos; fui  loja falar com o chefe. O dono c
oncordou em aceitar Julinho como empregado, mas 
ganhando pouco ao
princpio. Levantei as mos p
ara o cu. Mas meu contentamento no durou muito
; um dos colegas de Jlio veio me contar que Jl
io lhe devia 300$000; e mostrou a letra.
Levei 
um susto! Mas ele me acalmou dizendo que no vin
ha me cobrar porque sabia que no estvamos em c
ondies de pagar, pagasse quando pudesse. Pergu
ntei se ele
no concordava em tirar 50$000 do o
rdenado de Julinho todos os meses; ele hesitou e
 concordou, um pouco contrariado. Eu queria guar
dar os 800$000 para a prestao
da casa no fim 
do ano. Julinho comeou a ganhar 150$000, mas tr
azia apenas 100$000 para casa, o resto ficava pa
ra o pagamento da dvida.
O tempo foi passando 
e fomos ficando endividados; nos primeiros meses
 no paguei quase nada e o homem do armazm come
ou a reclamar. Carlos e Alfredo no encontraram

emprego; Carlos continuou como entregador de a
mostras, mas dava pouco e quando ele se apresent
ava nos empregos que via nos jornais perguntavam
 se ele sabia escrever
'a mquina; como no sab
ia, no aceitavam.
Clotilde e eu continuvamos 
ativamente a fazer tric, mas infelizmente no a
pareciam tantas encomendas como desejvamos. Dei
xamos para comprar o fogo mais tarde
e avisamo
s as amigas e vizinhos que aceitvamos encomenda
s de doces e salgados; se aparecesse alguma enco
menda, faramos no nosso forno mesmo. Alfredo se
 ofereceu
para vender algum doce ou balas nas c
asas conhecidas e como ele gostava muito de vive
r na rua, mandei-o uma vez com uma lata de cocad
as e outra de
p-de-moleque. ''Depois de andar 
um dia inteiro, voltou desanimado dizendo que o 
que gastava nos sapatos era mais do que o lucro;
 assim mesmo conseguiu vender quase
tudo. O que
 sobrava ele comia no caminho, na volta, e o res
ultado foi nulo.
No primeiro ms, fiquei horror
izada com as despesas; emprio, aougue, po, le
ite, Durva. Reuni todos outra vez para conversar
mos sobre a situao e disse que tnhamos
que c
ortar tudo o que no fosse absolutamente necess
rio; assim resolvemos mandar Durvalina embora. O
s meninos estavam acostumados com ela desde pequ
eninos e sentiram
muito; dois dias depois ela f
oi. Antes de deixar nossa casa, comprou um bule 
de metal para caf e me deu de presente; estava 
to comovida que no pde falar. Estendeu
o bra
o para mim sem dizer nada, e eu tambm estendi 
o brao e segurei o bule sem poder falar; assim 
foi nossa despedida, sem palavras. Saiu pelo por
tozinho com
a trouxa de -roupa e Isabel e Juli
nho chorando atrs dela; acompanharam-na at o b
onde.
Clotilde e eu comeamos a revezar na cozi
nha; uma cozinhava uma semana e outra na semana 
seguinte; a limpeza da casa era feita por todos,
 cada um varria seu prprio
quarto, estendia a 
cama e tirava o p. Muitas vezes discutiam por c
ausa da vassoura, um puxava de um lado, outro do
 outro lado, eu precisava intervir.
Quando come
ou o segundo ms, tive uma dolorosa surpresa: r
ecebi um aviso de uma letra de Jlio no valor de
 500$000; no sei por que ele fez essas dvidas 
e chorei
durante horas fechada no meu quarto. M
andei Carlos pagar; dos 800$000 j havia tirado 
200$000 para as primeiras despesas, tirei mais 5
00$000 para pagar a letra e
fiquei apenas com

100$000 para algum novo aperto. Nesse dia tia Ca
ndoca esteve em casa e conversando, perguntou se
 Jlio no tinha deixado Seguro de Vida. Disse q
ue no. Ela tornou
a perguntar, meio seca, com 
ar de censura:
- No deixou nada, nada?
Tornei
 a dizer que no e ela abanou a cabea. Nessa no
ite, tive uma conversa outra vez com Clotilde a 
respeito do nosso futuro. Para fazermos mais eco
nomia resolvemos
cortar o leite, a manteiga e c
omprar carne s duas vezes por semana, quintas e
 domingos. Dias depois, quando acabou a 'manteig
a que ainda tnhamos em casa, Julinho
perguntou
 de manh onde estava a manteiga para passar no 
po. Eu disse que no tinha mais; ele me encarou
 admirado:
- Por que no pede, mame?
No resp
ondi e ele compreendeu; comeu o po com lgrimas
. Consolei-o dizendo que tivesse pacincia, as c
oisas no seriam sempre assim. Ele engoliu o lt
imo pedao
de po com um soluo e foi para a lo
ja; o grande engenheiro que pretendia ser, era u
m pobre caixeiro de uma modesta loja.
Nessa tar
de, fomos visitar tia Emlia e pedi um emprego p
ara Carlos a um genro dela que era diretor de um
 banco. Eu no queria pedir nada desde que no m
e atendera
uma vez, mas devido  insistncia de
 Clotilde e com grande receio pelo futuro dos me
us filhos, fui  Rua Guaianases. Agradeci caloro
samente o cheque que j agradecera
por carta e 
expliquei que os dois mais velhos no tinham arr
anjado nada ainda,
apesar de procurarem todos o
s dias. Ela ficou admirada, pois no sabia que m
eus filhos haviam deixado os estudos para trabal
har. Perguntou:
- Seu marido no deixou Seguro 
de Vida?
Respondi que no, porque vivamos com 
muita economia por causa dos estudos dos filhos 
e o dinheiro no sobrava para outras coisas; ela
 tambm sacudiu a cabea com
ar de censura e na
da disse. Prometeu falar com o genro e mandar ch
amar Carlos logo que arranjasse algum emprego.

Voltamos para casa muito desanimadas; o fim do a
no se aproximava rapidamente e eu s pensava na 
prestao da casa. Como iria pagar? Vivamos com
 os cem mil-ris
de Julinho, cem mil-ris que C
arlos fazia com as amostras de remdios e algum 
dinheiro do tric; mas todos iam precisar de sap
atos, roupas e como compraramos? O
dinheiro da
va apenas para comer.
Quando os filhos perceber
am que no havia carne todos os dias, no disser
am nada, mas acharam muita falta. Todos os dias 
era feijo, arroz e batatas; uma verdura
barata
 de vez em quando. E banana; eu comprava bananas
 porque era barato e fazia eles comerem com a co
mida. Nas quintas-feiras e nos domingos, prepara
va um picadinho
de carne ou um bife pequeno par
a cada um; como eles saboreavam esse bife! Comia
m devagar, mastigando bem para sentir o gosto e,
 como a prpria frigideira vinha na
mesa, passa
vam o po no molho tantas vezes que a frigideira
 ficava limpa! Clotilde e eu no comamos bife; 
mais tarde, tive de apertar mais porque o dinhei
ro no
dava, ento havia carne s aos domingos 
e comprei menos po. Ns tambm no comamos po
. Apesar de nunca se queixarem, creio que muitas
 vezes passaram fome. Pobrezinhos!
E como eu so
fria com isso.
Comecei a ach-los magros, mas C
lotilde disse que era impresso, todos estavam b
em. De vez em quando, Clotilde ia  feira e comp
rava uma abbora bem grande; fazia
ento uma ta
chada de doce e durante uma semana inteira comia
m doce de abbora trs vezes ao dia; s vezes er
a doce de batata. E uma vez ento que Clotilde m
isturou
coco na batata, foi um dia de festa! Qu
ase choravam de alegria.
S dois meses depois q
ue pedi o emprego  tia Emlia, Carlos foi chama
do ao banco e deram-lhe uma colocao; comeou g
anhando 200$000 por ms; nem acreditei quando
e
le veio com a notcia. Faltava agora Alfredo; es
se no tinha muita vontade de trabalhar, mas com
o viu que no podia viver assim, andava procuran
do emprego em oficinas
de mecnico, pois era o 
que mais gostava; como no tinha prtica, no er
a aceito.
Chegou o ms de dezembro e continuamo
s na mesma ansiedade; vivendo com muito pouco di
nheiro; foi ento que chegou a primeira encomend
a de doces. Veio da Rua Guaianases
e era para a
 vspera de Natal, mas como a encomenda era gran
de, ficamos sem saber o que fazer, pois no tnh
amos dinheiro para comprar os ingredientes, e pe
dir para
tia Emlia outra vez, era demais. Tive
 ento uma idia, ir de emprio em emprio, at 
encontrar um que me fiasse o necessrio. No noss
o eu no podia pedir porque
j estvamos devend
o o ltimo ms. Peguei a lista de tudo que preci
sava juntamente com a carta de tia Emlia fazend
o as encomendas e entrei no primeiro armazm;
n
em acabei de falar, o dono foi logo dizendo que 
no podia. Fui ao segundo, ao terceiro, ao quart
o, nada. Tomei o bonde, procurei outro bairro, a
 mesma coisa; todos
abanavam a cabea dizendo q
ue no. Lembrei ento do bandolim de mosaicos qu
e mame tinha deixado; mostrei o broche aos dono
s dos armazns dizendo que ficaria depositado
a
t eu pagar a conta e valia uns duzentos mil-ri
s. Nem assim. S quando entrei no dcimo quinto 
emprio e j estava quase morta de fadiga e tris
teza, um homem gordo
me atendeu, leu a carta at
 o fim e disse que podia retirar o que precisas
se. Olhei para ele com tanta admirao que ele r
epetiu a ordem e quando dei o broche como
garan
tia, disse que no precisava porque tinha confia
na em mim. Com lgrimas nos olhos, fiz ento a 
encomenda: ovos, acar, farinha, frangos, mante
iga, cocos,
tmaras e ameixas. O embrulho era e
norme e eu no podia carregar; ele ficou de mand
ar no mesmo dia. Depois de agradecer muito, sa 
de l to leve como se fosse voar!
Clotilde e e
u comeamos logo a trabalhar; arregaamos as nan
gas, pusemos uns aventais grandes e trabalhamos 
dois dias sem parar, at tarde da noite. Ficou t
udo to
bom e to bonito que demos graas a Deu
s e  nossa me por nos ter ensinado um meio de 
ganhar a vida. No dia determinado, tia Emlia ma
ndou o automvel buscar e
ficamos sossegadas. P
assamos um Natal mais aliviado, pois apesar de n
o termos nada, nossa mesa ficou bem bonita com 
as sobras da festa de tia Emlia; logo depois
e
la mandou o dinheiro e ficamos mais folgados. Co
rri e fui pagar o homem gordo do emprio, depois
 comprei uns sapatos novos para Isabel porque os
 dela j estavam
muito furados na sola: ela viv
ia forrando com papelo e jornal, mas tinha os p
s sempre molhados porque chovia todos os dias e
 eles estavam to velhos que no havia
mais con
serto. Mandei pr meia sola nos sapatos dos rapa
zes e comprei mais uma camisa para Carlos; ele t
inha apenas uma que eu lavava de noite e passava
 a ferro
para no dia seguinte cedo ir ao banco 
e como j estava esgarando, comprei outra.
Ass
im terminou o ano de 1926.

Captulo XI

Em 
em princpios do novo ano, fui falar com o dono 
da nossa casa, para dizer que no podia pagar a 
prestao e pedi que esperasse mais trinta dias.
 Ele concordou.
Isabel comeou a cursar o segun
do ano da Escola Normal e ia muito bem; j estav
a com quatorze anos e muito espiga dinha de corp
o, parecia uma mocinha. Comeou a
pintar-se par
a ir  escola e eu ralhei com ela dizendo que er
a muito criana para pr rouge e achava horrvel
 uma menina pintada. Ela respondeu que todas na 
classe
faziam o mesmo, no tinha nada de mais e
 no era crime. Fiquei quieta porque sabia que n
o adiantava falar e ela comeou a pintar os lb
ios tambm.
Subiram o ordenado de Julinho para 
180#000, o que foi timo. Em janeiro apareceu um
 emprego para Alfredo por intermdio de um genro
 de D. Genu; dei tantos conselhos
para Alfredo 
ser bom e correto nessa colocao que ele saiu c
om raiva de mim e nem se despediu no primeiro
d
ia que foi trabalhar. Deu graas a Deus de no e
studar mais e creio que nunca se formaria, pois 
com dezessete anos, estava apenas no segundo ano
 ginasial. Dias
depois trouxe o macaco azul-es
curo sujo de leo e graxa para eu lavar; trabalh
ava em automveis. Foi com satisfao que lavei 
o macaco, pois no tinha muita esperana
que e
le trabalhasse; ganhava 120$000 por ms.
Aparec
eu ento outra encomenda de doces; uma encomenda
 grande, de D. Laia, a dona do palacete da esqui
na; era o ch de noivado de uma filha. Clotilde 
e eu trabalhamos
trs dias sem parar e tivemos 
um bom lucro; fomos depois comprar um fogo novo
 a prestaes porque o nosso no dava para muita
 coisa e ficvamos assando os bolos
at de madr
ugada. Depois de instalado, esperamos ansiosamen
te outras encomendas.
Ento reuni todos outra v
ez e expliquei a situao da casa; precisvamos 
dinheiro para a ltima prestao e eu tinha apen
as 450$000, a custa de muita economia. Contei
q
ue os trinta dias de prazo j estavam se escoand
o e eu no tinha juntado o que faltava. Ficaram 
admirados porque pensavam que a casa j era noss
a, expliquei que
tentara tudo para evitar mais 
esse desgosto, mas no foi possvel; comeamos e
nto a fazer uma espcie de inventrio para ver 
tudo o que na casa havia de vendvel
e saber o 
que podamos apurar; Clotilde quis dar os brinco
s de brilhantes que foram de mame. Protestamos 
e no aceitamos; avaliamos cadeiras, pratos, vas
os, panelas,
tudo o que pudssemos vender e, de
pois de tudo avaliado, no chegava a trezentos m
il-ris, se dessem o preo que calculvamos. Car
los acabou dizendo que ia pedir
mais trinta dia
s de prorrogao ao dono da casa; foi no dia seg
uinte cedo, o homem cedeu outra vez, mas contrar
iado.
Nesse nterim, Olga veio de Itapetininga 
para nos visitar;* disse que queria vir antes, m
as os filhos e os deveres de professora no perm
itiam; no passava bem ultimamente,
sofria dos 
rins, ento pediu uma licena e veio para se tra
tar. Trouxe s o ltimo filho; ocuparam meu quar
to e fui dormir no de Isabel.
Quase na vspera 
de Olga voltar, o dono da casa veio receber a pr
estao; fiquei muito aflita e como no podia pa
gar, dei o dinheiro que tinha em casa. Ele no q
uis
receber dizendo que receberia tudo de uma v
ez e no podia mais esperar; pedi que esperasse 
mais trinta dias e ento pagaria tudo. Depois qu
e ele foi embora, muito
zangado, Clotilde conto
u tudo a Olga e eu perguntei se ela e o Zeca no
 podiam nos fazer esse adiantamento; tinha esper
ana de pag-los at o fim do ano. Ela hesitou

dizendo que no tinham quase nada, em todo o cas
o ia ver o que podia arranjar. E como presenciou
 nossa pobreza e nossa luta de todos os dias, po
is muitas vezes comamos
apenas feijo com angu
 e bananas (eu misturava uns torresmos no angu p
ara dar um gostinho de carne) e mais nada, nem c
af, assim que chegou a Itapetininga, escreveu

dizendo que podamos contar com o dinheiro em ab
ril. Respirei mais aliviada porque havia noites 
que eu passava sem dormir, pensando na dvida.

Quando, em abril, juntei todo o dinheiro, levei 
ao dono da casa, recebi o recibo e senti, tive c
erteza, a completa certeza de que a "Casa da Ave
nida Anglica" era
nossa, inteirinha nossa, fiq
uei to tonta, quase ca e meus olhos se nublara
m. Precisei me encostar na parede de uma casa e 
esperar a vertigem passar; lembrei dos
projetos
 de Jlio para esse dia e chorei, na rua mesmo. 
Depois sorri sozinha quando voltava para casa,

pensando no banquete com que iria surpreender me
us filhos,  noite. Preparei um frango assado; f
iz um quilo de fil e ainda comprei umas frutas 
e duas garrafas de
cerveja; no contei nada aos
 meninos e quando eles se sentaram  volta da me
sinha da copa e viram o que havia, exclamaes a
legres cortaram o ar; gritaram, bateram
palmas:

- Mame, que milagre  esse?
- D. Lola, o que
 foi que aconteceu?
- Mame tirou a sorte grand
e! Venham ver!
Julinho ps a mo em pala sobre 
os olhos e fingindo que no via bem, gritou:
- 
Ser possvel?  verdade o que estou vendo ou  
iluso de tica! Oh! Milagre dos milagres!  tud
o verdade! Um abrao, D. Lola!
E, sentando-se, 
tirou logo uma perna do frango e comeou a masti
gar fazendo um barulho. Ento sacudi o recibo a
cima da minha cabea, tal qual uma criana como 
os
meus filhinhos eram naquele tempo e falei co
m entusiasmo:
- A casa  nossa! A casa  nossa!

E ca sentada numa cadeira, completamente exau
sta como se tudo aquilo fosse demais para mim. T
odos pegaram o recibo, olharam, cheiraram, levan
taram contra a luz,
riram, apalparam, acariciar
am, e Alfredo disse:
- Mame, isto merece um qu
adro e uma moldura dourada; vamos coloc-lo na p
arede mais saliente da casa. Que acha?
Todos ri
ram e Carlos achou que a data era muito solene e
 ficaria gravada para sempre nos anais da famli
a Lemos! Sentaram e comeram sofregamente todo o 
jantar; deixaram
apenas um pouco de arroz no fu
ndo da panela e uns pedacinhos de carne para o g
ato; acontecesse o que acontecesse, nunca esquec
iam o Caarola e, mesmo nos piores
dias, sempre
 guardavam alguma coisa para o gatinho, o que me
 enternecia. Roeram os ossinhos finos do frango 
comentando a posse do "palacete" e at as frutas
 que
eu tinha feito em salada, desapareceram nu
m instante!
Fomos dormir mais felizes nessa noi
te como se tivssemos tirado um peso enorme das 
costas e no dia seguinte, quando me olhei no esp
elho, como estava velha! Meus
cabelos estavam q
uase todos brancos e eu tinha sulcos  volta dos
 olhos e da boca, e um cansao profundo que vinh
a de anos e anos de pobreza, de lutas, de prova
es.
Todo o corpo fatigado e modo do trabalho 
e das preocupaes. E ainda estava longe da idad
e de ser velha!
Quando Alfredo recebeu o primei
ro ms de ordenado, tive uma desiluso; em vez d
e ficar com algum dinheiro e dar a quantia maior
 para mim como os outros faziam, ficou
com cem 
mil-ris e me deu s vinte. Chamei sua ateno, 
mas replicou:
- No adianta eu dar  senhora po
rque com esse dinheiro tem que me comprar sapato
s e camisas; ento j fico com ele, vem dar na m
esma. No posso continuar com estes
sapatos por
que tenho vergonha. Veja. E preciso dinheiro par
a meus cigarros tambm.
Fumava muito ultimament
e e quando disse que Carlos era o mais velho e n
o fumava, respondeu que Carlos era um "trouxa".
 Percebi
que no podia contar com Alfredo para 
nada; era o nico que voltava tarde da noite e o
s outros me diziam:
- Mame, Alfredo est abusa
ndo.
Mas eu sabia que no adiantava falar e qua
ndo queria repreend-lo desviava o assunto de mo
do hbil; perguntava com voz meiga:
- Mame, j
 reparou na Genu estes dias?
- No fale assim, 
Alfredo, fale D. Genu. O que tem?
- No reparou
 no alvoroo dela? Anda contente, os olhos brilh
antes como os do Caarola, cheirando o ar... esc
utando... espreitando... no viu ainda?
- No.


- Pois a vizinha da esquina debaixo est muito 
mal, pra morrer Quero dizer, a me da vizinha, a
quela velhinha de oitenta anos, e a Genu j est
 se preparando para
a festa.
- Alfredo, no fa
le assim, nem diga Genu.
- Tumbm onde se viu u
ma mulher chamada Genu?
- Voc sabe muito bem q
ue o nome dela  Genoveva, no  Genu.
- Mas ch
amam de Genu e est acabado. Eu sei que anda che
irando defunto.
- No fale assim, meu filho; de
 repente ela fica sabendo e  to nossa amiga...

- Mas ela gosta de defunto, no gosta? Sente u
m gosto especial em...
- Alfredo, fique quieto.
 Por que veio to tarde ontem?
Ele no responde
u e ficou me olhando, fazendo sinais que eu no 
entendia. Tornei a perguntar:
-- Responda; por 
que veio tarde?
-  pra falar? Agora mesmo a se
nhora no disse pr'eu ficar quieto? Esqueceu?
E
u no podia deixar de sorrir e ele me abraava e
 me beijava:
- Esta D. Lola, esta D. Lola... E 
as repreenses paravam a.
Quando terminou o se
gundo ms do emprego, apareceu com uma roupa nov
a azul-marinho; vendo-me to espantada com o ter
no, riu com gosto e perguntou:
- Est estranhan
do o filho, D. Lola?
E fez uma pirueta para eu 
ver a roupa. Perguntei:
- Que loucura  essa? C
om esse ordenado, fez uma roupa to cara? Respon
deu rindo:
- Ora, mame, para que servem as pre
staes? Vou pagar trinta mil-ris por ms; levo
 tempo pagando, mas no tem importncia.
Censur
ei:
- Cuidado, meu filho. No v se endividar; 
voc devia fazer a roupa l para o fim do ano, e
m dezembro.
Ele saiu assobiando e antes de entr
ar no quarto, falou da porta:
- No tenha medo,
 sei o que estou fazendo.
E assim continuou, se
m dar muita ateno aos apuros que passvamos e 
sempre desligado dos outros irmos, achando que 
eram uns trouxas por levarem a vida to a srio.

Clotilde e eu continuvamos a trabalhar muito,
 s vezes nos trics, s vezes fazendo doces, po
is sempre tnhamos uma ou outra encomenda.
E as
sim os dias foram passando, as semanas e os mese
s; eu dizia que nossa casa parecia uma colmeia; 
todos saam cedo para o trabalho e os que ficava
m, tambm trabalhavam.
Havia meses que passvam
os melhor, mas havia outros que apenas comamos;
 no podamos comprar uma escova de dentes seque
r! O dinheiro dava apenas para no morrer
de fo
me.
E veio outro ano e outro inverno; e esse in
verno foi triste. Todos se resfriaram e eu tinha
 muita pena dos rapazes porque iam para o trabal
ho com dor de cabea e
tosse e eu ficava o dia 
todo pensando neles, com mgoa no corao. Quem 
custou mais a se curar foi Julinho; passou meses
 tossindo. No podamos comprar remdios,
ento
 Clotilde fez em casa um xarope de eucaliptos qu
e ele tomava todos os dias; emagreceu e ficou ab
atido.
No fim desse ano, todos se queixaram de 
dor de dentes. Fiquei desesperada; tia Candoca e
nto lembrou que havia um sobrinho de uma irm d
a cunhada dela que era dentista
no Brs. Fui l
 com os filhos e pedi oramento para todos; ele 
me cobrou o mnimo possvel e levei quase dois a
nos pagando.
O dinheiro que Olga e Zeca nos adi
antaram s consegui pagar um ano depois, assim m
esmo a prestaes.
Nessa poca, Isabel quis dei
xar os estudos para aprender datilografia e se e
mpregar; precisou muita energia e conselhos para
 ela desistir do projeto; queria trabalhar
para
 comprar vestidos e sapatos. Era muito vaidosa e
 no se conformava com a pobreza.
Todos os dias
 tinha uma reclamao a fazer e ia para a escola
 chorando; um dia porque os sapatos estavam velh
os demais e "o que as colegas iriam pensar?" Out
ro dia
porque a blusa tinha um remendo e no qu
eria vesti-la mais; outro dia porque no tinha u
m bom casaco para o frio e sentia vergonha de ir
 s com a blusa de malha.
Era uma luta acalmar 
o gnio forte de Isabel; eu me lembrava de Jlio
 que sempre reclamava, censurava e nada achava b
om, nada a seu gosto. Percebi que sumia dinheiro

da minha gaveta e chamei a ateno de Isabel; 
ela chorou, bateu os ps e negou, dizendo que n
o era ela, mas dias depois descobri que ela e Al
fredo tiravam os nqueis
que eu guardava para a
s compras de momento. Ralhei com eles e escondi 
o dinheiro noutro lugar. Depois soube que Isabel
 ia a p para a escola quase todos os dias
e, c
om o dinheiro que eu dava para o bonde, comprava
 pintura para o rosto e esmalte para as unhas. P
or isso no havia sapatos que durassem para Isab
el; todos os
sapatos que eu comprava estragavam
-se em pouco tempo.
Era muito vaidosa e s veze
s eu pensava comigo mesma que tinha sua razo de
 ser, pois estava cada dia mais bonita!
Fez exa
mes em novembro e passou com boas notas para o t
erceiro ano da Escola Normal. s vezes estudava 
ingls em voz alta no quintal passeando de um la
do para outro;
entusiasmada porque j sabia alg
umas frases, e no parava de repeti-las. Tanto r
epetiu um dia que at eu decorei. Tambm no sei
 por que, sempre tive uma cabea
danada para de
corar as lies de meus filhos. Quando estudava 
ingls, Isabel dizia e repetia alto:
- Ai go to
 bde et naine o cloque et naite...  as meide i
our cote?
Falava devagar e com intervalo em cad
a slaba; perguntava ao gato que se espreguiava
 ao sol em cima da folha de zinco que servia par
a estender roupa:
- Caarrla,  as meide iour 
chs?
E dava uma risada gostosa. Clotilde e eu 
ramos tambm ao v-la to alegre e espivamos a
travs da vidraa: ela ficava na ponta dos ps e
 sacudia o dedinho na direo
do gato que se es
preguiava com as patas esticadas, os olhos semi
cerrados e a barriguinha amarela voltada para o 
sol.
Chegamos ao fim desse ano com mais esperan
a e mais confiana em nosso futuro. Carlos dizi
a que pretendia reiniciar os estudos de Medicina
 no prximo ano; trabalharia
durante o dia e es
tudaria  noite. Julinho falava em continuar os 
preparatrios interrompidos e fazer o curso de E
ngenharia do Mackenzie. Comecei a ver tudo por

um prisma melhor; as encomendas de doces tambm 
no nos faltavam, e, para ficarmos mais aperfei
oadas, Clotilde fez um curso completo de cozinha
 e aprendeu novidades
que desconhecamos.
Alfr
edo continuava com boas roupas, gravatas bonitas
 e de vez em quando, comprava uma camisa nova; e
u censurava:
- Alfredo, Alfredo, cuidado, no f
aa dvidas.
Ele dizia que comprava a prestae
s e me agradava muito; um dia me trouxe um par d
e meias de seda que Isabel tomou para ela dizend
o que estava precisando; outro
dia me trouxe fr
utas finas. Eu agradeci muito e pedi que no gas
tasse assim; preferia que no me desse presentes
.
Um dia, nas vsperas de outro Natal, eu traba
lhava na cozinha dando conta de umas encomendas;
 Clotilde tinha sado para comprar papel de enro
lar balas. Estava justamente
batendo um bolo qu
ando Alfredo entrou na cozinha, uma expresso es
quisita no olhar. Como no era hora de nenhum de
les voltar, perguntei o que havia. Ele respondeu

que no havia nada. Tornei a perguntar:
- Est
 doente, filho? Est sentindo alguma coisa?
El
e deu umas voltas pela cozinha com as mos no bo
lso e um ar preocupado. Disse:
- No, mame, n
o tenho nada.
- Ento por que veio mais cedo? i
nsisti enquanto peneirava a farinha e o fermento
.
Alfredo deixou a cozinha dizendo que depois e
xplicaria e foi para o quarto. Fiquei pensando e
, depois que enfiei o bolo no forno, fui v-lo; 
encontrei-o sentado
na cama, a cabea baixa, pe
nsativo. Sentei perto, passando o brao sobre se
us ombros e falei ternamente:
- Que h, filho?


Ento ele baixou mais a cabea e me disse que t
inha perdido o emprego. Fiquei assustada:
- Mas
 assim  toa? Sem motivo? O que houve com voc?


- Disseram l na oficina que no h servios pa
ra todos e como sou o mais novo, me mandaram emb
ora. Mas eles me pagam, os bandidos.
Acalmei Al
fredo dizendo que no era motivo de desespero, o
utros empregos haviam de aparecer e, depois de d
ar-lhe um tapinha carinhoso no ombro, corri para
 ver o
meu bolo. Logo depois o vi saindo; no m
e disse onde ia e bateu com fora a porta da rua
.
Passei o resto da tarde fazendo bem-casados e
 quando Carlos entrou, contei logo o que tinha a
contecido. Carlos tornou a pr o chapu, dizendo
:
- Vou ver o que h, mame. No se aflija.
Cl
otilde chegou e comeou a cortar o papel de bala
 fininho como renda; os outros filhos tambm ent
raram: cada um deu uma espiada na cozinha como f
aziam sempre:
- Al, mame.
E foram para seus 
quartos; Isabel trocou o uniforme por um vestidi
nho velho de linho e foi passear na calada com 
as amigas. Fazia um calor de abafar; pus o aca
r
no fogo e fiquei esperando o ponto certo para
 colocar as tmaras recheadas na calda; sentia o
 suor escorrendo pelas minhas costas e umidade n
o meu pescoo. Estava
to ocupada nesse servio
 para que a calda no passasse do ponto que no 
percebi Carlos e Alfredo entrarem. De repente ou
vi um rudo estranho; parece que sapateavam
voz
es falavam asperamente; e de repente um grito de
 Clotilde; um grito angustioso:
- Lola.
Largue
i tudo num susto tremendo e corri para dentro; v
i Clotilde na porta do quarto de Alfredo, muito 
plida, e, dentro do quarto, Alfredo e Carlos, e
mpenhados numa
luta horrvel. Num relance, vi A
lfredo com a boca sangrando e Carlos com um olho
 meio fechado; nem me olharam e continuaram agar
rados; um se esforando para derrubar
o outro. 
Puxei Carlos por um brao e gritei:
- Meus filh
os, pelo amor de Deus! No faam isso! Clotilde 
tambm segurou um brao de Alfredo e gritou:
- 
Alfredo! Alfredo! No faam assim, por favor!
E
les se separaram um segundo; no deu tempo para 
intervir e Alfredo vibrou um murro com fora no 
queixo de Carlos; vi Carlos cambalear como se fo
sse cair, mas firmou-se
imediatamente e atirou-
se como um tigre sobre o irmo. Comecei a chorar
 alto e a gritar como louca, enquanto Clotilde t
ornava a puxar Alfredo com toda a fora, mas
el
e deu um empurro nela e quase a fez cair junto 
 janela. Eu chorava e procurava separar os dois
, quando apareceu Julinho na porta do quarto, as
sustado. Gritei-lhe:
- Julinho, por favor, acud
a!
Julinho no hesitou; foi por trs de Alfredo
 e, segurando os dois braos dele, tolheu-o de t
odo movimento. Graas a Deus Julinho era forte, 
to forte quanto Alfredo;
segurou-o assim uns m
inutos e Carlos caiu sentado na cama arquejando 
e segurando o queixo com as duas mos. Perguntei
:
- Est ferido, Carlos? Que houve? Por que fiz
eram isso? Vocs nunca brigaram assim. Vocs me 
matam, me matam.
Alfredo resmungava:
- Desgra
ado, tu h de me pagar este sangue aqui.
Julinh
o largou-o; com o leno na mo, Alfredo enxugava
 os lbios; estava to cansado que mal podia fal
ar. Clotilde foi correndo buscar gua para beber
em e como eu
tinha medo que brigassem outra vez
, disse para Carlos:
- Vamos para a cozinha, C
arlos, vamos ver o que h.
Carlos se levantou c
om uma expresso terrvel no rosto e mostrando A
lfredo, disse:
- Agora a senhora precisa saber 
o motivo da nossa briga. Alfredo foi despedido d
o emprego porque  um ladro. Roubou.
Alfredo f
ez um movimento violento para avanar sobre Carl
os, mas Julinho segurou-o novamente; protestou f
urioso:
-  mentira. Mentira desse cachorro. N
o acredite, mame. Sem poder falar, embrutecida 
com a notcia, sem poder acreditar
nas palavras
 de Carlos, encarei Alfredo que, vermelho, conti
nuou a falar:
- Mentira.  mentira. Tu h de me
 pagar. Carlos falou como se no o ouvisse'
- P
ara isso eu fui  oficina e o prprio chefe me c
ontou tudo. Furtava peas de automvel e vendia.
 Negue agora. Desonrou o nome da nossa famlia, 
do nosso
pai.
Fez uma pausa e continuou:
-  
por isso que anda assim almofadinha.
Saindo do 
quarto, foi sentar-se numa cadeira da copa. Sent
ando-me ento ao lado de Carlos, escondi a cabe
a entre os braos e chorei desesperadamente.
Cl
otilde andava para c e para l, passando salmou
ra num e noutro, depois me trouxe um caf:
- To
me este caf bem forte; no veja as coisas do la
do trgico, Lola. Foi uma criancice de Alfredo; 
qual  o rapaz que no d cabeadas? Ele j est
 envergonhado
e arrependido, naturalmente vai s
e corrigir. No se entregue assim, encare os fat
os com mais coragem.
E acrescentou baixinho:
-
 A calda queimou. 
Ento me lembrei que havia 
deixado a calda no fogo. Enxuguei meus olhos, to
mei rapidamente o caf e fui para a cozinha trat
ar de fazer outra. Clotilde preparou a
mesa par
a o jantar; como fazia muito calor, havia apenas
 uma grande travessa de salada de batatas com to
mates e outra travessa de sardinhas fritas que e
les apreciavam
muito.
Mas quase ningum jantou
; Alfredo no saiu do quarto e quando Isabel che
gou da rua, curiosa por saber por que estavam to
dos to quietos e Clotilde explicou, defendeu
o
 irmo:
- Ah! Coitado do Alfredo.  to triste 
a gente viver na misria que d vontade mesmo de
 roubar. Puxa!
Olhamos para ela duvidando da si
nceridade daquelas palavras; mas ela estava tran
qila e jantou alegremente no dando ao caso a m
nima ateno. Clotilde censurou-a:
- No fale 
assim, Isabel. Voc est mostrando muita leviand
ade nessas palavras. Seu irmo cometeu um erro m
uito grande e voc parece que est de acordo com
 ele.
Isso  muito feio, nem deve repetir.
Ela
 levantou os ombros num gesto desdenhoso e fazen
do uma careta para Clotilde, comeou a trincar u
ma sardinha segurando-a com as duas mos,
Carlo
s falou, carrancudo:
- Ela  to leviana quanto
 ele, tia Clotilde, nem sei qual  o pior. Eles 
se entendem.
Isabel largou a carcaa da sardinh
a no prato, enxugou rapidamente as pontas dos de
dos engordurados, falando para Carlos:
- Eh! J
 comea, hein?  melhor no se importar com a mi
nha vida. Trate da sua que j no  pouco, ouviu
? Pensa que  um santo? Pretende endireitar o mu
ndo?
Bobo!
E pegou outra sardinha com as mos
.
- No pretendo endireitar o mundo, mas preten
do endireitar voc que  minha irm e no tem ju
zo. Parece oca por dentro. E no seja
malcriad
a.
- Psiu! Psiu! fez Clotilde. No discutam ass
im; sua me j est to aborrecida hoje. Sejam b
ons.
-  Carlos que vive me amolando. Por que e
le me aborrece? Carlos saiu da mesa mal-humorado
, empurrou a cadeira e foi para o
quarto; Isabe
l fez meno de jogar a carcaa da sardinha nas 
costas dele; Clotilde segurou a tempo o brao de
la, dizendo:
- Pelo amor de Deus!
Ela lambeu a
s pontas dos dedos e riu, despreocupada. Julinho
 gritou:
- Olhe o caf, Carlos.
- No quero ca
f, respondeu e fechou-se no quarto. Isabel resm
ungou: "melhor para ele".
Ningum mais falou na
 mesa e logo todos se levantaram; voltei para a 
cozinha e continuei nos meus afazeres, enquanto 
Clotilde tirava a mesa e lavava os pratos do
ja
ntar. Comecei a preparar o coco para as cocadinh
as e falei a Clotilde:
- Nunca disse aos meus f
ilhos para serem honestos. Sabe por qu? Porque 
sempre pensei que a gente j nascesse honesta e 
isso no se ensinasse. Imagine dizer a
eles tod
os os dias: No roube, no mate. Voc acha que i
sso se ensina?  o mesmo que dizer: a boca  par
a falar, os olhos so para olhar. Isso se ensina
, Clotilde?
Diga se isso se ensina. Ensina-se a
 ser bom, ser correto, cumprir as obrigaes, se
r limpo, fazer o bem, no maltratar ningum, obe
decer aos mais velhos, respeitar
os superiores.
 Mas no roubar, no matar, eu nunca ensinei; se
r que errei e devia ter ensinado tambm isso? P
ensei que a gente da nossa raa j nascesse sabe
ndo.
Vai ver que errei.
Clotilde respondeu um 
pouco nervosa, enxugando os pratos:
- No digo 
que voc leva as coisas muito a srio? Isso no 
quer dizer nada, Lola. Foi uma cabeada e todo o
 rapaz d cabeadas de vez em quando, mas so pe
rdoveis.
Estou achando que essa cocada est fi
cando muito escura.
- No est, est no ponto c
erto. Depois clareia. Voc no quer que eu leve 
a srio. Se ele fez isso agora, o que no far m
ais tarde, Clotilde? Que desgosto,
meu Deus!
-
 Mas ele j est arrependido, coitado! No quis 
jantar, ele que come sempre to bem. Com este re
sto de leite, vou fazer um prato de aveia com ca
cau que ele
gosta tanto e vou levar ao quarto.


No respondi e Clotilde fez o que disse. Mais t
arde fui falar com
Carlos; sentei-me ao lado de
le, na cama, e enquanto ele tomava uma
xcara d
e chocolate, conversamos. Ele disse que tinha es
perana que Al-
fredo tivesse juzo um dia e eu
 continuei. Muitos rapazes no tm muito juzo n
essa idade, mas depois se tornam homens bons e c
orretos. Falamos tambm sobre Isabel;
disse que
 s vezes tinha a impresso de que ela era cnic
a; protestei com energia:
- No, meu filho, nem
 diga isso.  leviana, assim um pouco area, mas
 voc veja,  estudiosa e boazinha. Muito boazin
ha mesmo e carinhosa. Talvez seja um
pouco malc
riada, isso sim, mas no diga que sua irm  cn
ica.
Carlos tornou a falar sobre Alfredo, dizen
do que o que o estragava eram as ms companhias;
 desde pequeno no sabia escolher amigos e s br
incava com moleques que
diziam nomes feios e qu
ebravam vidraas. Ri-me ao lembrar as peraltagen
s de Alfredo e mais consolada com essas confidn
cias, despedimo-nos e fui me deitar.
Mas no co
nsegui dormir; levantei-me ento de madrugada pa
ra preparar os frangos para a encomenda; comeou
 a cair uma chuva grossa e barulhenta, chuva de 
vero e
um cheiro de terra molhada entrou pela 
cozinha adentro. O dia prometia ser escuro, somb
rio, com a chuva a despencar l fora. Ouvi um le
ve arranho na porta do quintal
e, quando abri,
 o gato entrou esbaforido, sacudindo-se todo e p
assando devagar a lngua vermelha por todo o cor
po. Correu para perto do fogo no canto predilet
o
e de vez em quando se erguia e se esfregava n
a minha saia para enxugar o plo molhado. E rosn
ava, todo satisfeito; falei enquanto limpava os 
frangos:
- Divertiu-se a noite toda por a, hei
n, Caarola? Agora vem procurar a gente.
E come
cei a pensar em Alfredo; o que eu faria com ele?
 No era uma infelicidade ter um filho assim?
D
e repente Alfredo apareceu na cozinha, uma expre
sso tristonha no rosto:
- Bom dia, mame.
- B
om dia.
Ficou encostado na porta, sem dizer nad
a, seguindo meus movimentos de um lado para outr
o. Depois, sentou-se num banquinho ao lado da me
sa e bocejando, perguntou
com voz pesarosa:
- 
A senhora acreditou no que Carlos contou, mame?
 Olhei para ele dizendo:
- Como no havia de ac
reditar? Naturalmente acreditei.
Ento Alfredo 
me contou que tinha sido vtima de um colega de 
oficina; eram amigos e o outro o levava todos os
 dias para jogar no bicho. Comearam a perder mu
ito
dinheiro e como Alfredo lidava com peas ca
ras, o amigo insinuou: "Venda algumas peas, com
 esse dinheiro jogamos mais; depois que ganharmo
s, iremos repor as peas
de novo, porque esta t
abela que tenho  infalvel. Quer ver? Pode ser 
que se perci um dia ou outro, mas depois se ganh
a,  na batata".
E o amigo explicou como era a 
tabela e todas as probabilidades que havia de ga
nharem; tanto o amigo falou que ele acreditou e 
me disse: - "Fui na onda", mame, e
a tabela "n
egou fogo". Ento no pudemos repor as peas e n
a "hora h", o tal da oficina "tirou o corpo" e "
eu fiquei na mo".
Ele falava com tanta convic
o, to calorosamente que no pude deixar de acr
editar, pois percebia que era verdade. Dizia que
 queria
melhorar, ganhar mais para eu no preci
sar trabalhar, ou no trabalhar tanto. Tinha pen
a de mim correndo pra c e pra l o dia todo no 
servio rduo; lembrei-me
de
todos os presente
s que ele me dera e meu corao comeou a amolec
er. Quase sem energia, falei:
- Mas voc nunca 
devia ter feito o que fez. No era seu, Alfredo.

- Mas eu ia repor, mame. Juro para a senhora.
 Deus me livre ficar com o que no  meu. Mas n
o deu tempo. Aquele bandido que me traiu continu
a na oficina,
mas ele me paga. Ainda hei de "su
jar" ele.
Enquanto Alfredo falava, eu o olhava 
e como estava bonito e simptico, assim com os c
abelos louros despenteados, os dentes muito igua
is e brancos, a boca perfeita,
apesar de leveme
nte inchada por causa do soco da vspera. Como e
ra bonito esse meu filho! Pelo modo como contou 
o fato, vi que tudo era verdade e que o chefe ti
nha
sido mau e impiedoso e exagerado num caso q
ue no era para tanto. Pensei em quanto o mundo 
era ruim e como os pobres sofriam; a tentao er
a grande, ainda mais para
um belo rapaz.
Sorri
ndo mais aliviada, preparei ento para Alfredo u
ma boa xcara de chocolate e fiz um mexido de ov
os com leite do jeito que ele gostava; comeu tud
o com po fresquinho
chegado na hora e me vendo
 contente, falou batendo nas minhas costas:
- N
o se aflija, mame. Vou arranjar um emprego mel
hor, a senhora vai ver. Aquele no era grande co
isa, ganhava muito pouco. E eu j tenho prtica,
 o que a senhora
pensa?
E levantando os braos
 para cima, comeou a se espreguiar e a bocejar
; depois sorriu alegremente para mim e saiu da c
ozinha, dizendo que ia dormir mais um pouco.
Co
mecei a mexer os frangos na panela, tranqilizad
a.

Captulo XII

um desses anos ficou assin
alado na minha vida por um ou outro fato importa
nte que fez desaparecer os outros fatos ocorrido
s na mesma poca e que serviu para mais
tarde s
epararmos um do outro, destacadamente. Era como 
se uma pessoa calcasse a folhinha com a ponta da
 unha, fazendo com fora um sulco profundo. Nas 
horas do "Lembra-se",
eu dizia para Clotilde:

- No se lembra quando foi? Foi no ano daquele "
caso" de Alfredo. Ou ento Clotilde me dizia:
-
 J esqueceu, Lola? Foi no ano "da morte de Jli
o". Ou:
- Isso foi no ano da "formatura de Isab
el..."
Esse ano que comeo a narrar foi o ano d
a partida do meu filho Julinho.
Alfredo ficou s
em emprego quase at o meio do ano; pedamos par
a uma e outra pessoa, mas nada de bom aparecia o
u, quando aparecia, Alfredo achava que no valia
 a
pena perder tempo com "empreguinhos".
Pedia
 dinheiro para mim ou para Clotilde com um modo 
to simptico e um sorriso to atraente que era 
impossvel resistir. Dizia:
- Mame, estou "pro
nto". Pode me arranjar alguns cobres? Dvamos s
 escondidas de Carlos e Julinho que censuravam e
 diziam
que no devamos dar nada, que Alfredo 
precisava aprender a trabalhar e a ganhar a vida
. Assim passaram quase seis meses.
Finalmente A
lfredo se colocou num cartrio; foi por intermd
io de um amigo do genro de D. Genu que apareceu 
esse emprego. Aconselhei-o tanto dessa vez e tod
os em
casa pediram tanto que fosse correto e cu
mprisse os deveres em memria do pai, que Alfred
o ficou abalado e prometeu ser um bom empregado.

Quando dei um suspiro de alvio e disse comigo
 mesma: agora posso dormir tranqila, compreendi
 que essas palavras no foram feitas para mim e 
que  muito difcil
uma me pobre com quatro fi
lhos dormir tranqila.
Uma noite, quase no fim 
do ano, o dono da loja de Julinho, veio nos faze
r uma visita; elogiou muito o servio de Julinho
, dizendo que era um empregado to correto
que 
desejaria mand-lo para o Rio de Janeiro, na fil
ial do irmo, uma casa importante, e de muito fu
turo. Seria chefe da seo de perfumaria da casa
 do Rio; lembrara
de Julinho por ser um rapaz t
rabalhador e honesto e, se eu consentisse, o fut
uro do menino estaria garantido. Eu disse logo q
ue no; no me separaria dos meus filhos
a no 
ser por casos irremediveis e que ele podia tamb
m ter o futuro garantido aqui, no precisava ir
 para to longe. O dono da loja pediu-me que ref
letisse bem
e que devia mudar de idia a respei
to dos filhos, e que no me esquecesse do futuro
 dele.
Quando fechei as portas e janelas para i
rmos dormir, disse a Clotilde
- Deus me livre s
eparar dos filhos assim  toa, no acha?
- Acho
 que voc deve deixar Julinho ir, disse Clotilde
 lentamente, olhando para mim.
Julinho que esta
va sempre ao meu lado pedindo para ir, exultou:


- Est ouvindo, mame? Todos acham que eu devo 
ir, s a senhora no.
No respondi; fui para o 
quarto e deitei-me, pensando no que devia fazer;
 devia permitir que meu filho fosse para longe?


Na noite escura e silenciosa, insone, os olhos 
fixos na escurido, ouvindo o velho relgio da s
ala dar lentamente as horas, pensei: "Preciso de
ix-lo ir;  o futuro
dele que est em jogo. L
 poder ser feliz, subir na vida, ficar rico, fa
zer carreira. Mas ele  to bom filho;  uma lou
cura deix-lo partir; aqui tambm ele poderia
f
azer carreira e ganhar dinheiro. E se ele for em
bora, perderei o filho. Sim, perderei. Algum di
sse que a ausncia mata o amor, qualquer espcie
 de amor; s a convivncia
aquece e faz viver t
anto o amor como a amizade. A separao esfria. 
Perderei o filho. Mas afinal, pensando bem, qual
 a me que cri u o filho para si? As mes criam


os filhos para o mundo e os filhos s so delas
 enquanto pequenos. H muito tempo Julinho no 
 meu J u perdi, que tolice".
Virei do outro la
do sem poder dormir: "Como no  meu? Poino fui
 eu quem o criou, quem o amamentou, e o tratou n
as doenas, quv o acalentou nas noites frias? Co
mo
no  meu se  meu sangue e minha carne? Um 
pedacinho do meu corao? E depois eu ficava aco
rdada
a noite inteira quando ele estava doente;
 eu me lembro quando teve sarampo, passei a noit
e toda segurando a mozinha dele e pondo o term
metro toda a hora por causa
do febro. Nem fala
va ainda, era to pequenino; gemia e virava a ca
becinha pra c e pra l. Os filhos so das mes,
 como no? Mesmo que vo para longe e fiquem em


outros ambientes, como podem esquecer aquela qu
e os ps no mundo?"
O galo de D. Genu comeou a
 cantar. Contei: "Uma... Duas... Trs... Galo ca
cete... Quatro... Fez um intervalo agora. Cinco.
..  verdade que os filhos no esquecem
as mes
, mas tambm no se importam muito com elas... S
eis... Casam-se e formam outra famlia, tm tamb
m filhos, outros lares, ambientes novos... Mas 
nunca esquecero
a me. Sete. Mas o que signifi
ca isso para eles? A me ser apenas a "velha". 
E uma boa me nunca dever prejudicar o futuro d
e um filho, Nunca. Oito. Galo pau.
Se Julinho n
o for agora para o Rio de Janeiro, nunca esquec
er que fui eu que no deixei, "a velha". Dir s
empre recriminando: Se a senhora tivesse me deix
ado ir
para o Rio aquela vez... Ou ento: Foi a
 senhora mesma que no quis que eu fosse, eu pod
ia estar longe na vida... U! O galo parou de ca
ntar. Qual a me que gosta
de ouvir isso? Pense
i que nunca precisasse me separar dos filhos; ma
s pensar  uma coisa e a realidade  outra. O ga
lo cantou outra vez, logo vi que ele continuava.

Eu acho que j cantou nove vezes. O que eu est
ava pensando mesmo? Ah! Julinho. E por que Julin
ho no h de progredir aqui tambm? Meu Deus! Em
 toda a parte a gente
pode ganhar dinheiro. Par
a que ir to longe? Perderei o filho, tenho a ce
rteza e um filho bom e obediente como Julinho  
triste perder. No devo deixar".
Virei para out
ro lado: "Mas afinal dizem que a felicidade s t
em um fio de cabelo e passa s uma vez perto de 
ns. Se a gente no segura na hora exata esse fi
ozinho
de cabelo, nunca mais encontra a felicid
ade. Galo danado. Para materializar o pensamento
, esse fiozinho chama-se "oportunidade" e ela ap
areceu agora para
Julinho, ele tem que segur-l
a. Preciso deix-lo seguir. Mas tambm um poeta 
j disse que a felicidade est onde ns a pomos 
e a dele est aqui ao lado da famlia,
da mezi
nha. Doze vezes? No me lembro bem, acho que doz
e. Ser que os poetas conhecem bem a vida? A vid
a de ganhar dinheiro'' Os poetas sabem cantar es
trelas, namorar
a lua, chorar na viola, mas pen
so que eles no sabem quanto custa ganhar o "po
 nosso de cada dia". As estrelas, a lua e a viol
a no do dinheiro e sem dinheiro,
como podemos
 viver? E depois a famlia de Julinho aqui  pro
visria; mais tarde ou mais cedo ele se casar e
* ir constituir a verdadeira famlia. Treze. Is
so tanto
faz aqui como no Rio. Se o "tico-tico"
 acha que deve ir,  porque ele deve ir. Mas Jul
inho  to bom filho... Filhos assim no se enco
ntram todos os dias.
E depois vai para um meio 
diferente, sem ningum da famlia. E se ficar do
ente um dia, quem tratar dele? O galo parou. E 
se tiver uma desiluso ou um desgosto,
com quem
 ir o pobrezinho desabafar?  triste um filho s
ofrer longe da me. No devo me lamentar; homem 
 homem, gato  gato. E a gente est no mundo pa
ra sofrer,
tanto sofre aqui como em qualquer lu
gar, e um verdadeiro homem sabe suportar a dor. 
S os filhos que crescem segurando na saia da ma
me  que no sabem sofrer. Preciso
deixar Juli
nho partir Preciso! Preciso! O galo recomeou; l
ogo vi. Afinal antes Julinho ir
embora do que A
lfredo; Alfredo  um anjo de bondade, mas um pou
co estourado. Estourado no, aluado. Um pouquinh
o aluado, um pouquinho s, no liga muito para a
 vida.
Mas  bom como um anjo e me quer tanto b
em. Uma vez Carlos me disse que ele andava freq
entando reunies de comunistas. Que ser isso? P
reciso indagar
direito, saber o que . Por que 
as pessoas no ficam quietas no seu canto, traba
lhando e vivendo tranqilas? Por que essa inquie
tao? Comunista, ora esta! Amanh
vou saber di
reito o que Alfredo anda fazendo. O que mesmo eu
 estava pensando? Ah! Julinho. -L no Rio ele po
der ser feliz. Poder fazer carreira e at fica
r rico.
Poder fazer um bom casamento, tudo iss
o  verdade. E quando vierem os filhinhos no nov
o lar de Julinho, estarei to longe que no pode
rei v-los, cri-los, am-los.
Bobagem. Falo co
mo se ele fosse para a China. E h de ter outra 
av que cuide disso; toda a criana tem duas av
s. No devo chorar; Julinho precisa ir.
As mes
 no podem prejudicar o futuro dos filhos. Esta 
frase est acima de todas as outras. No podem s
er egostas e querer os filhos s para si. Tenho
 de me sacrificar,
sacrificar sempre. Me quer 
dizer sacrifcio, no devo esquecer. O galo cant
ou dezoito vezes. Agora parou".
Virei outra vez
 na cama e esperei a madrugada. O galo recomeou
: "Uma... Duas... Trs..."
Quando o dia chegou 
e o sol comeou a iluminar o quarto, levantei-me
 decidida a deixar meu filho seguir para o Rio, 
embora sentisse meu corao chorar de dor.
Fui 
para a copa preparar a mesa para o caf e v Jul
inho sair do banheiro, a toalha enrolada no pesc
oo, os cabelos midos do banho de chuveiro esco
rridos na testa,
gotas d'gua no rosto e no pei
to meio descoberto. Olhou para mim numa interrog
ao, um ar entre risonho e srio:
- Bom dia, m
ame. Ento? Posso ir?
- Voc quer ir? pergunte
i.
- Natural que quero, l deve estar meu futur
o.
- Ento v, e seja feliz.
Ele tirou a toalh
a do pescoo e dando uma reviravolta com ela no 
ar quase derrubou as xcaras da mesa. Gritou:
-
 Urra! Ip, ip, ip, urra! Vou para o Rio de Janei
ro. Viva!
E me beijou com fora nas duas faces;
 fingi que estava um pouco irritada para disfar
ar a emoo que sentia:
- Voc quebra as xcara
s, Julinho. Que estabanado! Venha depressa tomar
 seu caf.
Clotilde e Isabel apareceram no corr
edor para ver o que havia; mais tarde comentaram
 na mesa que eu fizera muito bem em deixar Julin
ho seguir. Se ele no fosse feliz
l, voltaria;
 e se fosse, seria sempre grato por eu no ter p
erturbado a carreira dele. Clotilde ainda me dis
se:
- Desde pequeno ele foi negociante, no se 
lembra, Lola? Todo o dinheiro que a gente dava, 
ele guardava. Todos gastavam, menos ele.  econ
mico e h de ir longe
nos negcios, voc vai ve
r.
Tomei meu caf quase em silncio, ouvindo os
 comentrios; Julinho era o que mais falava e ri
a, fazendo planos para o futuro, feliz por
conh
ecer outra cidade, viver em outros meios, despre
nder-se da nossa vida rotineira e estreita, sem 
imaginar que meu corao j doa de saudade; ano
s e anos depois
eu
ainda sentia os beijos mid
os de Julinho nas minhas faces, mas naquela manh
 mesmo compreendi que o tinha perdido para semp
re. Ele no me pertencia mais, pertencia
ao mun
do que o reclamava. E  noite, ao jantar, enquan
to conversavam animadamente sobre a sorte de Jul
inho, olhei os outros trs  minha volta e um pe
nsamento sombrio
cruzou meu crebro: Qual deles
 ir em seguida?
Em pouco tempo, preparamos rou
pas novas para Julinho levar; fizemos pijamas, c
ompramos camisas; eu queria que ele levasse uma 
espcie de enxoval para to cedo no
precisar d
e nada.
Passou o Natal conosco e seguiu dois di
as depois; no dia da partida, esteve sempre ao m
eu lado, enquanto eu o aconselhava a ser bom, aj
uizado e cumpridor dos deveres:
- Se o chefe el
ogiou voc, no o desiluda faltando com seu deve
r. Seja sempre correto.
Ele prometeu tudo e na 
hora da partida, fomos todos acompanh-lo. Entra
mos juntos na estao, ele segurando meu brao e
 feliz como nunca o tinha visto antes. Despediu-
se
dos irmos e de Clotilde e por ltimo, despe
diu-se de mim. Beijou-me a mo e as duas faces. 
No consegui falar; senti um n prender a gargan
ta e no pude dizer nada.
Ele se comoveu um pou
co e disse que viria nos visitar, logo que pudes
se. Pensei que isso no seria possvel to cedo.

Fiquei olhando para seu rosto risonho debruad
o na janelinha, enquanto o trem se ps em marcha
; todos disseram: felicidades, boa viagem. Meus 
lbios se moveram,
mas nenhum som saiu deles, n
o pude falar. O trem foi indo, foi indo e seu r
osto alegre desapareceu no meio da fumaa e no 
o vi mais.
Deixamos a estao quase em silncio
; eu sentia uma amargura enorme se apoderar de m
im. Quando o trem apitou, j a uma certa distnc
ia, as lgrimas saltaram enfim
dos meus olhos e
 foi sem enxergar que tomei o bonde de volta par
a casa. Assim que chegamos, D. Genu veio dar uma
 prosa e contar as novidades; j estava com um c
halinho
preto na cabea, preparada para ir pass
ar a noite com uma senhora doente na Rua Alagoas
. Disse que a doente no estava muito mal, mas p
odia "esticar" de uma hora
para outra por causa
 do corao que no estava muito forte, e seus o
lhinhos chisparam.
Contou que a vizinha da esqu
ina, a que morava no palacete e tinha casado a f
ilha h dois anos atrs, estava muito aborrecida
 porque a moa estava falando em se separar
do 
marido. E em voz baixa acrescentou:
- Quem me c
ontou foi a cozinheira de l, eu me dou com ela;
 ainda ontem ela veio me pedir um raminho de los
na para fazer um ch, estava com dor de estmago
. Olhe,
D. Lola, este mundo... este mundo no v
ale nada, nem um caracol...
E olhando o gato qu
e dormia numa cadeira, exclamou:
- Como o Caar
ola est gordo, tambm  s dormir e comer... Ma
s falando na vizinha, os ricos so assim mesmo, 
qualquer coisinha 
p! esto se separando. Um 
no atura o outro nenhum tiquinho assim
(e most
rou a ponta da unha). Dinheiro demais  desgraa
. s vezes eu queria ter mais um pouco para no 
trabalhar do jeito que trabalho, no passar tant
as privaes,
mas muito dinheiro traz desgraa.
 Isso  verdade. Bem feito prs ricos; pensam qu
e porque tm dinheiro, tm tudo, podem tratar a 
gente com pouco caso. Olhe, ainda
ontem, eu vi 
quando ela entrou no automvel; tem agora um aut
omvel novo azul-marinho. Meu genro disse a marc
a, mas eu esqueci; parece Buroc, Buric, no me l
embro.
- Buick... interrompeu Isabel.
- Eu ach
o que  esse mesmo; mas o chofer estava segurand
o a portinhola para ela entrar, assim com o bon
 na mo e nisso eu ia passando; olhe que conheo
 ela bem
e ela tambm me conhece. H quanto tem
po somos vizinhas? Nem sei; eu armei um cumprime
nto pra ela, sabe o que ela fez? Fingiu que nem 
me viu e entrou depressa
no automvel. O autom
vel at rangeu, ela est gorda, com um traseiro 
enorme, deste tamanho. Eu pensei: U bandida! Pe
nsa que  melhor do que eu porque
tem automvel
? Quem diz que ali na esquina isso tudo no vai 
dar de encontro com um bonde e tu no vai ficar 
estendida na calada com as tripas pra fora?
Cl
otilde deu um gritinho pondo a mo no rosto:
- 
Ah! D. Genu, no fale assim pelo amor de Deus.

Ela olhou Clotilde com um olhar mau e um sorriso
 quase perverso, mostrando os dentes escuros e d
efeituosos; estava nos dias de revolta. Continuo
u:
- Por que no? No acontece desastres todos 
os dias? Por que no com ela tambm? Quem manda 
ser orgulhosa e besta assim?
- Isso est nas m
os de Deus, D. Genu. A gente no deve falar essa
s coisas, nem desejar. Deus  quem sabe.
- Pois
  isso, o mundo no vale nada,  uma porcaria. 
Olhe D. Lola, criou a filharada com amor e sacri
fcio, agora Julinho louco para ir embora. Foi c
ontente
se despedir de mim; perguntei: E sua m
e, Julinho? No tem d de deixar ela? Ele ficou 
meio embaraado, sabe? Respondeu: Tenho, mas tem
 os outros pra
ficar com ela. E l se foi todo 
lampeiro, nem pensa no que deixou atrs. Qual! S
ou mesmo uma desiludida. Olhe, hoje teve uma bri
ga em casa por uma coisinha
-toa; Leonor e Lil
i bateram boca uma meia hora seguida, sabem por 
qu? Por causa do cabelo de Lili. Lili disse que
, se estava mal penteada e com o cabelo mal
cor
tado, era por causa de Leonor que no se importo
u e deixou o cabeleireiro judiar do cabelo dela.
 Leonor  muito brava, j comeou: Eh! Marmota! 
cale essa
boca, sujeitinha magricela!
Comeamo
s todos a rir ao ouvir D. Genu contar a briga da
s filhas e Clotilde perguntou interessada:
- O 
que  marmota? Algum bicho?
- Sei l! Uma xinga
 a outra de marmota quando brigam e at hoje no
 sei o que , nem perguntei.
Rimos mais e ela r
iu tambm; Carlos que estava mergulhado na leitu
ra de um livro no canto da sala, levantou a cabe
a e falou:
- Marmota  o nome de um bichinho d
o norte; eu sei que  roedor. Prestei muita aten
o na explicao dada por Carlos. Tudo quanto

meus filhos aprendiam na escola e conversavam em
 casa entrava na minha cabea e no saa mais. A
ssim, posso dizer, que, com o tempo, dei xei de 
ser aquela ignorantona
e at passei a me exprim
ir direito.
D. Genu continuou:
- Pois ento  
isso. Eu sei que quase se pegaram; a Lili chorav
a e dizia que Leonor era a culpada de todas as d
esgraas dela. Ih! A Leonor subiu a serra quando

ouviu isso. Comeou: Voc o que ,  mal-agrad
ecida, ouviu? Fao tudo pr seu bem e ainda vem 
me dizer que sou sua desgraa. Vaca magra! Voc 
parece
vaca magra quando cai no brejo; os vaque
iros vo acudir a bicha e ela sai chifrando. Mal
-agradecida. Medonhenta! Cara magria! E continu
ou por a afora.
Em Minas xingamos assim.
Foi 
uma gargalhada geral e Carlos tornou a interromp
er a leitura para repetir:
- Medonhenta! Que id
ia!
- Pois . Lili respondeu: Eu sei porque vo
c s fala em vaca e vaqueiro; pensa que no sei
 que est namorando o boiadeiro? Vou contar tudo
 a mame, vai ver.
Tu me paga. Um homem que s 
lida com boi, tu me paga. E assim bateram boca u
ma meia hora. Qual... Moa precisa casar...
D. 
Genu coou a testa e pediu com voz terna a Isabe
l:
- Me arranja um copo d'gua, minha nega? Est
ou pra morrer de sede.
Isabel saiu da sala e to
da ligeirinha foi buscar gua na copa; D. Genu r
elanceou os olhos para Carlos que estava novamen
te distrado com o livro, baixou a voz, ps
a m
o na boca e falou:
- Mulher quando no casa fi
ca assim, brigando  toa, azeda. Mulher precisa 
de homem, eu j disse... e macho bom, seno fic
a desarvorada.
Emendou em tempo:
- A no ser q
ue seja como a Clotilde, de esprito sossegado. 
Clotilde  diferente, mas a maioria precisa, sen
o desembesta, fica com o gnio desgraado. Os

antigos diziam que mulher depois de velha d pra
 parteira, ou pra alcoviteira, ou pra pitar. Eu 
no dei pra nenhuma dessas, dei pra guardar defu
nto.
E riu-se. Clotilde falou:
- Ento deu pra
 carpideira,  quase a mesma coisa.
Ela levanto
u as sobrancelhas numa interrogao, sem compree
nder:
- Hein? Pois . Mulher desequilibrada  o
 diabo, faz besteira. Tomando o copo que Isabel 
apresentava, bebeu dois golinhos d'gua.
- Obri
gada, minha nega. J vou indo; a doente me esper
a, quem sabe at est pensando que no vou mais.

E ajustando o chalinho preto na cabea, saiu d
izendo boa noite. Esqueci D. Genu para pensar em
 Julinho; a cada momento se distanciava mais de 
mim, levado pelo trem;
j devia estar longe. Eu
 ouvia os apitos da locomotiva e o rangido das r
odas que o transportavam, para longe, para longe
. Adormeci pensando nele.
Dois dias depois, Isa
bel comeou a me agradar; passava a mo no meu b
rao, me abraava pelo pescoo, me chamava de m
ezinha boazinha. Pensei comigo: O
que ser que 
Isabel est querendo? O que ser?
No terceiro d
ia, ela me disse:
- Mame, vai haver um baile n
o dia de Reis; umas colegas esto organizando es
se baile e eu queria muito que a senhora me deix
asse ir. A senhora deixa?
- O que, minha filha?
 Voc no tem vestido de baile, como pode ir a b
ailes? Isso  para os ricos; precisa-se de tanta
 coisa para ir a bailes, eu no tenho nada,
nem
 sapatos.
- Ora, mame, a senhora no precisa i
r, eu vou com as minhas amigas; e tia Clotilde f
az um vestido para mim em dois dias; eu vi numa 
loja da Rua das Palmeiras uma
belezinha de orga
ndi azul. Deixa, mame.
- Mas voc no pode ir 
sozinha com as colegas; precisa Carlos acompanha
r, ou ento Alfredo.
- Mas Carlos e Alfredo no
 tm roupa prpria, mame. Todos os rapazes vo 
de smoking; eles no podem ir com qualquer roupa
. Eu peo para ir com a me de uma
das colegas.

- A me vai? A me de sua colega? Ela hesitou 
um pouquinho:
- Eu acho que vai sim; vou falar.
 Deixa, mame? Por favor.
- No sei; vamos ver,
 no se pode resolver assim de repente.
- Mas p
recisa resolver logo, mame. Faltam poucos dias 
para o baile.
No disse nada e fui para o quart
o ver o dinheiro que eu tinha guardado para comp
rar um par de sapatos. O meu nico par estava t
o velho e consertado que no dava
mais nada, es
tava disforme no p. E eu estava precisando visi
tar tia Emlia que andava doente. Refleti um pou
co se dava ou no o dinheiro a Isabel, e resolvi
 dar
porque os sapatos, bem engraxados, ainda p
odiam servir. Dei os cinqenta mil-ris a Isabel
 que comeou a saltar com a nota na mo e me bei
jou repetidas vezes, agradecendo.
Pensei que fi
z bem em dar o dinheiro; ela precisava se divert
ir de vez em quando; mocidade quer dizer alegria
 e ela era to jovem!
Uma hora depois, Isabel e
ntrou com a fazenda embrulhada na mo; Clotilde 
cortou o vestido e dois dias depois, experimenta
mos em Isabel. Era o seu primeiro vestido
de ba
ile e dava gosto ver o entusiasmo da minha filha
.
Na noite do baile, Isabel me disse que as ami
gas passariam s dez horas em casa, de txi, e c
ada uma pagaria uma parte das despesas; dei o di
nheiro para o txi.
Ela levou horas se enfeitan
do; fez as unhas, encrespou os cabelos com pedac
inhos de papel, passou creme feito por Clotilde 
(suco de pepino e gua de rosas), nos
braos, n
o pescoo, nas mos e na hora de vestir, Clotild
e foi auxili-la. Quando saiu do quarto, eram qu
ase dez horas, parecia uma bonequinha. O vestido
 assentava
muito bem e os cabelos eriados  vo
lta do rosto, davam-lhe um ar garoto, encantador
. Fiquei olhando minha filha num enlevo, enquant
o ela fazia piruetas  volta
da mesa, com a gra
nde saia rodada. Estava linda. Carlos veio ver t
ambm; olhou-a sem dizer nada, depois falou:
- 
Tem muita pintura na cara. E por que essa pinta 
preta? Isabel fez um gesto de amuo e respondeu:


- No est demais, est, mame? E eu tenho mesm
o essa pintinha aqui.
- Mas est grande demais;
 voc exagerou tanto que de longe esta
se vendo
 que  postia.
- Mas j disse que no  posti
a. Que homem implicante voc . Puxa!
Carlos sa
iu dizendo:
- Juzo, hein, menina?
Ela levanto
u os ombros com pouco caso e continuou a fazer p
iruetas e fingir que estava danando  volta da 
mesa. s dez e vinte, parou um automvel no port
o; Isabel
levantou a saia com as duas mos e c
orreu para espiar atravs da vidraa; voltou alv
oroada:
- So eles, mame. Boa noite, boa noit
e, titia. Eu disse:
- Espere, Isabel. Quero con
hecer sua amiga e a me dela, convide para entra
rem um pouquinho.
Ela fez cara de choro:
- No
 posso mame. O txi est pagando; se entrarem, 
demora muito e paga-se mais.
- Ento espere a 
que quero conhec-las.
Fui at o automvel; vi 
dois rapazes na frente, espremidos ao lado do ch
ofer, e duas moas atrs gritando:
- Anda, Isab
el, j  tarde. Chegamos um pouco atrasadas, no
? Tive vontade de perguntar:
- Onde est a me?
 No pde vir?
Mas no tive coragem. Cheguei ma
is perto, e enquanto Isabel entrava no automvel
, disse um pouco contrariada:
-  mame. Minhas
 colegas e meus colegas. Cumprimentaram constran
gidos; quis recomendar Isabel a elas, mas
eram 
to jovens que no disse nada. Houve risinhos e 
exclamaes quando Isabel se sentou entre elas. 
Falavam todas ao mesmo tempo:
"Puxa! Quanta sai
a!" "Voc conhece o Eduardo?" Um dos rapazes da 
frente virou-se para cumprimentar Isabel e a out
ra acrescentou: " o nosso campeo de fox-trot!"

Todos comearam a rir e o txi partiu; mal tiv
eram tempo de me dizer boa noite.
Jurei nunca m
ais deixar Isabel ir sozinha com as amigas (mas 
jurei em vo, porque depois desse baile, foi a m
uitos outros, apesar de minhas recriminaes).

Ouvi quando ela chegou nessa madrugada; entrou d
izendo que o baile fora maravilhoso e j tinha c
ombinado outros para antes do carnaval. Com voz 
sonolenta, perguntou:
- A senhora deixa, no  
mame?
Arrastando o vestido pelo corredor e boc
ejando, disse que no tinha perdido nenhuma dan
a; de repente olhou admirada para mim:
- U, a 
senhora estava acordada? Abriu a porta na mesma 
hora que eu bati.
Disse que acordara naquele in
stante; no quis contar que estivera sentada per
to da janela, sem poder dormir. No dia seguinte,
  hora do caf, enquanto Isabel ainda
dormia, 
disse aos meus filhos que Isabel era muito crian
a para ir aos bailes sozinha com moas e rapaze
s e um dos irmos devia fazer um smoking para ac
ompanh-la.
Carlos respondeu que iria, se fosse
 preciso, mas preferia estudar do que ir a baile
; ainda tinha esperanas de cursar a Escola de M
edicina e Alfredo que devia ir.
Alfredo respond
eu que se dessem o dinheiro para o smoking, ele 
mandaria fazer
para acompanhar a irm, ou ento
 esperassem para quando ele pudesse, mais tarde.
 Repliquei:
- Enquanto um de ns no puder leva
r Isabel, no a deixo ir. No  conveniente nem 
bonito.
Alfredo me olhou sorrindo:
- Mame, a 
senhora no pode impedir a chuva de chover e o v
ento de ventar. Pode? Ela est na idade das fest
as, est estonteada.
Carlos olhou-o com ar carr
ancudo:
- Nossa, jirm no  elemento da nature
za, e pode ser dominada.
- Dominada? Ah! Voc n
o conhece Isabel. Procure domin-la ento.
Deu
 uma risada; mais tarde compreendi que Alfredo 
 quem tinha razo. Nunca consegui fazer Isabel c
eder, eu  que cedi sempre.
Uns dias depois, re
cebi a primeira carta de Julinho; estava simples
mente encantado com o Rio de Janeiro. Dizia:
A 
viagem, mame, foi esplndida; a cidade  mesmo 
maravilhosa, tudo  bonito aqui: as casas, as ru
as, as montanhas, o mar, tudo. A gente  muito m
ais dada, muito
melhor que o pessoal da. Nem h
 comparao; todos os vizinhos se conhecem e se
 do. J tenho uma poro de amigos. E o que a s
enhora vai admirar mais  que janto
todas as no
ites em casa do chefe. So timos; os filhos for
am me esperar na estao. Moro numa penso barat
a e s pago cama e almoo. D. Jlia, a me,  mu
ito amvel
para mim, estou contentssimo; sou c
omo pessoa da famlia. Tenho saudades de todos a
. Escreverei sempre.
O filho saudoso
JULINHO.

Li mais de vinte vezes essa carta e durante v
rios dias comentamos a carta de Julinho. Ento m
ais um ano terminou na nossa vida e um outro com
eou; este ficou assinalado:
o ano da formatura
 de Isabel.
Captulo XIII
FURANTE o ano todo, 
Isabel disse que, mesmo que tirasse diploma de p
rofessora, queria ser datilgrafa num escritrio
; no queria lecionar crianas idiotinhas; pague
i
ento um curso de datilografia e em pouco tem
po ela aprendeu.
Em junho, recebemos uma carta 
de Olga pedindo para Clotilde ir passar uns temp
os em Itapetininga; precisava roupas para as cri
anas e
queria que Clptilde fizesse. L se foi 
ela e achei muita falta em seu auxlio; quando t
inha alguma encomenda grande, dava pulos, para d
ar conta de tudo sozinha.
Quase no fim do ano, 
Carlos me procurou um dia no quarto me disse:
-
 Olhe, mame, eu vi Isabel passeando hoje com um
 rapaz, sozinhos os dois. Se eu falo, ela fica f
uriosa,  melhor a senhora falar.
Fiquei muito 
assustada e quando Isabel voltou da aula de dati
lografia, nessa mesma tarde, perguntei quem era 
o rapaz com quem ela tinha passeado. Ela me enca
rou
com um ar zangado dizendo;
- Quem foi o li
nguarudo que contou isso? No posso conversar co
m algum conhecido na rua? '
- No. E voc no e
stava s conversando, estava passeando; no deve
 passear com rapazes que voc no conhece; uma o
u outra pessoa vem me contar e eu fico muito
ab
orrecida.
- Mas ele no  um desconhecido;  l
 da aula de datilografia;  muito distinto e s 
porque fomos conversando um pouco pela rua, depo
is da aula, j vem um trouxa
contar para a senh
ora. E a maliciar; a senhora comea a pensar mil
 coisas. Me d um dio!
- No fale assim, Isabe
l. Estou falando para seu bem, minha filha; tudo
 que falo  para seu bem.  to feio ver uma men
ina andar com namorados na rua; todo o mundo
co
mea a falar, a comentar.
- J vem a senhora fa
lar em namorados; eu no disse?
Saiu da sala am
uada e ficou 'uns trs dias assim. Pedi a Carlos
 que a vigiasse um pouco quando deixava a aula d
e datilografia e uns dias depois ele me disse qu
e
os dois ficavam conversando na porta uns minu
tos, depois se separavam. Fiquei mais sossegada.

Um ms depois Alfredo veio me dizer que vira I
sabel sentada na Praa da Repblica conversando 
com um rapaz; fiquei novamente apreensiva e pedi
 a Alfredo que procurasse
saber quem era o rapa
z e vigiasse mais.
Chamei Isabel outra vez:
- 
Veja o que est fazendo, Isabel. Quem  esse rap
az? Voc sai da escola e fica sentada num jardim
 pblico ao lado de um homem horas inteiras; ach
a isso direito?
Os olhos de Isabel cresceram pa
ra mim:
- Manda me vigiar, no ?
- Nunca mand
ei vigiar; pessoas conhecidas que vem voc pass
eando com o rapaz perguntam se esto noivos. J 
pedi que no fizesse isso; se seu pai fosse vivo
, havia
de ficar bem triste.
Isabel ficou muit
o vermelha e comeou a resmungar:
- Podiam bem 
me deixar sossegada, eu no me importo com a vid
a de ningum; por que eles se importam com a min
ha? Tenho dio a toda essa gente.
Foi para o qu
arto e se fechou. Como a visse depois estudando 
muito e ningum mais me falou sobre isso, quase 
esqueci esse fato.
Uma tarde, era meu aniversr
io, eu tinha sado para umas compras e quando vo
ltei, encontrei os trs filhos na sala de jantar
, rindo e escondendo qualquer coisa de
mim; ri-
me tambm sem saber o motivo e perguntei o que h
avia. Isabel disse:
- Fale, Carlos, voc  quem
 deve falar.
Carlos ento deu dois passos  fre
nte, pigarreou e falou com voz solene:
- Mame,
 ns trs oferecemos um presente  senhora. Ns 
trs no, ns quatro porque Julinho tambm conco
rreu.  um aparelho de rdio, veja. Feliz aniver
srio!
Saram os trs da frente da mesa e vi co
m assombro um aparelho de rdio sobre ela; me ab
raaram e gritaram:
- Viva mame! Viva!
E liga
ram o rdio; ouvi ento uma msica muito suave q
ue nunca mais esquecerei; Carlos que entendia de
 msica me disse mais tarde que era a "Berceuse 
de Jocelin".
O lamento triste do violino ficou 
para sempre gravado na minha memria; olhei os f
ilhos sem poder conter as lgrimas; mal consegui
 falar:
- Ah! Meus filhinhos! Por que foram gas
tar tanto comigo, eu sou uma pobre velha!
Eles 
riram com lgrimas nos olhos e Isabel falou:
- 
Mas, mame, a senhora se esquece que vivia suspi
rando por um rdio? Dizia sempre: Ah! Se eu pude
sse comprar um rdio! Est contente agora?
Foi 
essa uma das grandes surpresas da minha vida e 
 noite, D. Genu e as filhas vieram tambm ouvir 
msica at tarde. Depois que todos se retiraram 
e fiquei sozinha
no meu quarto, lembrei que est
ava mais velha um ano, mais desiludida, mais tri
ste, com os cabelos mais brancos e a alma mais c
ansada, senti de repente meu rosto
mido de lg
rimas e olhei ento o crucifixo de marfim que fo
ra de Jlio:
- Oh! Cristo, obrigada! Na pobreza
 e na luta, na incerteza e na amargura, velha e 
cansada, sinto que ainda sou feliz porque tenho 
os meus filhinhos.
E chorei muito essa noite, m
as de felicidade.
No dia seguinte, recebi de It
apetininga, como mame fazia todos os anos, lata
s de doces e bolos, enviados por Clotilde; mas d
esta vez vieram quatro latas de goiabada
em cal
da, quatro pacotes de figos cristalizados, quatr
o tijolos de pessegada. J no ramos seis, como
 um ano antes. Dois tinham desertado!
Comecei a
 notar livros esquisitos no quarto de Alfredo, e
le que no gostava de livros. Fiquei assustada e
 chamei-o um dia, mostrando-lhe um daqueles livr
os:
- Que livros so esses, Alfredo? Voc compr
ou? Riu-se alegremente:
- Um amigo me emprestou
, mame. Por qu?
- Fala em "sistema marxista",
 em "Karl Marx", em "bolchevismo". O que  isso?

Alfredo tomou o livro que estava na minha mo 
e folheando-o, explicou:
- No  nada de mais. 
Vem apenas explicando o que  o socialismo moder
no. Quer saber o que ? A essncia do plano  um
a espcie de "coletivismo", quero dizer,
 um i
deal que aspira a diviso de terras, meios de pr
oduo, propriedade, tudo dividido coletivamente
.
- O qu? Mas isso  comunismo. ] ]
- No , 
mame. O comunismo  diferente. O socialismo exi
ste em todos os pases civilizados do mundo e o 
comunismo existe s na Rssia. Karl Marx foi um 
homem
formidvel, fundador do socialismo; tinha
 uma teoria notvel sobre a reorganizao social
. Ele tambm que inspirou a formao de uma liga
 internacional dos trabalhadores,
a Primeira In
ternacional.
- Mas por que voc l esses livros
? No seria melhor estudar outras coisas mais t
eis e que dem algum resultado? O que adianta is
so para voc? Adianta alguma coisa?
- Eu gosto,
 mame, e depois tenho um amigo que entende diss
o como o diabo. E me conta essas teorias; desde 
1835 existe o socialismo;  uma espcie de defes
a do
proletariado contra o capitalismo.
- Mas 
por que estudar isso, filho? Estude coisas mais 
teis. O que pretende fazer com essas teorias ma
r... Como se chama?
- Marxista. No pretendo na
da, mas gosto de saber. Estudo por curiosidade. 
O que tem saber?
- Voc  muito moo e pode fic
ar influenciado por essas idias; creio que so 
teorias revolucionrias, no so?
- No. Qual o
 qu. Sei o que estou fazendo. E jogou o livro s
obre a mesa com ar displicente.
O fim do ano fo
i se aproximando e Alfredo veio me dizer que ia 
deixar o emprego no cartrio. Perguntei:
- Mas 
por qu? Houve alguma coisa?
- No houve nada, 
mame. A questo  que eles so muito grosseiros
 e tem um camarada l que at me trata mal, pare
ce que vive me vigiando.
- Vigiando voc? Fez a
lguma coisa errada?
- Fiz nada; ele  que se im
plicou comigo desde o princpio. No falei nada 
para a senhora no se aborrecer, mas agora no a
gento mais, vou mudar de
emprego. Um amigo que
 tenho ficou de me arranjar como o irmo dele qu
e  engenheiro. Prefiro trabalhar num escritrio
.
- Reflita bem, filho.  to desagradvel fica
r sem dinheiro, sem nada. Reflita bem antes de f
azer as coisas. No seja precipitado.
Quando Ca
rlos soube na hora do jantar, coou a cabea, pe
nsativo:
- Qual, mame. Alfredo no gosta de tr
abalhar, para ele nada serve. Mas se ficar sem e
mprego agora, que se arranje.  nossa custa no 
fica.
Um tempo depois, Alfredo veio falar comig
o, um pouco desapontado, com uma caixa de lenos
 na mo:
- Olhe, mame, com o ltimo ordenado d
aquele maldito cartrio, comprei este presente p
ara a senhora. Deixei hoje o emprego mandando um
a banana para aquela gente.
Mas no se incomode
 que no me aperto, estou com outro emprego quas
e no papo.
Peguei a caixa e agradeci, enquanto 
Alfredo tirava um leno de seda do bolso do pale
t e passava pela testa e pelo rosto. Uma onda d
e perfume me envolveu. Olhei
amoada e ele pergu
ntou, rindo, os olhos muito brilhantes:
- Que t
al o perfume, D. Lola?  bom?
- Voc compra per
fumes, Alfredo? Custam to caro. Que loucura.
-
 Com o ltimo ordenado, comprei um vidrinho assi
m (mostrou com os dedos um tamanho pequeno) e de
i a uma amiguinha; ela ento ps umas-gotas nest
e leno para
eu experimentar. Que tal?
E Alfre
do me passou de leve o leno no nariz, piscando 
um olho e sorrindo. Guardou-o depois cuidadosame
nte no bolso do palet, deixando as pontas bem e
spetadas para
cima. Deu-me um beijo na testa e 
um tapinha no brao; dirigindo-se para a porta, 
falou alegremente:
- No me espere para o janta
r, mame. Adeusinho.
Elegante e bem vestido, co
locou o chapu na cabea com todo o cuidado dian
te do espelhinho da chapeleira e sorrindo ainda 
para mim, fez um gesto de adeus e saiu
puxando 
a porta sem bater. Fiquei com a caixa de lenos 
na mo, sem saber o que fazer; no contei nada a
 Carlos esse dia e depois do jantar fui para o m
eu quarto
porque estava cansada. A madrugada vi
nha vindo e os primeiros clares do novo dia j 
se desenhavam nas paredes do quarto quando ouvi 
Alfredo entrar sorrateiramente
e dirigir-se par
a o quarto dele. Levantei-me, mais cansada ainda
, e fui trabalhar.
Todas as tardes ele saa diz
endo que ia procurar emprego; e todos os dias eu
 perguntava:
- Encontrou algum emprego, Alfredo
?
- Nada ainda, mame. Mas no devemos desanima
r. A senhora no acha? E sorria meigamente para 
mim. Uma semana depois perguntei:
- E o emprego
 que voc disse que iam arranjar num escritrio 
de engenharia?
Ele me olhou admirado:
- Que es
critrio de engenharia?
- Voc me disse que um 
colega seu do cartrio estava arranjando um empr
ego...
- Ah! J sei. Agora me lembro; aquele ta
mbm gorou, mame. Fui procur-lo h uns dias e 
ele me disse que o irmo preferiu um rapaz que e
screvesse  mquina.
 o diabo eu no saber dat
ilografia.
- Pois aprenda; sua irm no est ap
rendendo?
- Vou pensar nisso, sabe?  uma boa i
dia.
E saiu como todos os dias. No falou mais
 em aprender a escrever a mquina e no achou em
prego. De vez em quando me trazia uma lata de do
ce ou um quilo de uvas.
Eu censurava:
- No qu
ero que me traga presentes, Alfredo. Afinal de c
ontas voc no est ganhando e ainda me compra p
resentes. No quero que faa isso.
- Sempre ten
ho umas corretagens que os amigos me do. E com 
isso vou me arranjando at firmar num emprego pa
ra o resto da vida. A senhora vai ver.
Acaricia
va meu brao e sorria mostrando os dentes muito 
brancos.
- Eu ainda vou dar uma casa para a sen
hora. E que casa! E estalava os lbios. Depois s
aa e voltava de madrugada. Faltavam s dois mes
es para a formatura de Isabel
e a casa estava

toda alvoroada com o acontecimento; Isabel s f
alava no baile e na cerimnia da entrega dos dip
lomas, com todos os detalhes.
Queria dois vesti
dos novos, um para a missa e outro para a cerim
nia: comprei tudo e tambm um par de sapatos por
que ela disse que no poda usar vestido novo co
m
sapato engraxado, precisava tudo novssimo. F
iz
a vontade dela, mas no sobrou dinheiro para
 comprar nada para mim; nesse meio tempo fui vis
itar tia Emlia da Rua Guaianases; no posso dei
xar de confessar que
no ntimo tinha esperana 
que tia Emlia me auxiliasse um pouquinho. Ela a
ndava doente ultimamente e riirrecebeu na saleta
 em cima; contei que Isabel ia tirar diploma
de
 professora e logo depois de datilografia; conte
i tambm que Julinho ia admiravelmente bem no Ri
o e era chefe de uma seo da casa; contei que C
arlos ia cada vez
melhor no Banco e tinham prom
etido subir-lhe o ordenado no princpio do ano. 
Eu procurava sempre elevar meus filhos diante do
s outros e mentia um pouco exagerando
as qualid
ades de cada um porque no resistia a esse desej
o vaidoso de v-los elogiados. Porm quando tia 
Emlia me perguntou com voz um pouco fanhosa:
-
 E o outro? Voc no tem outro filho? No so qu
atro? Hesitei um pouco e respondi alegremente, m
entindo ainda mais:
- No falei ainda em Alfred
o? Ah! Esse est trabalhando h muitos anos num 
cartrio, tia Emlia. Eu j tinha contado, decer
to a senhora esqueceu. Graas a
Deus vai indo m
uito bem e ganha regularmente.  timo filho, mu
ito carinhoso.  o que me d mais presentes; tod
a a semana me leva qualquer coisa, nunca se esqu
ece
de mim. Muito bom mesmo.
Enquanto falava a
ssim, lembrava das noitadas de Alfredo, das madr
ugadas em que ele chegava embriagado e das vezes
 que eu precisava sacudi-lo com fora na cama pa
ra
ele se levantar ao menos na hora do almoo, 
pois no queria que Carlos presenciasse essas ce
nas. Lembrei das vezes que ele se chegava a mim,
 risonho, um brilho de
malcia no olhar:
- Est
ou prontssimo, mame. Me arranja uns cobres? Pa
garei com juros depois.
E mostrava os bolsos va
zios; apesar do meu desejo de negar, nunca negue
i e ia depressa ao meu quarto, dando o que ele p
edia s escondidas dos outros. Ele piscava
para
 mim como para um cmplice, ia ao quarto de Carl
os, tirava a gua de colnia do irmo e passava 
no rosto e no leno, depois me beijava de leve o
s cabelos e saa
radiante, s voltando de madru
gada. Nada disso eu falei e pedi a Deus confiden
cialmente que me perdoasse as mentiras que estav
a pregando  tia Emlia; e quando
ela me pergun
tou de Isabel, continuei dizendo:
- Graas a De
us  uma boa filha; ajuizada e estudiosa.
Tia E
mlia ainda me perguntou se ela me auxiliava qua
ndo tinha encomendas de doces; fiquei sobressalt
ada no momento porque s ento me lembrei que Is
abel nunca tinha
batido um ovo para mim, nem ol
hado o forno para ver se os bolos estavam cresce
ndo. Respondi:
- Ah! Tia Emlia, ela estuda tan
to que no tem tempo de me auxiliar. A senhora n
em imagina; ela se dedica muito aos estudos e as
sim mesmo quando estou muito
apurada com as enc
omendas, nos sbados  tarde e at mesmo nos dom
ingos, ela me ajuda bastante. Peneira as farinha
s, espia o forno toda a hora, corta os papis
d
e bala,  uma boa menina. No posso me queixar; 
e se no me ajuda mais  porque no deixo.
Mas 
pelo meu pensamento, passou a viso de Isabel, t
oda bonita e preparada nos sbados  tarde: "Mam
e, vou ao cinema com Lusa". Ou: "Mame, vou da
r um passeio
com umas colegas. Volto tarde".
E
 saa com os lbios vermelhos como cereja, os ca
belos em ondas escuras pelos ombros, bem vestida
 e feliz. Eu podia ter servio at o pescoo, nu
nca ela se ofereceu
para me auxiliar. Tia Emli
a disse:
-  uma sorte ter filhos assim bons e 
ajuizados. Deus nunca se esquece da gente.
-  
verdade; nunca se esquece dos que tm f e dos q
ue pedem. E olhei disfaradamente para os meus s
apatos to velhos e deformados
que eu procurava
 esconder sob a cadeira. Pensei: "Deus bem podia
 dar um jeito para eu comprar sapatos novos; est
es esto horrveis. Tenho vergonha".
Tia Emlia
 disse para prima Adelaide que mandasse vir o ch
; conversamos mais um pouco enquanto tomvamos 
ch nas xcaras de porcelana vindas de muito lon
ge, cheias
de florzinhas; eu pegava na xcara c
om um medo atroz porque tia Emlia tinha me cont
ado uma vez que cada xcara custara cinqenta ou
 oitenta mil-ris. Eu segurava
com as duas mos
 como se segurasse uma imagem sagrada e levava a
os lbios devagar, com um ar comovido. Levantei-
me ento para sair dizendo que tinha muito servi
o
em casa; tia Emlia estendeu o brao e me de
u um pacote dizendo que era um corte de vestido 
preto para eu assistir  formatura de Isabel e j
untou uma nota de duzentos
mil-ris para o feit
io do vestido. Agradeci muito e sa pisando em f
also, pois lembrei que Deus tinha me ouvido. Fui
 depressa para a Rua das Palmeiras e l comecei


a olhar as vitrinas das sapatarias; de repente 
me lembrei que minhas meias estavam to velhas e
 remendadas que era impossvel comprar sapatos n
aquele dia. Comprei
ento um par de meias e s 
no dia seguinte voltei para comprar os sapatos; 
gastei o resto do dinheiro em camisas para Carlo
s, meias para Isabel, alguma roupa para
Alfredo
 e ainda sobrou para um presentinho que alegrou 
o Natal do meu Julinho.
Clotilde chegou um ms 
antes da formatura; cortou o vestido para mim e 
comeamos a costurar; era uma seda preta muito b
onita. Em dois dias o vestido estava pronto.
En
to tratamos de fazer os vestidos para Isabel; o
 da missa era azul-marinho e o de formatura era 
de seda branca, vaporosa.
Escrevi a Julinho que
 viesse se pudesse, mas ele respondeu que no er
a possvel; no fazia ainda um ano que tinha ido
 e no podia pedir licena to cedo; fiquei
tri
ste,
mas guardei a tristeza para mim.
Uns dias
 antes da festa, Alfredo no voltou para jantar 
e como no me tinha dito nada, fiz o prato dele 
e guardei no forno, pois sempre que no vinha, a
visava antes.
At meia-noite, ele no tinha che
gado. Sentada na cadeira de balano da sala de j
antar, ouvi as horas passarem numa lentido esma
gadora; continuei a esperar at
que, cansada de
mais, fui me deitar, mas apenas passei pelo sono
. Teria acontecido algum desastre? Por que no v
inha? Nunca deixara de jantar sem avisar. O que 
seria
ento?
Levantei-me e fui para a cozinha 
tratar de fazer alguma coisa, pois os pensamento
s me esmagavam. Comecei a andar de um lado para 
outro fazendo o caf, depois fui
para o quarto 
de Alfredo, abri a janela, desmanchei a cama par
a os irmos pensarem que ele j tinha sado e vo
ltei para a copa, onde arrumei a mesa. Cada um a
pareceu
por sua vez, tomou o caf e saiu. Fique
i sozinha limpando a casa, sem coragem de falar 
a
Clotilde que costurava num canto da janela; f
iz o almoo e ao meio-dia e pouco, estvamos na 
mesa quando a porta abriu e Alfredo entrou, muit
o satisfeito. Disse
bom dia e me olhou risonho:
 dirigiu-se depois para o meu lado e me beijou o
s cabelos:
- Ficou muito assustada com minha au
sncia? No avisei nada porque no tive tempo; u
m amigo me convidou para ir a Santos de repente.
 Ele tem automvel e um convite
assim no se re
cusa; fomos quatro rapazes e nos divertimos  gr
ande. Houve uma festinha l e por isso no volta
mos antes. Emendamos a festa com o banho de mar


e estamos chegando agora. Foi formidvel. Ficou
 nervosa?
Respondi severamente, mas no ntimo d
ando graas a Deus por ver meu filho so e salvo
:
- Nunca mais faa isso, meu filho. Como no h
ei de ficar nervosa? Pode dar seus passeios, mas
 avise sempre.
Riu-se alegremente, os cabelos d
espenteados:
- Ora, mame, como  que hei de av
isar sem telefone em casa? s vezes essas coisas
 so resolvidas  ltima hora. Ponha um telefone
 aqui e avisarei todos os passos
que der.
Carl
os se mexeu na cadeira, olhou Alfredo com um ar 
de censura:
- No seja cnico.  assim que proc
ura emprego? Passando as noites nas farras com a
migos vagabundos?
- E o que voc tem com isso? 
J viu procurar emprego de noite, seu...? De dia
 eu procuro e de noite fao o que quero.
Carlos
 ficou vermelho:
- Todos aqui em casa trabalham
; voc v como mame luta.  revoltante ver voc
 na boa vida, passeando de automvel, fazendo fa
rras em Santos, levantando ao meio-dia.
Mame n
o conta nada porque sabe que me aborrece. Mas p
ensa que no estou vendo a vida que voc leva?

Alfredo respondeu, zangado:
- ? E que culpa te
nho eu se no tenho sorte nos empregos? Pensa qu
e no procuro? Pergunte pra mame quanto no ten
ho andado de baixo para cima procurando coloca
o.
- No minta. Os empregos so bons, voc  qu
e no presta. Por que deixou o cartrio? Eu no 
vou l saber porque tenho vergonha de receber a 
mesma resposta que
tive do dono da garage onde 
voc trabalhava antes. E mame nem me pediu para
 ir l porque j sabemos mais ou menos porque vo
c deixou.
Alfredo ficou furioso e cerrou os pu
nhos: Clotilde e eu ficamos nervosas e olhamos p
ara um e outro, pedindo que parassem com a discu
sso. Alfredo gritou:
- Isso  insinuao? Repi
ta isso. No  por ser meu irmo que eu vou deix
ar de te quebrar a cara, ouviu? E j tenho quebr
ado a cara de muita gente. E olhe aqui,
Carlos,
  melhor no se intrometer mais comigo. Estou a
visando.
Levantei os braos para cima e implore
i:
- Pelo amor de Deus, no briguem. Assim voc
s me matam. Alfredo deixou a sala e foi pelo cor
redor afora batendo os ps no
cho, como quem e
st revoltado. Antes de entrar no quarto dele, g
ritou:
- Eu j disse que voc no tem nada com 
a minha vida. Estou avisando.
l
E fechou a por
ta com toda a fora. Acabamos de tomar o caf em
 silncio e Carlos levantou-se para ir ao Banco;
 estava um pouco plido e nervoso. Aconselhei-o:

- No fique aborrecido, meu filho. Vamos ter p
acincia com ele, um dia h de endireitar. Voc 
vai ver.
- A senhora  muito otimista; ele j t
em idade para ter juzo. A questo  que ele no
 quer trabalhar. Tenho vergonha de ter um irmo 
assim.
Falando, dirigiu-se para a porta e saiu;
 Clotilde e eu nos olhamos enquanto comeamos a 
tirar a mesa; Isabel que no tinha dito nada, le
vantou-se tambm para sair,
dizendo:
- Coitado
 de Alfredo. Implicam demais com ele. Ele h de 
arranjar um bom emprego. Olhe, hoje a aula de da
tilografia acaba mais tarde. Voltarei s na hora
 de jantar.
- Mas no  uma hora s por dia?
-
 , mas agora tem exame e demora mais. Quando  
que vou experimentar meu vestidjo novo? Estou an
siosa por v-lo j adiantado. At j.
Bateu a p
orta e saiu; dirigi-me ento para o quarto de Al
fredo:
- Venha almoar, meu filho. Voc ainda n
o comeu.
Alfredo saiu do quarto em mangas de c
amisa e foi para o banheiro, perguntando:
- Aqu
ele estpido j foi?
No respondi e feliz por v
-lo alegre e com perfeita sade, fritei um bom 
bife com um ovo estalado em cima e, sentada na f
rente dele, fiquei vendo-o comer enquanto
conta
va a viagem a Santos. Quando acabou de almoar, 
levantou os braos para cima e espreguiou-se bo
cejando alto, dizendo que estava cansado e ia do
rmir um pouco.
Voltei para meu trabalho e deixe
i-o dormir at tarde, evitando fazer o mnimo ba
rulho; apesar de Alfredo ser sem juzo e leviano
, no deixava de ser tambm meu filho,
como os 
outros.
1 Depois desse dia Alfredo passou muita
s noites fora de casa e eu escondia o mais poss
vel dos outros. De vez em quando lembrava:
- Al
fredo, precisa procurar emprego; no pode viver 
assim.
- Estou procurando, mame. No acredita?

E ficava um pouco nervoso tratando de mudar de
 assunto imediatamente; se o gato estava por ali
, ele dizia:
- O que  que tem o Caarola? A se
nhora j reparou, mame? Parece que est ficando
 pelado.
Comeava a chamar: "Caarola! Psiu! Ps
iu! Venha c, bichano". E fazia um barulho com 
o gato. Outras vezes quando eu censurava:
- Alf
redo! Alfredo! Estamos no fim do ano e voc no 
arranjou nada ainda. Fico aflita com isso; fico 
at envergonhada. Voc tem procurado?
- Como n
o? Procuro todos os dias, a senhora pensa que qu
ando estou na rua, estou flanando? Tenho procura
do sempre e de tanto andar a p ontem, fiquei co
m dor
de lado. Bem aqui. Olhe.
E me mostrava u
m lugar na altura da cintura, do lado direito. E
u respondia:
-  a primeira vez que sente isso?
 No h de ser nada.
-  sim, a primeira vez. S
er fgado? Eu tornava a perguntar:
-, Di muit
o?
- Ontem doeu bastante, hoje est melhor. Tam
bm andar a p com este sol quente...
Na cozinh
a, ele ficava me olhando trabalhar, sentado num 
banquinho e conversando; s vezes tomava caf co
m leite e contava que a cidade estava cada dia m
ais bonita.
Tinha esperana de ser rico um dia;
 havia de ter um automvel e uma casa; ento eu 
no trabalharia mais e ficaria morando com ele e
 tomando conta da casa. E assim
conversando, n
o se falava mais em empregos e ele tambm se esq
uecia da dor. Na mesa principalmente,  hora das
 refeies, a situao ia ficando cada vez mais 
tensa.
Carlos, com a autoridade de irmo mais v
elho e chefe da casa, queria que Alfredo fizesse
 qualquer coisa e censurava-o por no arranjar c
olocao. Alfredo no admitia
censuras e como a
s discusses cresciam, Clotilde e eu ficvamos d
esgostosas; os dois tinham gnio exaltado e no 
aceitavam conselhos. Alfredo comeou ento, a n
o
vir almoar na hora certa; chegava depois que
 Carlos saa dizendo que se atrasara por isso ou
 por aquilo. Eu tirava o prato do forno e ele co
mia sentado na mesa
da cozinha e conversando; 
s vezes tinha um ar to triste, to desconsolado
 que eu me afligia:
- O que h, Alfredo? Est c
om dor de lado? Ele me olhava admirado:
- Que d
or de lado? Depois respondia depressa:
- No, m
ame. No senti mais a dor; a questo  que por 
mais que procure no arranjo colocao e estou "
pronto". No tenho nem para tomar um caf na cid
ade.
Eu ia  minha gaveta pensando que essa vez
 seria a ltima, tirava uma nota de vinte mil-r
is e dava; ele me beijava a testa sorrindo e diz
endo:
- A senhora  um anjo, mame. Um dia devo
lverei tudo isso com juros.
Ia para o quarto, o
s olhos brilhantes de alegria, alisava os cabelo
s, roubava um pouco da gua de colnia de Carlos
 e dizendo um "at loguinho, meu bem", saa, no

vinha jantar e s eu sabia quando ele voltava,
 de madrugada ou no dia seguinte. s vezes apare
cia com notas de cinqenta mil-ris no bolso; pa
ssava uma temporada
folgada, comprava um par de
 sapatos, camisas e me trazia um presente, fruta
s ou doces. Eu procurava recusar:
- Onde ganhou
 esse dinheiro, Alfredo? E por que compra essas 
coisas para mim? No quero presentes, quero que 
voc trabalhe direito.
- Pensa que eu vivo vadi
ando, no? Pois de vez em quando, pego uns servi
os de corretagem na Praa. Fao questo que ace
ite meus presentes porque nem sempre eu
posso d
ar. Se eu pudesse, mame, a senhora no trabalha
ria mais.
Pegava minhas duas mos e levantava-a
s para cima:
- Eu queria que estas mos fossem 
finas como seda; quem sabe um dia ainda sero.

Eu ria e puxava as mos dizendo que deixasse de 
tolices; ele continuava:
- Ter um palacete e u
m automvel, uma boa cozinheira, copeira, arruma
deira e chofer. Eu gosto de chofer preto, que ta
l? Se for preto, ser Benedito. A senhora ento


toda bem vestida, entra no automvel e diz:
(E
le fazia voz fina). "Benedito, vamos para a Rua 
Guaianases". O Benedito pe o bon na cabea (ti
ra o bon para falar com a senhora). Senta na di
reo e zizzz...
l vai o carro deslizando par
a a Rua Guaianases. L a senhora entra como uma 
rainha, conta que seus filhos vo bem e diz assi
m: (Voz fina outra vez). "O Alfredo
agora est 
na Europa; foi viajar um pouco para espairecer e
 descansar. Quando ele est cansado dos negcios
 aqui, vai descansar na Europa, porque, para fal
ar a verdade,
s l ele tem sossego. Aqui ele 
 muito procurado por causa dos negcios e no po
de descansar. Vai quase todos os anos; com esta 
viagem,  a quinta vez que ele vai".
(No.  me
lhor dizer stima vez, cinco  pouco. Sete  boa
 conta). "Mas como eu ia dizendo,  a stima vez
. E tambm vim me despedir; vou levar Isabel par
a Buenos
Aires; vamos passar uma temporada l. 
Querem alguma coisa?" Quando os olhos da Rua Gua
ianases estiverem bem crescidos de admirao, as
sim... olhe... (E Alfredo abriu
o mais que pde
 os olhos) a senhora dir: "Bom, j vou indo. Im
aginem que hoje dou um jantar em casa para vinte
 pessoas e ainda estou aqui.  um jantarzinho, m
as
tenho confiana na minha criadagem.  toda e
ficiente. O jantarzinho  oferecido s amiguinha
s de Isabel. No  nada extraordinrio, mas vo 
em traje de rigor. Tolices
da mocidade". A ent
o a senhora se levanta e se despede: "Adeusinho
, adeusinho, apaream em casa, recebo s quintas
-feiras". E Alfredo dava uns passinhos midos
e
 cumprimentava seres invisveis com gestos delic
ados e sorrisos suaves: "Adeusinho, tia Emlia (
E falava baixo entredentes: velha bruxa, comilon
a, sapo). Adeus.
Passe bem." (Ele ia at a por
ta do quintal se requebrando todo, a cabea ergu
ida, um ar altivo).
Essas brincadeiras eram na 
cozinha e eu ria tanto que precisava parar de tr
abalhar e sentar numa cadeira de p torto, que e
stava sempre num canto, para apreciar
melhor. E
le continuava:
- Depois a senhora atravessa o j
ardim sempre acompanhada pela prima Adelaide ou 
por alguma outra que estiver l na hora. Hoje el
as no acompanham porque a senhora
 pobre, mas
 quando for rica iro at o porto, ali no duro;
 ento a senhora entra no carro batuta, bem pre
to, os metais reluzentes e o preto do Benedito 
tira
o bon assim. .. olhe.. . A senhora entra 
e diz s (voz fina): "Benedito, para casa". E ne
m olha mais para elas que ficaram no porto, a b
oca aberta, cara de bobonas.
E o Dito vai zizzz
... E o bicho desliza que  uma beleza e para ca
sa.
E Alfredo fingia que guiava um automvel, v
irando esquina, buzinando, desviando do fogo, d
a mesa, do gato e de repente, brecando,
- Pront
o. Chegou no palacete. Ai bicho.
Ramos muito,
 enquanto eu corria para perto do fogo outra ve
z, espiava as panelas, abria o forno, rindo aind
a e Alfredo dizia logo depois, animado e brincal
ho:
- Mame, me passe uns vinte hoje que estou
 "pronto". Seja boa zinha; enquanto no tivermos
 nada disso, a senhora vai me dando. Depois pago
 com juros e tudo.
E sorria. Dava-lhe ento o q
ue pedia e ele saa assobiando com entusiasmo, p
elo corredor afora. Na porta da rua, parava de a
ssobiar para gritar:
- At logo, minha beleza.


Eu ouvia seu assobio at no porto. s vezes pa
ssava dois dias fora de casa. A situao foi fic
ando cada vez mais desagradvel porque Julinho t
ambm escrevia do
Rio reclamando: "O Alfredo ai
nda no arranjou nada?  o cmulo! Todo o mundo 
arranja qualquer emprego, s ele nada. Isso at 
 desaforo".
Alfredo resmungava: "O que ele tem
 com isso? Peo dinheiro a ele? Como o feijo de
le? Que corja de irmos que tenho, todos a quere
rem governar minha vida".
Carlos me avisou um d
ia:
- Mame, Alfredo anda metido em complicae
s; parece que est freqentando reunies comunis
tas ou socialistas, no entendo disso. Logo vi q
ue essas noitadas fora
de casa no podiam ser b
oa coisa. Qualquer dia a polcia d em cima, a 
ele vai ver.
Nesse mesmo dia, chamei Alfredo na
 cozinha quando estava preparando uma encomenda;
 sentou-se na cadeira de p torto e ficou olhand
o meu trabalho:
- Olhe aqui, Alfredo, voc cont
inua com aquelas idias absurdas sobre socialism
o?
No respondeu; apenas sorriu; tornei a falar
:
- Onde esto os livros? J entregou?
- J.

- E que reunies so essas que voc anda freqen
tando? Ele franziu a testa, um ar zangado:
- Qu
em foi o linguarudo?
- No importa o linguarudo
. Que reunies so essas?
- No tem reunio, ne
m meia reunio, mame. Que gente estpida. Tudo 
vm contar para a senhora.
Deu uns passos na co
zinha, as mos enfiadas nos bolsos, uma express
o de contrariedade no rosto. Criei energia e con
tinuei:
- Gosto de saber tudo, ouviu? Gosto de 
saber o que meus filhos andam fazendo, onde vo,
 com quem andam. Voc  muito criana para andar
 metido nessas coisas;
qualquer dia a polcia d
 uma batida e a ento ser um desastre.
- Ele
s enchem sua cabea de novidades; o que tem a po
lcia com uma reunio de amigos? Conversando coi
sas -toa?
- Mas passar a noite toda conversand
o coisas -toa? No compreendo.
Ele tirou um ci
garrinho do bolso, bateu levemente na unha e foi
 acend-lo na chama do gs:
- Conversa-se, bebe
-se um pouco, s vezes jogamos baralho. E s.
-
 E suas idias socialistas?
- Bem. Estudei e en
tendo um pouco por causa do tal amigo que tenho.
 Todos somos socialistas, a senhora, eu, todo o 
mundo.
- No diga bobagens. Eu no sou.
- Mam
e, a senhora pensa que socialismo  um bicho-de-
sete-cabeas. Nada disso.  uma luta de classe e
ntre o capitalista e o
proletariado Marx chamav
a os capitalistas de aventureiros, devido  gran
de cobia que os domina e o ideal de Marx era di
vidir os bens, os meios de produo e
outras co
isas entre os operrios; no deixar tudo na mo 
dos capitalistas, quer
dizer, no deixar eles t
erem tudo e o proletariado no ter nada. Chama-s
e uma revoluo social. No acha nobre a teoria?

- Dividir a propriedade, o dinheiro, os bens c
om os outros? Isso  comunismo, eu j disse. Ent
o esta nossa casa que custamos tanto a pagar, l
evamos anos economizando,
passando apertado, se
m roupas suficientes e agora tenho que repartir 
a metade com o genro de D. Genu, por exemplo, qu
e no faz nada certo? Um dia trabalha, outro
di
a no? Vive de biscates? No. Deus me livre!
Al
fredo comeou a rir e sentou-se de novo na cadei
ra:
- A senhora  formidvel.
- Pois no  iss
o que est falando? Sua teoria no  essa? Repar
tir tudo com os que no tm?
- No  bem assim.
 Seria muito longo explicar tudo  senhora, mas 
no  isso. A senhora no  capitalista; o ideal
  impedir que o capitalista ajunte tudo
nas m
os e obrig-lo a repartir com o proletariado.
-
 Est certo, mas apesar de no ser capitalista, 
eu tenho esta casa e voc falou tambm em bens, 
no falou? H muita gente que no tem uma casa c
omo esta, logo,
preciso repartir com aqueles qu
e no tm. Est errado, filho.
Alfredo jogou fo
ra o cigarrinho e ficou um instante pensativo. P
erguntei.
- Gosta de figos em calda?
Olhou par
a mim com um olhar estranho:
- No.  muito doc
e. Por qu?
- E de caf, voc gosta?
- Ora est
a, mame. Tomo caf o dia inteiro; o que tem iss
o?
- E Isabel gosta de caf?
- Nunca a vi toma
ndo caf. Por qu?
- E ela gosta de figos em ca
lda?
- Gosta, porque quando vem de Itapetininga
, ela come tudo,
- Julinho fuma? Ele comeou a 
rir.
- J estou adivinhando onde quer chegar. N
o.
- E voc?
- O dia inteiro. At onde vai?

- No vou longe. Voc  o mais alto dos irmos; 
Carlos  de altura regular, Julinho  o mais bai
xo dos trs. Voc  louro, Julinho  moreno, Car
los no  moreno,
nem louro. Os cabelos de Isab
el so pretos, no so? Que engraado! E voc  
louro. E no entanto vocs so irmos, filhos dos
 mesmos pais, crescidos no
mesmo lar.
Ele sorr
iu e ficou me olhando; comecei a forrar as forma
s de empadas com amassa:
- Voc gosta de caf, 
Isabel no toma caf. Carlos  estudioso e s es
t feliz com um livro nas mos; voc no gosta d
e estudar. Julinho gosta de ajuntar dinheiro,
d
esde pequeno gostou de dinheiro. Voc no pode t
er dinheiro no bolso, quanto tem, quanto gasta. 
Joga pela janela fora. No  isso mesmo, Alfredo
?
Ele sorriu mais:
- Onde est o fim da histr
ia?
125
#- O fim da histria  que todos somos
 diferentes, meu filho. No fsico, no moral, no 
gosto, no carter, nas particularidades, nas ten
dncias, na essncia,
enfim. E como podemos viv
er igualmente, dividir igualmente o que possumo
s e levar o mesmo padro de vida, se somos to d
iferentes como os dedos da mo?
- Ora esta! D. 
Lola tambm tem suas teorias! Sacudi uma forminh
a na frente dele:
- Teoria? E voc chama isso d
e teoria, Alfredo? Estou falandona prtica, ali 
no duro. Nada de teorias ou idias. S prtica. 
Disso  que vivemos e
precisamos.
Alfredo deu 
uma risada gostosa:
- Mas eu vou ganhar uma emp
adinha, no vou?
- Vai ganhar at duas, mas no
 fuja do assunto. Responda ao meu raciocnio se 
for capaz.
- Mas, mame, no  assim. Vou dar u
ns livros para a senhora ler, depois vamos discu
tir.
- No preciso livros para discutir, isso n
o serve de base. Basta o que estou vendo e o qu
e a vida tem me ensinado. Voc  quem est errad
o, filho. Siga o
exemplo dos seus irmos, traba
lhe e produza. No se importe com o socialismo, 
nem com o comunismo, nem com o que vai pelo mund
o. Cada um  que faz seu prprio
mundo, faa ta
mbm o seu. Deixe a Rssia em paz. Trabalhe. O m
elhor ideal  o trabalho, seja qual for. Essa  
a mais bela teoria, o resto  bobagem.
Se cada 
um pensasse assim, o mundo seria outro. Se em ve
z de inventar teorias, esse Marx Karl..
- Karl 
Marx.
- Ou isso. Se aconselhasse a todos serem 
bons e trabalhadores, seria bem melhor do que qu
erer tirar de uns o que custou ganhar para dar a
os outros.
Alfredo ficou de p, um pouco excita
do:
- No diga isso, mame. Com as teorias dele
 sobre socialismo, salvou o proletariado da inju
stia de ser explorado como era naquele tempo pe
los capitalistas. Os
operrios trabalhavam doze
 horas por dia e ganhavam to pouco que mal dava
 para comerem; at as crianas trabalhavam.
- E
nto ele fez muito bem de fazer essas leis para 
salvar os operrios, mas querer tirar de uns e d
ar aos outros, no estou de acordo. Isso s Deus
. Cada um com
o que tem.
- A senhora vai ler u
ns livros, depois vamos conversar.
- Est certo
, mas as minhas idias sero as mesmas. Alfredo 
espreguiou-se e deixou a cozinha; recomendei:

- Cuidado com as tais reunies de amigos!
- No
 h perigo!
Inclinei-me diante do forno e coloq
uei o tabuleiro com as empadinhas. Logo depois o
uvi a porta da rua bater e percebi que Alfredo i
a saindo; cada vez se afastava
mais de casa. Er
a como se algum puxasse uma corda para um lado 
e outro puxasse do outro lado. Um dia havia de a
rrebentar e eu no podia saber de que maneira ne
m
de que lado.
126
O vestido para a cerimnia
 da entrega dos diplomas ficou lindo; todo branc
o, bem rodado, com mangas bufantes e levemente d
ecotado. Colocamos Isabel de p sobre a
mesa da
 copa, enquanto Clotilde e eu procurvamos defei
tos no vestido e queramos ver se no estava dep
endurado de um lado. Suvamos porque fazia muito
 calor, era
dezembro, e Clotilde com uns alfine
tes no canto da boca, ia dizendo pra Isabel:
- 
Vire, vire mais. V virando devagarinho
Isabel 
reclamava:
- Tia Clotilde, no fale com os alfi
netes na boca que  capaz de engolir.
E ia vira
ndo devagar e tia Clodiude prendia aqui, prendia
 acol, dando pontos e dizendo
- Lola, v mais 
longe e orne agora. Veja se no tem defeitos.
E
u olhava de certa distncia e Isabel ia dando vo
ltas sobre a mesa como uma grande rosa.
No dia 
da formatura/Isabel amanheceu nervosa:
- Ih! Ma
me, chegou finalmente o dia!
Houve a missa em 
ao de graas; rezamos muito. Nesse dia fiz um 
almoo melhor e as'duas amigas mais ntimas de I
sabel compareceram. Festejamos e demos um presen
tinho
a Isabel; Clotilde deu uma caixinha de co
stura com todo o necessrio, eu dei um colarzinh
o de prolas que ela cobiava h muito tempo; co
mprei na Casa Sloper e como
o fecho era de bril
hantinhos, fazia muito efeito. Na mesa, quando e
la desdobrou o guardanapo e encontrou o colar, f
icou radiante, os olhos brilhantes como estrelas
:
- Mame! Que lindo!
Carlos deu uma caneta-ti
nteiro e Alfredo deu um par de meias de seda. (E
u dei o dinheiro para comprar as meias).
 noit
e ningum jantou porque queramos chegar cedo ao
 teatro onde ia ser feita a entrega dos diplomas
; tomamos apenas caf com po. Penteamos e vesti
mos Isabel;
uns dias antes ela tinha me pedido 
dinheiro para fazer ondulao permanente pela pr
imeira vez e ficou encantadora, com a cabea che
ia de cachinhos. Bem no alto da
testa, entre os
 cachinhos, prendemos um raminho de rosas e, qua
ndo vi minha filha pronta, preparada, toda de br
anco, vaporosa e elegante, achei-a linda! Tomamo
s
um txi e samos bem cedo; fomos dos primeiro
s a chegar e tivemos que esperar mais de uma hor
a, mas foi bom porque encontramos os melhores lu
gares e pudemos apreciar
o teatro que no conhe
camos. Achamos uma beleza, enorme, cheio de dou
rados! De repente comeou a chegar gente em band
os e o teatro ficou completamente cheio; Isabel


foi logo para o palco e no a vimos mais. Num l
ugar fundo, na frente do palco, ficou colocada a
 orquestra e os msicos foram chegando um por um
 e afinando os instrumentos.
Clotilde, Carlos e
 eu ficamos numa das primeiras filas e Alfredo s
umiu dizendo que preferia ficar l em cima, no "
galinheiro".
De repente, a orquestra tocou o Hi
no Nacional; depois correu o pano e vimos um esp
etculo deslumbrante: todas as moas sentadas no
 palco, vestidas de branco; de
um lado alguns p
rofessores e uma mesa com flores e mais flores. 
Do outro lado os rapazes, todos de preto. Batera
m muitas palmas e comearam ento os discursos. 
Avidamente
comeamos a procurar Isabel no meio 
daquela brancura imaculada; de sbito Carlos
me
 deu uma cotovelada murmurando: "Na terceira fil
a  esquerda. Ela  a quinta". Dei uma cotovelad
a em Clotilde: "Na terceira fila  esquerda. A q
uinta".
L estava Isabel sorrindo para ns, o r
aminho de rosas no alto da cabea, mais linda qu
e nunca. Fiz um sinal com a cabea e ela 'corres
pondeu. Olhei-a durante longo
tempo. Era minha 
filha!
Comecei ento a ouvir o discurso; o para
ninfo falou muito bem sobre os deveres dos profe
ssores, dizendo que o magistrio era uma das mai
s belas profisses e possua
a faculdade de ape
rfeioar o carter; guardei apenas essas palavra
s. Depois de muitas palmas, a orquestra comeou 
a tocar; tocou uma msica um pouco triste porque

me fez chorar. Perguntei a mim mesma: Por que 
essa msica to triste?
Carlos me disse depois 
que a msica no era triste, eu  que estava tri
ste. Comecei a me lembrar da luta que tivera de 
sustentar at chegar o momento de ver Isabel
re
ceber esse diploma. A pobreza, as dificuldades, 
o desespero de Isabel porque eu no podia compra
r todos os livros; alguns eram to caros! Os sap
atos furados na
sola, e eu forrando com papelo
 dobrado nos dias de chuva; assim mesmo ela volt
ava com os ps encharcados; aos sbados, depois 
da aula, eu os levava depressa ao
sapateiro par
a que consertasse para "segunda-feira sem falta"
, enquanto Isabel ficava em casa descala ou com
 os ps enfiados nuns chinelos velhos quando faz
ia frio.
Esses anos todos haviam ficado para tr
s; graas a Deus haviam passado. Nesse momento 
a msica parou de tocar e eu no chorei mais. Co
mearam a distribuio de diplomas:
de sbito u
ma voz grossa falou: Isabel Ablio de Lemos! Lev
ei uma pancada to forte no corao como se tive
sse levado um soco! Ela se levantou e atravessou
 o palco,
pisando firme, a cabea erguida. Meus
 olhos ficaram outra vez midos de lgrimas; ali
 estava Isabel formada! Isso significava o fim d
e muita luta, de muita misria.
Que felicidade 
se o pai pudesse estar ali assistindo essa cena,
 ele que adorava a filha!
Isabel sentou-se de n
ovo e me pareceu que bateram mais palmas para el
a do que para as outras; com certeza porque ela 
estava mais bonita e mais elegante. *
Depois da
 distribuio, houve outro discurso; era um cole
ga que se despedia da turma dizendo no fim: "Ade
us, caros colegas! E mesmo que cada um de ns si
ga um rumo
diverso, nunca havemos de esquecer a
 Escola! A velha e querida Escola que nos prepar
ou para a Vida!"
Em seguida a orquestra tocou o
 Hino Nacional outra vez e acabou-se a festa. Fo
mos todos deixando o teatro lentamente no meio d
a multido e eu estava ansiosa por
abraar minh
a filha; vi-a ento num dos corredores conversan
do com um rapaz. Estava encostada na parede, um 
ar embaraado, olhando um pouco assustada para o
s lados;
ele falava depressa, inclinado sobre o
 rosto dela enquanto ela procurava evitar os olh
os dele, virando a cabea para o lado e sorrindo
. Quando ela nos viu, assustou-se;
e ele se des
pediu depressa. Ela veio ao nosso encontro, muit
o vermelha e emocionada; abracei-a dando os para
bns e perguntei logo: "Quem  esse moo que est
ava falando
com voc?"
-  um colega, mame. Q
ue tal a festa? Gostaram?
Samos do teatro e fo
mos de bonde para a casa, comentando a cerimnia
 da formatura, o teatro e concordamos que o vest
ido de Isabel era o mais elegante e o mais bem

feito de todos os que tnhamos visto por l.
Al
fredo s apareceu quando j estvamos deitados e
 no dia seguinte cedo, na mesa do caf, Carlos m
e disse:
- Aquele rapaz que estava conversando 
com Isabel no teatro  o mesmo que anda com ela 
na rua.
Perguntei:
- E quem  ele, Carlos? Ser
 bom moo? De boa famlia?
- No sei. No conh
eo.
Pedi ento que indagasse quem era o rapaz,
 se era trabalhador e de boa famlia. Carlos pro
meteu. Nesse dia Isabel me disse:
- Foi bom eu 
me formar para ter um diploma, mas no quero ser
 professora; prefiro ser datilgrafa e trabalhar
 num escritrio do que andar por a pelo interio
r
agentando desaforo de Jecas e lidando com cr
ianas ranhentas. A senhora no acha?
Concordei
 porque no queria me separar de Isabel e ela co
ntinuou a freqentar as aulas de datilografia. D
ois dias depois houve o baile das professorandas
 no Trianon;
eu estava certa de acompanhar Isab
el porque no queria deix-la ir s com as coleg
as, mas como era um sbado, tive uma encomenda t
o grande de doces que fiquei
cansadssima e  
noite, meus ps doam tanto que eu no podia cal
ar sapatos, ento pedi a Carlos que fosse aluga
r um smoking para acompanh-la. Carlos foi e uma
s
horas depois apareceu com um smoking muito ma
ior que ele dizendo que no achara outro; as man
gas cobriam a metade das mos e estava todo rasg
ado na gola, alm das
calas longas demais. Ass
im mesmo foi com a irm; ouvi quando voltaram de
 madrugada. No dia seguinte Isabel queixou-se de
 que desde duas horas Carlos queria ir embora;

no danara nenhuma vez de vergonha do smoking. 
Fiquei com muita pena de Carlos e comecei a ajun
tar dinheiro s escondidas para mandar fazer um 
smoking para ele.
Captulo XIV
UNS dias depois
, Clotilde despediu-se novamente e seguiu para I
tapetininga, onde Olga reclamou a presena dela;
 estava esperando o quarto filho e queria Clotil
de
l.
Nos primeiros dias do ano novo, Carlos 
veio com a notcia; ele esperou que todos se dei
tassem e me procurou na cozinha, falando baixo, 
um ar esquisito:
- Mame, sabe aquele moo que 
est namorando Isabel?
- Sei. Quem ?
- No po
sso dizer se  bom ou no por enquanto; s sei q
ue a senhora vai se espantar com a notcia.
- O
 que ? Fale de uma vez.
Carlos deu uma voltinh
a, coou a cabea do Caarola que estava perto d
o fogo e sem olhar para mim, foi dizendo:
- El
e  casado; mas est separado da mulher.
Foi co
mo se tivesse levado uma bordoada no crebro; ol
hei Carlos que me olhava tambm, sem dizer nada,
 a boca aberta, sentindo todo o sangue fugir do 
meu rosto.
Apoiei-me  mesa da cozinha e/ pergu
ntei por perguntar alguma coisa:
- Tem certeza?
 No  possvel! Isabel no ia namorar um homem 
casado!
E uma leve esperana brilhou nos meus o
lhos:
- Ela no sabe, Carlos. Coitada! Precisam
os avis-la; ela, no sabe de nada.
Carlos bate
u levemente nos meus ombros:
- Ela deve saber, 
mame. No se iluda; mas ou ela acaba esse namor
o ou no  mais minha irm.
Sentei-me no banqui
nho da cozinha e murmurei com desespero:
- Falt
ava isso para me acontecer, Carlos. Faltava s i
sso.
- No diga isso, mame, afinal no  um ca
so irremedivel. Para tudo h remdio, ainda mai
s para um caso desses. Sossegue.
Perguntei:
- 
O que vamos fazer agora? Falar com Isabel?
- Am
anh falaremos com ela; v dormir tranqila e am
anh trataremos do caso. No se desespere por is
so.
Ficou por ali enquanto eu acabava de limpar
 a cozinha; despedimo-nos na porta do meu quarto
 e ele ainda disse:
- Durma bem, mame. H de s
e dar um jeito.
Mas no dormi; pensava e pensav
a. Achava isso uma desgraa para ns e conhecend
o o gnio de minha filha como eu conhecia, tinha
 medo dos acontecimentos.
Como o dia seguinte e
ra feriado, ningum saiu de casa; logo depois do
 caf, chamei Isabel ao quarto e Carlos entrou a
trs de mim, fechando a porta. Ela olhou para
m
im e para o irmo e ficou um pouco plida; compr
eendeu o assunto que amos tratar. Carlos pergun
tou sem rodeios:
- Quem  esse sujeito que voc
 est namorando? Conhece?
Ela empertigou-se tod
a e levantou a cabea como quem se prepara para 
a luta:
- E por que voc quer saber?
- Porque 
sou seu irmo; e um irmo tem direito de saber.


- Pois se quer tanto saber, v perguntar. Indag
ue. Olhei fixamente Isabel e disse:
- No fale 
assim; Carlos  seu irmo mais velho e est no l
ugar de seu pai. Se ele pergunta,  para seu bem
, s para seu bem.
- Mas por que vem com brutal
idades?
- Ele no perguntou com brutalidade, qu
er apenas saber. Voc anda conversando nas ruas 
com esse rapaz; no dia da sua formatura, estava 
no teatro conversando
com voc e quando nos viu
, foi embora depressa. Um moo que tem boas inte
nes no foge assim; ele devia at gostar de no
s ser apresentado, se  srio e direito.
Quem 
 ele?
Os lbios de Isabel tremeram levemente qu
ando respondeu:
- Ele no fugiu quando estava n
o teatro; foi embora porque estava com pressa. C
hama-se Felcio... s isso que eu sei...
Carlos
 interrompeu gritando:
- S isso? Mentira! Voc
 sabe quem ele  e no quer contar.  casado e t
em um filho pequeno. Por que no conta tambm is
so?
Dei um grito:
- Tem um filho? Meu Deus, Is
abel voc est louca?
Isabel ficou branca, todo
 seu rosto se contraiu como se sentisse dor; dep
ois reagiu e voltando-se para Carlos, respondeu 
furiosa:
- Ele no tem culpa se foi infeliz no 
casamento; est separado da mulher h mais de do
is anos e a mulher  que no prestava. Todo o mu
ndo sabe disso.
Carlos estava cada vez mais ner
voso:
- Cretina! E voc no sabe qu no pode c
asar-se? O que adianta namorar esse sujeito e an
dar com ele de baixo para cima? Para toda a gent
e andar falando? Voc
no pode casar-se com ess
e homem.
Isabel deu dois passos para trs, os o
lhos brilhantes de indignao:
- Se eu quiser, 
eu me caso com ele. Voc pensa que pode fazer al
guma coisa contra mim? Quem  voc pra mandar na
 minha vida?
Segurei Isabel pelos ombros e sacu
di com fora:
- Isabel! Isabel! Cale a boca. N
o diga uma coisa dessas: voc no pode se casar 
com ele; no est ouvindo seu irmo falar? Ele 
 casado, tem mulher e filho.
Atenda seu irmo q
ue s fala para seu bem; voc no pode se casar.

Ela me olhou de frente e sacudiu os ombros par
a livrar-se das minhas mos:
- Posso. A senhora
 no sabe, mas hoje h leis para isso... Houve u
ma pequena pausa enquanto Carlos e eu mal respir
vamos;
Carlos ia responder quando ela continuo
u, hesitando:
- Ele se desquita da mulher prova
ndo que ela no foi boa e mais tarde... pode cas
ar-se comigo.
Olhei Carlos numa interrogao; e
le avanou para ela, os braos no ar como se qui
sesse esbofete-la:
- No seja cretina! O homem
 fala essas coisas para essa boba e ela acredita
. Deixe de ser estpida; no temos leis para iss
o.  mentira dele. Ele quer voc,
mas no para 
casar. Entendeu?
Olhei Carlos e falei zangada:


- No fale assim, Carlos. No chame sua irm de
 estpida. Ela ainda  uma criana e qualquer um
 pode iludi-la.
Voltei-me para ela com ternura:

- No se iluda, minha filha. H muita gente ru
im neste mundo e voc no  nenhuma tola para ir
 acreditando em tudo que dizem. Esse homem no t
em boas idias.
Pense um pouco, ele no pode se
r seu marido.
Ela tremia apoiada aos ps da cam
a e parecia que ia chorar; mas em vez de chorar,
 levantou a cabea e nos olhou como que desafian
do:
- Eu gosto de Felcio e ele gosta de mim; n
o h nada que nos possa separar.
Dando dois pa
ssos, alcanou a porta e saiu correndo do quarto
; ouvimos a porta do banheiro fechar com fora. 
Carlos fez um movimento para ir atrs dela e eu 
disse,
segurando-o pelo brao:
- No, Carlos. 
Deixe. Com calma, havemos de conseguir que ela d
eixe esse homem. Que desgraa, minha Nossa Senho
ra! Minha
nica filha gostar de um homem casado
. No me conformo.
E sentando-me na beira da ca
ma, escondi a cabea entre as mos e chorei. Car
los sentou-se ao meu lado e com uma das mos sob
re meu ombro, falou:
- No chore, mame. Tudo h
 de se arranjar; essa desmiolada h de criar ju
zo, a senhora vai ver.  pena papai no estar v
ivo, seno ela havia de ver. No sei
por que Al
fredo e Isabel s do aborrecimentos; a senhora 
j reparou? Alfredo no quer trabalhar;  essa l
uta sem fim. Diz que procura trabalho todos os d
ias,
mas  mentira. Vive nos cafs conversando 
e no procura coisa nenhuma. Agora  Isabel com 
esse namoro estpido; e depois  teimosa como um
a besta, no quer ouvir
conselho algum. Felizme
nte Julinho  ajuizado e parece que vai bem no R
io.
Tirou um cigarro e acendeu; repliquei limpa
ndo os olhos:
- E voc, meu filho. Graas a Deu
s, tenho voc. Deus teve d de mim, me deu vocs
 dois to bons que nem sei como agradecer.
Fiz 
uma pausa e continuei:
- No diga mais nada a I
sabel por enquanto; no convm.  capaz de fazer
 uma tolice, vamos deixar passar uns dias.
- Ma
s se a senhora fica quieta e no fala mais nada,
  pior. Precisa falar, mame. Precisa proibi-la
 de sair de casa, pelo menos uns dias.
- Mas el
a  capaz de fugir, Carlos. A ser pior, muito 
pior.
- No foge e se fugir, a polcia vai atr
s e segura.
- No fale assim.
Ficamos um tempo
 em silncio e comecei a lembrar de Isabel em It
apetininga sacudindo os ombros cem vezes e dizen
do cem nomes feios, s de raiva do castigo. Era 
teimosa
e no cedia; preferia morrer a ceder. L
evantei-me suspirando e fui preparar o almoo. I
sabel fechou-se no quarto e no quis almoar; pa
ssou o dia todo chorando.
Durante o dia, quando
 a casa estava em silncio e todos tinham sado,
 ouvi um choro lamentoso. Escutei; era ela quem 
chorava e dizia entre soluos:
- Pelo amor de D
eus, Santa Terezinha, tirai-me este amor do cora
o. Arrancai-me se for preciso, se no for para
 minha felicidade. Tenha pena de mim, por favor,

Santa Terezinha. No me faa sofrer e fazer os
 outros sofrerem. Por favor.. E soluava; fiquei
 com muita pena de minha filha; quis bater na po
rta e cham-la,
mas nada fiz e me retirei na po
nta dos ps. Alfredo chegou  noite e eu contei 
tudo a ele; coou a cabea e ficou me olhando; d
epois disse:
- Mas se no h jeito mesmo e se e
la insiste em casar com esse camarada,  melhor 
deixar, mame.
- Mas no  possvel, filho, poi
s se o homem  casado.
- U, faz o desquite e a
cabou-se. H remdio pra tudo.
- Mas ento s s
e casar no civil e um casamento sem ser no reli
gioso, no  casamento para mim. No vale nada, 
 nulo. No sei se ele tem dinheiro, mas com
o 
desquite ele tem que sustentar mulher e filho. T
er tanto dinheiro para isso? E depois deve ser 
muito mais velho que Isabel: No quero esse casa
mento,
nunca hei de aceitar. Se seu pai fosse v
ivo, ficaria desesperado; ver nossa filha vivend
o com um homem sem ser pelos laos da Igreja, nu
nca. Preferia que ela
morresse.
Alfredo me con
solou dizendo que aconselharia Isabel e iria inv
estigar toda a verdade sobre o tal Felcio.
#Qu
ando Alfredo jantava em casa, o que era raro, di
scutia sempre com Carlos durante o jantar; Carlo
s desprezava as idias dele e ele ficava furioso
, muitas vezes
eu intervinha; Carlos dizia  vo
lta da mesinha da copa:
- Voc pensa que eu no
 sei o que  socialismo? Sei mais do que voc ta
lvez. E sei tambm a diferena entre o comunismo
 e o socialismo. O comunismo  a abolio
total
 da propriedade,  dividir tudo por todos, e o s
ocialismo distingue perfeitamente a propriedade 
pessoal e a coletiva. No  isso? Agora me diga 
uma coisa:
a propriedade coletiva  repartida d
e que forma?  a regio,  a nao,  o municpi
o,  a cidade? Como voc explica isso?
Alfredo 
sorria ironicamente:
- Quer saber mais do que o
s livros que anda lendo? Sua mania  vir com arg
umentos complexos. Nada disso. O socialista se o
pe a que um indivduo nico seja
proprietrio 
de uma grande extenso de terra ou dono de uma m
ina, por exemplo. O fim do socialismo  obrigar 
esse indivduo a negociar sua mina ou sua terra 
com
outros; a negociar repartindo. O socialismo
 foi fundado como uma proteo ao pobre; evitand
o horas demasiadas de trabalho e mantendo o sal
rio. Voc est muito
enganado confundindo os do
is princpios. Socialismo no tem nada com comun
ismo.
Carlos se exaltava:
- Como no? A base 
 a mesma, assim como o integralismo. As teorias 
so baseadas num s princpio, numa nica essnc
ia e o fim  o mesmo: confuso social,
conflito
s e falhas. No fim, desequilbrio. Essa crena d
e poderem reorganizar leis com ordem e sem pertu
rbaes  nula.  uma crena falha.
- Ento voc
 est de acordo em que haja a opresso do rico 
sobre o pobre? Est de acordo com os opressores 
da humanidade?
- Estou porque no acho que haja
 opressores. Onde est a opresso? E se no foss
em os ricos que voc chama de opressores, os pob
res poderiam viver? Se os ricos
no encomendass
em doces para mame fazer, mame no teria dinhe
iro algum e no teramos pago esta casa.
- Qual
!  intil querer fazer voc compreender; cada u
m acha que est com a Verdade.
- E ningum sabe
 onde ela est, disse Isabel. Carlos retrucou:

- Como no? Sei perfeitamente.
Isabel se esprem
ia para passar atrs da cadeira de Alfredo que f
icava justamente entre a mesa e o lavatrio da c
opa; Alfredo se impacientava:
- Voc passa toda
 a hora a atrs, Isabel Que diabo! No tem mais
 o que fazer?
- Quero beber gua, a gua est n
o filtro l do outro lado. Quer que eu v voando
 ou passe por baixo da mesa?
Havia uma pausa; C
arlos aproveitava para continuar:
- Trate de de
ixar essas reunies, Alfredo. Voc s tem a perd
er com isso. Atrapalha sua vida.
Eu intervinha:

- J pedi a ele que deixe essas coisas para os
 ricos e evite esses
amigos anarquistas.
- Soc
ialistas, mame. No posso evit-los; so meus a
migos e no vou deix-los porque pensam desse mo
do. E depois acho que esto com a razo. Ns  q
ue estamos
errados. Que bom se a humanidade com
preendesse isso, se quisesse compreender enfim. 
Seria o ideal!
Carlos respondia:
- Ideal? No 
h forma ideal de governo; todos tm defeitos e 
falhas!
- Nem diga isso. Os pases socialistas 
vivem admiravelmente bem governados. So os que 
vivem melhor.
- Cite um pas socialista.
Alfre
do assoprava a fumaa do cigarro para cima; ralh
ava outra vez com Isabel:
- Deixe de passar atr
s da minha cadeira, j disse. Isabel encolhia o
s ombros. Alfredo respondia:
- Todos os pases 
escandinavos so socialistas e l existe a maior
 ordem do mundo e a maior organizao. Vivem num
 equilbrio perfeito; a Noruega, a Sucia e
a D
inamarca.
Carlos no respondia logo; refletia, 
depois dizia:
- Est bem. Mas quantos habitante
s tm esses pases? A Sucia, por exemplo.
- N
o sei ao certo. Alguns milhes.
- Pouqussimos 
milhes; menos habitantes que o Estado de So Pa
ulo.  fcil implantar o socialismo num pas peq
ueno.
- Implantar nada; ningum forou. Tudo ve
io naturalmente, sem revolues, sem nada. O pov
o em si  socialista.
Havia uma pausa. Alfredo 
perguntava com ironia:
- Est de acordo ento q
ue pode haver pases socialistas e que so os ma
is bem organizados do mundo?
Carlos hesitava:

- No estou de acordo absolutamente; s acho que
 num pas pequeno, tudo se pode conseguir. E me 
diga uma coisa: Voc e seus amigos pretendem faz
er o Brasil
socialista?
- No diga asneiras.

- Ento o que pretendem? Por que fazem reunies 
e debates se no  para conseguir algum fim?  p
or nada tudo isso?
Alfredo acendia vagarosament
e outro cigarro e me pedia em voz alta enquanto 
eu lavava os pratos:
- Mame, a senhora quer me
 arranjar outro caf?
Depois olhava o teto e di
zia com indiferena, empurrando a cadeira para t
rs:
-  por um ideal. Todo o mundo precisa ter
 um ideal, um fim, uma qualquer coisa enfim. No
  viver por viver, assim sem querer nada, sem a
spiraes.
Carlos respondia com ironia:
- Sim 
senhor! Renem-se para discutir um ideal! Sonhar
 com um ideal! Pensar nele, acariciar, desejar, 
s de longe. So ento homens idealistas, no s
o?
Pois eu no vou na onda. Vocs so  revoluc
ionrios, isso  que so. Contra a ordem, contra
 a paz. Vocs tm desequilbrio mental.
Alfredo
 se levantava, excitado, nervoso. Eu trazia a ba
ndeja com o caf; Carlos tambm bebia. Eu aconse
lhava: ,
#- No discutam, no adianta discutir.
 Alfredo resmungava:
- Vem Carlos com bobagens.
 Depois se perco a cabea, ficam contra mim.
- 
Bobagens nada. Pois no vivemos to bem assim? P
or que procurar ideais que s servem para pertur
bar? H ideais e ideais; o de vocs  perturbado
r.
Tenha um ideal para voc s, mas no queira 
implant-lo na comunidade.
Alfredo deixava a co
pa, respondendo:
- Voc no se meta onde no en
tende. Fala sem saber. Carlos retrucava em voz a
lta:
- Talvez mais que voc, homem idealista.

A porta da rua batia com fora; era Alfredo que 
saa. Carlos ia buscar um livro no quarto e fica
va lendo na sala de jantar,  luz da lmpada. Is
abel ia  calada
conversar com as filhas de D.
 Genu. Eu juntava as xcaras usadas sobre a band
eja e ia lav-las na cozinha.
A poca do carnav
al foi se aproximando e Isabel quis ir a um bail
e a fantasia. Alfredo se ofereceu para acompanh
-la; eu me lembro que ela estava encantadora fan
tasiada
de pirata; sobre o grande chapu preto 
batido na testa, havia uma caveira branca; os ca
chos escuros dos cabelos apareciam sob o chapu 
e a blusinha branca muito
leve fazia sobressair
 seu busto perfeito. No dia seguinte, os dois me
 contaram quanto o baile foi divertido e senti g
randes esperanas que Isabel esquecesse o namoro
.
Dias depois, Carlos me preveniu:
- Mame, Is
abel e o rapaz estavam de mos dadas passeando n
a Praa da Repblica.
Tornei a ficar aflita e 
 noite, falei com minha filha:
- Isabel, Isabel
, pelo amor de Deus, deixe esse namoro, minha fi
lha. Pelo amor de Deus.
Ela ficou vermelha e os
 olhos brilharam de raiva; respondeu com voz rou
ca:
- J deixei, j deixei. Ser possvel que m
e persigam sempre?
- No minta; hoje mesmo anda
ram juntos. Hoje mesmo. Que desgosto voc me d,
 Isabel. Que desgosto. O que diria seu pai se fo
sse vivo? Pense um
pouco. Quanto ele no sofrer
ia? Seu pai que queria to bem a voc e fazia tu
do o que voc queria? Que coisa horrvel.
Pergu
ntou ironicamente:
-  pecado amar? Gosto dele 
e pronto. Ele tambm gosta de mim.  pecado?  c
rime? A senhora tambm no gostou de papai? No 
casou?
- Mas seu pai era um homem digno, no er
a casado com ningum. No compare seu pai com es
se homem.  muito diferente...
Ela me interromp
eu:
- E quem disse que Felcio no  digno? A s
enhora por acaso o conhece? S porque teve a inf
elicidade de casar mal a primeira vez, ficam tod
os contra ele. A senhora
no pode falar nada co
ntra ele porque
no sabe; no se pode falar de 
quem no se conhece.
- Como no posso falar? Ba
sta o fato de ser casado e namorar voc. Acha po
uco?
- Meu Deus, mas ele no  casado.  separa
do; h muito tempo est separado da mulher.
- P
ara mim  casado. Pelo fato de viver longe dela,
 no deixa de ser casado. Ser sempre um homem c
asado.
- E o dia que ele conseguir o desquite? 
Continua casado?
- Continua. O casamento sem se
r na Igreja, no  casamento. Nunca.
Isabel dir
igiu-se para a porta, levantou os ombros num ges
to de pouco caso, dizendo:
- Nesse caso ento..
.
Tive mpetos de esbofete-la, mas me contive.
 Passei dois dias sem falar com ela; fui contar 
tudo  tia Candoca que me aconselhou calma e pru
dncia. Contei tambm
 nossa vizinha D. Genu; 
D. Genu me ouviu em silncio, os culos no meio 
da testa, sacudindo a cabea de vez em quando; d
e repente explodiu:
- Mulher quando d para iss
o  pior que homem, D. Lola. Desembesta. No lem
bra o que eu lutei para impedir o casamento da J
oca com aquele casca? E consegui?
Qual o qu! E
la no queixa pra mim; pra mim  que no diz nad
a, prefere morrer. Mas pensa que no percebo? So
fre o diabo com ele; aquele  um tranca, D. Lola
.
E quando vem aqui, quase se derrete em gentil
ezas; s me chama de comadre. "No , comadre?" 
"A comadre no sabia?" Comadre o qu, desgraado
! Seu eu pudesse
torcer o pescoo dele, era com
 prazer. E quem  que estava mais assanhada pra 
casar? A burra da Joca! Pior que ele; disse pra 
mim aqui nesta sala, batendo no
peito assim: "S
e a senhora no deixar eu "casar com ele, eu fa
o uma loucura, eu fujo com ele." "Est louca, cr
iatura? No v que ele no presta?" Sabe o que

ela me respondeu? "Pois se no prestar  por min
ha conta, o prejuzo  meu; a senhora no-tem na
da com isso." Ah! O que eu sofri, D. Lola. No s
ei como
no matei aquela desgraada. Nem sei.

Olhou para mim e lembrou-se do meu caso, procura
ndo me consolar:
- Mas a Isabel  diferente, se
mpre foi obediente. No perca as esperanas; que
m sabe a senhora consegue o que eu no consegui?
 Tenha f.
E colocando os culos no lugar outra
 vez, continuou a alinhavar a costura e a falar 
mal das filhas. Voltei para casa e escrevi para 
Itapetininga contando tudo s
minhas irms; res
ponderam que me acalmasse que tudo havia de term
inar bem com a ajuda de Deus. Pareciam muito pre
ocupadas com o ltimo filho de Olga que tinha na
scido
fora de tempo; era magrinho e raqutico, 
estava dando um trabalho. Olga tinha levado um 
tombo de uma escada e estava sofrendo as conseq
ncias; fiquei apreensiva
e esqueci por algum t
empo o caso de Isabel.
Uns meses depois, ela se
 formou em datilografia e comeou a procurar emp
rego nos jornais. Logo depois se empregou num es
critrio de uma companhia importante, onde
havi
a outras moas trabalhando. Comeou ganhando pou
co, mas fiquei aliviada; ainda mais que Alfredo 
tambm se colocou em Santos, com um amigo da Alf
ndega. "Vinha
quase
#todos os domingos me vis
itar. Ficava na sala de jantar, sentado na velha
 cadeira de balano, e enquanto balanava leveme
nte fazendo a cadeira ranger, conversava
e cont
ava o que fazia no emprego. Depois divagava olha
ndo para o teto:
- Mame, quando vejo no cais a
queles navios grandes com chamins do tamanho de
sta sala e que saem apitando pelo mar afora, sab
e o que eu tenho vontade de fazer?
- O qu? per
guntava adivinhando a resposta.
- Tenho vontade
 de vagar pelo mundo todo... conhecer cidades.. 
. aventuras... descobrir mundos.. . Tenho vontad
e de ir  frica, no sei por que. ..  ndia
t
ambm. Tenho loucura de conhecer Bombaim por cau
sa de um livro que li... Ah! Meu Deus!
- Isso 
 bom para os ricos, meu filho. Economize, trabal
he, ganhe dinheiro honestamente e um dia voc ir
 correr mundo tambm.
Ele me olhava sorrindo d
e leve e balanava, fazendo a cadeira ranger, en
quanto l fora o dia ia morrendo e estava chegan
do a hora de-Alfredo voltar para Santos.
De rep
ente ele contava os nomes de todos os navios do 
Loyd: dizia que tinha amigos em quase todos eles
. E quando eu me admirava, respondia:
- Como n
o, mame? Pois meu servio  na Alfndega, conhe
o bem todo esse movimento do cais.
Eu sorria f
eliz por v-lo trabalhando e interessado no empr
ego. Era to carinhoso para mim, muito mais que 
os outros, e eu nunca pude esquecer os presentin
hos que
sempre me trazia, nem que fosse uma fru
ta ou uma flor. Quando se despedia, eu ficava tr
iste; s vezes passava mais de quinze dias sem v
oltar.
Uns meses mais tarde, Carlos me disse qu
e um amigo que trabalhava numa estao de rdio 
achava que ele devia aprender canto porque tinha
 uma bela voz de bartono.
Ouvira-o cantar O lu
ar do serto" e gostara muito. Um dia Carlos apa
receu com um violo em casa e comeou a aprender
; tocava com um amigo todas as noites e ficava

uma hora inteira estudando. Quando tocou e canto
u pela primeira vez para eu ouvir, fiquei admira
da; sua voz era suave e firme, muito agradvel. 
Tocava "Porteira
velha" e cantava acompanhado p
or Isabel que tinha uma vozinha muito afinada. U
ma noite, foi cantar num programa caipira de uma
 estao de rdio; cantou com mais
dois companh
eiros "Zez Suuarana" e cantou to bem que Isab
el, Alfredo que estava essa noite em So Paulo, 
e eu,  volta do aparelho de rdio, ficamos como
vidos.
Quando ele disse ento: "Meu corao no
 me engana, tu no volta nunca mais", meus olhos
 ficaram lacrimosos e Isabel comeou a rir.
- O
 que  isso, mame? Por que est chorando?
- N
o sei, respondi. Me deu vontade.
Desde esse dia
, ele cantou em vrios programas caipiras e mais
 tarde cantou tambm canes mexicanas e argenti
nas. Eu gostava quando ele cantava "Quiero verte
 una
vez ms". Isabel e eu aprendemos todas as 
canes e  noite, quando Carlos no saa, cant
vamos os trs juntos na nossa sala de jantar e 
s vezes Alfredo cantarolava
tambm. Creio que f
oram as noites mais belas e tranqilas da nossa 
vida, apesar de ausentes, Jlio e Julinho; mas t
ambm foram curtas, passaram to depressa.
Um d
ia, estvamos sentados  volta da mesinha da cop
a, almoando, quando vimos Alfredo entrar de rep
ente. Vinha assustado, o rosto sombrio, as roupa
s sujas, sem
gravata, o cabelo em desordem. Ns
 trs ficamos de p ao mesmo tempo, trmulos e a
ssustados. Carlos perguntou:
- O que aconteceu,
 Alfredo?
Ele procurou sorrir e olhando para mi
m, respondeu indeciso:
- Andei envolvido num co
nflito, mame, mas no tive culpa.
- Aonde?, pe
rguntei. Em Santos?
- Em Santos, esta madrugada
. No tenho culpa, tive que tomar parte por caus
a dos amigos. Juro que no sou culpado.
Carlos 
olhou-o firmemente censurando:
- Foi o resultad
o das tais reunies, no ? Eu j sabia que ia a
cabar assim.
E sentou-se de novo, um ar acabrun
hado. Houve um silncio pesado. Alfredo deu um l
eve gemido e levou a mo direita ao rosto fazend
o uma contrao de dor; reparei
ento que estav
a com um dente quebrado, o rosto vermelho e inch
ado. Mostrou com o dedo um pequeno ferimento na 
cabea e suas roupas estavam midas de sangue. F
alei:
- Vamos tratar esses ferimentos, Alfredo,
 depois conversaremos. Ele olhou para trs medro
samente:
- No, mame, no quero nada. Vou-me e
mbora. Depois em voz mais baixa:
- Desconfio qu
e a polcia est atrs de mim. Olhamo-nos aterro
rizados e Carlos disse num tom decidido:
- Cont
e de uma vez o que voc fez. Foi alguma coisa gr
ave se no a polcia no vinha atrs.
Alfredo a
pertou as mos, uma contra a outra num gesto ner
voso, depois apalpou o pescoo no lugar ferido; 
falou hesitando:
- No fiz nada, j disse. Esta
va numa reunio com uns amigos quando a polcia 
chegou; houve uma provocao qualquer e nem sei 
como comeou. Quando vimos, estvamos
lutando e
 cada um se defendia como podia. .. Jogaram garr
afas, copos, no fim at cadeiras... e. . acho qu
e machuquei um sujeito, mas no tenho culpa. Eu


podia estar morto tambm; foi horrvel, houve m
uitos feridos. . .
Olhou novamente  volta com 
ar assustado, depois dando um gemido sentou-se n
uma cadeira. Carlos disse com autoridade:
- Fal
e a verdade. Era uma reunio socialista, no era
? Alfredo procurou evasivas:
- J vem voc com 
insinuaes; no fale o que no viu.
E levou de
 novo a mo ao pescoo; dei-lhe imediatamente um
 caf quente e perguntei:
- Mas, meu filho, por
 que a polcia est perseguindo voc? S voc? C
arlos tornou a falar:
- Era ou no era uma reun
io socialista? Conte de uma vez. No minta.
Al
fredo ficou embaraado; deu um dbil gemido e to
mando o cale aos golinhos, falou:
- Dizem que n
s  que provocamos, mas no foi assim. Isso  m
entira. Estvamos conversando, apenas conversand
o...
Carlos interrompeu:
- Onde? 139
#Alfredo
 olhou-o furioso:
- Isso interessa a voc? Voc
  da polcia tambm? Fez uma pausa, tomou o lt
imo gole de caf e continuou:
- Estvamos conve
rsando quando a polcia chegou fazendo barulho, 
querendo prender todo o mundo, fazendo ameaas. 
Ns reagimos; foi a que houve luta, dois dos
m
eus amigos foram presos, eu consegui pular uma j
anela dos fundos e fugi. Dei vinte mil-ris para
 um chofer de txi que tinha levado uns passagei
ros para embarcar
e vinha voltando a So Paulo.
 Ele no me conhece, desci ali perto do largo da
 S e vim para casa. Pretendia me esconder numa 
cidade do interior ou nalguma fazenda,
por isso
 vim. Mas um amigo me aconselhou outra coisa e m
udei de idia. J sei o que vou fazer; vou volta
r esta madrugada para Santos e embarco amanh nu
m cargueiro
para os Estados Unidos, vou de qual
quer jeito. Aqui no fico, no quero ser preso. 
Talvez no haja nada, mas estou com medo que alg
um me denuncie.
E olhou para mim, um ar aflito
. A angstia se apoderou de ns quando ouvimos A
lfredo relatar o fato; uma angstia pesada de in
certezas.  que fazer? Como agir? Carlos
falou:

- Mas por que fugir, Alfredo? Se voc diz que 
no  culpado, no deve fugir. Enfrente a situa
o. No acha, mame?
Alfredo interrompeu mais n
ervoso ainda:
- Como vou provar que no tenho c
ulpa? Se eu estava entre eles e lutei tambm, v
o dizer que sou culpado. Um sujeito ficou cado 
l no cho e se dizem que fui
eu, como vou prov
ar o contrrio?
Carlos aproximou-se do irmo e 
num terrvel tom de acusao na voz, perguntou a
bruptamente:
- Ento foi voc? Fale a verdade. 
Foi voc que feriu o homem? Isabel no dizia nad
a; tinha os olhos dilatados fixos em Alfredo; eu

intervim:
- Ningum pode saber num conflito g
eral, Carlos. Pode ser que ele no tenha a culpa
, mas est arriscado a ser preso. Venha, Alfredo
, trocar essa roupa imunda
e tratar esses ferim
entos.
Ele gemeu dizendo que preferia morrer a 
ser preso; levou a mo ao lado direito do rosto 
e disse que tudo estava dolorido; dei-lhe uma as
pirina e outro caf quente.
Em seguida preparei
-lhe um banho. Carlos ficou sentado, pensativo, 
um cigarro entre os dedos, e Isabel saiu dizendo
 que era hora de ir para o emprego. Carlos saiu


logo depois, apreensivo. Depois do banho, Alfre
do ficou mais calmo e-almoou; vestiu uma roupa 
de Carlos que ficou um pouco apertada e foi se d
eitar. Fiz ento um
embrulho de tudo o que era 
dele e deixei no tanque, no quintal. Passou-se a
 tarde e Isabel e Carlos voltaram do trabalho; j
antamos mais calmamente. Quase ningum
falava, 
atemorizados com o que podia ainda acontecer. Fo
mos depois para a sala de jantar e ficamos  vol
ta da lmpada. Alfredo estava dizendo que fugiri
a essa madrugada;
Carlos e eu procurvamos acon
selh-lo:
- No fuja, afinal de contas voc h 
de ter meios de provar que no teve culpa.
Eu d
izia:
- O filho mais velho de tia Emlia  advo
gado; vou pedir a ele que auxilie voc ou ento 
indique outro. Temos dinheiro para pagar o
advo
gado, nem que seja para vender esta casa, Alfred
o, mas no v embora.
- No. J resolvi. Vou co
mo marinheiro ou como clandestino no navio, mas 
vou.
- Voc est louco? A polcia pega voc e a
 ser pior, muito pior. Faa o que mame disse,
 v se entregar.
- Nunca. Luto, mas no me entr
ego. Se vierem hoje aqui me buscar, fao um "fre
ge", mas no me pegam. Prefiro morrer.
Olhamos 
para ele desconsoladamente. Carlos insistiu:
- 
Mas pegam voc de qualquer jeito. Antes de entra
r no tal navio, ser preso.
- No pegam. Tenho 
amigos nesse navio e tenho certeza que me proteg
ero... Depois... Um amigo grado vai me levar a
manh para Santos, de automvel...
J combinamo
s. Ningum me pega.. . Tenho certeza...
Bateram
 no portozinho do jardim; meus trs filhos leva
ntaram-se ao mesmo tempo e Isabel disse, resolut
a:
- Esperem. Vou espiar na janela da frente.

Uns segundos depois, voltou desfigurada, branca 
como papel, os lbios trmulos. Pronunciou apena
s:
- Polcia!
Alfredo deu um salto e sumiu pel
o corredor; Carlos ainda tentou ret-lo, murmura
ndo:
- Espere; no fuja que  pior.
Mas ele es
tava longe. Bateram de novo e Isabel ficou parad
a no meio da sala, sem saber o que fazer. Admire
i Carlos nesse momento; com uma calma inabalvel
, dirigiu-se
para a porta e descendo a escadinh
a do jardim com passos firmes e seguros, foi ate
nder. Quase em seguida, dois homens apareceram n
a porta da sala de jantar, dizendo
que traziam 
ordem de priso para Alfredo. Tive a coragem de 
perguntar, fingindo firmeza:
- Mas o que h? Po
r qu?
Um dos homens que tinha uma pinta escura
 do lado esquerdo do rosto, me olhou e disse sim
plesmente:
- Ele esteve envolvido num conflito 
comunista ontem em Santos; houve morte.
Repeti 
a palavra "morte" como um eco e j os homens com
eavam a busca. Entraram no corredor e ouvi quan
do abriram a porta do meu quarto, acompanhados d
e Carlos.
Fiquei imvel na sala ao lado de Isab
el que segurava nervosamente meu brao; envelhec
i muito essa hora e esses minutos valeram por an
os de sofrimento. Olhava o cho
com o olhar mor
to e esperava, esperava. Ouvi os passos dos insp
etores deixarem meu quarto e entrarem no quarto 
de Isabel. Pensei: " l que ele est escondido.
 
agora que vo prend-lo". Os inspetores deix
aram o quartinho de Isabel. Pensei: "Ento ele e
st no quarto de costura, escondido. No encontr
aram ainda, mas agora
vo encontr-lo". Saram 
novamente do quarto e se dirigiram para a copa, 
pensei: "Ento ele est no banheiro.  l que el
e est escondido. Vo descobrir neste instante.


Agora". Mas os passos foram alm e ouvi o rangi
do suave da porta do banheiro se fechar atrs de
les; um suor frio escorreu nas minhas costas e s
enti as mos midas.
A angstia foi crescendo, 
foi se avolumando, foi me envolvendo e me aperta
ndo a garganta. Ouvi ento entrarem na cozinha. 
Pensei: " agora. Ele se refugiou no
quarto da 
cozinha onde Carlos dorme. Prenderam. Pronto". E
sperava um grito, uma reao, um barulho de luta
. Nada. Apenas os passos cadenciados dos homens 
e as portas
abrindo e fechando. Preferi que tud
o terminasse no mesmo instante de qualquer modo,
 era melhor do que a angstia que me sufocava. P
ensei: "J sei onde ele est.
 no quintal, no 
nosso quintalzinho onde brincou tantas vezes, es
t escondido num canto como um animal acuado e v
ai ser levado. Quem sabe est em cima da goiabei
ra;
uma vez ele caiu da goiabeira e se machucou
, mas no foi nada. Que pena ele no ser mais cr
iana, agora tudo  to diferente. Comunista! E 
tinha me dito que era
socialista. Ser que  tu
do a mesma coisa? No compreendo! Que silncio, 
ser que j prenderam Alfredo? Ah! Meu filhinho!
 Eu preferia que voc ainda fosse pequeno
e tor
nasse a cair da goiabeira, do que na mo da pol
cia. Vo prend-lo agora. AGORA!" Mas os passos 
cadenciados e surdos voltaram do quintal e soara
m na sala novamente.
Alfredo no tinha sido enc
ontrado. Olhei os inspetores sem distinguir as f
eies de nenhum e sem compreender o que havia s
ucedido. Fizeram um ligeiro cumprimento
e deixa
ram a sala. Fiquei no mesmo lugar to imvel com
o uma esttua, com Isabel ao meu lado e quando C
arlos voltou do porto dizendo que um dos homens
 tinha ficado
vigiando, dei um suspiro to angu
stioso que os dois filhos olharam assustados par
a mim. Nada perguntei e nada disse, mas pelo olh
ar de Carlos para uma parede, compreendi
que Al
fredo se refugiara na casa de D. Genu.
Sentei-m
e ento e procurei ler um jornal que havia sobre
 a mesa; Isabel sentou-se na minha frente e pego
u um bordado que estava fazendo; Carlos abriu um
 livro. Ficamos
imveis e silenciosos uma meia 
hora talvez; percebi de repente uma sombra desen
har-se na vidraa da sala de jantar que dava par
a o pequeno patamar da escada do jardim.
No ol
hei, mas vi. A falha do jornal comeou a tremer 
na minha mo e as letras a danarem sinistrament
e; senti o homem de pinta no rosto nos vigiando 
por trs da
vidraa; ento disse a Isabel que b
ordava com a cabea baixa:
- Sorria, Isabel, pa
ra disfarar.
Ela levantou a cabea e me olhou 
assustada, sem compreender. Repeti a ordem:
- R
ia, Isabel. Ela murmurou:
- Mas, mame...
E eu
 repeti pela terceira vez:
- Ria, Isabel.
Ela 
ento principiou um sorriso que mais parecia de 
dor, quando Carlos com a voz serena e tranqila,
 disse:
- Escute, mame, veja que pedao bonito
 do livro.
E leu um trecho do livro que tinha n
a mo; era de Zweig, traduzido para o espanhol. 
Nunca pude esquecer a voz de Carlos e as palavra
s que leu nessa hora trgica
da nossa vida; at
 hoje tenho o livro que guardo como lembrana de
le e releio sempre esse trecho: "Mi hijo ha muer
to ayer. Durante trs dias y trs noches he esta
do
luchando con Ia muerte, queriendo salvar est
a pequena y tierna vida, y durante cuarenta hora
s he permanecido sentada junto a su cama, mientr
as Ia gripe agitaba su
pobre cuerpo, ardiente d
e fiebre dia e noche. A Ia tercera noche he caid
o (.iesplomada. Mis ojos no podan ya ms y se m
e cerraban sin que
yo me diera cuenta. He dormi
do durante trs o cuatro horas en Ia dura butaca
 y mientras he estado dormida se Io ha llevado I
a muerte".
A sombra desapareceu da vidraa e a 
voz se calou; houve um profundo silncio. Pergun
tei:
- Enquanto ela dormia, a morte roubou o fi
lho? Carlos confirmou em silncio, depois disse:

- Trs dias e trs noites ela agentou; depois
 dormiu e enquanto dormia "se Io ha llevado Ia m
uerte".
Houve novo silncio. Disse:
- Carlos, 
creio que vou me deitar. Que horas so? Carlos r
espondeu sem levantar os olhos do livro:
- Quas
e dez e meia; eu tambm vou. Deixe, mame, eu fe
cho as janelas.
Fomos juntos fechar a casa, mas
 vimos antes o vulto de um homem parado na cala
da; s vezes andava, voltava e parava outra vez.
 Disse boa noite a Carlos e Isabel
e fui para m
eu quarto; vi as economias que tinha feito para 
dar um smoking para Carlos e um vestido para Isa
bel no fim do ano. Eram quase seiscentos mil-ri
s; juntei
tudo dentro de um leno e sa na port
a da cozinha, desci a escadinha e fui para o qui
ntal, andando s apalpadelas e repetindo mentalm
ente: "Enquanto dormia, "se
Io ha llevado Ia mu
erte", "se Io ha llevado Ia muerte". No posso d
ormir, no posso". Fiquei um tempo escutando enc
ostada ao muro que dava para a casa de D. Genu.


A lua estava muito branca e o cu cheinho de es
trelas. Olhei-as bem; pareciam to brilhantes, t
o tranqilas que tive inveja delas. "Se Io ha l
levado Ia muerte.
Para salvar meu filho, no po
sso dormir". Chamei baixinho:
- D. Genu!
Mas o
uvi a voz de Alfredo que me respondeu do outro l
ado, quase num murmrio:
- Mame, sou eu. D. Ge
nu me escondeu. Vou me embora amanh cedo.
- Pa
ra onde? perguntei.
- No sei bem, creio que Es
tados Unidos. Foi sorte ter pensado nisso, o nav
io parte amanh.
Fizemos uma pausa, depois eu d
isse:
- Tem aqui um dinheiro para voc levar; s
o minhas economias. A voz dele se quebrou:
- A
h! Mame, no precisava. Obrigado.
E seu rosto 
apareceu por cima do muro, iluminado pela lua; e
stava muito plido. Alfredo se debruou e eu sub
i num caixo de gasolina como fazia sempre quand
o queria
falar com D. Genu; dei o dinheiro. Fic
amos um momento quietos, escutando, e de repente
, ele comeou a chorar; um choro abafado e trist
e. Sussurrei:
- No chore, meu filho. Tudo h d
e dar certo. No chore.
- S dei desgosto, mam
e. Desgosto e aborrecimentos. ..
- No, no dig
a isso. Voc foi sempre to bom filho, to carin
hoso, isso me bastou.
Ele chorou mais:
- Mame
...
- O que ?
- A senhora me perdoa?
- Oh! A
lfredo, no tenho o que perdoar, filho.
- Mas d
iga que perdoa.
- Perdo.
Ele se debruou de n
ovo e eu estendi as duas mos para que ele segur
asse; apertou com fora minha mo direita e sent
i que toda minha energia e fora de vontade se

desmoronavam nesse instante; no quis largar a m
o dele e tive mpetos de implorar:
- No v, f
ilho. Fique e lutaremos juntos. No fuja.
Mas n
o disse e chorei; foi ele ento que me deu cora
gem:
- Mame, o que  isso? No chore. Eu no d
izia sempre que queria viajar, conhecer mundo? P
ois agora eu vou...
- Deus te abenoe. Escreva 
de vez em quando.
- Escrevo se puder; preciso t
er cuidado. Adeus, mame.
- Adeus, ento.
Ele 
ainda ficou uns instantes debruado no muro, olh
ando para mim, o rosto plido com os reflexos do
 luar:
- No se incomode comigo, mame. Eu me a
rranjo, tudo h de passar.
- H de passar sim, 
eu sei...
Uma porta bateu l dentro e o rosto d
e Alfredo desapareceu. Houve um silncio de mort
e e ouvi s as pancadas fortes do meu corao. V
oltei para casa vagarosamente,
andando no escur
o e ao passar no tanque, apalpei o fundo para ve
r se o embrulho de roupas estava l; mas no est
ava. Na fuga, no tinha esquecido. Entrei em cas
a,
fechei a porta e fui para o meu quarto olhar
 o Cristo de marfim; durante muito tempo olhei p
ara Ele e Ele tinha a cabea inclinada para um l
ado e olhava o cho de
um modo obstinado, um ar
 triste e to desolado que dava pena. Nas horas 
longas dessa noite, compreendi o que tinha sido 
para ns a amizade de D. Genu, se ela no
tives
se escondido Alfredo, ele faria uma loucura com 
seu gnio impulsivo e o que aconteceria depois?


De manh, bem cedo, abri as janelas da frente e
 vi um homem na esquina; parava, andava outra ve
z e olhava para todos os lados. Vigiava. Fingi q
ue estava espanando
as janelas quando ouvi o po
rto da casa de D. Genu abrir e fechar. Vi ento
 a filha dela, Lili, que trabalhava na cidade, s
air como sempre saa, um pouco mais cedo
esse d
ia, acompanhada por um rapaz de sobretudo preto 
e um cachecol enrolado no pescoo; era Alfredo e
 o sobretudo devia ser do genro de D. Genu. Ele 
tomou a pasta
da mo de Lili muito delicadament
e e depois de fecharem o porto, desceram a Aven
ida, conversando com despreocupao, passaram a 
esquina e foram tomar o bonde mais
alm. Disfar
adamente acompanhei meu filho com o olhar e nem
 uma vez sequer ele olhou para nossa casa. Assim
 seu vulto desapareceu dos meus olhos. Voltei pa
ra dentro
e fui  cozinha fazer caf; quando es
tava pondo a mesa, Carlos apareceu com um ar som
brio, o rosto fechado:
- Bom dia, mame.
- Bom
 dia.
Ele me olhou sem perguntar, mas eu respon
di.
- Foi embora agora... saiu com Lili... No 
sei mais nada.
Carlos tomou o caf com leite e 
no quis po esse dia; quando terminou, passou o
 guardanapo na boca e ficou olhando fixamente a 
mesa, um olhar distante e triste;
de repente fa
lou:
Ele tomou a pasta da mo de Lili muito del
icadamente e depois de fecharem o porto, descer
am a Avenida, conversando com despreocupao.
-
 Mame, h coisas piores que a morte. Confirmei 
com a cabea e ele continuou:
- Quando papai mo
rreu, pensei que nada pior pudesse haver no mund
o do que a morte; nada mais triste, mais horrve
l; era uma separao to brutal, um silncio to

grande  volta do desaparecido, tudo to negro
 e to misterioso... S essas palavras "nunca ma
is" me desesperavam. Eu pensava: "Nunca mais" ve
rei meu pai
falar, "nunca mais" ouvirei seus pa
ssos, "nunca mais" se sentar nesta mesa, tudo i
sso era como um peso na minha cabea. Mas hoje e
u sei que h coisas piores,
mame.
Fez uma pau
sa e terminou:
- Preferia que ele tivesse morri
do.
No respondi e de cabea baixa, olhei as x
caras vazias; Carlos empurrou a cadeira e se des
pedindo, saiu. Quase no mesmo instante, Isabel a
pareceu, pronta para sair.
Foi logo interrogand
o:
- Ento, mame?
E olhou para a parede da ca
sa vizinha.
- Foi embora hoje cedo.
- Para ond
e?
- No sei, creio que para os Estados Unidos.

Ela estava passando a' manteiga no po; parou 
e com a faca no ar, levantou a cabea e disse al
egremente:
- A, batuta!
Durante algum tempo, 
D. Genu e eu no nos procuramos a no ser pelo m
uro, com medo do secreta; mas uns dias depois da
 partida de Alfredo, subi no caixo de gasolina


e chamei-a para agradecer; falamos sem nos verm
os. Ouvi seus passos descerem a escadinha do qui
ntal, firmes e resolutos; aproximaram-se do muro
. Agradeci o que ela
tinha feito por Alfredo e 
ela interrompeu em voz baixa:
- No tem nada a 
agradecer, ora esta! Pois felizmente eu estava a
qui nessa hora juntando umas roupinhas que tinha
m ficado no varal. De repente ouvi algum descer

depressa a escada do seu quintal. Pensei: "U!
 Quem ser? Ser que algum est doente?" Ia per
guntar quando vi Alfredo j com uma perna em cim
a do muro, apertando
uma trouxa de roupa e dize
ndo: "D. Genu, estou sendo perseguido pela polc
ia, mas estou inocente. Posso me esconder a?" "
Venha, ora esta, pra que serve a amizade?
Pula 
pra c, rapaz." Ele pulou e correu a se esconder
 na cozinha. Eu entrei atrs dele e disse pra mi
nha gente: Ningum pergunte nada, deixem o rapaz
 sossegado.
Ficou no quartinho do fundo, no esc
uro. Levei um prato de comida e ele comeu; ento
 contou os planos dele. Quando ouvi a senhora fe
chando a casa, disse: "V agora
no quintal, per
to do muro que sua me est l". E fiquei vigian
do para ver se acontecia alguma coisa. Depois el
e e Lili combinaram sair juntos bem cedo como se
 fossem
marido e mulher que vo para o servio;
 antes de sair, ele me disse: "D. Genu, o que eu
 devo  senhora, no se paga". E ficou comovido;
 eu disse: "V, v embora".
Coitado. Disse que 
ia dar um jeito de arranjar um automvel porque 
de trem era
perigoso pegarem. Alfredo  esperto
, ningum pega, D. Lola. A esta hora est longe.
 ..
- Mas D. Genu, se descobrissem que ele esta
va escondido em sua casa, todos os seus iriam so
frer as conseqncias; a senhora, suas filhas, s
eu genro. At a senhora
era capaz de ir parar n
a polcia, meu Deus! Que vergonha!
- Vergonha? 
U, vergonha por qu? Nada disso, D. Lola. Se fo
sse na polcia, eu dizia o que tinha de dizer e 
acabou-se. E pra que serve ser amigo?
Amigo  p
ras horas alegres? Horas de festa? Hora de comer
 e beber? No. Amigo  ali no duro; nas horas de
 aperto  que se conhece o amigo. Ou ento
no 
 amigo,  uma besta.
Respondi:
- Pois, D. Gen
u, a senhora tem um corao grande, bem poucas p
essoas pensam assim. Ter coragem de esconder um 
rapaz perseguido pela polcia, no conheo ningu
m,
s a senhora. Os outros diriam logo: Ah! N
o  possvel,  muita responsabilidade.
- Respo
nsabilidade? Responsabilidade  o medo que di, 
medo de enfrentar os casos, enfrentar o perigo, 
 ser covarde. Eu no tenho medo de nada, D.
Lo
la, de nada. .. (Ouvi a pancadinha que ela deu n
o peito). Tambm tenho sofrido cada pedao... Em
 Minas ns somos assim. . . Amigos na vida e na 
morte.
-- Pois Deus h de pagar o que a senhora
 fez por meu filho e por mim. Deus lhe pague!
-
 Amm! A voz dela soou por trs do muro.
Passei
 uns tempos preocupada, sem notcias de meu filh
o S trs meses mais tarde, recebi um carto pos
tal com letra disfarada e assinado: Sua sobrinh
a Din.
Era de Alfredo; estava em Charleston, E
stados Unidos. Dizia: A vida aqui  dura, mas eu
 gosto. Tudo vai bem. .. Fiquei com o carto na 
mo, um ar parado,
apoiada na mesa da cozinha c
omo se tivesse medo de cair; depois lembrei das 
palavras dele: "Diga que me perdoa." As lgrimas
 brotaram dos meus olhos e chorei copiosamente,


olhando o carto que foi se desvanecendo no na 
voeiro do meu pranto.
Nessa semana, Clotilde ve
io de Itapetininga e passou uma temporada grande
 conosco; fez roupas, vestidos, pijamas, e me au
xiliou muito nos doces. Um dia que tinha
ido ao
 Largo do Arouche comprar rendas e linha para co
stura, voltou contando que vira Isabel e um rapa
z conversando com muita intimidade; eu, que havi
a me esquecido 
do namoro de Isabel esse tempo 
todo, tive um sobressalto. Quis falar nessa noit
e, mas Clotilde pediu:
- Deixe passar uns dias,
 seno ela desconfia que fui eu e fica furiosa. 
Acho que me viu.
Trs dias depois, chamei Isabe
l na cozinha:
- Quem  aquele rapaz que estava 
conversando com voc? Percebi uma sombra no rost
o dela e a voz alterada quando perguntou:
- Qua
ndo?
- Voc sabe melhor do que eu; h trs dias
.
Ela ficou vermelha e me olhando bem de frente
 como que desafiando, respondeu: -- Felcio... P
erdi a calma:
- E voc fala com esse cinismo? N
o tem vergonha Isabel? Depois do que falei, do 
que seu irmo falou, voc ainda tem coragem de a
ndar com esse homem? Precisa no
ter mesmo verg
onha. Meu Deus! Meu Deus!
Ela continuou de p, 
encostada na mesa da cozinha sem dizer nada, ris
cando a mesa com a ponta da unha.
- Por que voc
 no deixa esse namoro? Por qu? No v o desgo
sto que nos d? No percebe o meu sofrimento? Se
 seu pai fosse vivo, o que no diria?
- A senho
ra  s: "Se seu pai fosse vivo, se seu pai foss
e vivo. .." Deixe papai sossegado. Garanto que e
le me deixaria quieta, no me amolaria.
- E eu 
estou te amolando, sua malcriada? Quando eu fao
 tudo para seu bem? Voc  uma grande ingrata, i
sso sim.
Sem querer, eu j estava gritando; Car
los e Clotilde vieram ver o que havia; Clotilde 
perguntou conciliadora:
- O que h, Lola?
- Is
abel, que continua com aquele namoro. Clotilde n
ada disse, mas Carlos avanou para ela:
- No t
em vergonha na cara? Olhe, mame, eu vou avisar 
a polcia para que no deixe os dois andarem jun
tos; ele  casado e ela  menor. E todas as veze
s que pegar
os dois juntos, vo presos.
Isabel
 gritou, em lgrimas:
- No pode! Voc no pode
 fazer isso. Miservel; deixe minha vida e v tr
atar da sua. No se intrometa!
Clotilde virou-s
e para Isabel:
- Por que d esse desgosto  sua
 famlia Isabel? No ouve os conselhos de sua m
e?
Carlos fumava perto da janela, nervoso; volt
ou-se para Clotilde: - A senhora ainda pergunta 
por que, Tia Clotilde? Porque  uma
desavergonh
ada. Se ela tivesse um pingo de vergonha na cara
, daria um
pontap nesse sujeito. Ele s merece
 desprezo.
Isabel chorava, o rosto escondido en
tre as mos e todo seu corpo
tremia; de sbito,
 tirou as mos do rosto, dizendo:
- Eu sei o qu
e vou fazer. Vou acabar com a minha vida que  m
elhor. Nesta casa todos me detestam; j percebi 
isso h muito tempo; desde que papai morreu.
Ma
s eu acabo j com isto...
Deu uns passos para a
 porta da copa, mas Carlos segurou-a por um bra
o e sacudiu-a:
- No diga besteiras. Sempre dig
o que voc  estpida; no v que  para seu bem
? Queremos livrar voc desse homem, no compreen
de?
Ela procurava soltar-se dos braos do irmo
 e gritava:
-- Largue meu brao, largue meu bra
o, bandido.- Miservel.
Carlos levantou a mo 
para bater nela, mas Clotilde e eu interviemos:


- No, Carlos. Deixe Isabel, no faa nada. Dei
xe.
Carlos largou-a com fora e ela saiu corren
do em direo ao banheiro, onde se fechou batend
o a porta com estrondo.
Ficamos ns trs sem sa
ber o que fazer. Clotilde perguntou, receosa:
-
 No h perigo de Isabel abrir o gs no banheiro
? Carlos estava to zangado que respondeu:
- Po
is que abra, que faa o que entender.
- No fal
e assim, Carlos,  sua irm.
- Mas  uma estpi
da.
Fomos todos para a sala e ficamos sentados 
 volta da mesa, desconsolados, conjeturando sob
re o caso de Isabel; de vez em quando, um de ns
 ia cheirar a porta do
banheiro na ponta dos p
s para ver se no sentia exalaes de gs. Meia 
hora depois. Isabel trancou-se no quarto e ficou
 o resto do dia sem sair.
Nossa casa foi ficand
o cada vez mais quieta, Julinho e Alfredo ausent
es, Isabel sempre contrariada, tudo foi se trans
formando tristemente. Na mesa, onde ela era
a m
ais tagarela, no falava mais, Carlos sempre fal
ara pouco, s Clotilde e eu conversvamos alguma
s vezes sobre Itapetininga. Eu me queixava dos t
rabalhos e canseiras;
era um cansao velho vind
o de anos atrs, vivia cansada. Sonhava com long
os silncios: dias parados, noites tranqilas, v
adiao, lugares ermos, cus azuis, ondas
mansa
s do mar, palmeiras, paz. Uma paz to perfeita c
omo de tmulo, e eu sem ouvir, sem sentir, s ol
hando. Em vez disso, levantava muitas vezes de m
adrugada, ia
 feira comprar os preparos para a
s encomendas, voltava da feira, arregaava as ma
ngas, punha um avental, toca a trabalhar. .. tra
balhar... Sem hora para dormir
nem para comer, 
precisava entregar as encomendas nas horas deter
minadas, suar diante do forno aberto, os olhos s
emicerrados pelo bafo quente, queimando as ponta
s
dos dedos e muitas vezes os braos. E quando 
eu queria dormir mais um pouquinho, ouvia vozes 
me dizerem com as pancadas do relgio grande: "L
evante e trabalhe. Corra,
no deixe queimar a c
alda. Olhe o bolo que est no forno.  hora de m
atar os frangos. Corra! Corra! Corra!
E eu corr
ia de manh  noite. Corria.  noite, quando Car
los tocava violo e cantava, eu chorava de sauda
des de Alfredo e Julinho. A alegria foi desapare
cendo como
as noites escuras quando vo caindo 
e deixando sombras nos lugares claros. Tudo  vo
lta foi ficando sombrio e o silncio foi crescen
do com a sombra.
Felizmente Julinho teve umas f
rias e veio nos fazer uma visita; veio mais bon
ito e mais bem vestido, parecia at mais alto. T
rouxe presentes para todos ns; quando
Isabel o
 viu, gritou logo:
- U! De bigode?
Rimos todo
s. A estadia de Julinho trouxe alegria e risos p
ara o fim do ano; passamos um Natal mais alegre.
 Durante horas inteiras descrevia as belezas do 
Rio de
Janeiro e ns escutvamos , embevecidos.

Clotilde arriscava uma pergunta:
- E voc and
ou no carrinho do Po de Acar?  assim mesmo c
omo se v nas figuras?
- Igualzinho; j fui uma
s trs vezes. A gente vai dentro de uma espcie 
de caixinha, dependurada no espao. Uma gostosur
a.
Eu perguntava:
- E o Cristo?  grande mesmo
 como dizem?
- Ih! Mame, s vendo. Um dia a se
nhora h de ver.  gran dioso; um dia levarei a 
senhora ao Rio para passear. A a senhora v que
 maravilha, que esplendor.
 mesmo a cidade mar
avilhosa... E depoiv todos l so muito dados, n
o so retrados como os daqui. O carioca v. am
vel, alegre, comunicativo. Tudo l 
formidvel
, a senhora h de ver
E Julinho falava, falava;
 sobre os automveis, as casas bonitas, o movime
nto intenso das ruas, sobre os navios que entrav
am e saam. Dizia que ia bem no emprego
e era m
uito considerado pelos patres; pretendia subir 
sempre mais, tinha grandes planos e grandes espe
ranas.
Os dias passaram quase como um sonho e 
Julinho partiu de novo; na vspera de embarcar, 
me contou muito particularmente que estava compr
ometido com a filha nica
do patro. Pretendia 
ficar noivo nesse ano que estava comeando e tod
os na famlia da moa j sabiam e estavam conten
tes. Fiquei comovida com a notcia. Acompanhamos

Julinho  estao e na hora do embarque, Isabe
l avisou-o rindo:
- Toda a vez que vier, traga 
o bigode. Voc fica formidvel de bigodinho.
Ju
linho escrevia sempre, mas no tive mais notcia
s de Alfredo; passaram-se meses sem saber dele; 
quando eu me queixava, Carlos dizia:
- No pens
e mais nele, mame.  ingrato e no merece seus 
cuidados. A senhora vive pensando nele e ele nem
 liga, pois podia escrever de vez em quando como
 j
escreveu uma vez. Largue mo dele.
Mas eu 
no podia; talvez no fosse correto e trabalhado
r como os outros, talvez no tivesse mesmo muito
 juzo e fosse ingrato, mas era meu filho como o
s outros e
meu amor se dividia igualmente pelos
 quatro, assim como meus pensamentos, minha vont
ade e tudo que era meu. Mesmo minha vida, se fos
se uma coisa que se pudesse dividir,
estaria di
vidida em quatro pedaos, assim como meu corao
. Como podia deixar de pensar em Alfredo, se era
 um dos meus quatro pedaos?
Nesse ano, Carlos 
tomou parte numa revoluo; pedi a ele que no p
artisse, era o nico filho que me restava e eu t
inha tanto medo. Mas foi inflexvel, no me aten
deu.
Quem pode impedir os mpetos da juventude?

Logo nos primeiros dias, apareceu fardado em c
asa; era uma farda caqui um pouco grande para el
e e as mangas iam at s mos. Seu corpo magro q
uase desaparecia dentro
da farda; quando me viu
 sentada na sala, fez uma continncia, batendo c
om fora os calcanhares; estava to risonho e a 
farda era to desproporcionada que comecei
a ri
r
- Ento vai mesmo, filho?
- Lgico. Hoje  n
oite vamos nos aquartelar num Grupo Escolar e se
guiremos nestes dois dias.
- Para onde?
- Deus
 sabe. Para onde mandarem.
Senti o corao pequ
eno. Voltaria? Rezei mentalmente: "Oh! Cristo, d
ai-me o filho de volta novamente".
E sorri para
 Carlos, fingindo que estava calma e confiante. 
Jantamos quase em silncio; Carlos comia apressa
damente, s pensando na hora de ir embora, e eu 
pensava
nas noites de aflio que se aproximava
m; as longas e interminveis horas passadas no e
scuro, ouvindo o prprio corao bater, o pensam
ento longe, procurando seguir
o filho na trinch
eira, no quartel, na alegria e na tristeza. Ele 
tomou caf de p, na pressa de sair, e disse ape
nas:
- J vou, mame.
Senti as pernas trmulas
, mas sorri, procurando ser forte, tambm de p,
 na frente dele
- Seja feliz. E tudo que precis
ar, escreva que eu mando. No seja exaltado, nem
 corajoso demais. Seja calmo e ponderado...
Ele
 riu mansamente:
- Ora, mame, ser calmo na gue
rra?
- No. No digo calmo nesse sentido; digo 
para no se exaltar muito, pense antes de agir p
recipitadamente. s vezes a coragem no  valent
ia,  exaltao, 
loucura.
Riu-se mais quando
 me abraou, dizendo:
- Est bem. Seguirei  ri
sca seus conselhos. Quando o Capito disser: Ava
nar! Eu me sento no cho e digo: Minha me diss
e para eu pensar antes de agir,
deixa pensar um
 pouco. E enquanto os outros vo, fico pensando.
 Est contente?
Abracei-o fortemente e ri:
- V
oc sabe o que quero dizer. Seja feliz.
No pud
e falar mais e ele me apertou mais uma vez em se
us braos; depois ps o qupi com cuidado e saiu
; antes de fechar a porta fez continncia batend
o os calcanhares.
Desceu correndo os degraus e 
saiu pela Avenida, a mochila nas costas. Fiquei 
na janela at v-lo desaparecer. Voltei para a s
ala outra vez e sentando-me ao lado
de Clotilde
, ficamos olhando a escurido, o pensamento segu
indo Carlos. Como me senti infeliz! Com o correr
 dos anos, comecei a sentir que o trabalho, o sa
crifcio,
a luta, a dedicao estavam sendo jog
ados fora como folhas amarelas, de nada estavam 
valendo. Meus filhos partiam, cada um para seu d
estino e eu ia ficando s. E
se Carlos no volt
asse? Os outros poderiam voltar de um momento pa
ra outro, e Carlos? Fui com Clotilde para o port
o para ver algum, conversar, saber alguma cois
a.
Havia grupos de pessoas em todas as esquinas
; falavam, discutiam, gesticulavam. Ds repente D
. Gemi chegou quase correndo, cansada, arquejand
o, contando que vira
dois batalhes partirem; o
s filhos da irm tinham seguido num dos batalhe
s para o Norte. Quando contei que Carlos j esta
va aquartelado e partiria qualquer dia,
encoste
i a cabea no porto e chorei; D. Genu e Clotild
e puseram as mos nos meus ombros e comearam a 
me consolar, chorando tambm. Depois outras vizi
nhas foram
se aproximando e Isabel tambm; uma 
dizia que estavam sendo travados combates no Nor
te, outra dizia que o filho nico discutira o di
a inteiro com o pai porque queria
ir e tinham c
edido finalmente porque ele disse que fugiria se
 no deixassem. D. Genu ficava excitada, gesticu
lava, falava grosso:
- Droga de revoluo. No 
tenho filho para ir, mas tenho netos. A Joca j 
tem dois na idade e vo mesmo, nem precisa pergu
ntar. At o genro  capaz de ir tambm,
 meio 
louco. A gente cria todos, tem um trabalho, sua
 pitanga para ver tudo crescido e para estudarem
 direitinho, de repente aparece uma revoluo n
o sei onde,
nem sei por que, tudo assanha: "Ah!
 Porque preciso ir. Porque quero ir", pois que v
o, seus diabos. Que vo de uma vez.
Uma das vi
zinhas argumentou, calma:
- Mas a questo  que
 s vezes no h remdio, D. Genu, e tem que ir 
mesmo. O que se h de fazer. Acho que a obriga
o acima de tudo, se tem dever de ir, cumpram
se
u dever.
- Dever... Dever... No sei bem do que
 se trata, mas estou achando uma besteira muito 
grande. Enfim vamos ver no que d.
- Tudo h de
 dar certo, observou Clotilde cheia de mansido


- Se no voltarem alguns estropeados. outros do
entes e outros mortos, terminou D. Genu se retir
ando, zangada.
Recolhemo-nos todas e eu passei 
a noite pensando em Carlos; no dia seguinte, bem
 cedo, fui com Isabel ao Grupo Escolar onde ele 
estava pronto a seguir com o batalho.
L disse
ram que o batalho j tinha seguido para a esta
o da Sorocabana, onde embarcaria. Perguntei log
o:
- E pra onde vo?
- Ah! Isso no sabemos.

Fiquei aflita e tomamos o bonde para a estao; 
percebia-se qualquer coisa anormal na cidade; to
do o mundo falava, formavam-se grupos nas esquin
as. O bonde andava
devagar e o motorneiro conve
rsava com um passageiro sobre a revoluo. Na pr
essa de descer, quase ca e havia tal quantidade
 de povo comprimido diante da estao
que foi c
om muita dificuldade que conseguimos entrar. Uns
 estavam abatidos, outros animados; homens farda
dos falando depressa e andando de um lado a outr
o: comecei
a procurar Carlos ansiosamente enqua
nto atravessvamos a multido. Vimos ento um tr
em cheio de soldados parado na plataforma; a cus
to nos aproximamos e quando estvamos
quase alc
anando, ouvimos apitos fortes e vivas entusist
icos ao batalho que partia. Era o batalho Borb
a Gato, o batalho de Carlos. Ento eu no veria
 mais meu
filho? Comecei a correr acompanhada d
e Isabel e a olhar os rostos dos soldados que se
 debruavam em todas as janelinhas. Gritei: Carl
os! Carlos! E olhei com sofreguido
todas as fa
ces. Empurrei vrias pessoas e tropecei enquanto
 procurava meu filho e todo o mundo gritava:
- 
Viva o batalho Borba Gato! Um eco ensurdecedor 
respondia:
- Viv!...
Isabel procurava me re
ter segurando meu brao:
- Mame, no corra que
 a senhora cai,
Eu corria cada vez mais, seguin
do o trem que estava em movimento, mas o trem de
slizou nos trilhos com tal celeridade que de rep
ente no vi mais nada a no ser mos
que se agi
tavam no ar freneticamente num ltimo adeus aos 
que ficavam; eram tantas mos que no vi mais as
 cabeas, haviam desaparecido. Depois fumaa; na
 plataforma
do ltimo vago, vi um grupo de sol
dados de p, acenando e rindo; fixei-os para ver
 se meu Carlos estava ali, mas no o achei. O tr
em foi sumindo rapidamente e s
vi ento os tri
lhos brilhantes na minha frente e ao longe as m
os misturadas na fumaa.
Assim meu filho Carlos
 partiu, e eu no pude dar-lhe um ltimo adeus.


Ento a angstia voltou a se apoderar de mim; p
assei noites e dias sem perceber como estava viv
endo e o que estava se passando; um peso me opri
mindo o peito e um
suor frio brotando de vez em
 quando na minha testa e nas minhas mos. A ang
stia de alguma coisa que vai faltar na nossa vid
a ou alguma coisa que se considera perdida;
uma
 espcie de sufocao ou falta de ar. Se dormia,
 acordava de madrugada com a voz de Carlos me ch
amando do fundo de uma trincheira: Mame!
#Na t
erceira ou quarta noite depois da partida, s on
ze horas da noite, ouvi um jornaleiro gritando. 
O combate do Tnel! O primeiro encontro hoje no 
Tnel!
Levantei-me e fui comprar o jornal; li a
vidamente as ltimas notcias: os combates tinha
m comeado. Passei a noite toda acordada apertan
do o jornal na mo e pensando
que um outro jorn
al como aquele poderia trazer qualquer noite uma
 frase pequenina no fim de uma pgina e bastaria
 essa frase para esmagar, aniquilar, destruir to
da
minha vida. S no fim de uma semana, recebi 
carta de Carlos. Estava em Itapetininga e no ti
nha entrado ainda em combate. Itapetininga! Como
 o destino fora bom!
Tinha mandado Carlos para 
minha terra, ao lado dos meus parentes! Respirei
 aliviada e recomecei os afazeres com mais confi
ana no futuro. Muitos dias passaram e
todo o m
s de julho se escoou com a cidade transformada.
 D. Genu viu partir o genro e acompanhou os neto
s  estao, um por um; de cada vez voltava mais
 acabrunhada,
o corpo mais curvado para a frent
e, mais triste e mais cansada. Conversvamos lon
go tempo no porto, trocando as ltimas notcias
 recebidas; os combates se sucediam.
No Sul, on
de estava Carlos, tambm combatiam com furor. Vi
zinhas que nunca tinham conversado umas com as o
utras, vinham se chegando tambm e cada uma tinh
a uma notcia
a dar, cada uma tinha na frente, 
um filho, um irmo, ou o marido. Eu escrevia inc
essantemente para Olga pedindo notcias de Carlo
s, mas no respondiam de l, parece
que tudo es
tava desorganizado. Um dia li no jornal: "Correi
o Militar para o Setor Sul!" Corri e levei uma c
arta para ser entregue a Carlos. Mais uma semana
 se foi
quando recebi a segunda cartinha. Estre
meci; estava combatendo em Buri. Dizia que passa
va regularmente; dormia algumas horas e comia be
m. No havia tomado banho
desde que partira e n
em as botas tinha tirado! Dormia fardado no fund
o da trincheira. Fiquei horrorizada e passei o d
ia todo com a carta na mo, lendo e relendo.
To
das as vizinhas vieram  noite no porto da noss
a casa e li alto a carta para elas ouvirem; umas
 choraram, outras suspiraram tristemente: D. Gen
u no tinha notcia
dos netos que combatiam em 
Cruzeiro; chorava e fungava assoando ruidosament
e; suspirava e passava o leno na testa e nos ol
hos; esperava uma coisa desconhecida que
viria 
de repente, mas no se sabia como, nem de onde. 
Era a angstia da espera; aquelas longas horas d
a noite pensando no escuro: O que estar acontec
endo agora?
Agora mesmo? Quem sabe ele j morre
u? No. Meu crebro negava a idia de morte, var
ria para longe, mas de repente, sem querer, essa
 idia voltava outra vez, imperiosa
e dominante
, e ficava verrumando num canto, dominando minha
 vontade: E se ele morrer? Essa idia ficava ali
, noite e dia, atormentando, matando aos pouquin
hos.
Assim o tempo foi se escoando atravs das 
noites, dos dias, das semanas de espera. As not
cias eram raras.
O escritrio onde Isabel traba
lhava estava fechado e como no tive mais encome
nda de doces, comeamos a trabalhar ativamente p
ara os soldados. Um dia chegou um trem
cheio de
 feridos. Vinha do Norte, perto de Cruzeiro; Isa
bel foi assistir a chegada e veio contando: algu
mas mes gritavam desesperadamente quando viram 
os filhos
descerem do trem, carregados em macas
, as fisionomias quase irreconhecveis, barbudos
 e plidos. Alguns tinham os olhos fechados, par
eciam mortos; outros
vinham com as cabeas amar
radas e to brancos que pareciam fantasmas.
Nes
se dia lembrei que podia ir a Itapetininga fazer
 uma visita a Carlos; queria v-lo, precisava fa
lar com ele, nem que fosse um instante s. Era c
apaz de ir at
a p, tal o meu desespero. Diant
e de tanto horror, queria certificar-me se ele v
ivia ainda.
No dia seguinte, fui com Isabel ao 
Largo do Palcio para tirar o salvo-conduto; de 
l fomos para um prdio atrs do teatro Municipa
l e depois de muita espera e dificuldade,
conse
guimos o que queramos. No dia seguinte, s sete
 e meia, estvamos na estao para tomar o trem 
das oito horas; Clotilde foi conosco. Fazia frio
 nessa manh,
mas o dia estava bonito e o cu m
uito azul. Um batalho ia tambm embarcar e a es
tao estava completamente cheia de soldados que
 falavam e riam alto. Ocupamos nossos
lugares e
 ficamos esperando o momento de partir; meu cora
o batia apressado sem saber o que ia encontrar
.
O movimento de pessoas que passavam, falavam,
 davam ordens, era incessante enquanto um batalh
o se instalava num outro trem ao lado do nosso;
 senhoras e meninas
traziam pacotes e mais paco
tes que distribuam aos soldados; eram da M. M. 
D. C.; quando uma das senhoras nos viu, veio fal
ar conosco; era uma vizinha que encomendava
sem
pre doces para eu fazer nas festas que dava. Con
tei que ia visitar meu filho em Itapetininga e q
ue ele combatia no Sul, em Buri; ela sorriu e di
sse que tambm
tinha um filho no 9 de Julho; ou
tras duas senhoras se aproximaram tambm e disse
ram que eram "trs animadoras" e assim trabalhav
am pela Causa. Um pouco antes das
tropas partir
em, vinham as trs distribuir cigarros, chocolat
es e roupas de l aos soldados. Ento nos contar
am que a mais velha, de cabelos grisalhos, grita
va no
momento do trem partir: Viva o Batalho t
al! Essa primeira era viva e no tinha quem pro
ibisse de dar vivas; a segunda batia palmas porq
ue o marido no queria que
desse vivas; a terce
ira apenas sorria porque o marido no queria que
 desse vivas, nem batesse palmas. Assim as "anim
adoras" iam de vago em vago, distribuindo pres
entes,
coragem e sorrisos aos soldados; e assim
 trabalhavam ativamente pela Causa.
Perto de n
s um rapaz despedia-se de um soldado que ia part
ir: o que ficava, dizia:
- Irei logo que puder,
  s os velhos cederem. J esto cedendo; irei 
combater ao seu lado.
Perguntou depois de uma p
ausa:
- No precisa de nada? Dinheiro? Cigarros
?
- No. Tenho tudo. E para que quero mais?
O 
que ficava, tirou uma nota de cinqenta mil-ris
 e deu ao soldado:
- Leve mais esse dinheiro, q
uem sabe vai precisar. O soldado riu, dizendo:

- Se eu morrer l, no poderei pagar voc.
- N
o morre; e me espere que dou um jeito nos velhos
 e vou tambm.
O trem comeou a rodar levando t
ropas para o Setor Sul. Nosso trem seguiu logo d
epois; na estao de Santo Antnio parou durante
 muito tempo. Chegamos muito tarde
em Itapetini
nga e Olga ficou surpreendida quando nos viu; a 
casa estava cheia e tivemos que dormir na sala d
e jantar; Isabel dormia no sof e tinha que enco
lher
as pernas; todas as manhs sentia as perna
s duras e se queixava. Tia Candoca estava l com
 a filha casada: Mocinha; o marido de Mocinha es
tava combatendo no rio
das
Almas e Mocinha cho
rava todos os dias. No mesmo dia da chegada, fui
 ao Hotel So Paulo procurar algum que nos indi
casse a maneira de ver Carlos ou saber notcias


dele. O hotel estava cheio de soldados e aviado
res; me mandaram para um outro hotel e era tarde
 quando consegui falar com um tenente que promet
eu providenciar para
Carlos vir me ver. Nessa n
oite chegaram trens com feridos e mortos; o club
e da cidade j estava transformado em hospital. 
Um grande silncio caa como uma sombra
sobre a
 cidade todas as vezes que vinha da frente um tr
em de feridos; todos se lamentavam e sofriam qua
ndo viam os soldados plidos e doentes descerem 
do trem apoiados
uns aos outros ou deitados em 
macas, to plidos como o prprio lenol que os 
cobria. E um silncio pesado se fazia quando sur
gia um morto, carregado com cuidado
e carinho. 
O povo se afastava respeitosamente para o morto 
passar e l ia ele levado pelos amigos, cheio de
 glria e de feridas para um canto qualquer da t
erra.
Pensava em Carlos; dia e noite, noite e d
ia, o pensamento me martirizava verrumando o cr
ebro sem piedade e sem trguas.
S no terceiro 
dia de espera, tive notcias de Carlos; havia um
 oficial ferido do mesmo batalho na Santa Casa 
de Misericrdia e fui imediafamente procur-lo. 
Durante
mais de uma hora fiquei sentada num can
to, esperando ser recebida; depois me disseram q
ue o oficial estava to mal que no podia me rec
eber. Tornei a falar o nome
dele e explicar que
 o ferimento era nos olhos e tinham me dito que 
no era to grave assim; voltaram depois dizendo
 que era engano, decerto estava num outro hospit
al.
Fui  Escola Normal, no era tambm l; res
olvi ir ento ao Clube Venncio Aires, talvez es
tivesse l. Cheguei  Praa Marechal Deodoro to
 cansada como se no houvesse
mais esperana de
 nada, tudo estivesse perdido.  minha volta, s
 dor, tristezas e luto; tive a impresso que aos
 poucos tudo ia se desmoronando como terra solta

num barranco, nada mais ficava de p. Depois d
e ter descansado um pouco na Praa, entrei no Cl
ube transformado em Hospital; mdicos e enfermei
ros passavam apressados
de um lado para outro. 
Quando disse o que queria, me mandaram esperar n
uma saleta e ali fiquei, com medo de saber a ver
dade e ao mesmo tempo ansiando saber, fosse
o q
ue fosse. Depois me mandaram entrar numa sala on
de havia vrios feridos; o enfermeiro me indicou
 um dos leitos e me disse que era aquele quem eu
 estava procurando.
Aproximei-me e vi que tinha
 os olhos vendados; virou o rosto para meu lado 
e ficou esperando. Disse ento quem eu era e o q
ue pretendia; fez um breve gesto com a
mo como
 que saudando e sorriu brandamente. Havia um che
iro forte de remdios no ar e nas outras camas a
lguns doentes gemiam ou dormiam, enquanto l for
a o dia estava
lindo e azul. Sentei-me numa cad
eirinha ao seu lado e perguntei-lhe o que tinha 
acontecido; ele entocontou: juntamente com um c
ompanheiro tomava conta de uma metralhadora
qua
ndo uma bomba de canho explodiu mesmo em frente
; tudo saltou pelos ares e ele recebeu grande qu
antidade de terra nos olhos, alm de um estilha
o no brao. O
camarada ficara gravemente ferido
; os outros soldados conseguiram se arrastar da 
trincheira e pux-los pelos ps; assim tinham de
ixado o batalho e vindo  cidade
para se trata
rem. Disse-lhe palavras de comiserao e ele con
tou que conhecia muito Carlos; ia bem
e era um 
dos valentes. Disse tambm que "a coisa l era d
ura e se levantavam um pouco a cabea fora da tr
incheira, vinha bala porque o inimigo no dormia
". Perguntei
como se alimentavam: hesitou um po
uco dizendo que ia at fazer uma reclamao ness
e sentido porque a "bia" no era das melhores.


- Feijo com arroz? perguntei. Hesitou mais ant
es de responder:
- s vezes feijo com arroz; p
o de guerra no falta nunca.
- E caf? Lembrei
 que Carlos gostava muito de caf.
- Temos semp
re caf.
Virou o rosto para a parede, um ar can
sado; depois me aconselhou a procurar o Coronel 
Taborda e pedir uma licena para meu filho; eu d
isse que seria difcil falar
com o Coronel Tabo
rda; virou-se outra vez para meu lado com os olh
os vendados, os lbios sem cor e a voz cansada:


- Procure falar com algum do Estado-Maior; tal
vez a senhora arranje alguma ordem, mas  difci
l. Os que conseguem sair de l, so s os mortos
 e feridos.
E fez um gesto mostrando a cabea. 
Agradeci e sa completamente desanimada. A quem 
recorrer?
Fui andando pela Rua Dr. Jlio Preste
s arrastando os ps que pesavam como chumbo, e m
e dirigi novamente para o Hotel So Paulo. Por f
elicidade um oficial me atendeu,
solcito, e me
 disse muito delicadamente que nesse momento ser
ia quase impossvel uma licena, mas que eu tive
sse pacincia e voltasse a So Paulo porque uma 
semana
mais tarde a Companhia na qual meu filho
 combatia teria uma licena e ele poderia ir a S
o Paulo. Disse que se orgulhava desse Batalho 
porque todos lutavam como
bravos; e que mesmo n
a' vspera tinham-se portado heroicamente durant
e um violento ataque inimigo. Meu corao deu um
 salto e perguntei com voz trmula:
- Mas j te
ve notcias depois desse ataque?
Ele sorriu com
passivamente e soltando a fumaa do cigarro para
 cima disse com a mo no meu ombro como se eu fo
sse uma criana:
- Tenho sempre notcias; pode 
voltar tranqila, nada aconteceu. Agradeci muito
 e voltei para a casa de Olga, resolvida a embar
car
para So Paulo no dia seguinte. Nessa noite
, levamos um susto muito grande; estvamos deita
dos e era quase meia-noite quando ouvimos batere
m com fora na porta da
rua. Todos nos levantam
os imediatamente e eu levei a mo ao corao num
a nsia desesperada; Zeca foi abrir a porta, Olg
a com um roupo por cima da camisola foi atrs

dele, tia Candoca e Mocinha saram assustadas do
 quarto. As crianas acordaram e o menor comeou
 a chorar; Clotilde correu para acalmar o pequen
o, enquanto as batidas
se sucediam e ouvimos um
a voz grossa um pouco rouca, dizer:
- Abram, so
u eu, o Nelson.
Era o marido de Mocinha; ela co
rreu como louca enquanto Zeca abria a porta; vim
os ento o Nelson com a farda rasgada, todo sujo
, a barba enorme, os olhos pretos
luzindo inten
samente no meio da barba preta, um ar de profund
o cansao. Todos perguntaram aflitamente ao mesm
o tempo:
- O que foi? Est ferido? O que aconte
ceu?
Mocinha encostou a cabea no ombro do mari
do e desatou a chorar sem poder falar; ento Nel
son entrou lentamente, arrastando os ps e
#bat
endo com as esporas no cho, Mocinha dependurada
 no brao dele. Olga puxou logo uma cadeira e el
e se sentou dando um gemido. As crianas comear
am a aparecer
assustadas, os cabelos desgrenhad
os, um mascando a chupeta, e pararam na porta da
 sala, olhando Nelson com olhos dilatados de esp
anto. Tia Candoca foi buscar um
copo d'gua na 
cozinha e Zeca gritou:
- Traga um caf quente q
ue  melhor.
Nelson estava com os lbios descor
ados e recostando a cabea para trs, disse com 
voz pausada:
- No se assustem, no estou ferid
o. O que estou  cansadssimo; fomos cercados pe
lo inimigo e quase fiquei por l...
Houve uma 
nica exclamao:
- Cercados?
Mocinha comeou a
 chorar mais alto e Olga ralhou com ela:
- Voc
 no deve chorar assim, pois seu marido est a 
sem ferimento algum. D graas a Deus, conte com
o foi, Nelson.
Veio um clice de vinho do Porto
 que Nelson bebeu de uma s vez; depois pediu g
ua. gua! gua! Pois estava com uma sede dos dia
bos! Bebeu dois enormes copos d'gua
e ento co
ntou que toda a cavalaria tinha sido cercada nas
 proximidades de Buri; quando perceberam o perig
o, havia apenas uma brecha por onde podiam passa
r. Puseram
os cavalos num galope desenfreado e 
passaram um por um pela brecha, deitados sobre o
s cavalos e ouvindo as balas zunirem por cima da
s cabeas. Ele viu o companheiro
que vinha atr
s vacilar e cair enquanto o cavalo continuava a 
correr; quis voltar para acudir, mas atrs vinha
m os outros que gritaram:
- Toca pra frente que
 o inimigo vem a.
Ele tocou  toda e mais adia
nte, reuniram-se para contar se estavam todos; f
altavam trs.
Houve um silncio e tia Candoca d
eu um gemido lamentoso:
- Que calamidade! Imagi
ne as mes desses trs! Que dor, meu Deus! Estre
meci pensando em meu filho enquanto um friozinho
 me subia
pela espinha; perguntei se no havia 
notcias do batalho Borba Gato. Ele me olhou es
tranhamente e disse que no sabia; cada um comba
tia de um lado e nada se sabia.
Ficamos convers
ando ainda uma meia hora depois fomos todos deit
ar; tia Candoca precisou dormir tambm na sala p
ara dar a cama para o Nelson; eu me deitei no so
f
e no dormi. Levantamos cansados no dia segu
inte e embarcamos para So Paulo, Isabel e eu; C
lotilde resolveu ficar para auxiliar Olga. Chega
mos e fiquei esperando
a licena de Carlos, ans
iosamente.
No mesmo dia da chegada, D. Genu vei
o me perguntar se eu no queria dar ouro para a 
revoluo. Perguntei admirada:
- O que  isso d
e ouro para a revoluo?
Ento ela me mostrou o
s jornais que traziam ttulos enormes; fui ver o
 que eu podia dar e resolvi entregar minhas alia
nas e uma corrente velha de relgio; Isabel
qu
is dar umas medalhas de ouro que as tias tinham 
dado quando ela era pequena. Disse que no devia
 dar todas, mas ela teimou e foi entregar trs m
edalhas e uma correntinha.
ficou s com uma med
alhinha de Nossa Senhora. Fui ao Banco com D. Ge
nu e l havia uma fila enorme de pessoas com pac
otinhos de jias e alianas para entregar;
algu
mas eram estrangeiras. Eram modestas e simples; 
D. Genu falou:
- Essas do muito mais que os ri
cos porque do tudo o que tm; assim como ns ta
mbm. Imagine se os ricos vo dar tudo; do um a
nel, o mais feio de todos ou o de
menos valor e
 ainda ficam com vinte!  sempre assim. So uns 
diabos.
Depositamos nossa modesta ddiva e volt
amos conversando para casa; na Praa Marechal De
odoro vi Isabel passeando com um rapaz fardado; 
mostrei para D. Genu:
- Olhe, D. Genu, o que s
o os filhos. Por mais que eu fale e aconselhe, n
o adianta. Pedi tanto a ela para deixar esse na
moro porque o rapaz no presta e  intil.
Tenh
o vontade de fazer um escndalo.
D. Genu me seg
urou pelo brao:
- No faa nada disso; a senho
ra  capaz de perder a cabea e eles ficam com r
aiva. Isso no conserta o que est torto. Fale c
om ela em casa que  melhor.
- J aconselhei, j
 ameacei, j pedi Qual!  um desespero esta vid
a; quem  que pode com isso?
D. Genu procurou m
e consolar:
- Pode ser que endireite; se no en
direitar, pacincia. Ao menos a senhora fez tudo
 que pde, se ela no escutou  porque no quis.
 Lembre-se da Joca. No houve
cristo que fizes
se ela largar o homem; e vivem aos trambolhes p
or a.
Fomos para nossas casas e vesti logo um 
avental para fazer uns doces para uma senhora qu
e esperava essa tarde um sobrinho da frente Nort
e. De repente Isabel entrou
cantarolando; enfio
u a cabea na porta da cozinha, muito alegre:
-
 Foi levar suas ricas jias? Que doce  esse? Se
m levantar a cabea do meu servio, falei:
- Se
r possvel Isabel, ser possvel que nada adian
ta? Nem conselhos, nem ralhos, nem nada? Voc n
o parece minha filha. A filha que criei com todo
 o carinho
e cuidado me desobedecendo desta for
ma vergonhosa. Ento minhas palavras no valem n
ada? Estou falando para o vento?
Ela tinha se a
proximado da mesa e pegando um pedao de massa d
e doce, comeou a fazer bolinhas, a cabea baixa
, sem nada dizer.
- Fale, Isabel, no tem mesmo
 vergonha? Continua a andar com aquele ordinrio
?
Ela se revoltou: - Ele no  ordinrio.
- Co
mo, no  ordinrio? Um homem casado namorando u
ma menina solteira? Como vai casar com voc? Lar
gue a massa do doce!
- Ele no  casado; j dis
se que est separado e tratando do desquite.
- 
 casado. Que desquite nada!  casado, continua 
casado. Abandonou a mulher, mas  casado.
- A s
enhora pergunte para quem quiser se no foi ela 
que abandonou o lar. Pode indagar: ele foi sempr
e bom, ela que no
prestava...
Mexi com fora 
a panela:
- J disse que largue essa massa. Que
m contou isso? Ele, no foi? Eu queria ouvir a m
ulher dele, isso sim. Ele no pode ser boa bisca
.
Ela levantou a cabea e falou bem alto:
- Ac
ho graa a senhora e Carlos falarem essas coisas
 se no o conhecem. Deviam procurar conhec-lo p
rimeiro.
- Deus me livre; no quero conhec-lo-
e nunca darei meu consentimento nem para ele ent
rar aqui. Ele no quer casar, quer juntar.  cas
ado.
Isabel ficou furiosa e vermelha de raiva:


- Um dia a senhora ainda h de se arrepender de
ssas palavras. H de se arrepender, mas ser tar
de. Eu j disse e torno a dizer que fao uma lou
cura. E fao mesmo!
Estou cansada de tudo isto!

Levantei a colher de pau que mexia a panela e 
sacudi diante dela:
- Olhe, Isabel, tenho visto
 muita moa casada por a com homens to ordinr
ios que suas mes preferiam ver as filhas mortas
 do que vivendo essas vidas. Essa  que
 a ver
dade. Ouviu? E deixe de me ameaar.
A calda do 
doce escorreu pela colher de pau e me queimou os
 dedos; lambi-os enquanto Isabel comeava a chor
ar:
- Sou mesmo uma infeliz. Ningum me quer ne
sta casa, ningum deseja minha felicidade.  hor
rvel viver assim...
Deixou a cozinha e foi se 
fechar no quarto; o resto da tarde passou-se em 
silncio. Fui levar as encomendas e na volta cha
mei Isabel para jantar: ela apareceu com
os olh
os inchados, a fisionomia muito abatida. Aconsel
hei-a durante quarenta minutos enquanto ela comi
a sem vontade o jantar; no fim pareceu concordar
 comigo porque
sacudia a cabea sen dizer nada,
 o rosto muito triste. Mais tarde quando deitei 
a cabea cansad no travesseiro, lembrei-me de Ca
rlos, que eu tinha esquecido durante
aquelas ho
ras. Tive um sobressalto e pensei: "Estar vivo?
 Morreu? Oh! Meu Deus!"
E levantando-me de novo
, comecei a rezar de joelhos na cama para que vi
esse logo a paz; a paz para So Paulo e para nos
so lar.

Captulo XV

O MS de setembro foi 
passando lentamente; s se ouvia contar que comb
atiam em todas as frentes, em todas as fronteira
s, em todos os setores. Em toda a parte a triste
za,
a aflio, a falta de notcias; os coraes
 fechados, as fisionomias preocupadas; os olhos 
fixos no alto procurando a esperana e a esperan
a acenando ao longe como
um vu branco a se ag
itar na distncia, to longe e to tnue como se
 fosse desaparecer ou fosse inatingvel. Um vu 
agitado por vento incerto. As horas lentas,
os 
dias longos, as noites sem fim marcando o tempo 
que no passava. Setembro. Soldados feridos em t
odos os hospitais; soldados mortos, E as rosas d
os jardins paulistas
enfeitando tmulos. Tmulo
s cheios de rosas; olhos cheios de lgrimas; lb
ios cheios de oraes... As esperanas caindo um
a por uma como folhas mortas. Dor. Angstia.
De
salento. Nvoa no cu e na terra; nos olhos e na
s almas. Desiluso.
Uma tarde um soldado trouxe
 uma mensagem  nossa casa; Isabel ficou com ela
 na mo e depois me disse com voz trmula:
- Av
isaram que Carlos est no Hospital Militar do Br
s. Ferido.
Olhamo-nos um instante sem compreen
der, depois perguntei aflitamente, sem saber o q
ue falava, para ter tempo de firmar: - Quem? Car
los? Onde? Carlos mesmo? Gravemente?
- Acalme-s
e, mame. Disseram que est levemente ferido; es
t no Hospital do Brs aqui em So Paulo.
- Que
m avisou? Isso  mentira. Se estivesse levemente
 ferido, viria para casa. Onde  o Hospital do B
rs? Vamos embora.
E sa correndo para pr o ch
apu enquanto Isabel tambm se preparava rapidam
ente; tomamos o bonde e levamos mais de uma hora
 para chegar l.
Quando entrei no jardim do Hos
pital, nem sei como minhas pernas caminhavam, po
is os mais tristes pressentimentos vinham-me  c
abea. S me lembro que andamos atrs
de uma en
fermeira por um caminho interminvel; passamos p
or um lugar coberto, depois por um lugar descobe
rto, depois entramos na outra ala do hospital; a
travessamos
uma sala, duas salas, passamos um c
orredor e chegamos a uma enfermaria. Vi todas as
 camas ocupadas, um sol triste entrando atravs 
de duas janelas abertas, cheiro
de remdios, de
sinfetantes, enfermeiras de branco, sussurros de
 vozes, vidros sobre algumas mesinhas, uma bande
ja esquecida num canto, um ambiente pesado. Algu
mas
cabeas voltaram-se para ns, olhos admirad
os e surpreendidos; a enfermeira mostrou:
-  a
quele l, o quinto  direita.
Quando divisei o 
rosto de Carlos muito plido, mas risonho, numa 
das ltimas camas perto da janela aberta, senti 
um alvio e pensei que ia chorar. Apertei as mo
s
dele entre as minhas e ele perguntou com um s
orriso nos lbios muito brancos:
- Assustou-se 
muito, mame?
- Muito. Ento? Como foi?
Quando
 ele me explicou que tinha um estilhao de grana
da no peito, perto da clavcula e no tinha outr
o ferimento, senti maior alvio e tive vontade d
e falar alto,
fazer qualquer coisa, rir. levant
ar, sair correndo, fechar a janela, abrir outra 
vez, mover-me enfim; mas fiquei ali parada olhan
do para ele e vendo-o sorrir e falar.
Conversou
 alegremente dizendo que logo iria para casa; ap
areceu uma enfermeira trazendo uma bandeja com c
af e po; quando se sentou na cama e comeou a 
comer com
vontade, chorei. Mas ele riu, acarici
ando minha mo:
- O que  isso? Agora que estou
 bom, lembra de chorar, mame? Ento falei que t
inha sofrido tanto nesses longos meses de guerra

que nem sei como ainda vivia; Carlos sorria pa
ra Isabel e para mim, depois perguntou alegremen
te:
- Essa menina est com juzo agora?
Isabel
 abaixou a cabea e comeou a disfarar brincand
o com a bolsa; respondi:
- Naturalmente; ela co
mpreendeu em tempo e tudo vai bem. Carlos riu-se
 mais e pediu umas frutas quando voltasse; algum
as
laranjas e algum docinho tambm. Meia hora d
epois, samos e fui procurar a enfermeira chefe 
para saber melhores notcias; ela disse que fari
am uma pequena operao
logo que ele estivesse 
mais forte e podia ento voltar para casa. Estav
a muito enfraquecido, mas no era nada grave. Fo
ra muito feliz. Fomos embora e voltei no dia
se
guinte; s vivia esperando a hora de visita para
 ver Carlos; levava frutas, doces que fazia todo
s os dias.
inventava coisas para levar ao meu f
ilho. No, pensei mais na revoluo e nem me imp
ortei quando acabou; um dia Isabel me contou sob
re o armistcio e respondi:
- Estimo muito; che
ga de morrer gente. J era hora.
E dizendo isso
, sa com meu pacotinho a caminho do Hospital. U
m dia encontrei Carlos pronto para voltar para c
asa; tiraram o estilhao sem novidade. Levei-o d
e automvel.
Foi uma festa. D. Genu e toda a fa
mlia vieram v-lo logo, assim como as outras vi
zinhas; Carlos se via rodeado como um heri e ti
nha que contar tudo, com todas
as mincias. Con
tava que durante dias e dias s comia po de gue
rra porque no havia outra coisa; como a trinche
ira era na beira do Rio das Almas e o po s vez
es
estava duro como pedra, arranjavam uns barba
ntes compridos, amarravam o po na ponta do barb
ante e jogavam no rio; quando o po estava bem i
nchado, puxavam e comiam.
Havia exclamaes de 
d:
- Que horror! Que horror! No havia oufra c
oisa? E caf? Eu perguntava:
- E feijo com arr
oz? O oficial que visitei em Itapetininga me dis
se que comiam feijo com arroz.
- Tinha feijo 
cozinhado com arroz, misturado. Po e caf. Cont
ava que dormia no cho do fundo da trincheira e 
ficavam dias
e dias sem pr a cabea para fora.
 Uma noite contou o caso da metralhadora. Um ofi
cial chamou-o e mais um outro para assentarem um
a F.M. num certo ponto estratgico;
foram se ar
rastando durante a noite, esconderam a F.M. entr
e galhos de rvore e ficaram ali esperando o mom
ento oportuno. Carlos falava rodeado de ouvintes
:
- Assestamos a "bicha" na direo deles e cos
turamos; a F.M. funcionava que era uma beleza; v
imos uns fugirem e outros tombarem. Foi sucesso.
 Mais tarde eles
voltaram e jogaram granadas so
bre ns, no deu resultado; ns continuamos noss
o jogo vrios dias. No terceiro ou quarto dia, n
o me lembro bem, amos revezar
para vir outra 
turma quando o oficial foi costurado no peito; n
em gemeu. Meu companheiro e eu abaixamos e ficam
os quietinhos, porque as balas cantavam nas noss
as
cabeas. O oficial s virou de lado e morreu
; esperamos a noite e voltamos para a trincheira
, resolvidos a ir buscar o corpo do oficial no d
ia seguinte. Quem diz?
Os diabos descobriram on
de estava a metralhadora e no deixaram ningum 
chegar perto; e o corpo do nosso companheiro fic
ou l apodrecendo. No quinto dia, o Capito
"Sa
i Tiro", como chamvamos na turma, valente como 
o diabo, disse: "Isso no pode ficar assim. Quem
 quer vir comigo?" Eu e mais dois camaradas nos 
oferecemos. Ento
fizemos uma cobra, um seguran
do nos ps do outro, fomos nos arrastando at ch
egar onde estava o corpo. O "Sai Tiro" ia na fre
nte, pegou o cadver pelo p e foi puxando;
eu 
puxava "Sai Tiro" pela perna, outro puxava minha
 perna at chegar na trincheira. Assim trouxemos
 o morto para enterrar; no digo nada, faltava u
m brao no coitado.
Isabel deu um grito agudo e
 cobriu o rosto; D. Genu fez o sinal da Cruz apr
essadamente:
- Credo! Que coisa horrorosa. E de
pois?
- Depois enterramos o camarada no fundo d
a trincheira e l ficou, bem quietinho.
Ficvam
os em silncio, a sombra da morte pairando na ro
da; vinha outra histria:
- Havia no nosso bata
lho um rapazinho muito bom, muito religioso e d
elicado; tinha o rosto redondo e corado, a pele 
to lisa e fina como a de uma moa. A me
era p
ortuguesa e como ele falava com sotaque portugu
s, ns o apelidamos de "portuga". Todas as vezes
 que havia perigo, ele dizia: "Valha-me Deus! Va
lha-me Deus!"
Ns perguntvamos: "Est com medo
, portuga?" "No", respondia, "estou lembrando D
eus para quando eu bater na casa dele, no demor
ar a abrir a porta". "Qual, portuga,
voc no m
orre assim  toa". Mas um dia o "Sai Tiro" pediu
 uma turma boa para tirar um ninho de metralhado
ra do inimigo. O portuga foi um dos primeiros qu
e se ofereceram;
o servio era perigoso. Precis
ava calma e coragem. Esperamos anoitecer e foram
 o "Sai Tiro" na frente se arrastando, depois um
 outro camarada, o portuga e
mais outros dois. 
Levavam os bolsos cheios de granadas de mo e os
 fuzis a tiracolo para cobrir a retirada depois 
da faanha. O inimigo quieto, parece que estava


dormindo. Tudo foi indo bem; quando estavam a p
oucos metros e o "Sai Tiro" deu ordem de avanar
, levantaram e jogaram as granadas. Pegaram de s
urpresa; os que
guardavam a metralhadora, cara
m; apareceram logo outros e comearam a pipocar;
 mas naquela confuso, o "Sai Tiro" e um camarad
a conseguiram roubar a F. M. e correr.
Os outro
s continuaram a atirar com os fuzis e a recuar p
ara dar tempo dos companheiros chegarem na trinc
heira. Nesse instante, viram o portuga cair; ape
sar da escurido,
o companheiro percebeu que er
a ele pelo "Valha-me Deus". O companheiro procur
ou levant-lo: "Coragem, portuga. Falta pouco". 
Ele riu e respondeu: "Hoje 
o dia de me recebe
rem; no perca tempo comigo, camarada". Outras b
alas choveram perto; o companheiro disse para um
 outro: "Ajude a levar o portuga". Vieram outros

em auxlio e comearam a atirar por cima das c
abeas para os inimigos no se aproximarem, enqu
anto arrastavam o camarada ferido para a trinche
ira. Vimos ento
que ele estava ruim mesmo; sa
a sangue da boca e tinha um ferimento feio no pe
ito; a farda estava vermelha de sangue. Arranjam
os uma cama para ele e o mdico do
batalho com
eou a examinar e fez sinal que nada adiantava; 
o coitado estava morrendo. Vimos ento que ele r
ezava; estava lvido, os olhos meio embaciados e
 dizia:
"Livrai-nos, Senhor, do mal, Amm". Rep
etia s isso; eu acho que esqueceu o resto. "Liv
rai-nos, Senhor, do mal. Amm". Um outro disse: 
"Vamos rezar desde o princpio,
camarada". E co
meou bem devagar e bem perto dele, mas acho que
 ele nem ouvia mais. Era s: "Livrai-nos, Senhor
, do mal, Amm". Nem entendia mais nada, nem olh
ava
para ns. As lgrimas corriam sem cessar do
s seus olhos e ns enxugvamos; quando no era u
m, era outro companheiro perto dele. Custou morr
er, creio que foi hemorragia
interna. Eu no as
sisti o fim, mas me contaram que ele disse: "Val
ha-me Deus! Minha mezinha!" Um camarada que gos
tava muito dele, ficou danado e comeou a xingar

a revoluo: " para assistir isso que estamos
 aqui. Porcaria de revoluo, uma banana para to
da esta..." Dizia nomes horrveis com os olhos c
heios de lgrimas de
d do portuga. Era at eng
raado. Ficamos a noite inteira guardando o corp
o e no dia seguinte, foi enterrado com toda a so
lenidade.
- Onde?
- Na trincheira mesmo.
- Co
itado! E no houve mais feridos nesse dia?
- Um
 outro foi baleado na barriga da perna, mas saro
u logo.
D. Genu perguntava se tinha matado algu
m frente a frente; Carlos
disse que sim; um dia
 matou um negro que chegou-quase na boca da F.M.
 Veio vindo, veio vindo, procurando se esconder 
entre o capim ou atrs dos arbustos, quando
Car
los apontou o fuzil e bum! o coitado s largou o
 fuzil e gritou: "Ai minha Nossa Senhora!"
D. G
enu fez outra vez o sinal da Cruz rapidamente e 
Isabel deu outro gemido cobrindo o rosto; fiquei
 imvel, os olhos muito abertos, achando Carlos 
incapaz dessa
maldade. Ele continuou calmo:
- 
Guerra  guerra. Se eu no tivesse matado o negr
o, ele no me matava? Matava. A gente vai l par
a matar ou para morrer; ento  melhor acabar tu
do de uma
vez, se no a gente leva fogo.
- No
 sentiu remorsos?
- Tive muita dor de cabea es
sa noite e sonhei com o grito do negro a noite t
oda. Horrvel.
Desde esse dia, no quis mais ou
vir falar em revoluo e pedi a Carlos que no f
alasse mais nisso. Logo que ele sarou completame
nte, voltou a trabalhar no Banco
e recomeamos 
ento nossa pobre vida.
Recebi um carto de Alf
redo pedindo notcias, pois ouvira contar coisas
 horrveis da revoluo: continuava nos Estados 
Unidos, tinha passado maus pedaos, mas agora
i
a melhor. J estava um ano ausente. Julinho tamb
m escreveu do Rio, muito aflito, perguntando se
 nos acontecera alguma coisa. Ia sempre bem na l
oja, dizendo que
as possibilidades eram muitas 
para o futuro.
Clotilde veio de Itapetininga e 
passou meses conosco; mais uma vez fomos juntas 
visitar tia Emlia na Rua Guaianases. Titia esta
va paraltica em todo o lado direito
devido a u
ma congesto que tivera; no falava com muita fa
cilidade, mas quando nos viu no se esqueceu de 
falar sobre a origem das famlias porque sabia q
ue Clotilde
gostava. s vezes no podia termina
r as palavras porque a lngua no auxiliava; pre
cisava ento prima Adelaide terminar por ela; me
smo assim no deixou de falar.
Quando ouviu con
tar que Carlos combatera no Batalho Borba Gato,
 tia Emlia ficou animada e contou que Borba Gat
o tinha se casado em Sorocaba em 1726. Prima Ade
laide
pediu que no falasse tanto, podia fazer 
mal, mas tia Emlia continuou serenamente como s
e no tivesse ouvido:
- Borba Gato casou-se com
 Luzia Leme de Barros. Essa Luzia era filha de..
. de... Espere que eu sei...
Prima Adelaide sus
surrava:
- No se esforce, mame. Pode fazer ma
l.
- De. .. Ah! J sei. De Incia de Barros. Es
sa Incia foi casada duas vezes; do primeiro mat
rimnio, deixou um filho e do segundo deixou cin
co filhos. A Luzia do
Borba Gato era filha do s
egundo...
Olhou triunfante para a filha e para 
ns:
- Pensa que me esqueci? No esqueo essas 
coisas.
- Ns sabemos que a senhora no esquece
, mas a questo  que falar muito pode fazer mal
.
- No faz. Um dos descendentes deles foi Clar
a de Miranda; essa casou-se com um filho de nobr
es portugueses. Chamava-se Francisco de Barros P
enteado; um dos filhos
deste casal foi Manoel C
orreia Penteado,
nasceu aqui em So Paulo.. .

Prima Adelaide procurou interromper:
- Est bem
, mame. Vamos agora tomar um leitinho?
Tia Em
lia fez uma careta e comeou a tomar o leite sem
 vontade; assim que acabou, levantamos para sair
, mas ela ainda procurou explicar:
- Esse Manoe
l que eu falei teve muitas fazendas, minas de ou
ro, grandes riquezas; pois esse foi casado com..
. com...
Prima Adelaide procurou auxiliar:
- I
ncia de Barros?
Tia Emlia olhou-a revoltada p
or ouvir tamanho erro. Minha prim.; insistiu:
-
 Depois a senhora lembra, mame. No se incomode
 agora
- Esperem a que lembro j; pensa que es
tou maluca? Casou-se com... com...
Novo silnci
o; Clotilde interveio mansamente:
- No se esfo
rce tanto, tia Emlia. Sua memria  muito boa; 
naturalmente devido  molstia, ficou um pouco e
squecida, depois volta tudo.
Ela interrompeu:

- No estou esquecida; quem disse que estou? Eu 
me lembro muito bem, esse Manoel Correia Pentead
o foi casado com Beatriz de Barros.
E dando um 
suspiro de alvio, fechou os olhos, recostando a
 cabea no travesseiro. Samos imediatamente e f
omos comentando pelo caminho afora a mania de ti
a Emlia;
Clotilde suspirou:
- Mesmo morrendo,
 ela vai citando os nomes, as datas os casamento
s das famlias antigas.
-  mesmo. Olhe que hoj
e o esforo foi danado, assim mesmo ela falou di
reitinho; vai assim at a hora da morte.
- Vai.
 Imagine falando at o ltimo suspiro sobre Borb
a Gato e sua descendncia. Tem graa.
- A Beatr
iz de Barros custou a sair, no?
- Nem fale; eu
 j estava aflita.
- Eu tambm.
Assim conversa
ndo, chegamos em casa e arregaando as mangas, p
usemos os aventais e fomos fazer uns doces para 
uma encomenda. Pouco tempo depois, fomos pela l
tima
vez  Rua Guaianases; tia Emlia tinha mor
rido. Morreu perfeitamente lcida, falando e rec
omendando tudo at o ltimo momento. Depois da m
orte dela, prima Adelaide
vendeu a casa e foi m
orar na fazenda, em Campinas.
Clotilde voltou p
ara Itapetininga; e quando eu insisti para que f
icasse sempre comigo, confessou que preferia mor
ar l a morar em So Paulo. Sentia-se velha e a 

velhice
pedia-lhe paz e silncio; em So Paul
o havia muito barulho. Mesmo o rudo das carroci
nhas de po e leite sobre o calamento das ruas,
 fazia-lhe mal; queria a paz 
das
cidades do i
nterior com suas ruas desertas, seu sossego e se
us gatos dormindo ao sol, sobre os muros. Gostav
a de sair e cumprimentar todo o mundo; essa hist
ria
de no conhecer ningum, nem os prprios v
izinhos, no ia com seu temperamento. Gostava de
 abrir a janela de manh e cumprimentar a vizinh
a da esquina, a de lado,
a da frente. E pergunt
ar bem alto na rua silenciosa: "Dormiu bem? Noss
o galo cantou muito essa madrugada? No ouviu?" 
Ou ento: "Acertou o ponto de tric que ensinei


ontem? No? Ora,  to fcil. D duas laadas e
 um ponto  direita. Depois faz o contrrio; no 
fim. Olhe, venha depois do almoo que ensino out
ra vez"
E  tarde fazia uma peregrinao pela v
izinhana; ia ver Nhazinha que estava com a filh
inha doente; dava um pulo at  casa da Marocas 
para cumpriment-la pelo
aniversrio dizendo ri
ndo: "Mais uma rosa no jardim da sua existncia,
 hein, Marocas?" Depois ia ensinar o ponto de ba
la de ovos para D. Tuda que no havia meios
de 
acertar. E assim corria a vida; to simples, nad
a de complicaes e problemas, nada de correrias
. Tudo lentido e paz. Para que pressa? -,
Em S
o Paulo no; todo o mundo corria, todo o mundo 
andava depressa para chegar na hora, todo o mund
o vivia afobado.
- Corre que o bonde vem vindo.

- No tem lugar nesse bonde; temos que esperar
 outro.
- Ento chegaremos atrasados no cinema.

- Ah! Meus Deus! Vamos perder a hora.
- Quem 
 a vizinha da esquina?
- No sei.
- No sabe?
 Pois no so vizinhos?
- Somos. Faz mais de tr
s anos que vieram morar a, mas no sei quem s
o.
- Deus me livre e guarde! Viver assim sem co
nhecer ningum? E pior que viver num deserto.
A
 sua vida era como um livro em branco; nenhum tr
ao sentimental para escurecer a brancura imacul
ada das suas pginas, nenhum sorriso de amor, ne
nhum beijo. Nada;
vivia apenas para bondade e p
ara o trabalho.
Nos dias de procisso, levantav
a-se mais cedo, num alvoroo, para enfeitar o an
dor de Santa Teresinha; pedia rosas em casa das 
amigas e enfeitava o altar e o andor
com rosas 
brancas, vermelhas, cor-de-rosa. Quando consegui
a enfeitar s com rosas, ficava mais alvoroada;
 dizia olhando a imagem da Santa com olhos terno
s e respeitosos:
"Hoje sim, minha Santinha, est
 contente com o monto de rosas?"
 tarde, num
 vestido preto muito solene, reservado s para o
s dias solenes, colocava uma fita vermelha no pe
ito e acompanhava a procisso, enlevada, os olho
s pregados
no andor, os lbios murmurando ora
es: "Santa Teresinha, protegei a nossa famlia: 
minhas irms, meu cunhado, meus sobrinhos. Prote
gei meu sobrinho Alfredo que
anda longe, l pel
a Amrica do Norte, sabe Deus onde; meu sobrinho
 Julinho que trabalha no Rio de Janeiro; minha s
obrinha Isabel que tenha juzo e desista de casa
r
com o homem casado; meu sobrinho Carlos que c
ontinue feliz no Banco. Ah! E obrigada por ele t
er voltado da revoluo so e salvo. Proteja a m
iudeza de Olga; que
todos tenham sade. Amm".


Assim era Clotilde;  noite, de volta da reza, 
vinha cansada para casa, trocava os sapatos pelo
s chinelos velhos e ia fazer o sobrinho pequeno 
dormir, enquanto Olga
costurava sob a luz da l
mpada da sala de jantar, fazendo roupinhas para 
outro filho que j se fazia anunciar. Gostava da
s cidadezinhas quietas, com seus jardins
bem tr
atados, onde, nas tardes de domingo, a banda de 
msica tocava marchas e dobrados e o povo passea
va de c para l, de l para c, tranqilamente,
 serenamente,
conversando; gostava de levar um 
"tijolo" de goiabada feita por ela mesma para a 
Mariazinha do Nico que tivera sarampo; e noutro 
dia uns copinhos de gelia de mocot
para a Lol
ota que estava com desejo. Sabia tudo que se pas
sava na cidade, conhecia todos, visitava todos e
 se interessava pela vida de cada um como pela s
ua
prpria. Risonha e calma, boa e
sincera, de
sfilava de casa em casa, levando um pouco do seu
 "eu" para cada um, generosamente.
Assim era mi
nha irm Clotilde. Sua alma singela e boa pedia 
o silncio das cidades pequenas, as noites tranq
ilas sem bondes barulhentos, sem automveis a t
oda velocidade,
sem desastres horrveis, sem gr
itos, sem nada. Paz. Silncio. Andores enfeitado
s por ela e, Nossa Senhora entre flores, carrega
da nas procisses, tremendo e sorrindo
para a m
ultido. E um dia arrumou as malas e partiu dize
ndo que So Paulo s de vez em quando; preferia 
sua cidade quieta e boa, onde os gatos se espreg
uiam nos
muros das ruas silenciosas e onde pod
ia abrir a janela e gritar para a vizinha da esq
uina num cumprimento sorridente: "Bom dia! No f
icou cansada ontem na procisso?
E que mundo d
e gente, hein?"
Nesse mesmo ano, no dia do meu 
aniversrio, recebi de Clotilde trs caixinhas d
e figos secos, trs "tijolos" de goiabada (pedin
do desculpas porque dessa vez saiu
puxa-puxa) e
 trs latinhas de doce de marmelo. Olhei tristem
ente pensando: "Quem havia de dizer! Somos apena
s trs, e ramos Seis!"
Esse ano se findou; vei
o outro. Esse outro foi to cheio de acontecimen
tos e imprevistos que encheu minha vida; vivi mu
ito esse ano e os poucos cabelos pretos que
me 
restavam, tornaram-se brancos. As rugas crescera
m mais na minha face e continuei sem os dentes d
a frente porque o dinheiro que eu tinha reservad
o para isso foi
gasto com a doena de Carlos. E
m meio das minhas atribulaes, levantava os olh
os para o cu procurando encontrar alvio; senti
a s vezes como se fosse levada por
uma torrent
e; uma torrente to impetuosa que, por mais que 
eu me debatesse e procurasse segurar em qualquer
 coisa para no ser arrastada, continuava a me l
evar,
a me arrastar para no sei onde. Era um t
urbilho que me puxava e eu dizia: "Nada mais im
porta agora porque o pior j aconteceu". Mas no
 se deve dizer isso porque
vemos depois que ain
da pode ser "pior", como aconteceu comigo.
O an
o comeou com uma alegre surpresa: Julinho veio 
passar trs dias conosco para contar que ia casa
r com Maria Laura, a filha do patro. Contou que
 desde que chegara
ao Rio, gostara dela. Era ai
nda menina de Colgio e quando vinha nas frias,
 andavam sempre juntos. Nos domingos de sol, iam
 os dois para a praia e ficavam deitados
sob um
 grande guarda-sol, listas brancas e verdes, faz
endo projetos na areia. Depois nadavam lado a la
do, em grandes braadas para apostar quem nadava
 mais depressa
e, quando voltavam e deitavam de
 novo na areia, riam alto, felizes de amor, a g
ua escorrendo dos seus corpos molhados. Sempre s
e compreenderam muito bem; e agora
que ela esta
va moa e ele firme na Loja, com um belo futuro 
 sua frente, queria que eu desse meu consentime
nto para o noivado; o casamento realizar-se-ia u
m ano
depois.
Tirou da carteira com todo o cui
dado, um retratinho da moa e me mostrou; era um
 rostinho mimoso e simptico. Nesse dia e no dia
 seguinte, at o momento de Julinho
embarcar, s
 se falou no noivado e em Maria Laura. Embarcou
 de novo, dizendo que s voltaria casado e foi c
om minha bno, sacudindo a mo no ar, a felici
dade estampada
em seu rosto risonho.
#Uns temp
os depois escreveu que estava noivo e toda a fam
lia da Maria Laura estava contente com o noivad
o; pensei em juntar dinheiro desse dia em diante
 para dar
um bom presente de casamento ao meu J
ulinho.
Comecei a reparar que Isabel vinha muit
o tarde para casa; perguntei o que havia, e ela 
me respondeu que tinha servio extra todos os di
as.
Pedi a Carlos que investigasse e um dia ele
 me disse:
- Mame, Isabel est namorando outra
 vez.
- No  possvel, filho. Depois de tudo o
 que houve? Decerto no  o mesmo; no pode ser.

-  o mesmo sim. Conheo-o muito bem.
- O que
 vamos fazer ento?
- Vamos cham-la pela ltim
a vez e dizer umas boas verdades. Se no atender
, que leve a breca. No me importo mais; ela no
  criana, tem vinte anos. Que diabo!
J  tem
po de sabei"o que faz.
Nessa noite tivemos uma 
discusso tremenda com Isabel; a princpio ela f
icou muda, olhando para o cho, os lbios aperta
dos como quem est firme numa resoluo,
de p,
 apoiada na mesa da sala de jantar. Depois levan
tou a cabea e olhou para o irmo dizendo:
- Po
is . Voc disse que eu tenho idade suficiente p
ara saber o que fao ou o que quero fazer. Eu j
 disse o que eu quero, no  preciso repetir.
F
oi ento que dei uns passos para a frente e perg
untei, trmula:
- Isabel, veja bem o que est d
izendo. Voc passa por cima de tudo por causa de
sse homem? Reflita, minha filha.
Ela no respon
deu e apertou mais os lbios; tornei a perguntar
 mais trmula ainda:
- Quem voc prefere, Isabe
l? Ns ou ele? .
Ela continuou quieta, imvel, 
os olhos baixos; s essa atitude j era uma conf
isso. Mas eu queria ouvir dos prprios lbios d
a minha filha o que eu sabia que ela
ia dizer; 
insisti:
- Diga, Isabel. Precisa escolher. Quem
 voc prefere? No podemos viver assim.
Ento o
uvi nitidamente a voz de minha filha Isabel dize
r:
- Vou me casar com Felcio.
Todo o sangue f
ugiu do meu rosto e foi como se estivesse me afo
gando; Carlos apertou meu brao e disse:
- Que 
 isso, mame?
E virou-se impetuosamente para a
 irm:
- Miservel ingrata! Ento v de uma vez
. No v que mata nossa me?
E vibrou-lhe um ta
pa no rosto; ela deu uns passos para a frente co
m a mo no rosto e quis reagir, depois desistiu 
e saiu chorando da sala e dizendo:
- Voc me pa
ga. Detesto voc. Odeio. Fechou-se no quarto. Re
criminei Carlos:
- Por que fez isso? No adiant
a mais, meu filho. Deixe...
E fiz um gesto mela
nclico levantando os braos e deixando-os cair 
desalentadamente. Carlos comeou a passear de um
 lado a outro na sala, nervoso, fumando:
- Olhe
, mame.  intil mesmo; lembra do que Alfredo d
isse uma vez? " o mesmo que querer impedir a ch
uva de cair ou o vento de ventar". Tudo  intil
; e  mesmo.
Ele  quem tinha razo. No podemo
s lutar contra essa fora desgraada.
E sentou-
se ao meu lado, no sof, passando o brao ao red
or do meu pescoo, enquanto as lgrimas caam, u
medecendo minhas faces. Lutar como? O que mais p
oderamos
fazer?
Senti ento nesse instante qu
e tinha perdido para sempre minha filha Isabel. 
Era o amor que a chamava; tinha sido mais forte 
que tudo e ela atendera ao chamado.
No me pert
encia mais.
Logo depois, um ms e meio talvez, 
Isabel saiu de casa para se casar. No me disse 
nada, nem se despediu; uma tarde no voltou e ma
ndou uma amiga me avisar que ficaria
em casa da
 famlia dessa amiga. No dia seguinte, veio a me
sma moa com um bilhete de Isabel pedindo o cons
entimento para o casamento; disse que no, sem s
er na igreja,
no. Nesse dia mesmo ela se casou
 e  tarde, a me da amiga veio me contar que re
cebera Isabel em sua casa porque no podia deix
-la na rua e mesmo sabendo que era
contra minha
 vontade, fizera o casamento; do contrrio seria
 pior. Agradeci tudo o que ela fez por minha fil
ha e nem perguntei onde eles iam morar; a prpri
a senhora
me disse que iam ficar num apartament
o pequeno perto da cidade e Isabel continuaria n
o emprego, pelo menos nos primeiros tempos. Proc
urou defender o rapaz dizendo
que parecia boa p
essoa e gostava muito de Isabel. Agradeci outra 
vez e ela partiu. Quando me vi s, fiquei parada
 no meio da sala de jantar, um turbilho de pens
amentos
girando, desordenados. O que acontecera
? Ento eu ia ficando sozinha? S me restava Car
los, o Calucho como chamvamos quando era pequen
o? Como fora suceder isso?
Ser que algum no 
viria tambm busc-lo algum dia? O que seria de 
mim?
E  noite, quando ele voltou, ficamos ns 
dois em silncio, um na frente do outro, na pequ
ena copa que durante anos e anos tinha reunido t
oda a famlia  hora do
jantar. No vero, um di
zia: "Abra as janelas, est fazendo calor!" E no
 inverno outro pedia: "Feche a janela, est faze
ndo frio!"
E quantas estaes assim se sucedera
m e eu ouvindo: Abra a janela e feche a janela! 
nessa pequena copa que ficava cheia quando todos
 estavam reunidos. Houve o tempo
em que havia o
 Caarola, o gato gordo e luzidio que  hora do 
jantar ficava sempre debaixo da mesa, pedindo um
 pedao de carne; de vez em quando um dava algum
a coisa
e quando Caarola insistente, comeava 
a arranhar a perna de algum, eu ouvia: "Ah! Caa
rola, no tenho muito para dar. V esperar na co
zinha".
E mesmo nos dias em que a carne era pou
ca porque no tnhamos dinheiro, sempre davam al
gum pedacinho ao gato. Essas cenas estavam grava
das na minha lembrana como
se estivessem escri
tas; nunca mais esqueceria.
Quando eram ainda p
equenos e no tinham sido empolgados pelas paix
es, como era diferente: juntinhos  minha volta,
 tagarelando enquanto comiam e fazendo planos
p
ara o dia seguinte. Para eles s existia o momen
to que passava ou o dia seguinte. E agora? Todos
 espalhados e
com um destino diferente; no pen
savam mais no dia seguinte, pensavam num futuro 
desconhecido e longnquo. Olhei Carlos; tambm n
o jantou. Talvez pensamentos iguais
passassem 
pela sua cabea. Disse de sbito:
- A senhora n
o deve ficar triste, mame. Isabel vai se arrep
ender.
- Mesmo que se arrependa, o que adianta?
 O mal est feito. O espinho que ela me cravou n
o peito, nunca mais me deixar.
- Mas ela vai v
oltar. ->
- Mesmo que volte, nunca poderei esqu
ecer. Pensa que no di, filho? Nunca pensei que
 minha nica filha fosse se casar assim em casa 
alheia e contra nossa vontade.
Como devem ser f
elizes as mes que casam suas filhas aprovando o
s casamentos. Quantas Vezes sonhei com o vestido
 de noiva que havia de fazer para ela...
Ficamo
s novamente em silncio na triste e pequena copa
; uma inexprimvel agonia se apoderou de mim. Es
tava cada dia mais1 velha e mais s. O relgio b
ateu horas
na sala de jantar; at as badaladas 
nessa noite pareciam melanclicas e faziam um ec
o esquisito no silncio da casa. J no mais hav
ia movimento; tudo quieto e calmo.
As vozes ale
gres de outrora no repercutiam mais entre aquel
as paredes; o vaivm, o bater das portas, o baru
lho da gua correndo no lavatrio da copa quando
 lavavam
as mos, os "at logo, mame", os sina
is de vida enfim de todos aqueles anos, haviam m
orrido. Parece que a morte rondava; s a morte 
 assim silenciosa, s ela traz
essa quietude lo
nga e profunda. Carlos levantou-se e ligou o rd
io; ouvimos o "Doce mistrio da vida" tocado por
 rgo. Ficamos ouvindo em silncio, depois Carl
os
desligou e me disse que muitas vezes depois 
das refeies, sentia uma dorzinha no estmago. 
Fui fazer um ch que ele tomou antes de dormir; 
foi para o quarto e se
fechou. Ouvi baterem de 
leve na porta da rua; era D. Genu. J sabia do c
asamento de Isabel porque eu tinha contado por c
ima do muro durante o dia; veio ento me
confor
tar. Sentou-se ao meu lado, fungando e dizendo:


- Que desgosto! Filha nica, D. Lola! Eu me lem
bro tanto dela quando era pequenina; parecia uma
 boneca. Muito gorda, muito mimosa, fazia covinh
as quando ria.
A senhora tanto fez por ela e ag
ora se casa assim, sem sua licena, com o tal ho
mem que a senhora no queria. Qual, D. Lola. .. 
os filhos.. . cada dia me desiludem
mais. A Isa
bel.. . quem diria! A gente se sacrifica por ele
s, d tudo, faz o que pode, morre por eles, e na
da reconhecem. Nada. Eh! Mundo errado! D. Lola!


Mundo errado! Lembra do jeito que Isabel me cha
mava quando era pequena? A senhora tinha se muda
do para c h pouco tempo e ela era pequena, pod
ia ter uns seis
anos, no? Subia na goiabeira e
 gritava: "D. Gevoveva, onde est a Lili? Quero 
brincar com a Lili". Ela me chamava de Gevoveva 
porque achava o nome engraado; eu
me lembro t
o bem. To bonitinha. .. com as covinhas redonda
s...
As lgrimas que eu tinha retido durante mu
ito tempo, correram' pelas minhas faces e D. Gen
u me abraou, desajeitada, os braos muito gordo
s rodeando meus ombros,
chorando tambm com gra
ndes soluos:
- Chore, D. Lola. Chore que desab
afa.
- A senhora tambm est chorando? Acontece
u alguma coisa? Ela respirou profundamente, enxu
gou o rosto e respondeu, fungando:
- No. Falar
 a verdade, choro pelos meus tambm e pelas veze
s que no tive tempo de chorar.  tanta coisa qu
e acontece na vida da gente! Nem sempre se tem t
empo
de pensar, mas hoje vendo a senhora
to t
riste, lembrei de tudo o que tem acontecido na m
inha famlia e me deu vontade de chorar tambm; 
 como diz o povo: Desgraa pouca  bobagem.
Fi
camos um pouco mais calmas, depois eu repeti:
-
 Isabel me cravou um espinho no peito, D. Genu. 
E esse espinho nunca mais sair, tenho certeza.


- E quantos espinhos a senhora pensa que eu ten
ho, D. Lola? A senhora queixa de um e eu? Olhe o
 casamento da Joca, quase morri. Depois quando o
 filhinho da Leonor
morreu, lembra? A Leonor se
 abraava comigo e gritava: "Mame, eu morro!  
uma dor que eu no agento, mame! Me acuda pelo
 amor de Deus!" Aquilo  que foi
sofrimento; e 
como eu queria bem quela criana! S me chamava
 de Vozinha. E custou a Leonor serenar; foi uma 
vida pra ela esquecer aquele filho. Agora  o ca
samento
dessa ltima que est encrencado; dizem
 que o moo  direito, mas no resolve nada. Viv
em os dois pra baixo e pra cima, sempre sozinhos
. Eu j disse: Qualquer
dia h um barulho, a n
o venha pra meu lado que  pior. Tudo isso so 
espinhos, D. Lola, e minha vida est cheia deles
. Cheinha.
Paramos de falar e ouvimos o relgio
 bater as horas; ela se levantou para sair dizen
do que os pobres precisam levantar cedo para ag
entar o repuxo, e s levanta
cedo quem dorme ce
do. Foi embora e fiquei s de novo. Ento vagaro
samente fui fechar a casa, ouvindo as vozes dos 
meus filhos nos meus ouvidos. Eles falavam e ria
m
como se estivessem todos ali e no faltasse n
enhum. No. Eles no me haviam abandonado, como 
eu pensara, estavam todos comigo, todos. O riso,
 a voz, o modo de falar
de cada um estavam guar
dados no meu corao; o tempo podia passar, o re
lgio marcar as horas inexorveis e cruis, as n
oites sucederem aos dias, as estaes passarem

uma por uma, tudo podia se extinguir e morrer, m
as a lembrana de cada um viveria comigo at a m
orte, inextinguivelmente.
Nos dias que se segui
ram Carlos continuou a se queixar de uma dorzinh
a no estmago, muito longe, muito funda. O mdic
o que o examinou disse que era um princpio
de 
lcera e com dieta e regime, ficaria bom.
Lembr
ei dos espinhos de D. Genu; eu tambm estava fic
ando cheia deles. Carlos comeou o tratamento e 
logo se sentiu melhor. No meio do ano, num dia d
e julho muito
frio e escuro, tive uma grande en
comenda de doces. Levantei de madrugada e trabal
hei sem cessar at duas horas da tarde; comi ent
o alguma coisa ali mesmo de p
quando ouvi alg
um vir entrando; pensei que era D. Genu ou uma 
das filhas que viesse com algum recado.
Incline
i-me para ver as "Silvia's cakes" que estavam no
 forno, assando; de repente ouvi uma voz forte a
trs de mim:
- Al, D. Lola. Como vai?
No olh
ei imediatamente e pensei: "Creio que estou fica
ndo louca, pois estou ouvindo a voz do meu filho
 que est to longe, l pela Amrica do Norte...
"
E voltei devagar a cabea para a porta da coz
inha; meu corao deu um soco no peito; Alfredo 
estava no vo da porta, olhando para mim e rindo
 com alegria. Camos
ento nos braos um do out
ro; ri para disfarar a vontade de chorar; depoi
s senti as pernas to bambas que precisei sentar
-me. Alfredo sentou-se no banquinho ao
meu lado
 e comeou a contar as faanhas das viagens e da
 vida que levara. Mas eu no ouvia o que ele con
tava; ouvia mas no compreendia. A surpresa tinh
a sido demasiada.
No tirava os olhos do filho 
que estivera ausente tanto tempo e parecia um so
nho v-lo ali de novo ao meu lado, falando e rin
do. Ento devagar, muito devagarinho,
segurei-l
he as duas mos; acariciei-as. Eram fortes e gro
ssas. Depois apalpei-lhe os braos e o rosto, mu
ito de leve, aquele rosto to querido que eu no
 via h
tanto tempo. Ento chorei, dizendo:
- 
Ah! Meu filhinho! Que felicidade!
Alfredo ps a
s duas mos sobre meus ombros e procurou rir:
-
 Ora, mame! O que  isso? Est chorando? E chor
ou tambm, um choro triste e sentido.
Percebi d
e repente um cheiro de queimado e corri a abrir 
o forno; as "Silvias" estavam torradas. Ele me a
uxiliou ento a tirar os tabuleiros do forno e r
imos juntos
enquanto atirvamos fora a massa qu
eimada. Disse depois a Alfredo: "V falando enqu
anto eu trabalho." E fiz tudo de novo.
 noite,
 Carlos levou um susto:
- Ento o filho prdigo
 voltou? Ele respondeu:
- Apenas por dois dias;
 o navio segue viagem na quinta-feira. Perguntei
:
- Ento vai voltar filho? Por que no fica co
nosco?
Ele tirou um cachimbo do bolso, bateu-o 
na palma da mo, encheu-o de fumo e acendeu dize
ndo:
- Um bom marinheiro precisa gostar do cach
imbo. E voltou-se para mim:
- Tenho de voltar, 
mame. Estou engajado na Marinha americana; e te
nho viajado muito. Gosto que a senhora no imagi
na.
E assoprou uma grande fumarada para cima.

Nessa noite, Carlos, Alfredo e eu conversamos lo
ngamente; Carlos dizia:
- Afinal no estivemos 
juntos depois da sua faanha aqui. Mentiu para n
s que era socialista, hein?  pior que isso: Co
munista!
Alfredo riu:
- Ora, voc ainda volta 
ao assunto? O que tem com isso, rapaz? Sou maior
 e fao o que entendo, no dou satisfaes.
Fez
 uma pausa e perguntou:
- Perturba voc que eu 
seja isto ou aquilo? Estou tirando sua paz? Esto
u arrancando voc do seu bom sono burgus?
Carl
os apertou os lbios com desprezo:
- Prefiro me
u sono burgus, prefiro morrer burgus, tudo a v
iver de terra em terra pregando um credo errado,
 perseguido pela polcia. Um dia voc h de comp
reender
que o ideal que procura no est onde p
ensa, est na vida burguesa que levamos.
Alfred
o tirou o cachimbo da boca e deu uma gargalhada:

- Deus me livre viver sentado o dia inteiro na
 frente de uma mesa, lidando com papis, escreve
ndo, tendo hora certa para almoar, para
jantar
, para ir para a casa. No nasci para viver assi
m, isso me sufoca. Nasci para lutar, para mudar 
de ambiente, para semear idias...
- Para fazer
 castelos no ar...
- Talvez.
Fez uma pausa e t
ornou a falar:
- Prefiro os castelos no ar; que
 desmoronem um dia, mas no levarei vida parada 
como gua podre. Gosto da gua corrente.
Falei:

- Alfredo, que pena voc gostar dessa vida que
 eu no compreendo. Podamos ser to felizes aqu
i; uma vida calma. Podia-se arranjar um bom empr
ego, no , Carlos?
Que bom se voc quisesse, m
eu filho... Havamos de ser to felizes. No ach
a que a felicidade est na paz dessa vida caseir
a e pacata? Ir para o emprego, voltar,
conversa
r com um amigo, ir ao cinema, ter tudo equilibra
do, conscincia tranqila, depois casar, criar o
s filhos da mesma forma como criei vocs... Tudo
 quieto
e bom. Lutar para qu, filho? Gosta de 
viajar, de ver cidades? Economize, um dia poder
 viajar sossegado, mas no assim, como marinheir
o. So castelos no ar,
como disse Carlos.
- Go
sto da vida de marinheiro, gosto das minhas idi
as e nunca serei rico. No posso levar a vida qu
e a senhora quer. Est no meu sangue, no posso 
tirar. Algum
dos meus antepassados foi lutador,
 com certeza.
Tornou a encher o cachimbo devaga
r; Carlos falou:
- Acaba um dia na mo da polc
ia ou ento com uma bala nas costas; assim acaba
m os lutadores.
Alfredo sacudiu os ombros com d
isplicncia:
- Que seja assim, no ser voc. S
erei eu. Falei:
- Voc me abandona ento, Alfre
do? No volta mais? Ele me olhou com olhar enigm
tico:
- No abandono a senhora; voltarei sempr
e que puder. No estou aqui? Mas no me pea par
a ficar sempre, no posso.
Carlos perguntou com
 ironia:
- Vai pregar pelo mundo suas idias co
munistas? Quanto vai ganhar?
- No vou para gan
har, vou por um ideal. Sorriu:
- Burgus s pen
sa no dinheiro: "Quanto vai ganhar?" Tem graa! 
Carlos estendeu as pernas e colocou-as sobre a c
adeira da frente;
murmurou calmamente:
- Como 
 bom ser burgus! Fizeram uma pausa; Carlos con
tinuou:
- Voc nasceu com tendncias revolucion
rias;  um eterno revoltado contra os dominador
es e a propriedade. Em todas as idades tem havid
o a classe dominante, tem
havido o rico e o pob
re. Como pode igualar a humanidade? No est ven
do que  uma utopia? Um problema insolvel?
Alf
redo reagiu protestando:
- Como insolvel? E a 
Rssia? E os prprios pases socialistas' Voc n
o sabe o que est falando.
- E voc sabe o que
 se passa na Rssia? J esteve l?,J viu de per
to essa organizao? Tudo  deficiente,  incert
o,  desequilbrio. No sabe que os dominadores


da Rssia atual so to autocratas como os velh
osImperadores? Meu Deus, como voc est errado!


Alfredo bateu o cachimbo na palma da mo:
- Es
cute, Carlos, estamos muito distanciados um do o
utro e nunca nos compreenderemos. Voc no enten
de minha teoria, no compreende o que sinto. Ten
ho amigos
pobres e inteligentes, to inteligent
es que sofrem porque no tm o que gostariam de 
ter: bons livros, meios para estudar, boa msica
. Eles no tm meios para
alcanar esses livros
, essa msica, e eu acho que o mundo est errado
 porque os que tm tudo isso, no do o mnimo v
alor, at desprezam muitas vezes a arte porque

no esto na altura de compreend-la.  isso que
 me revolta, me sufoca, ver essa desigualdade, e
ssa indiferena dos ricos que tm tudo e no se 
importam com os
pobres que no tm nada. No fa
lo dos bens materiais, boas roupas, automvel, c
asa, boa mesa, dinheiro. No. Falo da vida espir
itual, proporcionar os meios 
para os rapazes p
obres que lutam e do duro para ganhar uma misr
ia, terem um pouco de vida do esprito... podere
m se desenvolver, e se instrurem... Eles querem
,
mas no podem. E sofrem a vida toda.
Carlos 
se levantou e comeou a passear de um lado para 
outro:
- E voc pensa que com suas teorias cons
egue endireitar o que est errado? A que est o
 maior erro. Estou vendo que muita coisa no est
 certa, mas no somos
ns, pobre humanidade, q
ue vamos consertar. O erro vem de longe. Essas t
eorias marxistas so velhas como o mundo e o que
 tem o mundo conseguido at agora? Revolues
p
ara depois voltar ao mesmo ponto. Desista, Alfre
do, enquanto  tempo. O que pretende vivendo met
ido dentro do comunismo? Tem aspiraes?
- No.
 No pretendo nada.
- Ento  comunista assim c
omo podia ser padre ou vender verduras? Por boni
to?
- No. Por vocao.
- Est convencido de q
ue est no caminho certo?
- No estou convencid
o de nada, Carlos. J disse que gosto disso e ni
ngum me tira.  intil discutir.
Levantou-se t
ambm e foi bater o cachimbo na beira da janela;
 Carlos sentou-se e ficou imvel, em silncio. O
lhei Alfredo; sorriu para mim como quando era cr
iana
e queria conseguir alguma coisa. Vi que s
eus dentes j no eram belos; havia um ou dois e
scuros na frente e faltava outro que quebrara na
 briga. Tudo mostrava que
sua vida tinha sido 
spera. Estava queimado, roupas velhas, mos muit
o grossas, mas era bonito assim mesmo. Muito bon
ito. Os cabelos alourados um pouco revoltos,
os
 olhos castanhos e brilhantes, alto e forte. Fic
ou impassvel quando contei mais tarde do noivad
o de Julinho e do casamento de Isabel. Ficava mi
nutos sem dizer
nada, os olhos perdidos em reco
rdaes. Perguntei por que no tinha roupas melh
ores, aquela estava suja e gasta. Disse que o di
nheiro no era muito, a vida era dura,
mas gost
ava daquilo. Se quisessem que mudasse de 'vida, 
tirariam o ar que respirava. Precisava ver sempr
e lugares novos, paisagens mltiplas e paixes. 
S assim
era feliz. Ficar a vida inteira na mes
ma casa, na mesma rua, na mesma cidade,
sufocav
a. Levava na alma o sabor da aventura, do perigo
, do
desconhecido. Disse que um marinheiro tinh
a que gostar da bebida, do jogo e da briga, sen
o no era marinheiro, e ele gostava disso tudo. 
Falava com voz forte e 
dava grandes
risadas.


Carlos perguntou bem mais tarde:
- Ento nada 
mudar a sua resoluo?
- Nada.
Carlos sacudiu
 a cabea:
- Est bem; desejo felicidades e que
 encontre seu ideal sem tropeos e sem desiluse
s.
Alfredo sorriu, como fazia sempre ao ouvir p
alavras irnicas. Carlos recolheu-se ao quarto e
 comecei a fechar a casa auxiliada por Alfredo.


No dia seguinte, fui a Caixa Econmica, tirei a
s minguadas economias que estava guardando para 
arrumar meus dentes e dei a ele para comprar rou
pa e calado. Despediu-se
de Carlos na hora do 
almoo e s quatro horas, me abraou despedindo-
se tambm. Pedi que desse sempre notcias, prome
teu. Contou no ltimo instante que iria muito
l
onge no sabia quando voltaria. Perguntei:
- Eu
ropa?
Levantou os braos para cima:
- Mais lon
ge, mais longe.. .
- frica?
Levantou mais os 
braos:
- Mais longe ainda...
- Ento no fim d
o mundo?
- Talvez, mame. Vou  Austrlia, Chin
a, nem sei onde, por a. . . Mostrou o espao di
ante de ns e sorriu. Perguntei:
- Mas se voc 
 marinheiro, no  comunista, ? Retrucou rindo
:
- No vamos falar nisso agora, mame. Est na
 hora. Adeus. Tornei a perguntar:
- No ter sa
udades da sua terra? Da sua gente? Sempre num me
io estranho, entre gente estranha, falando outra
s lnguas. E se ficar doente, filho?
- Por que 
hei de ficar doente? E se ficar, ou saro ou morr
o. Isso em qualquer parte. A palavra saudade est
 riscada do meu vocabulrio h muito tempo,  u
ma
palavra imprpria para esta gerao, imprpr
ia para os homens fortes e eu sou um homem forte
, mame. Sou homem do mar.
Sorriu novamente. De
pois tirou o cachimbo do bolso, o saquinho de fu
mo do outro bolso e lentamente comeou a encher 
o cachimbo. Observei-o. Seria esse o filho que

eu tinha criado? Seria mesmo meu filho? O filho 
que eu havia amamentado e acalentado? Esse homem
 forte, louro e grande que estava na minha frent
e falando uma linguagem
esquisita, com idias e
squisitas, no era meu filho, no podia ser. O m
eu era bom, simples, amoroso, cheio de carinhos 
para a me velha; era aquele que trazia presenti
nhos
e me abraava sorrindo dizendo: "D. Lola!"
 Era o meu filhinho muito amado e sua imagem est
ava gravada no meu corao. Era o que me pedia c
onselhos e me dizia quando
era pequenino: "Mez
inha, quando eu for grande, a senhora vai morar 
comigo". E quando era moo me dizia: "Mame, qua
ndo eu for rico, a senhora vir morar comigo
no
 palacete e ter um automvel grande com chofer 
preto, o Benedito. Que tal, D. Lola?"
No, esse
 no era meu filho; esse trazia cicatrizes de br
igas no rosto, faltavam-lhe os belos dentes; ess
e bebia, jogava, fumava cachimbo e dizia que no
 conhecia
a saudade. No era meu filho. Q meu e
stava no corao; era o filhinho louro que me ab
raava sorrindo, e me queria bem; era aquele que
 no podia viver sem mim e me
pedia dinheiro to
dos os dias; era um que sabia pedir e sabia sorr
ir trnamente. O sorriso desse homem grande que 
estava na minha frente era um sorriso amargo, fo
rado,
torcido. Um sorriso desiludido das pesso
as que j viveram muito e muito sofreram; tanto 
podia ser um sorriso como uma contrao. Eu tinh
a me enganado quando pensara
que ele havia sorr
ido como quando era criana. No. O ideal podia 
arrastar o homem grande para longe de mim porque
 o pequenino ficaria sempre, nunca me abandonari
a.
Senti uns braos fortes sobre meus ombros e 
o cheiro da fumaa do cachimbo encher a sala tod
a: uma voz grossa me disse:
- Ento eu vou, mam
e. Adeus.
Apertou-me com fora, olhou meu rost
o um instante e foi embora sem olhar para trs, 
gingando o corpo como os homens do mar, dando pa
ssos largos e firmes. Pressenti
que nunca mais 
o veria e gritei:
- Escreva sempre, Alfredo.
S
em se voltar, ele levantou um brao num gesto de
 aquiescncia e passando pelo jardinzinho, alcan
ou a calada sem fechar o porto. Gritei de nov
o:
- No v, meu filho. Volte, Alfredo. Meu fil
hinho!
Mas ele no me ouviu, estava longe. Dei 
uns passos e sentando-me na velha cadeira de bal
ano da sala de jantar ouvi o relgio bater cinc
o horas. Fiquei ento imvel
ouvindo apenas o l
eve tique-taque enquanto foi se fazendo escuro 
 minha volta e percebi que j era noite. No me 
levantei para acender as luzes. Para qu? Tudo

era escuro e sombrio na minha vida e no era a l
uz que iria clarear minha solido. Mais tarde pe
rcebi os passos de Carlos e sua voz dizendo:
- 
O que  isso, mame? No escuro? E acendeu a luz.
 Perguntou:
- O filho prdigo foi de novo?
- F
oi.
Ele passou a mo pela testa lentamente:
- 
Alfredo foi sempre um camarada esquisito. Lembra
, mame? Desde pequeno foi diferente dos outros.
 Papai dizia que ele tinha o corao fechado. Le
mbra?
- Lembro.
Perguntei se ele queria jantar
, disse que no, ia jantar na cidade com um amig
o. Ele me olhou interrogadoramente:
- Por que n
o vai ao cinema, mame? Convide D. Genu e v se
 distrair um pouco. No fique sozinha em casa qu
e  pior. Fica pensando em coisas tristes que n
o
vo nem vm. Saia um pouco.
Trocou a roupa, 
voltou do banheiro com os cabelos bem lisos e pe
rfumados. Passou rapidamente por mim dizendo que
 estava atrasado e levaria a chave. Disse "at l
ogo,
mame". S o leve perfume ficou no ar.
A 
casa ficou num grande silncio. Lembrei de Alfre
do. O ideal o chamara e ele no resistira ao cha
mado. Era como um apelo imperioso e irresistvel
 que o atraa e
o arrastava para longe de mim. 
Assim meu filho Alfredo partiu em busca de um id
eal e nunca mais voltou. Foi para sempre.
Uns d
ias depois Carlos tornou a dizer logo de manh: 
', - Mame, a dorzinha voltou. No fiz nada de m
ais, no comi nada que pudesse fazer mal e no en
tanto acordei
de noite com a dor no estmago. N
o sei que diabo eu tenho.
Passou uns tempos fa
zendo regime e tornou a melhorar; esqueceu a dor
. Mas eu no esqueci; pensava no pai que comear
a assim tambm. E passava horas de insnia pensa
ndo
na dorzinha de Carlos. Um ms depois, Julin
ho me surpreendeu na cozinha; assustei-me:
- O 
que  isso, Julinho? Voc por aqui? O que aconte
ceu?
- Vim a negcio, mame. Vai tudo bem e meu
 casamento est marcado para janeiro. Quero que 
a senhora seja a madrinha.
Pensei logo nas desp
esas que teria com vestido, viagem e outras cois
as. Ele no me deixou responder; bateu ligeirame
nte nas minhas costas
- S que precisa pr os d
entes que faltam, mame. Quero que minha me v 
bem bonita. Por que no tratou disso?
- Porque 
para isso  preciso dinheiro e o dinheiro no so
bra aqui, voc sabe.
Sentamos na mesa para toma
r caf e ele continuou animado:
- Mas para o me
u casamento  preciso dar um jeito. Eu ajudo a s
enhora e pago a metade das despesas. Pea um or
amento ao dentista e me diga em quanto fica.
Ag
radeci dizendo que ia pensar nisso e perguntei q
ual era o negcio que o trouxera a So Paulo. Ju
linho passou o guardanapo nos lbios lentamente,
 depois tirou um
cigarro da carteira, acendeu-o
 e olhando para mim, falou:
- Vim propor um neg
cio  senhora. Meu futuro sogro quer me dar int
eresse na casa, mas quer que eu entre com cinqe
nta contos no mnimo. Eu acho que vale a pena
p
orque a loja vai bem, cada vez melhor. Tem prosp
erado muito ultimamente. Creio que ter um belo 
futuro e meu sogro tem mesmo idias de ampliar m
ais
tarde, comprar uma casa velha que h ao lad
o e aumentar a loja.
Fez uma pausa, deixou a ci
nza do cigarro cair no pires que estava na frent
e e me olhou falando de novo:
- Lembrei ento d
esta casa; a senhora no quer vend-la e me empr
estar o dinheiro? Eu emprego o dinheiro na loja 
e darei os juros  senhora. Que necessidade tem


de uma casa to grande? Agora que est quase s
 e sobrando aqui dentro, acho melhor ir para uma
 casa menor e viver dos juros. Que tal? Arranja 
a minha vida
e a senhora no fica prejudicada.


Concordei imediatamente e senti-me feliz de pod
er auxiliar Julinho. Quando Carlos chegou para a
lmoar, contamos a ele que concordou tambm; fiz
emos ento todos os
planos para o negcio. S e
nto me lembrei de que ia perder minha querida e
 velha casa, mas nada disse.
Sorri comigo mesma
; para um filho eu me sacrificaria. Como no? E 
seria mesmo um sacrifcio? No era como Julinho 
dissera: "A casa  grande demais para a senhora,

por que ficar sobrando aqui dentro?" Uma casa 
menor seria melhor, daria menos trabalho e podia
 ser to boa como aquela. No era sacrifcio. E 
depois, pelos filhos,
tudo eu faria.  noite, a
o jantar, Julinho falou novamente sobre meus den
tes. Perguntou a Carlos:
- No acha, Carlos, qu
e fica feio mame ir assistir a meu casamento se
m os dentes da frente? Ainda mais como madrinha!

Carlos riu: '/
- No so bem da frente, so d
o lado. H tanto tempo vejo minha me assim que 
nem reparo mais. Eu j disse para ela tratar que
 pago a metade.
Julinho retrucou:
- Ento somo
s dois. Eu tambm ajudo.
Prometi tratar dos den
tes o mais depressa possvel e  noite, Julinho 
embarcou de novo para o Rio; na hora do embarque
, me deu uma nota de cem mil-ris para auxiliar


o tratamento dos dentes. Carlos e eu ficamos pe
nsando no novo rumo que tomariam nossas vidas de
ixando a casa onde tnhamos vivido durante tanto
 tempo.
Eu mesma fui tratar do negcio porque C
arlos continuou a se queixar da dorzinha; pedi a
o corretor que vendesse a casa o mais breve poss
vel porque Julinho tinha
pressa do dinheiro e 
tratei de procurar uma casa pequena e barata par
a ns. Logo na primeira semana, apareceram algum
as pessoas interessadas, mas todas diziam que
a
 casa estava velha e no valia grande coisa, tal
vez s valesse pelo terreno.  verdade que no e
ra grande e tinha apenas duas janelas na frente,
 mas eu a queria
tanto e os anos de luta e sacr
ifcio que atravessara para pag-la estavam impr
egnados nas suas velhas paredes. O corretor dizi
a com um cigarro no canto da boca,
meio dependu
rado:
- Se no tivessem pressa, esta casa alcan
aria um bom preo. Eu podia pegar mais de cinq
enta contos. Mas com pressa no se arranja grand
e coisa, temos que
nos sujeitar ao preo que qu
iserem dar. Talvez no alcance nem cinqenta.
N
o fim de vinte e tantos dias, depois de muita ge
nte ter visto a casa, apareceu um comprador que 
dava 48 contos  vista, nem um vintm mais. E co
mo Julinho tinha
pressa, fizemos o negcio. Esc
revi ao Rio contando e Julinho respondeu: "Poda
 ser melhor, mas serve assim mesmo".
Depois dis
so tivemos trinta dias para deixar a casa; foi e
nto que qualquer coisa comeou a doer no meu pe
ito. Sentia uma ansiedade como se o corao foss
e sufocar;
aquela casa representava anos de sof
rimento, de trabalhos, de meses sem sobremesa, s
apatos furados na sola sem poder mandar conserta
r, de trabalheira fazendo doces
e salgados para
 vender. Salgados e doces. "Cinco dzias de bom-
bocados para entregar antes das cinco horas. Meu
 Deus, terei tempo? E o bolo de noiva? Tenho que
 fazer
outro, no ficou bom, parece que ficou p
esado. O que seria?" E levantar de madrugada par
a entregar outra encomenda no dia seguinte. O qu
e mesmo? Salgados. Empadinhas
e croquetes. Que 
correria! Noites de frio porque no havia cobert
ores, nem dinheiro
para compr-los. O conselho 
de D. Genu: "Ponha tijolos quentes na
cama das 
crianas seno eles no dormem, coitados". Um di
a ou uma noite, o tijolo quente queimou o melhor
 lenol. Pacincia. E quando pediam duzentos ri
s para comprar
balas e eu dizia: "Precisamos ec
onomizar, meu filho. Temos a casa para pagar; de
pois darei o que voc quiser". Perguntavam muita
s vezes: "Mame, j pagamos a casa?
Eu queria t
anto uma coisa!" "O qu?" "Uma bola de futebol".
 "Espere mais tempo, um dia darei". Ou ento, Al
fredo sentado na porta da cozinha, um ar triste:
 "O que
voc tem, meu filho-?" "Se ao menos tiv
ssemos pago a casa!" "Por qu?" "Queria tanto i
r a Santos, s um dia, para ver o mar!" Depois a
 tranqilidade, a casa paga,
o alvio. Finalmen
te!
E agora tinha de deix-la. No era mais nos
sa. Mas a vida  assim mesmo, cheia de altos e b
aixos. Quem disse que no ?
O dinheiro seguiu 
para o Rio e nessa mesma semana, encontrei uma c
asa no fim da Barra Funda; dois quartinhos, uma 
sala, banheiro e cozinha. Tratamos da mudana.

E na vspera despedi-me das vizinhas. Depois que
 Carlos se fechou no quarto, fui ento dizer ade
us  casa. Reparei que quase todos os trincos es
tavam quebrados e
muitas janelas sem vidraas. 
A pintura tambm estava descascada; sentei-me nu
m caixo cheio de livros e recapitulei toda a mi
nha vida. Olhei tudo; ali havamos passado
hora
s e horas todas as noites depois do jantar. Cada
 um contava o que tinha feito; ali conversvamos
, e fazamos nossos planos. Havia tanto de ns m
esmos naquela
sala; parece que um pedacinho de 
cada um ficava encerrado entre aquelas paredes. 
Passei as mos por elas, mansamente. Por que ser
 sentimental? Pensei quanto deve
ser feliz esta
 gerao que no conhece a saudade, como disse A
lfredo. Fui para meu quarto e deitei-me; quem di
z de dormir? At tarde vivi toda nossa vida na v
elha
casa.
No dia seguinte bem cedo, entrei nu
m automvel com Carlos e partimos. Tinha os olho
s secos como se tivessem poeira e, nenhuma vez s
equer, olhei para trs.
Captulo XVI
Mais uma 
vez chegou o fim do ano e mais um Natal se passo
u. Carlos e eu jantamos sozinhos na casinha da B
arra Funda; disse-lhe que convidasse uns amigos,
 mas ele
estava com a sade to alterada que n
o quis. Cada vez mais magro e plido.
Comeamos
 a nos preparar para o casamento de Julinho que 
estava marcado para o dia 25 de janeiro; resolve
mos seguir dia 20 para o Rio. Tratei dos dentes,
 fiz um
vestido preto com um peitinho de renda 
branca, comprei um chapu de feltro enfeitado co
m uma asa branca, comprei luvas e at uma bolsa 
nova. Reunimos nossas economias
e compramos par
a os noivos um bonito aparelho de jantar; custou
 caro. Era de porcelana inglesa, creme com um ra
minho de flores sobressaindo no fundo Alm disso

Carlos disse que ia dar uma carteira de couro 
que comprara
numa liquidao e eu resolvi dar m
eu broche de bandolim escrito "Roma" para Maria 
Laura. Depois de tudo pronto, pedimos  D. Genu 
uma mala emprestada porque no
valia a pena com
prar uma s para a viagem e justamente na vsper
a da viagem tive uma grande clica de fgado. Fo
i to forte que Carlos chamou o mdico; tive feb
re
e passei muito mal. Carlos deixou para embar
car dia 23, mas nem nesse dia consegui me levant
ar, ento ele partiu sozinho e foi assim que no
 assisti ao casamento
do meu filho Julinho.
Pa
ssei dia 25 na cama e dia 26, quando ele voltou,
 ainda me encontrou muito abatida. Disse que o c
asamento fora uma beleza e que Maria Laura era u
ma mocinha bonita
e ficara muito contente com o
s presentes. Mandaram uma caixa de sapatos cheia
 de doces da festa; o retrato do casamento viria
 depois. Contou que o casal ia morar
num aparta
mento muito bonito no Leblon e que o sogro tinha
 dado quase toda a moblia; a do quarto era lind
a, moderna, jheia de espelhos. Terminou dizendo:

- A senhora precisa ver como seu filho est im
portante, mame! Qualquer dia vem nos visitar de
 automvel.
- O qu? Tem automvel?
- No aind
a, mas vai comprar logo. Os pais dela so ricos 
e Julinho vai ficar rico tambm. Vai ver.
Pense
i nesse momento que tinha feito bem em no imped
ir a ida dele para o Rio alguns anos antes. Sorr
i alegremente com esse pensamento.
Fiquei logo 
boa e recomecei meus afazeres; no tinha muita e
ncomenda porque morava longe e no tinha telefon
e. Um ms depois recebi uma carta de Julinho ped
indo
para eu ter pacincia, mas em vez de me ma
ndar 480$000 dos juros, mandaria s 400$000 por 
enquanto; estava ainda endividado por causa do c
asamento e mais tarde,
quando estivesse mais fo
lgado, enviaria os juros atrasados. Concordei e 
me senti disposta a trabalhar enquanto tivesse f
oras; no seriam 80$000 por ms que iriam
me f
azer falta.
Continuei a trabalhar e com isso fo
i passando o tempo; mas durante o ano todo Carlo
s no se sentiu muito bem. Apesar do tratamento 
e do regime, continuava a ter
sempre a dorzinha
. Julinho escrevia de vez em quando dizendo que 
viria logo nos visitar com Maria Laura; recebi a
penas um carto de Alfredo vindo de muito longe,

e de Isabel, nenhuma notcia.
D. Genu apareci
a de vez em quando na casinha da Barra Funda; ch
egava cansada, fungando, cada vez mais gorda e m
ais velha, dizendo:
- A distncia  longa, mas 
a amizade  mais longa ainda. Esfregava os dedos
 um no outro:
- Amizade que vem de longe, do te
mpo em que eles eram crianas... amizade assim n
o se despreza.
Sentava-se gemendo na cadeira m
ais prxima e eu ao lado dela, conversvamos sob
re os filhos, sobre o passado, e sobre a vizinha
na da Avenida Anglica. Ela dizia
enxugando o 
rosto do suor:
- Lembra a ricaa da esquina? Aq
uela da esquina de baixo? A gorda orgulhosa que 
de vez em quando encomendava doces pra senhora?


- Ah! Sei, sei.
Ela continuava, contente, anim
ada, contando nos dedos, o rosto sorridente onde
 os olhinhos brilhavam:
- Pois a filha mais vel
ha separou do marido e est l com duas crianas
; o filho, aquele sem-vergonha de bigodinho, cas
ou  toa com uma moa com quem ele j vivia
e n
o  grande coisa; o marido dela depois de velho
 deu para piratear e anda pintando, diz que nem 
dorme mais em casa, vive com uma mocinha que tir
ou no sei de
onde. Por cima de tudo isso, ela 
anda doente, diabtica.
Olhei D. Genu vendo a m
aldade ressumando por todos os seus poros, ela q
ue para mim era to boa. Continuou com animao:

- O que adianta orgulho? Pra que orgulho? Orgu
lho  pra cachorro, eu j disse. Ela passava per
to de mim que nem respirava de orgulhosa, com os
 quadris balanando
de tanta pose. Entrava no a
utomvel preto e falava com o chofer quase sem a
brir a boca, decerto de medo que a gente ouvisse
 o que falava, ou ento pra no entrar
mosca na
 boca, e quando o automvel comeava a deslizar,
 ela levantava a cabea assim, que nem cavalo qu
ando sacode o freio. Nem olhava para os lados co
mo quem
diz: "no ligo pra essa gentalha". Dana
da de ter por vizinhana uma gente pobre como n
s. E l ia ela, a burra. Gente orgulhosa assim 
 burra, D. Lola.
Me diga uma coisa: O que no s
e perde neste mundo? Tudo se perde.
Comeou out
ra vez a contar nos dedos:
- O dinheiro, a honr
a, o nome, o marido, os filhos, a mocidade, a be
leza, os cabelos, os dentes, a vista, o ouvido..
. O que mais? Os bens terrenos como a casa
que 
a gente gosta, as jias, o gato de estimao, a 
moblia, me, pai, irmos, amigos. No se pode p
erder tudo? At uma perna ou um brao a gente po
de perder
na hora de atravessar uma rua. Tudo o
 que a gente mais quer bem, perde. Por que orgul
ho ento? Orgulho  pra gente besta, prs burros
, j disse. A senhora
no perdeu Isabel? E no 
era sua nica filha to mimada?
Fez uma pausa, 
baixou mais a voz e perguntou, curiosa:
- No t
eve mais notcias dela, D. Lola? Como ir na vid
a nova?
- Nada, D. Genu. No tive mais notcias
 dela depois do casamento. Tambm no pergunto.


- Faz muito bem de no perguntar, D. Lola. Ora 
esta! Ela que deve procurar a senhora. Ingrata! 
Filho  assim mesmo. Depois que se v criado, d
 o
fora. J estou acostumada. E Alfredo? Teve m
ais notcias?
- Mandou um carto de muito longe
, um lugar que eu nunca ouvi falar; s diz: "Vou
 bem, mame. Abraos".
Ficamos quietas um insta
nte; tornei a falar:
- Esse tambm est to dif
erente, D. Genu. A ltima vez que esteve em casa
, lembra-se? S falava nas viagens, nas brigas q
ue tinha tido nos portos de mar, brigas
-toa p
or causa de mulheres vagabundas. Estava to dife
rente! As mos muito grossas, grandes, nunca tin
ha reparado que ele tinha mos assim grandes; de
pois calosas,
cheias de ns. Fumando cachimbo o
 tempo todo, disse que um bom marinheiro tem que
 gostar de cachimbo; e uma fumaa to forte que 
depois que ele foi embora, at tarde
da noite, 
a sala estava cheirando aquela fumaa fedida. Pa
recia que ele ainda estava l. E falava to dife
rente de ns, uma linguagem decerto usada s por
 marinheiros.
D. Genu me interrompeu:
- Mas es
t um homo. Bonito e desempenado, forte como el
e s. Gosto de homem assim. Macho. Meteu-se' a
 pelo mundo cavando a vida no duro, sem medo
de
 nada, sabendo o que quer. Disse assim pra mim: 
"Olhe D. Genu, eu gosto desta vida e pronto, nin
gum tem nada com isso, no acha? Estou pedindo 
alguma
coisa prs outros? S tenho d de mame,
 mas tem os outros pra ficar com ela". Gosto de 
gente assim decidida, sabe o que quer. Olhe o ma
rido da Joca, j
viu um diabo molenga, assim? M
uda de emprego, vai pra l, vai pra c, indeciso
, um dia vai pr Norte, outro dia vai pr Sul, D
eus me livre gente assim. A famlia
 que sofre
, coitada.
Levantei-me para fazer um caf e dis
se:
- Vamos para a cozinha e continuamos a conv
ersar enquanto eu preparo um cafezinho.
Ela me 
acompanhou gemendo e se queixando; tornei a fala
r:
- Olhe, D. Genu, quando  senhora enumerou t
udo que se pode perder, esqueceu o que para mim 
 mais importante e eu j perdi h muito tempo.


Ela parou para me olhar, os olhinhos brilhantes
 fixos no meu rosto:
- A sade, D. Genu, a sad
e. ..
Ela continuou a andar e levantou os ombro
s num gesto de pouco caso:
- Ch, h tanto temp
o ela me deixou que esqueci a diaba. Bandida. Pa
ra mim  tambm a primeira coisa. E todo o dinhe
iro dos ricos no afasta a doena quando
ela te
m que vir. No tem perigo! Quantos ricos por a 
no dariam tudo o que tm para terem sade?
Sen
tou-se, suspirou fundo e continuou:
- No diga 
que a senhora j perdeu a sade, a senhora est 
ainda sacudida, fazendo seus quitutes, lidando n
a casa, mexendo pra c e pra l. Eu  que no pr
esto
mais, j dei o que tinha de dar. Bananeira
 que j deu cacho, precisa cortar. Tou pronta. J
 disse pras minhas filhas: Na hora que a Parca 
vier - no  Parca
que se diz? - pode vir. Na h
ora que vier, estou esperando. J vivi muito, j
 sofri, estou cansada de ver porcarias e ingrati
des. Chega. O mundo est
cheio disso. Vamos ve
r o outro, quem sabe  melhor que este.
Inclino
u-se para espiar pela porta da cozinha:
- Ih! P
arece que vem chuva, o cu est negrejando. Prec
iso tratar de ir embora. E o Julinho que casou, 
hein? Qualquer dia est a senhora de neto.
O Ju
linho est bem, casou com a filha do patro, est
 feito na vida. Est rico. Quem sabe a senhora 
ainda vai morar no Rio de Janeiro. E ns ficamos
 aqui com gua
na boca, chuchando...
- No. N
o deixo meu canto, D. Genu. Se eu fosse morar co
m algum filho, talvez fosse com o Carlos, me ent
endo mais com o gnio dele, estou mais acostumad
a.
Mas no adianta fazer esses planos porque se
 ele casa com uma moa de gnio esquisito, estou
 eu sozinha. Nunca d certo morar com nora. Tome
 o caf enquanto est
quentinho.
D. Genu estal
ou a lngua e bebeu um grande gole:
- Seu caf 
tem fama, sempre gostei dele. No  todo o mundo
 que sabe fazer caf. Ser que a Isabel vai fica
r a vida inteira afastada da senhora? Pensei que

ela tivesse mais juzo. Parecia to sensata, t
o estudiosa; foi encontrar esse porqueira de ho
mem s pra dar desgosto 
famlia. Os homens t
m lbia; a coitada foi na onda. ..
- Tambm se 
no me procurar, pode ficar por l. No quero ma
is .saber dela, me abandonou.
- Qual o que, D. 
Lola. A senhora fala isso da boca pra fora; o di
a que ela aparecer por aqui com aquele jeitinho:
 "Mame, tive tanta saudade da senhora..." Acabo
u-se
tudo, vai por gua abaixo toda a energia, 
toda a braveza. Filho  filho. Quer me dar mais 
um tiquinho de caf? Olhe eu com a Joca. Nossa S
enhora, quase
excomunguei ela. Hoje tenho um d
 dela.. . Aparece de vez em quando quase trapent
a de mal vestida, os olhos no fundo, filho um an
o sim, um ano no, marido sem
juzo, luta sem f
im, criana doente, inferno.. . Quem no tem d?
 S se a gente no tivesse corao. Mas a gente 
 me, D. Lola. Corao de me  um s. Fao
tu
do o que posso por ela; fao mais por ela do que
 pras outras at.
Levantou-se para espiar o cu
; esticou o pescoo para cima, sondou, escutou:


- Vou indo, D. Lola. Daqui l  um estiro. Que
ro ver se a chuva no me pega antes de chegar em
 casa. Tem tido encomendas?
- Poucas. Desde que
 mudei, quase no me procuram; depois tive a cl
ica de fgado que me atrapalhou a vida. Tudo vem
 junto, D. Genu. Quando me lembro que no
pude 
assistir ao casamento de Julinho. .. fico at do
ente.  cedo ainda. Creio que no chove j.
- C
hove. E creio que no demora muito. Como vo sua
s irms? At esqueci de perguntar. Clotilde est
 em Itapetininga?
- Est. Diz que no se acostu
ma em So Paulo; aqui  s para me visitar, l 
 para morar. Gosta do interior.
- Interior  bo
m mesmo. A gente vive mais sossegada, mais em fa
mlia, no tem tanta diferena do rico pra pobre
, no se nota tanto orgulho. Parece que gente
d
o interior  mais pacata; mesmo que seja rica, t
em mais miolo na cabea. Eu tambm gosto. Sua ir
m tem razo; quando escrever, d lembranas min
has.
Agora eu vou mesmo. Olhe que nuvem preta d
aquele lado; quando preteja assim do lado de San
to Amaro, chuva na certa.
D. Genu saa devagar,
 arrastando o corpo enorme, pesada e gorda, para
 tomar o bonde na primeira esquina. Eu ficava na
 janela vendo-a sumir, dizendo adeus com a mo,


pensando que estava s, os filhos espalhados, c
om saudades do tempo em que eles eram pequenos e
 vivamos juntinhos, juntinhos e felizes. E agor
a?
s vezes eu dizia para Carlos,  noite, quan
do ficvamos sozinhos:
- Toque um pouco de viol
o, meu filho. Gosto de ouvir voc cantar.
Ele 
pegava o violo e comeava a afinar; inclinava-s
e sobre as cravelhas, torcia, tirava um som, tor
cia de novo, tirava outro som, destorcia, experi
mentava, inclinava
mais o ouvido sobre o instru
mento e de repente dava os primeiros acordes. Es
tava bom.
- O que quer ouvir, mame?
- O que q
uiser tocar, a "Casinha Pequenina".
Ele aos pou
cos ia elevando a voz; uma voz cheia, sonora, ag
radvel e afinada. Eu ouvia enlevada, sentindo a
dorao pelo filho que ficara comigo, que no me
 abandonara,
que me fazia companhia nas noites


tristes, que me acompanhava na solido. Pensava
: "Este  meu amigo. Com este posso contar sempr
e". De repente perguntava:
- Quer ouvir as can
es do Mxico?
Eu nem falava; fazia que sim com
 a cabea para no perturbar com minha voz a paz
 daquelas horas. Ele tornava a afinar o violo, 
dava um som, outro som, torcia outra
vez as cra
velhas e cantava de novo. Uma noite, cantou muit
o, tudo o que sabia. Pedi:
- Cante outra vez "Q
uiero verte una vez ms".
- A senhora gosta des
sa, no?
- Gosto.
Quando terminou, ps o viol
o de lado e disse.
- Chega por hoje; no estou 
muito bom.
- Que tem?
- A dor.
- Ora esta! Ti
nha me esquecido dela; h quanto tempo voc no 
se queixa!
- Voltou agora.
No dia seguinte, Ca
rlos me disse que dormira mal; resolvemos ir jun
tos no mdico. Pediram radiografia. Duas radiogr
afias. Depois outro mdico, vrios mdicos. Fala
ram
em operao; a princpio vagamente, depois 
com firmeza. Operao. Quando?
- Amanh s oito
 horas.
- Amanh! Amanh! Amanh!
Tomamos um a
utomvel e fomos para o hospital; lembrei-me do 
pai. Tambm foi num dia assim com fiapos de nuve
ns varrendo o cu. Montinhos brancos no azulo.


Operaram meu filho; tia Candoca, D. Genu e uma 
das filhas dela me acompanharam; mandei telefona
r a Julinho, no Rio. Ele veio s; a mulher era l
uxenta, no gostava
de viajar de repente. Isabe
l apareceu tambm; mandou perguntar  tia Candoc
a se podia vir. Disse que sim; veio sozinha, um 
pouco triste, um pouco desapontada e quando
me 
viu, chorou. Carlos na cama, muito plido, todo 
dolorido, os olhos grandes rolando nas rbitas; 
Isabel ficou uma meia hora conversando. Havia la
rgas pausas em
que ficvamos silenciosos, olhan
do o cho, as paredes, sentindo o cheiro dos rem
dios no ar. Despediu-se dizendo que voltaria ma
is vezes; tambm estava esperando
um filho para
 breve. No dia seguinte, Julinho voltou ao Rio, 
preocupado com a mulher. Toda a minha vida girav
a  volta daquele leito; um leito branco e simpl
es.
Vinha a Irm; espiava, tomava o pulso, olha
va, ajeitava as cobertas, cochichava com outra I
rm. Vinha o mdico, no dizia nada, olhava s. 
Todos olhavam Carlos,
Carlos no olhava ningum
. Triste e quieto, os olhos fechados.
- Como va
i, filho?
- Bem.
Dois, trs dias. Colegas do B
anco vinham visit-lo. Clotilde chegou de Itapet
ininga, aflita; trouxe latas de doces, sequilhos
, bolos. Ningum comeu. Carlos estava
mal. Uma 
noite disse:
- Mame, no posso engolir, tudo v
olta. Sorri. Isso no  nada, Carlos.
- Mas no
 posso engolir.
Contei ao mdico; ele sacudiu a
 cabea sem dizer nada; depois falouTentamos tud
o. .
Avvoz era baixa e rouca, voz sem esperana
. Olhei Clotilde:
- Clotilde, o que eu fao?
-
 Coragem, Lola!
Eu estava to cansada de ter co
ragem. A vida toda precisaria ter coragem. Corag
em para viver. E agora?
Estava to cansada! Tod
os olhavam muito para mim e se preocupavam com m
eus menores gestos; isso era um aviso, uma adver
tncia que no me escapou. Estavam querendo
me 
avisar por fios imperceptveis o que ia acontece
r. Chegou uma filha de D. Genu e me abraou sorr
indo; reparei que estava com um dente quebrado d
o lado; D. Genu
tinha me contado do tombo e do 
dente quebrado. Pensei: ,
- Ela  to bonitinha
! Por que no mandou consertar esse dente? Meu D
eus! Por que em momentos cruciars de nossa vida,
 temos idias s vezes to
banais que chocam no
ssos sentimentos? O que eu tenho com o dente del
a?
Tentava rezar atrapalhadamente:
"Meu Deus, 
tenha pena de ns. Meu Deus, auxiliai-me. Ave-Ma
ria, cheia de graa, o que posso fazer para salv
ar meu filho? Diga o que eu devo fazer. Espere u
m pouco;
do que eu mais gosto? Gosto de caf. A
h! Prometo no tomar caf durante um ano, mas n
o deixe ele morrer. No. Durante cinco anos no 
tomarei caf.  um sacrifcio,
meu Deus, que es
tou lhe oferecendo pela vida de Carlos. Durante 
o resto da minha vida no tomarei caf, mas me d
 meu filho. No o leve, por favor. Ave-Maria, c
heia
de..."
E tudo se precipitou de repente. F
oi a torrente que me arrastou ao fundo do abismo
; nada pde impedir. Vi Carlos depois no leito c
omo que sumindo, to branco, indo
embora de uma
 vez. Clotilde, tia Candoca e a Madre estavam no
 quarto. O dia estava bonito, nuvens varrendo o 
cu; eu via uma nesguinha pela janela. Ouvia uma
 voz
gritando, uma voz angustiada, dolorida: "C
alucho! Meu Calucho!" Era eu mesma quem gritava.

Carlos ainda olhou para mim e sorriu com brand
ura. Ele me entendeu; ainda tentou falar, mas se
us lbios se negaram a pronunciar a palavra. A l
uz dos seus olhos foi
se extinguindo lentamente
 como a esperana quando morre nos coraes; com
 pena de se apagar. De repente se extinguiu de u
ma vez; percebi que seus olhos j no viam;
era
m dois pedacinhos de vidro muito fixos, muito pa
rados, muito abertos. Olhei ento a Madre que es
tava de p do outro lado da cama e ela desviou o
 olhar; apenas
confirmou com a cabea e fez com
 tristeza o sinal da Cruz. Compreendi a horrvel
 verdade: Carlos j no existia. Apertei com mai
s fora as mos inertes e os pensamentos
turbil
honaram em confuso. Olhei seu rosto imvel:
- 
Calucho!
Atropeladamente fatos longnquos viera
m  tona; coisas que eu nunca pensava, e nem lem
brava mais. Imagens, frases ditas anos atrs, pa
lavras, coisas insignificantes,
banais, numa pr
ocisso desordenada. Lembrei da noite em que ele
 nasceu: fazia frio e mame estava embrulhada nu
m chal preto num canto do quarto. Havia um roup
o
em cima de uma cadeira; era um roupo de fus
to azul com pintas vermelhas; um chinelo estava
 no meio do quarto. Falei: "Tirem esse chinelo d
a. Escondam o roupo
atrs da porta". O chinel
inho era de l e mame tinha
bordado na vspera
 do nosso casamento: rosas vermelhas entrelaada
s Com folhas verdes. Bonitinho. Mas quem disse q
ue ele morreu? Que mentira, pois eu me lembro t
o 
bem
de tudo! Comecei a falar no ouvido de C
arlos: "Lembra quando chamvamos voc de Calucho
?" "E lembra daquela vez que voc caiu da escada
 e fez um galo na testa?"
De repente, observei-
o e pensei: "Como  que estou falando com ele, p
ois se ele morreu? Ah! Meu filhinho, meu filhinh
o, como vou viver sem voc? Quando voc no
vol
tar para o jantar, que irei fazer? Os dias sero
 longos e as noites mais longas ainda e eu ficar
ei com os olhos fixos no relgio grande, aquele 
mesmo relgio
onde vocs todos aprenderam a olh
ar as horas, esperando, esperando. Onde irei esc
onder a minha dor? Esta dor que no teiin cura? 
Por que me abandonou?"
E novamente esqueci] que
 ele tinha morrido e continuei a falar: "Quando 
voc era maiorzinho, Jlio gostava de cantarolar
 para voc dormir; talvez por ser o primeiro
fi
lho, seu pai tinha muita pacincia. Cantava uma 
cantiga que ele mesmo inventou e falava em bicho
s:
O boizinho e vem. . .
O cavalinho e vem. . 
.
O burrinho e vem. . .
A formiguinha e vem. .
 .
O carneirinho e vem. . .
Buscar meu filhinh
o que no quer dormir.
De propsito, Jlio esqu
ecia de falar o "macaquinho" para ouvir voc rec
lamar; e voc reclamava com os olhos pesados de 
sono, quase dormindo: Papai esqueceu o macaquinh
o...
Jlio recomeava e inclua o macaquinho, e
nto voc dormia um longo sono at de madrugada.
 S quando o sol comeava a dourar a terra e os 
passarinhos cantavam no
nosso jardinzinho, voc
 acordava. Os tico-ticos diziam: Maria  dia,  
dia. Maria  dia,  dia. E voc sorria, lembra? 
Quer que eu cante agora aquela cantiga para
voc
 dormir?"
E cantei baixinho. Depois olhei meu 
filho morto e disse: "Mas desta vez seu sono  t
o profundo que apesar de eu ter esquecido o "ma
caquinho", voc no reclamou,
meu filho".
Clot
ilde e tia Candoca dirigiram-se para mim com os 
olhos desvairados; no me deixaram cantar. Passo
u-se toda uma longa noite e vi Isabel ao meu lad
o segurando minha
mo e chorando: "Mame! Mame
!" como quando era criana. Julinho chegou cedo 
do Rio com as feies transtornadas. Abraou-se 
ao irmo chorando alto, uns soluos
profundos d
e cortar o corao: "Meu irmo, meu amigo, meu i
rmo!"
De madrugada, sa sozinha dizendo que ia
 rezar e fui  Capela do Hospital. Procurei Noss
a Senhora e vi seu rosto macerado, angustioso, d
olorido, lgrimas cor de
sangue penderem das su
as plpebras. Ajoelheime diante dela e olhando-a
 no rosto, falei alto:
"Acabou-se, meu filho fo
i embora. A senhora que j passou por isso e sab
e que dor  esta que estou sentindo, por que dei
xou meu filho ir embora? Por qu? Afinal
de con
tas, a senhora devia estar preparada para perder
 o filho. A senhora  Santa, j nasceu Santa e a
s Santas vieram ao mundo para sofrer. Mas eu? Qu
em sou eu?
Uma pobre mulher que trabalha para v
iver, para comer, para ter um pedao de po todo
s os dias. E por que deixou meu filho morrer? Es
se filho que me auxiliava a ganhar
o pedao de 
po? O filho bom, trabalhador? O meu grande amig
o? Nem todos os filhos so amigos das mes, esse
 era. A senhora no devia ter deixado. Como vou 
viver
agora? Sem ele?
Nossa Senhora olhava par
a o espao, um olhar longnquo e enigmtico, lon
ge das dores deste mundo. Parei um pouquinho e c
ontinuei:
- J passou por isto, no  verdade? 
Sentiu o que estou sentindo? Nunca tive nada de 
bom neste mundo; nunca fui bonita, nunca tive di
nheiro, nunca tive nada,
nem jias, nem vestido
s. Desde mocinha cobicei um anelzinho de ouro co
m pedra verde l na loja do seu Atonso em Itapet
ininga e nunca consegui. Nem sapatos bonitos,
t
odos ordinrios e baratos. A nica fita bonita q
ue tive era de cetim azul-claro e mame me dava 
um grande lao em cima da cabea. Mas essa fita 
que eu achava
to bonita era de segunda mo; ti
nha sido de uma filha de tia Candoca e estava es
garada nas pontas e desbotada. Sempre vivi com 
tanta economia que nunca me sobraram
dez mil-r
is para eu dizer: "posso jogar fora esse dinheir
o que no me faz falta". Mas fazia falta se joga
sse fora. Trabalhei desde pequena ajudando mame
 nas encomendas
de doces; por mais cedo que a g
ente comeasse a fazer os bolos e biscoitos, era
 sempre uma correria  ltima hora. Mame dizia 
com o suor escorrendo pelo rosto:
"Depressa que
 o forno est pronto". Clotilde e eu corramos d
e um lado para outro ajudando mame. A nica coi
sa que eu tinha de bonito era a pele do rosto,

mas logo ficou queimada com o calor do forno, re
puxada, escura. Procurei ser boa filha, boa espo
sa e boa me. Nunca tive nada e procurei dar sem
pre o pouco que
tive. E por que me aconteceu is
so agora? Agora que todos j foram e s me resta
va esse? Mas eu no reclamei de ficar s com ess
e filho, reclamei? Gostei sempre
tanto dele que
 podia ficar sem os outros, s com ele a vida in
teira e assim mesmo estava satisfeita. Era to b
om, Nossa Senhora! Lembra-se dele? Por que ento

ele morreu? Dizem que tudo neste mundo se paga
; a senhora pode fazer o favor de me explicar o 
que estou pagando? No quero que ele morra. No 
quero. No quero.
NO QUERO.
Chorei alto grand
es soluos: olhei Nossa Senhora outra vez. Seu r
osto macerado estava triste e seu olhar desesper
ado procurava algo no infinito como se no compr
eendesse.
Minha voz tornou-se humilde e rouca:


"S os que no tm f  que se lamentam pelos q
ue dormem. E eu tenho f. Me perdoe".
Senti ent
o uma leve mo sobre meus ombros, pensei que er
a a mo de Nossa Senhora, pois estvamos ss na 
Capela, mas no era; era a Irm Cristina que tin
ha entrado
sem eu perceber. Debruou-se sobre m
im
- Venha comigo. No chore assim.
Lembrei qu
e podia ser Nossa Senhora que a tivesse enviado 
para me consolar; levantei-me e fazendo um gesto
 de adeus para o altar, sa da Capela acompanhan
do a Irm.
Fui para uma copa onde me fizeram
s
entar. A Irm deu-me uma xcara de caf que fui 
tomando s para fazer a vontade dela; e me dizia
 palavras confortadoras que agradeci, mas esquec
i logo depois. Um
pouco aliviada da enorme dor 
que me pesava, levantei a cabea e encarei Irm 
Cristina com serenidade; sorriu levemente dizend
o:
- Lembre-se das palavras de Jesus: Eu sou o 
Caminho, a Verdade e a Vida. Quem crer em mim vi
ver, mesmo depois da Morte.
Com essas palavras
 nos meus ouvidos, voltei para o lado de Carlos.
 Foi enterrado nessa manh no cemitrio So Paul
o; estava uma linda manh de fim de setembro; fl
ores
desabrochavam perfumando os jardins, pssa
ros cantavam em todas as rvores e tudo estava a
legre no ar, na terra, no cu. Levei-o at o fim
; foi quando me vi arrastada
pela torrente at 
o fundo e no fundo s havia trevas.
1942. Moro 
numa penso de Irms num quartinho que d para u
m jardim interno; esses quartos so mais baratos
 porque so menores, mas para que eu quero um qu
arto grande?
Estou mais perto das flores e dos 
passarinhos, que sempre amei. Sinto o perfume da
s rosas e dos heliotropos e todas as manhs atir
o migalhas de po aos pssaros
que vm pousar s
obre a minha janela. So meus amigos. H tambm 
dois gatos gordos e amarelos, pensionistas das I
rms; um deles parece um pouco com Caarola, o g
ato
de Isabel. Vivem to fartos e bem tratados 
com as sobras da penso que nunca os vi persegui
ndo os passarinhos que saltitam ao lado deles co
m confiana e camaradagem;
so todos amigos.
I
sabel j tem dois filhos; um deles chama-se Carl
os. J est crescido e vem muitas vezes me visit
ar; procuro nos olhos dele os olhos do meu filho
 morto; h uma ligeira
semelhana.
Uma vez est
ive muito doente e as Irms se alarmaram; correr
am assustadas de um lado para outro, agitando r
pidas as grandes toucas brancas que mais parecia
m borboletas
gigantescas; mandaram chamar Isabe
l e Isabel chorou durante horas debruada sobre 
meu leito dizendo que sofria por ver que eu no 
perdoava o marido; disse ento:
- No h nada q
ue eu no perdoe, chame seu marido.
Nessa mesma
 tarde ele veio; conversou comigo, deu-me corage
m e convidou-me para residir com eles no apartam
ento. Respondi que estava bem ali no meu quartin
ho, podiam
vir me visitar quando quisessem, mas
 me sentia feliz e queria morrer entre as Irms 
bondosas e solcitas.
Desde esse dia, Felcio t
ambm me visita de vez em quando; traz presentes
, conversa muito, procura afastar o passado cada
 vez mais.
Julinho tem duas meninas; Maria Laur
a e ele j me visitaram duas
vezes. Gosto de Ma
ria Laura;  boa e amvel. As meninas so fortes

c uma delas  muito parecida com o pai. s vez
es escrevem convidando
para passar uma temporad
a com eles no Rio; prometo, digo que sim, um
 d
ia irei, mas no tenho coragem. Moram com os pai
s de Maria Laura
num palacete em Copacabana; te
nho a impresso de que vou ser demais entre eles
. No quero que a carga da minha pobreza v empa
nar o brilho da riqueza de meu filho;
seria tol
dar um cu brilhante com nuvens sombrias. Prefir
o sempre meu quartinho obscuro.
Sinto-me quase 
feliz; estou perto de Carlos, visito-o todos os 
domingos, levo-lhe rosas e ao lado do seu tmulo
, recordo nossa vida numa rpida recapitulao.


Penso que cada um dos meus filhos est feliz po
rque seguiu o caminho escolhido.
Desde pequeno,
 Julinho gostou do dinheiro; os outros nem lembr
avam que se podia vender alguma coisa, caixinhas
, jornais, garrafas. Julinho vendia tudo e tinha
 sempre
dinheiro guardado. Quando, na mesa, par
a nos agradar, dizia que ia estudar engenharia, 
Jlio nunca acreditava e respondia: "Voc tem a 
alma do negcio, deve ser
negociante".
E Julin
ho  negociante. Ganha bastante dinheiro, j tem
 automvel, mora numa bela casa e com certeza se
r rico, muito rico.  feliz.
Alfredo tem o que
 quer; sem responsabilidades, sem pensar no futu
ro, sem se preocupar com o que ficou para trs, 
vive ao sabor da aventura, de terra em terra, de

mar em mar, de cidade em cidade procurando o i
deal. De vez em quando, lembra-se que ainda tem 
me num canto qualquer da terra; toma ento um c
artozinho e escreve:
"Mame, vou bem. Abraos 
do filho Alfredo".  feliz.
Isabel casou com o 
homem que escolheu; no houve nada; nem conselho
s, nem ameaas, nem lgrimas que a demovessem. T
rabalha e luta; auxilia o marido ganhando a vida
,
adora os filhos. Est mais alta e mais forte,
 parece mais mulher. J no  a menina despreocu
pada e alegre. Tem agora rugas de apreenses na 
testa, pensa no futuro
dos filhos, economiza e 
trabalha, mas est bem.  feliz.
Carlos foi o 
nico que no escolheu, foi escolhido. Mas tenho 
certeza que  o mais feliz dos quatro. Tem tudo.

No vivo s; tenho os quatro rostos risonhos s
obre a mesa do meu quarto. Sorriem para mim todo
s os dias. Tenho tambm uma carta de Alfredo des
de a semana passada,
a primeira carta longa que
 me escreveu desde muitos anos. Est na guerra; 
diz assim:
Mame:
Estou no Pacfico Sul desde 
5 deste ms. Se algum dia eu disse que a vida er
a dura para mim, menti, porque foi um mar de ros
as. Rosas como as do nosso jardinzinho,
aquelas
 que chamvamos de Bela Helena, lembra-se? Pois 
minha vida era suave como uma Bela Helena em com
parao com a
de agora. Estou combatendo. Sabe 
o que quer dizer isso? No. Nunca poder saber. 
Estamos nas Ilhas Salomo e h trs dias atacamo
s um comboio japons que navegava
ao largo da A
ustrlia. Os caas japoneses foram repelidos e d
errubamos seis deles ali na batata. Tomamos o ae
rdromo de Cucun na ilha de Guadalcanal e vamos 
avanar
agora na base nipnica de Tulagi. Estou
 no elemento, lutando. Eu no dizia sempre que p
referia gua corrente  gua parada? Pois estou 
agora na correnteza, nem 
mais gua corrente. 
 uma correnteza que vai a muitos quilmetros a 
hora e no h tempo nem de respirar. Tomamos Gav
atu e Mocambo em dois dias; foi uma chuva de
ba
las, bombas e gritos durante horas seguidas. Se 
a senhora me visse, diria: Eu, me desse demnio
? Impossvel. E no me reconheceria. Tudo no mei
o da fumaa e do
horror. Os japs recuam cada ve
z mais para o interior das Ilhas; a Austrlia po
de ficar sossegada porque o perigo amarelo j n
o paira sobre ela. Dias atrs os inimigos
receb
eram reforos no setor de Cocada e temos combati
do numa passagem estreita na cordilheira de Stan
ley,  importante a conquista por causa do Porto
 Moresbi. Vencemos
sempre e nosso lema  este: 
combater para vencer! No sei quando escreverei 
de novo; este agosto tem sido o ms mais longo d
a minha vida. Nem sei se receber esta
carta, v
ai por acaso. Lembre-se que luto pelo ideal que 
sempre desejei e depois desta guerra o mundo vai
 mudar, sempre para melhor. Muita coisa cair ma
s nossa idia
ficar de p. Felicidades a todos
.
ALFREDO.
Reli essa carta muitas e muitas vez
es; tinha certas palavras que eu no compreendia
 muito bem, mas era uma carta de Alfredo, do meu
 rebelde.
Dormi com ela sob o travesseiro; acor
dei altas horas, acendi a luz, tornei a ler e to
rnei a chorar. Meu corao me avisou no momento 
da despedida que Alfredo no
voltaria mais. Deu
s o abenoe!
Vejo-o nos meus sonhos se debatend
o entre as ondas pesadas e negras e sinto que se
u ltimo pensamento  para mim. Ouo sua voz cha
mando: Mame!
A manh que estava radiosa e aleg
re, transformou-se. Vejo atrav da vidraa a chu
va cair no jardim da penso; cai em gotas barulh
entas todas as plantas esto
inclinadas para o 
solo, pesadas de gua. Por toda parte a desola
o, a tristeza e o silncio; s a chuva e o vento
 car juntos a sarabanda do outono; cobrem o
ch
o de folhas amarelas desfolhadas. Entre o rudo 
da chuva e do vento ouo tambm o violo e a voz
 de Carlos cantando, cantando.
O cu est sombr
io e escuro, cinzento-escuro. O que foi a vida e
m todos esses anos? Sacrifcio e devotamento.  
como ver numa tarde assim de chuva, pesada de tr
istezas.
Mas no sei lamentar; se fosse preciso
 recomear novamente, novamente
faria minha vid
a a mesma que foi, de sacrifcio e devotamento. 
Devo serfeliz porque cada filho
seguiu o caminh
o escolhido.
No meu ltimo aniversrio, recebi 
um pacote de minha irm vindo de Itapetininga; a
bri com curiosidade. Havia "uma" caixa
de figos
 cristalizados, "uma" lata de goiabada
em calda
 e "um" tijolo de pessegada. Apenas.
Grossas go
tas de chuva caem do cu sobre a terra, sobre as
 rvores e sobre os telhados Cor de cinza. Solid
o.
